Decisão
sobre PCC e CV 'põe Lula em situação desconfortável, mas impacto eleitoral deve
ser nulo', diz analista
A
decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da
Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas representou uma
derrota diplomática para o governo Lula (PT), que vinha atuando
desde o ano passado para tentar evitar a medida.
No
entanto, para Christopher Garman, diretor para as Américas da consultoria
Eurasia Group, o principal problema para o presidente brasileiro não está
no fracasso das negociações com
Washington,
mas no desconforto político que a decisão cria em um dos temas mais sensíveis
para o governo: a segurança pública.
"Lula
fica pressionado e numa posição incômoda de ter que criticar uma medida dura
contra o crime organizado que tem apoio da opinião pública", afirma
Garman, ponderando, contudo, que o impacto eleitoral tende a ser limitado.
"Eu
diria que é um complicador a mais, mas também não é o tipo de coisa que
realmente impacta a probabilidade de ele ganhar a eleição."
Em
entrevista à BBC News Brasil, o especialista analisou os impactos políticos e
econômicos da inclusão das facções brasileiras na lista de organizações
terroristas dos Estados Unidos, que reúne atualmente 94 grupos, entre eles Hamas,
Hezbollah e Al-Qaeda.
O
anúncio foi feito dois dias depois de uma visita do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a Washington,
onde ele se reuniu com o presidente Donald Trump,
para quem afirmou ter solicitado a classificação das facções.
Apesar
de reconhecer a influência da família Bolsonaro, Garman minimiza seu peso na
decisão da Casa Branca, que há meses vinha discutindo o tema internamente.
"Foi quase como se a decisão já estivesse na boca do gol e o Flávio
Bolsonaro tivesse dado um empurrãozinho final."
Segundo
o analista, a medida faz parte de uma estratégia mais ampla do governo Trump
para endurecer o combate ao crime organizado na América Latina. Isso não significa,
porém, que o Brasil tenha se tornado prioridade para Washington.
O fato
de a designação das facções brasileiras ter levado mais tempo para ser
anunciada do que em outros países da região reforça essa avaliação, segundo
Garman.
Seus
efeitos práticos no Brasil também tendem a
ser limitados no curto prazo. A principal consequência, ele defende, será a
criação de uma "nuvem de incerteza de compliance" para o
setor privado, que terá de adotar controles mais rigorosos para garantir que
seus negócios não envolvam interesses ou recursos ligados ao crime organizado.
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Confira abaixo os principais trechos da entrevista.
·
Na prática, o que a decisão dos Estados Unidos muda para
o Brasil?
Garman
- Deixando
o impacto eleitoral de lado, porque existe um impacto político nas eleições, no
lado econômico o que isso cria é uma nuvem de incerteza de compliance sobre
o setor privado. Porque quando você faz a classificação como Organização
Terrorista Estrangeira, qualquer entidade privada que transita ou faz negócios
com o crime organizado pode ser considerada pelo governo americano como
ajudando ou dando suporte a uma organização terrorista.
Qualquer
um que seja considerado dessa forma é passível a todas as sanções que você pode
aplicar a qualquer grupo terrorista. Na prática, entidades privadas vão
precisar de um rigor maior para garantir que os negócios não representem
interesses ou dinheiro do crime organizado. Talvez seja o ponto mais
importante.
Em
relação à ação militar americana no Brasil, pode esquecer. Eesse risco pode ser
desconsiderado porque não está no radar. Claro, você pode pensar na condição da
Venezuela, mas ali já existia um desejo de fazer uma ação militar para tirar o
Maduro, e a designação servia também como justificativa jurídica para algo que
já era discutido. Então, no lado militar, as mesmas razões pelas quais isso era
muito improvável de acontecer continuam válidas. É uma decisão que vai mudar
esse cálculo do governo americano contra um país democrático, grande e
estratégico como o Brasil? Não. Não existe interesse nisso.
