Quando
o bom desempenho no trabalho esconde a depressão
É
domingo de manhã. Em algum momento entre cinco e seis horas, acordo
sobressaltada. Imediatamente, me vêm à mente mil coisas que precisam ser
feitas. Então, pulo da cama. Tem sido assim há anos.
Eu
cuido da roupa, do cachorro, do café da manhã. Faço exercícios e penso na
semana que vem e em como ela será exaustiva. Estou cansada. Sempre, na verdade.
Pouco
depois, meu filho me diz que perdeu o cartão do banco. Uma coisa pequena. Que
deveria ser pequena. Mas algo dentro de mim muda. Não consigo parar de chorar e
digo ao meu marido que cansei dessa vida. "Você cuida do meu filho quando
eu não estiver mais aqui?"
Um
gatilho trivial. E é exatamente isso que me assusta.
Os
pensamentos suicidas não me preocupam, pelo contrário. Eles trazem paz. São a
solução, a saída dessa vida sem graça, que parece pesada, vazia e exaustiva.
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Depressão sem inibição
Há dois
anos, fui diagnosticada com depressão. Faço terapia uma vez por semana. Por
muito tempo, achei que fosse o suficiente. Afinal, eu sempre conseguia ir
trabalhar, cuidar da minha família e da casa, e manter contatos sociais.
Agora
passo os dias numa clínica, cercada por pessoas para quem esvaziar a máquina de
lavar louças é um esforço enorme. Pessoas que, em alguns dias, nem conseguem
sair da cama. Para muitos, trabalho ou exercícios físicos estão fora de
cogitação há muito tempo.
Meu
problema é o oposto: quanto pior me sinto, mais rápido me movo e mais apresso
minha rotina diária. Em algum lugar, ouço o termo "depressão de alto
funcionamento". A falta de motivação que frequentemente acompanha a
depressão está ausente nesse caso. Os afetados parecem eficientes e produtivos.
O termo descreve como a vida me parece: um pesadelo voltado para a eficiência.
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Por que este não é um diagnóstico oficial?
O termo
depressão de alto funcionamento não consta na CID-10, a Classificação
Internacional de Doenças. Portanto, este não é um diagnóstico oficial que
psiquiatras ou psicólogos fariam.
"Depressão
é depressão", diz Ulrich Hegerl. psiquiatra e presidente do conselho da
Fundação Alemã para Depressão e Prevenção do Suicídio. "Não gosto muito do
termo 'depressão de alto funcionamento'; é uma expressão da moda, como tantas
outras."
Ele
atribui à personalidade o fato de algumas pessoas continuarem funcionando por
muito tempo apesar da depressão. "Mesmo quando saudáveis, as pessoas com
depressão costumam se dedicar aos outros, são comprometidas, muito
responsáveis, não querem decepcionar ninguém e, portanto, muitas vezes dão o
máximo de si."
Em
casa, desabam na cama completamente exaustas, diz Hegerl. E então sua
produtividade chega ao fim. "Sentimentos de exaustão, tensão interna
constante, culpa, distúrbios do apetite, distúrbios do sono, tendência a
ruminar – encontramos todos os sinais típicos de depressão em pessoas com
'depressão de alto funcionamento', assim como em qualquer outra pessoa",
afirma o psiquiatra.
Daniel
Huys, especialista em psiquiatria e psicoterapia e médico-chefe de psiquiatria
geral da Clínica LVR em Bonn, também não usa o termo em seu trabalho. Na
clínica, o foco está nos níveis de gravidade: leve, moderado ou grave.
"Não
encontramos a depressão de alto funcionamento na CID-10. Mas isso não significa
que ela não exista", diz Huys. Ele explica que, na clínica, quem chega até
ele geralmente são pacientes que não conseguem mais atender às demandas do
cotidiano e entram em colapso.
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Depressão oculta por trás do sucesso
Esse é
exatamente o problema. "O grande erro é que o sofrimento de uma pessoa é
frequentemente minimizado simplesmente porque ela aparenta ser bem-sucedida ou
produtiva", afirma Adrianne McCullars, doutora em psicologia atuante na
Rogers Behavioral Health, uma rede de clínicas de saúde mental em Tampa,
Flórida.
Ela
acredita que o termo "depressão de alto funcionamento" pode ajudar a
tornar essa forma mais visível – forma esta que muitas vezes é ignorada, até
mesmo por quem a sofre. Muitos pensam: "Contanto que eu consiga me
levantar e cumprir minhas obrigações, não pode ser tão ruim assim".
Mas
isso é perigoso: a depressão é a principal causa de suicídio na Alemanha.
Adrianne
McCullars também discorda da suposição de que a depressão de alto funcionamento
seja automaticamente uma forma mais leve da doença. "Algumas pessoas se
tornam extremamente motivadas ou produtivas quando apresentam sintomas
depressivos – como uma forma de lidar com esses sintomas."
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Produtividade apesar da depressão
Foi
isso que eu também vivi na pele. Pensava que se eu fizesse tudo rapidamente, a
lista de tarefas e a sensação de sobrecarga diminuiriam. Se eu me mantivesse em
movimento, o cansaço só me atingiria à noite, quando finalmente podia dormir.
Se eu realizasse o suficiente, poderia manter sob controle a culpa persistente
que sinto em relação à minha família, meus colegas, meus amigos.
O ato
de "funcionar" e "entregar" – altamente valorizados pela
sociedade – podem ser uma distração, afirma Daniel Wagner, psicoterapeuta que
atua em Colônia.
Segundo
Wagner, quando o profundo sofrimento da depressão se esconde por trás de
grandes conquistas e sucesso, muitas vezes é para evitar o silêncio e a
quietude "nos quais se revela um estado difícil de suportar".
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Como a pausa consciente pode ajudar
É por
isso que a terapia com essas pessoas foca em "entrar em contato com seus
sentimentos, possibilitar o acesso às emoções e permitir a regeneração",
diz Wagner. Os exercícios de atenção plena são ótimos exatamente para isso, o
que o psicoterapeuta chama de "convívio organizado".
Esses
exercícios podem ser de respiração ou meditações guiadas, cujo objetivo não é
mudar nada, mas simplesmente estar presente e observar. Wagner afirma que
integra esses períodos de regeneração à rotina diária de seus pacientes, de
forma estruturada.
Os
psicólogos da clínica adotaram uma abordagem semelhante. Recebi um plano
semanal para me ajudar a estruturar cada dia: trabalho, tarefas domésticas,
exercícios e atividades que me dão prazer e me fazem bem. Para mim, este último
ponto ainda é o maior problema e o mais doloroso.
No
silêncio, minha mente fica mais ruidosa e os sentimentos, mais desagradáveis.
Tenho uma vontade desesperada de fugir novamente. De me esquivar da
responsabilidade de lidar comigo mesma. Nessas horas, é preciso parar,
suportar, não fazer nada.
Fonte:
DW Brasil

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