Por
que ainda alguém escolhe ser professor(a) no Brasil?
Há uma
pergunta que parece simples, mas corta fundo quem acompanha uma sala de
licenciatura em 2026. Por que alguém ainda escolhe ser professor(a)? Ela
aparece no rosto de estudantes que chegam depois do trabalho, nos corpos
vencidos pelo transporte, no silêncio de quem calcula aluguel, comida,
passagem, xerox, livro, internet, remédio, cuidado com filho(a), cuidado com
pai e mãe, cuidado consigo.
Antes
da primeira disciplina pedagógica, muitos(as) licenciandos(as) já ouviram que a
profissão paga mal, adoece, exige demais e oferece pouco. A escolha nasce
cercada por advertências. Mesmo assim, há gente sentada ali, abrindo caderno,
lendo Freire, tentando compreender a infância, a juventude, a EJA, a escola
pública, a história de um país que precisa de professores(as) e, tantas vezes,
fere quem decide ensinar.
O dado
frio confirma a ferida quente. O Brasil pode chegar a uma falta de até 235 mil
docentes na educação básica até 2040, segundo projeção divulgada pela Fundação
Carlos Chagas a partir de estudo do Instituto Semesp. No ensino superior, o
Censo da Educação Superior 2023 registrou mais de 1,7 milhão de matrículas em
licenciaturas, com 67,1% delas em instituições privadas.
Na rede
privada, 90% das matrículas em licenciatura estavam em Educação a Distância
(EaD), enquanto, na rede pública, 80,3% estavam em cursos presenciais. Esse
contraste não é detalhe administrativo. Ele revela duas concepções de formação
em disputa. De um lado, a licenciatura como experiência universitária, feita de
presença, estágio, leitura, convivência, conflito, escuta e escola real. De
outro, a licenciatura convertida em produto barato, entregue por plataformas,
vendida em mensalidades acessíveis e sustentada pela promessa cruel de que
basta certificar alguém para que esse alguém consiga ensinar. Quando a formação
docente é tratada como mercadoria de baixo custo, o país não economiza
dinheiro, ele fabrica abandono futuro dentro das salas de aula.
Por
isso, defender formação docente predominantemente presencial não é nostalgia. É
lembrar que ninguém aprende a ser professor(a) apenas diante de uma tela,
isolado(a), sem o ruído de uma sala, sem a hesitação de um(a) aluno(a), sem o
conflito real da pergunta inesperada, sem o susto da indisciplina, sem o brilho
tímido de quem finalmente entendeu. A interiorização acadêmica também precisa
ser levada a sério, com mais universidades públicas em cidades médias e
pequenas, mais moradia estudantil, mais bolsas, mais bibliotecas abertas, mais
laboratórios de ensino, mais estágios acompanhados.
Um(a)
professor(a) de história deveria poder visitar lugares históricos. Um(a)
professor(a) de filosofia deveria poder comprar clássicos sem escolher entre
livro e comida. Um(a) professor(a) de geografia deveria tocar paisagens, rios,
rochas, climas, plantas, mapas vivos. Formar professores(as) exige mundo,
presença e tempo.
Na
universidade, o capitalismo acadêmico não aparece apenas em planilhas, editais
e plataformas de avaliação. Ele entra no sono de pós-graduandos(as), no corpo
que escreve tese com culpa por descansar, no currículo que precisa parecer
sempre produtivo, na bolsa insuficiente, no emprego incerto, na promessa de
futuro que tarda. A universidade aprendeu a exigir brilho de quem mal consegue
pagar a própria permanência nela.
Pede
produtividade, currículo, artigos, eventos, idiomas, grupos de pesquisa e
disponibilidade quase absoluta, mas entrega bolsas insuficientes, concursos
raros, contratos frágeis e uma espera que corrói o corpo. A pós-graduação
brasileira forma pesquisadores(as), mas também ensina uma pedagogia amarga da
instabilidade. Muitos(as) jovens doutores(as) saem da defesa com título,
exaustão e medo. O diploma, que deveria abrir caminho, muitas vezes vira senha
para uma fila sem porta visível.
O drama
não é só brasileiro. Relatório ligado à Organização das Nações Unidas para a
Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) indicou falta mundial de 44 milhões de
docentes para garantir educação primária e secundária até 2030, com perda de
profissionais associada a baixos salários, excesso de trabalho e perda de
confiança social.
No
Reino Unido, a imprensa registrou dificuldade de recrutamento, abandono da
carreira e procura por professores(as) estrangeiros(as) diante da falta
interna. Em escala global, a docência vive uma contradição dolorosa, é chamada
de essencial em discursos públicos, mas segue tratada como gasto, improviso ou
missão pessoal.
No
Brasil de 2026, temos, por exemplo, o Programa Pé-de-Meia Licenciaturas, que
precisa ser lido sem cinismo, mas também sem ingenuidade. O Ministério da
Educação informa um incentivo mensal de R$ 1.050, sendo R$ 700 de saque
imediato e R$ 350 destinados à poupança, com retirada condicionada ao ingresso
do(a) formado(a) na rede pública. Em 2026, o próprio Ministério anunciou até 12
mil bolsas para estudantes de cursos presenciais de licenciatura.
É uma
política compensatória, sim, pois tenta remediar uma desvalorização antiga.
Ainda assim, ela mantém uma chama acesa quando o empresariado educacional
pressiona por cursos baratos, plataformas padronizadas e formação esvaziada de
convivência. A esperança crítica mora nesse ponto difícil, reconhecer que a
política é limitada, mas pode segurar um(a) estudante que, sem ela, talvez
abandonasse o caminho antes de chegar à primeira escola.
