segunda-feira, 1 de junho de 2026

Joaquim Neto: Educação no capitalismo – formação ou adaptação?

A educação costuma ser apresentada como o grande passaporte para o futuro, quase como uma promessa silenciosa – dessas que a gente aprende a acreditar desde cedo – de ascensão e realização individual. À primeira vista, tudo parece se alinhar: estuda-se, avança-se, conquista-se. Mas, olhando melhor, com um pouco mais de atenção, surgem fissuras que atravessam essa narrativa aparentemente sólida.

Inserida no interior das sociedades capitalistas, a educação não segue um caminho próprio; ela é atravessada, tensionada e moldada por estruturas que, muitas vezes, operam de forma discreta, mas constante. Daí a inquietação que insiste em permanecer: a educação forma sujeitos críticos ou vai, pouco a pouco, ajustando indivíduos às engrenagens do mercado?

Com o tempo – e isso não acontece de uma hora para outra – a expansão do ensino, especialmente no setor privado, foi aproximando a educação de uma lógica cada vez mais mercantil. Instituições passam a agir como empresas, orientadas por metas, crescimento e competitividade, como se o saber pudesse ser organizado, precificado e distribuído sob demanda.

O conhecimento, nesse movimento, deixa de ser apenas construção coletiva e passa a circular como produto; e o estudante, ainda que nem sempre perceba esse deslocamento, ocupa o lugar de consumidor. Aos poucos, o processo educativo vai sendo reorganizado: menos formação ampla, mais eficiência; menos reflexão, mais resultado imediato.

Não surpreende, portanto, que o próprio conteúdo do ensino acompanhe esse deslocamento. Habilidades técnicas ganham destaque – quase como se fossem a única chave possível – enquanto áreas voltadas à reflexão crítica vão sendo empurradas para as margens, de maneira silenciosa, mas persistente. Como observa Karl Marx, “as ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes”, o que ajuda a compreender por que a educação, em vez de tensionar a realidade, tantas vezes a reafirma. O espaço que poderia provocar estranhamento e questionamento passa, assim, a reforçar aquilo que já parece dado.

Ao mesmo tempo – e aqui a questão se aprofunda – a desigualdade social encontra na educação um de seus reflexos mais evidentes. Não se trata apenas de acesso, mas de permanência e condições. Enquanto alguns estudantes percorrem trajetórias marcadas por recursos, apoio e estabilidade, outros enfrentam obstáculos que se acumulam ao longo do caminho, como se cada etapa trouxesse novos desafios.

Nesse sentido, como aponta Pierre Bourdieu, a escola pode contribuir para a reprodução das desigualdades sociais, ao legitimar diferenças que têm origem fora dela, muitas vezes apresentando-as como resultado exclusivo do mérito individual. E, convenhamos, quando o ponto de partida é desigual, o resultado dificilmente será justo.

E como se isso não bastasse, cresce também a necessidade de medir tudo. Notas, índices, rankings – a educação vai sendo traduzida em números, como se sua complexidade pudesse caber em gráficos e tabelas bem organizadas. É claro que esses instrumentos têm sua função, mas o problema surge quando passam a orientar, quase sozinhos, o sentido do ensino. O que não é facilmente mensurável – criatividade, autonomia, pensamento crítico – acaba ficando à margem, como se fosse secundário. Aos poucos, aprender deixa de ser descoberta e passa a ser desempenho.

Essa lógica de mensuração se soma à padronização crescente. O ensino, que poderia ser diverso e sensível às realidades, vai se tornando uniforme, previsível, quase automático. Aprende-se para acertar, não para compreender; para responder, não para perguntar. E assim, sem grandes rupturas aparentes, a educação vai perdendo parte de sua vitalidade, como um campo que, de tanto ser controlado, já não floresce com a mesma intensidade

Nesse contexto, vale ainda olhar com mais cuidado para o papel das tecnologias educacionais, frequentemente apresentadas – quase como uma promessa pronta – de solução para os desafios do ensino. Plataformas digitais, ensino remoto e ferramentas automatizadas ampliam o acesso e, sem dúvida, abrem novas possibilidades; disso não se pode negar. Ainda assim, quando entram em cena sob a mesma lógica de mercado, acabam, não raro, reforçando desigualdades já existentes e estimulando uma relação mais apressada com o conhecimento.