A
pergunta é mais: qual é o potencial de investigações do lado americano sobre o
crime organizado no Brasil que possa implicar o setor privado? A gente tem que
lembrar que essa designação já foi feita para cartéis no México, Equador, El
Salvador, Honduras, Colômbia e na Venezuela. Não é algo que necessariamente
afugenta investidores ou que vá transformar o Brasil em um pária em termos de
investimentos diretos. Isso não aconteceu no México, não aconteceu na Colômbia.
Então
por que aconteceria no Brasil? Até porque, o critério para fazer essas
investigações e demonstrar conexão com cartéis não é simples. Teve três bancos
pequenos no México que foram acusados de lavagem de dinheiro para cartéis. Eles
sofreram sanções do OFAC [Office of Foreign Assets Control — órgão
americano responsável por sanções econômicas e financeiras] e acabaram
fechando. Mas eram bancos que já tinham um histórico de lavagem de dinheiro e
estavam sendo investigados há muito tempo.
·
Ao colocar facções brasileiras nessa lista ao lado de
cartéis latino-americanos e organizações como o Hamas e o Hezbollah, os EUA
elevam o Brasil a uma nova prioridade na agenda de segurança da Casa Branca?
Garman
- Você
tem hoje uma Casa Branca que vai focar mais a América Latina, com Trump saindo
do Oriente Médio e olhando mais para o hemisfério, que já é prioridade
estratégica. Existe uma prioridade crescente dos EUA em relação ao combate ao
crime organizado transnacional na região, inclusive por razões de política
doméstica americana. O combate aos cartéis e às organizações criminosas é uma
agenda real do governo Trump. A designação das organizações terroristas faz
parte dessa estratégia mais ampla.
Agora,
isso significa que o Brasil virou prioridade máxima dos Estados Unidos? Eu
diria que não. As prioridades da Casa Branca continuam muito mais concentradas
no México e em países da América Central e do Caribe, onde essas organizações
têm impacto mais direto sobre o território e a segurança americanos.
O PCC,
claro, já se transformou numa organização criminosa transnacional, com conexões
inclusive na Europa, então existe uma preocupação crescente. Mas o fato de essa
designação ter demorado mais para sair também mostra que o Brasil não ocupa o
centro dessa estratégia. Por isso eu não vejo, no curto prazo, medidas
concretas mais agressivas voltadas especificamente ao Brasil.
Então
você pode ter investigações, mas o Brasil não está no topo da lista. E mesmo os
países que estão no topo da lista levam tempo para gerar casos concretos, não é
algo imediato. O mais provável é que nada aconteça no próximo ano.
·
A decisão saiu dias após a visita do senador Flávio
Bolsonaro a Washington. Qual o peso real que a família Bolsonaro teve nessa
decisão?
Garman
- Existe
um contexto de simpatia e afinidade ideológica com a família Bolsonaro, e claro
que esse elemento ajuda. Flávio ter feito essa visita teve influência política.
Mas isso já estava sendo debatido dentro do governo americano há meses.
Esse
movimento já vinha sendo discutido desde o ano passado, e precisaria de uma
ação diplomática muito forte para evitar algo que já vinha por inércia — e isso
não aconteceu.
Quando
Flávio vai lá e faz essa solicitação, acho que a Casa Branca já queria assumir
uma postura mais dura contra o crime organizado na região. E aí os Brazil
Hawks [grupo de linha dura em Washington em relação ao Brasil] ao
redor do presidente acabaram empurrando isso. Então foi quase como se a decisão
já estivesse "na boca do gol" e o Flávio Bolsonaro tivesse dado um
empurrãozinho final.
Mas não
foi uma medida feita apenas a pedido da família Bolsonaro. Eles tiveram
influência, sem dúvida, mas isso também faz parte de uma estratégia mais ampla
da Casa Branca de endurecimento contra o crime organizado na América Latina.
·
Isso sinaliza um apoio de Trump à candidatura de Flávio
Bolsonaro? E pode levantar preocupações sobre interferência nas eleições?