Ser
professor(a), hoje, significa disputar a atenção humana em uma sociedade
treinada para interromper qualquer pensamento que demore. Celulares, cortes de
vídeo, boatos e opiniões instantâneas não concorrem só com a aula, concorrem
com a própria capacidade de permanecer diante de uma ideia. A Oxford University
Press escolheu brain rot (cérebro podre) como palavra do ano de 2024,
associando a expressão ao consumo de material digital de baixa qualidade e à
percepção de desgaste intelectual produzido por esse consumo.
No
Brasil, a sala de aula não vive sob o bloqueio de grandes redes estrangeiras,
como ocorre na China com plataformas como Facebook, Instagram, X e YouTube.
Aqui, quase tudo chega aberto, veloz, misturado. A aula, então, passa a
concorrer com a lógica do espetáculo permanente.
Mas é
justamente aí que a pergunta inicial ganha beleza. Por que ainda alguém escolhe
ser professor(a)? Porque, diante de alunos(as) cansados(as) pelo trabalho ou
pela infodemia dos celulares, educadores(as) ainda inventam caminhos. Um debate
ao lado, uma notícia lida em conjunto, um jogo digital usado para despertar
interesse epistemológico, uma pergunta colocada no momento certo, um texto
difícil dialogado, uma conversa que devolve ao(à) estudante a confiança de
pensar.
A aula
pode ser criativa, pode dialogar com linguagens juvenis, pode usar jogos,
vídeos, memes e notícias, mas não pode aceitar o espetáculo como padrão. O
centro da docência precisa continuar sendo a formação da atenção, da escuta, da
palavra, da dúvida, da paciência intelectual. Carl Sagan disse que vivemos
dependentes de ciência e tecnologia, mas quase sem compreendê-las. Freire
lembrou que “a esperança é necessária, mas não é suficiente”. Entre os dois,
aparece uma resposta possível.
Alguém
ainda escolhe ser professor(a) porque não aceita entregar a inteligência
coletiva aos maus influenciadores, aos oportunistas de púlpito, aos políticos
que difamam educadores(as), aos comerciantes da ignorância, aos que preferem
uma população obediente a uma população leitora.
Clóvis
de Barros Filho, em uma fala (recorte de vídeo) muito compartilhada, insistiu
na ideia de ter brio, de ler até compreender, de não abandonar o texto diante
da primeira resistência. A frase é forte, porque defende uma ética do estudo.
Mas falar em brio é bonito quando se imagina um leitor descansado, alimentado,
protegido do medo e dono do próprio tempo.
A sala
noturna conhece outra cena. Há estudantes que chegam com fome, com sono, com o
corpo moído pelo trabalho, com a cabeça tomada por contas, transporte, cuidado
doméstico, desemprego e telas que sequestram a atenção antes mesmo da primeira
palavra escrita no quadro. Nessa hora, exigir leitura não pode ser castigo,
precisa ser chamado. O(a) professor(a) sabe que ninguém nasce incapaz de ler o
mundo. Muitos(as) apenas foram empurrados(as), por anos, para fora da confiança
em si mesmos(as).
É nesse
ponto que a docência revela sua grandeza silenciosa. Ser professor(a) não é
repetir frase de autoajuda sobre força individual, nem converter sofrimento
social em lição moral barata. Ensinar exige compreender que a atenção também
tem classe, corpo, salário, moradia, alimentação, descanso e história.
Há
alunos(as) que não leem porque foram convencidos(as) de que não conseguem. Há
outros(as) que querem ler, mas a fadiga chega antes da página. Há quem precise
ouvir a mesma explicação três vezes porque a vida inteira lhe negou tempo para
pensar sem urgência. O brio, então, não pode virar cobrança fria sobre o
indivíduo. Ele precisa ser reconstruído como pacto pedagógico, como convite
exigente e humano, como insistência compartilhada entre quem ensina e quem
aprende.
Quando
um(a) professor(a) pede leitura, silêncio, concentração e estudo, não está
cultuando uma escola morta. Está defendendo uma das poucas experiências ainda
capazes de arrancar o sujeito da pressa vulgar do presente. A aula pode acolher
notícias, jogos, vídeos e linguagens digitais, mas não pode ajoelhar-se diante
do espetáculo. Seu centro precisa continuar sendo a demora do pensamento.
Em uma
sociedade de capitalismo tardio, ferida pela precariedade e pela manipulação
diária das redes, educadores(as) fazem mais do que transmitir conteúdos.
Enfrentam a mentira organizada, a preguiça fabricada, o ódio aos livros, o
desprezo pela ciência e a velha conveniência dos que preferem uma população
dócil a uma população leitora. E aqui nem preciso citar nomes. Quem está lendo
este texto sabe de quem estou falando.
Não é
conservadorismo pedir respeito permanente ao(à) professor(a). É defesa
civilizatória. Quando políticos, líderes religiosos e influenciadores tentam
difamar educadores(as), o alvo real não é uma categoria profissional isolada,
mas a possibilidade de uma população leitora, crítica e capaz de reconhecer as
armadilhas de sua época. Entre cansaço, incerteza, alegria e medo,
professores(as) permanecem porque ainda veem na aula uma forma concreta de
impedir que a ignorância seja aceita como destino.
Continuam
porque uma pergunta pode salvar uma manhã, uma explicação pode devolver
confiança, uma leitura pode abrir uma vida, e uma vida menos rendida à mentira
já altera o destino comum. Uma nação sem educadores(as) vira plateia de sua
própria ruína, enquanto uma sala viva ainda guarda a possibilidade concreta de
outro modo de olhar o mundo.
Fonte:
Por Everton Fargoni, em Brasil 247

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