Aprende-se rápido, consome-se conteúdo em sequência, como quem percorre uma vitrine infinita, mas nem sempre se constrói uma compreensão que permaneça. O saber, nesse ritmo, corre o risco de se fragmentar, quase como algo que se usa e logo se deixa para trás. Assim, aquilo que poderia expandir horizontes pode, em certas condições, estreitá-los, ao priorizar a velocidade em detrimento da reflexão – e, no fim das contas, o que parecia avanço pode carregar, silenciosamente, novas limitações.

No ensino superior, esse movimento se intensifica. A expansão de instituições privadas, muitas vezes voltadas à rapidez e à funcionalidade, reforça a ideia de uma formação acelerada. Cursos são organizados com foco na empregabilidade imediata, priorizando conteúdos pragmáticos e reduzindo espaços de reflexão mais aprofundada. Forma-se, assim, um profissional preparado para executar – o que, sem dúvida, tem seu valor – mas nem sempre para questionar. A educação passa a funcionar como uma ponte direta para o mercado: eficiente, sim, mas estreita demais para comportar outras dimensões da formação.

Ainda assim, nem tudo segue essa direção. Há concepções que insistem em lembrar que a educação pode ser outra coisa. Como afirma Paulo Freire, “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção”. Essa perspectiva aponta para uma educação viva, construída no diálogo, na curiosidade e na inquietação. Uma educação que não se limita ao imediato, mas que se abre ao pensamento crítico e à transformação social.

Diante dessas tensões, torna-se difícil sustentar que a educação, no capitalismo, cumpra plenamente um papel emancipador. Ao priorizar a adaptação, corre o risco de silenciar a crítica; ao valorizar o desempenho, pode esvaziar o sentido; ao se alinhar à lógica do mercado, tende a reforçar desigualdades que já são profundas. A promessa de ascensão, repetida tantas vezes, revela-se, na prática, atravessada por limites que não dependem apenas do esforço individual.

Mas reconhecer essas contradições não significa desistir da educação. Pelo contrário. É justamente aí que se abre espaço para repensá-la. Uma educação comprometida com a crítica, com a igualdade e com a autonomia não é um ideal distante, mas uma necessidade urgente. Mais do que formar para o mercado, trata-se de formar para a vida em sociedade, para o pensamento livre e para a construção de caminhos que ainda não estão dados.

No fim das contas, a educação permanece como um campo em disputa. Pode seguir funcionando como engrenagem de adaptação ou pode, mesmo em meio às contradições, afirmar-se como espaço de transformação. E talvez seja justamente nesse “entre” – nem totalmente capturada, nem completamente livre – que resida sua maior potência.

•        Educação: desafios nas pequenas e médias cidades. Por Roberto Rafael Dias da Silva

Ao discutir os desafios contemporâneos da escola pública, François Dubet chama atenção para a necessidade de pensar a justiça escolar para além da simples igualdade formal de acesso. Em sociedades marcadas por profundas desigualdades sociais, de acordo com o sociólogo francês, a democratização da educação exige a construção de políticas capazes de enfrentar as diferentes condições de partida dos estudantes e produzir formas mais justas de escolarização. Tal como defenderemos ao longo deste breve texto, essa reflexão torna-se especialmente relevante para os sistemas municipais de ensino, que convivem cotidianamente com os efeitos concretos das desigualdades sociais sobre as trajetórias escolares.

A gestão educacional nos municípios de pequeno e médio porte ocupa hoje um lugar decisivo na construção de políticas públicas comprometidas com a equidade e com a proteção das trajetórias estudantis. Em um contexto marcado pela ampliação das desigualdades sociais, pelas mudanças nas dinâmicas familiares, pelos impactos persistentes da pandemia ou mesmo pelas múltiplas vulnerabilidades que atravessam a vida de crianças e adolescentes, a escola pública passou a concentrar expectativas ainda maiores. Mais do que garantir matrícula e frequência, espera-se que os sistemas municipais sejam capazes de assegurar condições efetivas de aprendizagem, pertencimento e desenvolvimento humano.