Garman
- Representa,
sim, uma simpatia da Casa Branca pela oposição e pela direita no Brasil. O
governo Trump já adota uma estratégia mais ampla de aproximação e apoio a
movimentos de direita ao redor do mundo, e o Brasil não foge dessa lógica.
Trump ter recebido Flávio, e Marco Rubio também ter participado dessas
conversas, são sinais disso.
Trump
tem uma certa identificação com o drama do ex-presidente. Ele se vê muito como
Jair Bolsonaro: "Eu também fui censurado no meu país. Eu também fui
perseguido pelos tribunais. Eu também estou sofrendo por forças progressistas
que inibem a liberdade de expressão". Tem essa sinergia.
Isso
acontece em um contexto em que Trump também tenta normalizar a relação com o
Brasil. Ele recuou de uma estratégia mais agressiva de sanções e tarifas,
embora a investigação 301 [referência à Seção 301 da legislação comercial dos
EUA, usada para investigar práticas comerciais consideradas desleais] continue
em andamento. Então acho que vêm tarifas mais altas, sim. Mas eu diria que isso
acontece no contexto do Trump recuar da estratégia anterior.
Trump
vai dizer numa campanha que prefere Flávio? Tenho dúvidas de que possa fazer
alegações como essas. E aí entra a discussão sobre interferência. Eu não sei se
um ou outro chefe de Estado dizendo que tem simpatia com uma corrente política
é exatamente interferência. Até porque o impacto eleitoral é quase nulo. O fato
de o Trump dizer que apoia o Flávio, vamos ser sinceros, acho que não impacta
tanto a disposição do eleitor brasileiro. A decisão vai ser muito mais pelas
ações domésticas.
Onde
realmente existe impacto é quando o governo americano entra com algum tipo de
ajuda e muda a dinâmica eleitoral. Por exemplo: dar US$ 20 bilhões de crédito
para o governo Milei às vésperas da eleição do ano passado teve impacto, porque
evitou uma crise cambial.
Esse
tipo de coisa eu diria que são ações que têm impacto na eleição. Mas não vejo a
Casa Branca tomando medidas a ponto de impactar as eleições mais diretamente.
Claro que tem todo um campo em que você pode ter ajuda de empresas de
tecnologia e algoritmos, ajudas não transparentes, não comprováveis nem
visíveis. Não sei como avaliar isso.
Mas
ações como as que a gente viu na Venezuela ou na Argentina, de interferência
maior, eu acho improvável. Agora, declarações de apoio, isso sim.
·
Politicamente, qual é o saldo dessa decisão para Flávio
Bolsonaro? Ajuda a reduzir o desgaste da crise do Banco Master?
Garman
- No
curto prazo, ele se beneficia um pouco, porque tem a cobertura da imprensa
sobre o evento, o que dá um pouco de respiro para o ciclo noticiário do momento
do Banco Master.
Isso
muda a eleição? Não muda. Porque eu também tenho um diagnóstico de que o
vazamento dos áudios e do encontro de Flávio com Daniel Vorcaro são um tipo de
evento negativo para a campanha dele, mas que tende a se dissipar ao longo do
tempo, porque temos cinco meses até a eleição.
O risco
para a campanha são novas denúncias que possam vir. Eu diria que, assim como o
efeito do vazamento dos áudios, que não matou a candidatura dele e ainda existe
tempo para recuperar, o impacto dessa decisão dos EUA tende a se dissipar ao
longo do tempo. Eu não vejo isso como algo que muda o jogo eleitoral, mas dá um
pouco de alívio para a campanha do Flávio.
·
E para Lula, muda alguma coisa? A segurança é um dos
temas sensíveis para ele nessa eleição.
Garman
- Lula
fica pressionado. Essa decisão dos EUA tem mais impacto para Lula do que para
Flávio, porque coloca o presidente em uma posição difícil de ter que criticar
uma decisão dura contra o crime organizado.
Algumas
pesquisas que saíram mostram que grande parte da população concorda com a
denominação das facções como organizações terroristas. Ele vai ter que criticar
uma postura que a população apoia. É claro que se você pode colocar isso como
interferência, tem maneiras de apresentar sem que tenha uma reação negativa tão
forte, mas não é uma posição confortável. Por isso que o Itamaraty estava
tentando tanto evitar a denominação, porque exacerba um pouco o 'calcanhar de
Aquiles' do Lula, que nessa campanha é segurança.
Por
isso que eu acho que o problema para o presidente Lula não é o fracasso da
negociação diplomática com os EUA, mas a posição em que ele foi colocado, de
criticar uma medida dura contra o crime organizado, que tem amplo apoio na
opinião pública. Esse é o problema.
Mas tem
muito chão pela frente. É um complicador a mais, mas também vamos colocar no
devido lugar. Não acho que é o tipo de coisa que realmente impacta a
probabilidade de ele [Lula] ganhar. É um tema que traz um desconforto e vai ser
usado na campanha. O Flávio vai dizer: "Por que você não apoia declarar as
facções?". Lula vai ter que ter habilidade para reagir. No período
pré-campanha não tem tanta relevância. Mas é uma flechinha que Flávio pode usar
na campanha que ele não tinha antes.
·
O senhor defende a possibilidade de surgir um outro nome
da direita para o segundo turno. Após esse episódio, continua existindo espaço
para outro candidato competitivo?
Garman
- Continua.
Há um certo cansaço com o bolsonarismo. Ao mesmo tempo, há outros candidatos
que são muito críveis no tema da segurança: Ronaldo Caiado (PSD), por exemplo,
tem um histórico fenomenal no estado de Goiás.
Existem
outros nomes que também têm credibilidade nesse tema. E não é porque você
conseguiu dar um empurrãozinho para o governo americano designar as facções
brasileiras como terroristas que isso automaticamente lhe dá mais credibilidade
em segurança pública do que um nome como Caiado.
·
Lula e Trump devem se encontrar nas próximas semanas na
França, durante a cúpula do G7. Qual é a expectativa para esse encontro, que
provavelmente será o primeiro entre os dois depois dessa decisão envolvendo PCC
e Comando Vermelho?
Garman
- A
gente já estava cético que sairia um acordo comercial após a reunião entre
eles, porque a gente não está vendo o lado brasileiro dando tanto, não estamos
vendo as negociações avançarem. Isso reforça essa visão. Talvez haja uma
reunião cordial e só.
·
Mas a relação entre Lula e Trump dá uma esfriada nesse
próximo encontro...
Garman
- Ah,
sim, com certeza. É um agravante essa decisão. Vamos ver se antes desse
encontro vai sair a determinação da investigação 301 e aí podem sair novas
tarifas para o Brasil.
Se
saírem novas tarifas, que é provável, aí o governo brasileiro vai tentar
aumentar a lista de exceções e diminuir ainda mais o nível das tarifas. Então
as negociações vão continuar. Mas eu não vejo grandes coisas saindo desse
encontro do G7.
Acho
que não vai ser aquela tarifa de 50% que acabou sendo derrubada pela Suprema
Corte americana, mas também não deve ficar nos 10% ou 15% que outros países
estão recebendo. Deve ser algo no meio.
·
O que pode ser um complicador para o Lula...
Garman
- Sim,
mas diria que pode virar até um problema maior para o Flávio. Se vier uma
tarifa de 20% ou 25%, que já é mais proibitiva, Lula vai dizer: "Olha,
Flávio entregou o país. Foi por causa da família Bolsonaro que vieram tarifas
proibitivas contra o Brasil e isso tirou empregos do Brasil". Então eu
diria que, se a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações
terroristas deixa Lula pressionado, a decisão do 301, que pode levar a novas
tarifas, deixa Flávio pressionado também.
