Medo
da hipoglicemia faz muitas pessoas manterem a glicose alta de propósito;
entenda os riscos
Para
quem nunca passou por uma hipoglicemia, pode parecer exagero. No entanto, quem
já acordou desorientado durante a madrugada, sentiu tremores no meio da rua ou
precisou de ajuda após uma queda brusca da glicose costuma desenvolver uma
relação diferente com o diabetes. Em muitos casos, o medo da hipoglicemia
permanece mesmo quando a crise termina.
Esse
receio pode mudar completamente a rotina. Algumas pessoas reduzem atividades
físicas, evitam sair sozinhas e passam a comer “por segurança” antes mesmo da
glicose cair. Outras tomam uma decisão silenciosa e muito comum entre pessoas
com diabetes: manter a glicemia propositalmente mais alta para diminuir o risco
de hipoglicemia.
Embora
essa estratégia pareça trazer alívio imediato, especialistas alertam que ela
pode aumentar oscilações glicêmicas e dificultar o controle do diabetes ao
longo do tempo.
Segundo
Denise Franco, endocrinologista e diretora do Centro Integrado de Pesquisa em
Diabetes e Hipertensão, o medo da glicose baixa é uma realidade frequente no
consultório.
“Muitas
pessoas preferem permanecer com a glicose mais alta porque têm medo da
hipoglicemia. Isso acontece principalmente após episódios graves ou durante a
madrugada”, explica Denise Franco.
<><>
Medo da hipoglicemia afeta decisões do dia a dia
A
hipoglicemia acontece quando a glicose cai abaixo de 70 mg/dL. Tremores, suor
frio, palpitações, fome intensa e dificuldade de concentração estão entre os
sintomas mais conhecidos. No entanto, o impacto emocional dessas crises nem
sempre recebe a mesma atenção.
Em
alguns casos, a pessoa passa a monitorar a glicose excessivamente, evita dormir
sem comer ou reduz doses de insulina sem orientação médica. Além disso,
situações simples do cotidiano podem se transformar em fonte de ansiedade.
Segundo
Tarsila Campos, nutricionista e educadora em diabetes do IBTED, o medo da
hipoglicemia pode alterar comportamento, alimentação e percepção de segurança.
“A
glicose baixa gera um impacto emocional muito importante. Muitas pessoas deixam
de fazer atividades ou mantêm a glicose mais alta porque não querem sentir
aqueles sintomas novamente”, afirma Tarsila Campos.
Nesse
contexto, o problema deixa de ser apenas metabólico e passa a envolver
qualidade de vida, saúde mental e autonomia.
<><>
Glicose alta “por segurança” também traz riscos
Para
evitar episódios de glicose baixa, algumas pessoas passam a aceitar números
mais altos no sensor ou no glicosímetro. Embora isso reduza o risco imediato de
hipoglicemia, especialistas alertam que a estratégia pode aumentar a
variabilidade glicêmica.
Além
disso, permanecer constantemente acima da faixa-alvo favorece complicações do
diabetes no longo prazo. Problemas cardiovasculares, alterações renais,
neuropatia e danos na retina continuam associados à exposição frequente à
glicose elevada.
“O
objetivo do tratamento não é viver em hipoglicemia, mas também não é manter a
glicose alta por medo. O equilíbrio precisa ser individualizado”, explica
Denise Franco.
Outro
ponto importante envolve a percepção do próprio corpo. Pessoas acostumadas com
glicemias elevadas podem sentir sintomas de hipoglicemia mesmo sem números
críticos. Isso acontece porque o organismo se adapta temporariamente aos níveis
altos de glicose.
<><>
Hipoglicemia noturna costuma aumentar o medo
Entre
os episódios mais temidos estão as glicemia baixa durante a madrugada. Muitas
pessoas relatam medo de dormir após crises noturnas, principalmente quando
acordam com suor intenso, taquicardia ou confusão mental.
Além
disso, existem casos em que a pessoa nem percebe a hipoglicemia acontecendo.
Sensores de glicose têm ajudado justamente na identificação dessas quedas
silenciosas.
Segundo
especialistas, a tecnologia mudou a forma de lidar com o medo da hipoglicemia.
Alarmes de glicose baixa permitem agir antes da queda se tornar mais grave.
“O
sensor ajuda muito porque traz previsibilidade. Muitas vezes conseguimos agir
antes da hipoglicemia acontecer”, afirma Tarsila Campos.
No
entanto, especialistas alertam que a tecnologia sozinha não resolve o problema.
Ajustes de insulina, alimentação adequada, atividade física planejada e
educação em diabetes continuam fundamentais.
<><>
Nem toda hipoglicemia pode ser evitada
Embora
o tratamento do diabetes tenha evoluído nos últimos anos, ainda não existe uma
forma de eliminar completamente o risco de hipoglicemia. Exercício físico,
atraso nas refeições, consumo de bebida alcoólica e alterações hormonais podem
influenciar a glicose rapidamente.
Por
isso, especialistas recomendam que pessoas com diabetes carreguem fontes de
açúcar de rápida absorção e conversem com a equipe médica sobre episódios
frequentes de hipoglicemia.
Além
disso, crises recorrentes podem diminuir a percepção dos sintomas ao longo do
tempo. Esse fenômeno, chamado de hipoglicemia assintomática, aumenta riscos
porque a pessoa pode não perceber que a glicose está caindo.
<><>
Conversar sobre medo da hipoglicemia também faz parte do tratamento
Especialistas
destacam que o medo da hipoglicemia não deve ser tratado como exagero ou
fraqueza emocional. Em muitos casos, ele surge após experiências traumáticas e
interfere diretamente na adesão ao tratamento.
Por
isso, falar sobre o assunto durante consultas médicas pode ajudar a ajustar
doses, rever estratégias e melhorar a segurança no dia a dia.
Além
disso, educação em diabetes continua sendo uma das principais ferramentas para
reduzir medo, melhorar decisões e aumentar autonomia.
“O
tratamento do diabetes não envolve apenas números. Existe impacto emocional,
rotina, sono, alimentação e sensação de segurança. Tudo isso precisa ser
considerado”, finaliza Denise Franco.
Fonte:
Um Diabético

Nenhum comentário:
Postar um comentário