Nesse cenário, precisamos indicar que o papel dos gestores escolares e das equipes dirigentes das redes municipais torna-se central. A implementação de políticas educacionais não ocorre de forma automática nem exclusivamente normativa. Ela depende da capacidade das lideranças escolares de traduzirem diretrizes em práticas institucionais coerentes com as realidades locais. Em municípios menores, essa tarefa apresenta especificidades importantes, uma vez que a proximidade entre escola, comunidade e poder público pode favorecer relações mais próximas e respostas mais rápidas às demandas sociais. Ao mesmo tempo, vale referir, a limitação de equipes técnicas, de recursos financeiros e de estruturas de apoio exige criatividade, cooperação e forte capacidade de articulação destas secretarias.

Segundo a classificação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), municípios de pequeno porte são aqueles com até 100 mil habitantes, enquanto municípios de médio porte possuem população entre 100 mil e 500 mil habitantes. Embora bastante distintos entre si, esses contextos compartilham desafios relacionados à capacidade administrativa, ao financiamento das políticas públicas e à organização das redes de ensino, especialmente em territórios marcados por desigualdades sociais e limitações estruturais.

Um dos principais desafios contemporâneos consiste em compreender que equidade não se reduz à oferta homogênea de oportunidades. Os estudantes chegam à escola em condições profundamente desiguais. As diferenças de renda, acesso à cultura, condições de moradia, alimentação, saúde mental e apoio familiar, dentre outras, interferem diretamente nas possibilidades de aprendizagem. A gestão educacional comprometida com a justiça escolar precisa reconhecer essas desigualdades sem naturalizá-las, o que implica desenvolver estratégias diferenciadas de acompanhamento, apoio pedagógico e proteção social.

Nos municípios de pequeno porte, muitas vezes a escola é o principal equipamento público presente no território. Ela se transforma em espaço de referência para famílias e comunidades, acumulando demandas que extrapolam o campo pedagógico. Nesses contextos, o diretor escolar deixa de exercer apenas funções administrativas e assume um papel de liderança comunitária. Sua atuação exige capacidade de mediação, sensibilidade social e construção de redes intersetoriais capazes de articular educação, assistência social, saúde e proteção à infância.

A proteção das trajetórias estudantis deve ser compreendida como uma dimensão estruturante da política educacional. Em nossa perspectiva, isso significa acompanhar os estudantes não apenas em momentos de fracasso escolar explícito, mas ao longo de todo o percurso educativo. A evasão, o abandono e a reprovação costumam ser precedidos por sinais que aparecem no cotidiano escolar: faltas recorrentes, desengajamento, dificuldades de aprendizagem, conflitos interpessoais e enfraquecimento do vínculo com a escola. Uma gestão atenta às trajetórias estudantis desenvolve mecanismos permanentes de monitoramento e intervenção precoce.

Acrescentamos ainda que, nesse processo a produção e a leitura qualificada de dados tornam-se ferramentas importantes para a tomada de decisão. Entretanto, em muitos municípios, ainda persiste uma cultura de utilização limitada das informações educacionais. Os dados frequentemente aparecem apenas como exigência burocrática ou mecanismo de prestação de contas. O desafio da gestão contemporânea consiste em transformar indicadores em instrumentos pedagógicos capazes de orientar ações concretas. Sem cair no modismo da educação baseada em evidências, objetivamente faz-se necessário identificar quais grupos de estudantes estão aprendendo menos, frequentando menos ou participando menos das experiências escolares.

Outro aspecto fundamental refere-se ao fortalecimento do clima escolar, temática que pouco se estuda na formação de professores e de gestores escolares. Diversas pesquisas educacionais indicam que estudantes aprendem melhor em ambientes marcados por relações de confiança, acolhimento e participação. Sob este entendimento, o clima escolar não é um elemento secundário da gestão, mas parte constitutiva das condições de aprendizagem. Em muitos municípios pequenos e médios, conflitos escolares, episódios de violência e sofrimento emocional têm se intensificado, exigindo respostas institucionais mais consistentes.

A construção de um ambiente escolar positivo depende da valorização das relações humanas no cotidiano da escola. Isso implica criar espaços de escuta para estudantes, professores e famílias, promover práticas restaurativas de resolução de conflitos e fortalecer o sentimento de pertencimento à comunidade escolar. O gestor que se limita à dimensão burocrática da administração tende a fragilizar os vínculos institucionais. Por outro lado, lideranças que cultivam diálogo, presença e cooperação contribuem para uma cultura escolar mais democrática e protetiva.