¨
Trump, PCC e CV: o método por trás da classificação de
facções como terroristas. Por Glauco Faria
A decisão do governo Trump de classificar
o PCC e o Comando Vermelho como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs, na
sigla em inglês) é, em parte, um gesto simbólico para convencer o público
estadunidense de que o governo está “fazendo algo” no combate ao crime. Afinal,
essa tem sido a estratégia da gestão do republicano que, desde o início de
2025, já tinha adicionado 26 novos grupos à lista, quando, na maioria dos anos
desde a criação da lista, em 1997, apenas dois grupos eram adicionados
anualmente. Para Brian J. Phillips, professor de ciência política da
Universidade de Essex, no Reino Unido, e pesquisador
especializado em terrorismo e segurança internacional, existe uma intenção
doméstica, mas o método também guarda outros objetivos. “O governo Trump
utilizou o arcabouço do contraterrorismo para justificar ataques de mísseis
contra embarcações que supostamente transportam drogas e para justificar a
deposição do presidente da Venezuela. Nesse sentido, a classificação terrorista
pode ser vista como um aviso de possíveis ações futuras”, pontua, em entrevista
à Fórum.
O caso
venezuelano, segundo Phillips, deveria preocupar líderes de toda a região. Mas
o professor pondera que o Brasil está em uma situação diferente da Venezuela,
marcada por décadas de animosidade com Washington e por uma presença expressiva
de redes criminosas venezuelanas em território dos EUA.
“Às
vezes, a classificação terrorista é usada como moeda de troca em negociações
comerciais. Também pode ser feita para agradar alguns políticos locais — o que
parece ser o caso no Brasil com os Bolsonaro. Geralmente não é uma declaração
de guerra. Mas, após o caso Venezuela, os líderes evidentemente estão prestando
atenção”, adverte.
Sobre o
timing do anúncio, feito logo após a visita do senador Flávio Bolsonaro à Casa
Branca, Phillips aponta que “o momento da decisão parece um presente político a
um aliado ideológico”. O pesquisador lembra que Trump já tentou interferir em
eleições em outros países, como no caso de Nigel Farage no Reino Unido, e que a
atual gestão da Casa Branca “preferiria um governo no Brasil que fosse mais
ideologicamente alinhado a ele”.
>>>>
Confira a entrevista:
·
Em suas análises, você aponta que já existem instrumentos
legais, como a Lei Kingpin, para os Estados Unidos sancionarem organizações
criminosas. O que essa escolha por classificar cartéis e facções como
terroristas revela sobre os objetivos reais da política do governo Trump?
O uso
da classificação terrorista para grupos criminosos é feito em parte por
simbolismo — para convencer o público americano de que o governo está “fazendo
algo”, que está fazendo tudo o que pode para combater o crime. No entanto, o
governo Trump também deixou claro que a classificação terrorista pode ser usada
para fornecer justificativa legal para escaladas militares.
O
governo Trump utilizou o arcabouço do contraterrorismo para justificar ataques
de mísseis contra embarcações que supostamente transportam drogas e para
justificar a deposição do presidente da Venezuela. Nesse sentido, a
classificação terrorista pode ser vista como um aviso de possíveis ações
futuras.
·
A expansão da lista de FTOs foi usada para justificar
mais de 100 mortes em ataques de mísseis e a captura de Nicolás Maduro, embora
o Departamento de Justiça americano tenha abandonado, dois dias depois, a
alegação de que o cartel que justificou a operação sequer existia. Esse
precedente venezuelano representa um risco concreto para outros países da
América Latina, como o Brasil?
As
classificações terroristas dos EUA são um sinal para outros países de que os
Estados Unidos estão priorizando determinados grupos — e militarizando sua
abordagem em relação a eles. A captura de Nicolás Maduro pode ser vista como
uma ameaça a outros líderes regionais: coopere com o contraterrorismo
americano, ou você mesmo pode se tornar alvo do contraterrorismo.
A
prisão de Maduro deveria preocupar outros líderes da região. No entanto, não
está claro o quanto é provável que tal ação se repita. A relação EUA-Venezuela
é produto de muitos fatores — uma enorme quantidade de petróleo na Venezuela,
décadas de animosidade e uma presença substancial de redes criminosas
venezuelanas nos Estados Unidos. O Brasil está em uma situação diferente.
Às
vezes, a classificação terrorista é usada como moeda de troca em negociações
comerciais. Também pode ser feita para agradar alguns políticos locais — o que
parece ser o caso no Brasil com os Bolsonaros. Geralmente não é uma declaração
de guerra. Mas, após o caso Venezuela, os líderes evidentemente estão prestando
atenção.
·
No caso brasileiro, especialistas alertam que a
classificação do PCC e do Comando Vermelho como FTOs pode transferir a
cooperação policial do nível FBI e DEA para a lógica da CIA, prejudicando o
acesso direto dos investigadores brasileiros às informações e inviabilizando
parcerias em curso. Esse tipo de consequência prática é comum quando
organizações criminosas são incluídas na lista de terroristas?
A
classificação terrorista de grupos criminosos poderia trazer novos recursos
para o combate ao crime. A CIA possui, por exemplo, enormes recursos de
monitoramento de comunicações. No entanto, também é verdade que,
historicamente, as instituições militares e de segurança nacional não têm sido
tão eficazes quanto as agências nacionais de aplicação da lei no enfrentamento
de criminosos. As abordagens militarizadas frequentemente têm o efeito
contrário — se forem pesadas demais, a população local pode se alinhar aos
criminosos em vez de apoiar os militares.
Além
disso, a classificação terrorista parece exigir o envolvimento de instituições
de política de contraterrorismo, que podem não ter o tipo de expertise e os
relacionamentos necessários para enfrentar de forma eficaz o crime organizado.
·
Em artigos, você já observou que aliados históricos dos
EUA não seguiram Washington na decisão de classificar organizações criminosas
como terroristas e que alguns desses países foram na direção oposta, incluindo
grupos de extrema direita em suas listas. Os EUA perderam influência e
relevância no cenário global de combate ao terrorismo e às organizações
criminosas internacionais?
Os
Estados Unidos, sob o atual governo, estão cada vez mais isolados nas questões
de terrorismo e crime organizado. Os países europeus não seguiram a abordagem
americana de aplicar o contraterrorismo contra grupos criminosos. A Itália, por
exemplo, conseguiu, por meio de uma abordagem policial, manter o crime em
níveis baixos. Na América Latina, apenas países cujos governos são
ideologicamente alinhados ao presidente Trump adotaram a abordagem da
classificação terrorista.
·
O anúncio da designação do PCC e do Comando Vermelho como
FTOs ocorreu logo após a visita do senador Flávio Bolsonaro à Casa Branca, em
um contexto de eleições presidenciais brasileiras em 2026. Considerando o
padrão de uso político da lista de FTOs, é razoável interpretar essa decisão
como uma tentativa de interferência eleitoral externa?
O atual
presidente americano já tentou ajudar outros políticos estrangeiros em suas
campanhas eleitorais, como Nigel Farage no Reino Unido. O atual governo dos EUA
preferiria um governo no Brasil que fosse mais ideologicamente alinhado a ele,
e enxerga isso em Flávio Bolsonaro.
De
maneira geral, a decisão dos EUA de incluir grupos brasileiros na lista de FTOs
é coerente com a política americana recente na região. Poderia ter acontecido
com ou sem a visita de Bolsonaro. Portanto, isso pode ser visto como um esforço
para influenciar as eleições brasileiras, mas também faz parte de um padrão
mais amplo de tratar grupos criminosos latino-americanos como terroristas. No
entanto, o momento da decisão — logo após a visita dos irmãos Bolsonaro —
parece um presente político a um aliado ideológico.
Fonte:
BBC News Brasil/Fórum

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