No campo pedagógico, merece destaque ainda a importância das políticas de recomposição das aprendizagens e do reforço escolar. Os municípios brasileiros convivem atualmente com grandes defasagens de aprendizagem, especialmente entre estudantes em situação de maior vulnerabilidade social. Entretanto, programas de reforço escolar só produzem resultados consistentes quando articulados ao currículo e acompanhados de forma sistemática pela gestão. Uma ressalva importante precisa ser feita neste momento: acompanhamento pedagógico não significa controle excessivo do trabalho docente, mas construção coletiva de estratégias capazes de responder às necessidades reais dos estudantes. Diretores e coordenadores pedagógicos precisam garantir momentos de diálogo entre professores da sala regular e docentes do reforço escolar, promovendo alinhamento de objetivos, compartilhamento de diagnósticos e análise conjunta dos avanços obtidos. Além disso, torna-se essencial acompanhar evidências de aprendizagem, observando quais habilidades foram efetivamente desenvolvidas e quais obstáculos permanecem presentes.

Outro desafio relevante para os municípios de pequeno e médio porte é a formação das equipes gestoras. Frequentemente, diretores assumem a função sem apoio institucional suficiente para lidar com questões relacionadas à liderança pedagógica, gestão de pessoas, análise de dados e implementação de políticas públicas. Tal como sinalizamos anteriormente, a formação continuada das lideranças escolares precisa superar modelos excessivamente normativos e administrativos, incorporando discussões sobre equidade, justiça escolar, inclusão e proteção das trajetórias estudantis.

Também é importante reconhecer que a gestão democrática não pode ser reduzida a procedimentos formais de participação. Conselhos escolares, reuniões e consultas são importantes, mas tornam-se insuficientes quando não produzem efetiva corresponsabilização da comunidade escolar. Em municípios menores, onde as relações são mais próximas, existe grande potencial para fortalecer redes colaborativas entre escolas, famílias e serviços públicos. A construção dessa cultura participativa exige tempo, confiança e continuidade das políticas educacionais.

Além disso, os sistemas municipais enfrentam o desafio de conciliar demandas administrativas crescentes com a centralidade do trabalho pedagógico. Muitas equipes gestoras encontram-se sobrecarregadas por exigências burocráticas, prestação de contas e processos administrativos que reduzem o tempo destinado ao acompanhamento pedagógico e às relações escolares. Nesse contexto, torna-se necessário repensar prioridades institucionais e fortalecer estruturas de apoio às escolas.

A defesa da equidade educacional exige compreender que qualidade e justiça social não são objetivos opostos. Ao contrário, uma educação pública de qualidade só se concretiza quando consegue garantir aprendizagem significativa para todos os estudantes, especialmente para aqueles historicamente mais vulnerabilizados. Mais uma vez em diálogo com Dubet, citado anteriormente, isso significa abandonar perspectivas meritocráticas que responsabilizam individualmente estudantes e famílias pelo fracasso escolar, reconhecendo que as desigualdades educacionais refletem desigualdades sociais mais amplas.

Nos municípios de pequeno e médio porte, essa agenda apresenta enorme relevância estratégica. A proximidade territorial pode favorecer acompanhamento mais individualizado dos estudantes, maior articulação intersetorial e fortalecimento dos vínculos comunitários. Contudo, para que essas potencialidades se transformem em políticas efetivas, entendemos que seja necessário investir na formação das lideranças escolares, consolidar culturas institucionais colaborativas e garantir condições adequadas de trabalho às equipes educacionais.

Por fim, pensar a gestão educacional a partir da equidade e da proteção das trajetórias estudantis significa recolocar a escola pública no centro do projeto democrático. Em diálogo com François Dubet, pode-se afirmar que uma escola justa não é aquela que apenas amplia o acesso, mas aquela que cria condições reais para que diferentes estudantes consigam construir percursos escolares significativos e socialmente reconhecidos. Em tempos de aprofundamento das desigualdades, a escola pública continua sendo uma das principais instituições capazes de ampliar direitos, produzir pertencimento social e construir horizontes de futuro para crianças e adolescentes. A atuação dos gestores escolares e das redes municipais – notadamente em municípios de pequeno e médio portes – será decisiva para definir se a escola pública conseguirá responder a esse desafio histórico com compromisso democrático, sensibilidade social e responsabilidade pedagógica.

 

Fonte:A Terra é Redonda/Outras Palavras

 

Nenhum comentário: