Ibama
vê ‘indícios de ilícito ambiental’ de mineradora vizinha a terra indígena no AM
O IBAMA
(Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis)
aponta “indícios de ilícito ambiental” em uma área de mineração vizinha ao
território dos Waimiri Atroari, no Amazonas.
Entre
abril e maio, indígenas afirmam ter encontrado animais mortos, como botos e
tartarugas, nos rios que cortam a terra indígena. Eles suspeitam que os
rejeitos das operações da Mineração Taboca, maior produtora de estanho refinado
do Brasil, teriam poluído as águas dessa porção da Amazônia.
“As
evidências visuais obtidas via sensoriamento remoto confirmam que a frente de
lavra e a degradação ambiental associada avançam em direção ao limite imediato
da TI Waimiri Atroari”, informa um documento enviado em 19 de maio ao MPF-AM
(Ministério Público Federal no Amazonas), que investiga o caso.
Segundo
relatos dos indígenas, grandes manchas de lama com “odor forte” e “coloração
barrenta” teriam atingido, no início de abril, um igarapé que atravessa a área
de mineração e deságua no Alalaú — o principal rio do território dos kinja,
como são conhecidos os Waimiri Atroari.
Semanas
depois, dois botos, duas tartarugas e uma arraia foram encontrados mortos, como
mostram registros fotográficos feitos pelos próprios indígenas. De acordo com
os relatos dos kinja, não haveria sinais de ataques de predadores naturais.
Um
ofício enviado em 29 de abril pela Funai (Fundação Nacional dos Povos
Indígenas) ao MPF-AM também chama atenção para o potencial impacto sobre os
botos.
“A
morte de um mamífero aquático deste porte é um indicador biológico crítico de
que a toxicidade e/ou a alteração física da água atingiu níveis insuportáveis
para vida selvagem.” O documento alerta para a configuração de um “desastre
ambiental de proporções severas”.
Em
nota, a assessoria de imprensa da Taboca afirmou que, até o momento, não havia
sido formalmente notificada sobre novas diligências relacionadas ao
procedimento no MPF-AM. A mineradora disse que “segundo conhecimento da
empresa, não há relação causal ou técnica entre os fatos relatados e as suas
operações” e reafirmou seu compromisso com a “colaboração integral com as
autoridades para o completo esclarecimento dos fatos”. A íntegra da nota pode
ser lido neste link.
As
investigações fazem parte de um inquérito civil do MPF-AM que apura se a
Mineração Taboca seria a responsável pela contaminação de rios no território
dos Waimiri Atroari. O processo corre desde 2021, depois que fortes chuvas
provocaram o transbordamento de estruturas de contenção de rejeitos da
mineração.
A
investigação do MPF avançou no ano passado, após uma análise química detectar
traços de chumbo, arsênio e outras substâncias tóxicas na água do igarapé que
alimenta o Alalaú.
O caso
foi revelado pela Repórter Brasil na série de reportagens “Kinja: o povo
indígena com medo do rio”, em parceria com a Rainforest Investigations Network
(Pulitzer Center). A mineradora contesta os laudos que apontam a contaminação
das águas (ler mais abaixo).
Há mais
de 40 anos na região, a Taboca atualmente é controlada por uma estatal chinesa
e busca expandir a exploração dos minerais críticos, como cassiterita
(matéria-prima do estanho), tântalo, nióbio e elementos de terras raras — estes
ainda na fase de estudos.
O caso
teve novos desdobramentos no fim de abril. Após tomar conhecimento dos relatos
dos indígenas, o MPF-AM solicitou um posicionamento do Ibama, órgão federal
responsável pelo licenciamento e pela fiscalização do empreendimento.
A
análise preliminar do Ibama afirma que “manchas de solo exposto e extração
mineral extrapolam visivelmente os limites geográficos dos processos
minerários”.
Segundo
o órgão federal ambiental, uma vistoria no local ainda seria necessária para
confirmar a origem do problema e definir eventuais diligências. O Ibama também
aponta a ausência de “zona de amortecimento ou distância de segurança” entre o
complexo minerário e a terra indígena.
Nesta
semana, o MPF pediu que o Ibama realize vistoria presencial das atividades da
Taboca, “com coletas de amostras de água, sedimentos, tecidos vegetais e fauna
aquática em pontos diversificados”. A Procuradoria acionou também a Polícia
Federal e pediu “a instauração de inquérito policial” para apuração de
possíveis crimes ambientais.
Procurada
pela Repórter Brasil, a Mineração Taboca reafirmou seu “compromisso com a
condução responsável de suas operações” e disse que “segue acompanhando o
contexto relatado pelas comunidades e reconhece a importância de que os fatos
sejam esclarecidos com base em evidências técnicas e científicas”.
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Mineradora contesta laudo que aponta contaminação de metais pesados em rios
Em
funcionamento desde 1982, a mina de Pitinga, operada pela Taboca, foi instalada
em uma área considerada tradicional pelos kinja, após um decreto presidencial
reduzir parte da TI para viabilizar a exploração das jazidas.
“Embora
esteja fora dos limites, as jazidas estão nas imediações da Terra Indígena.
Então é evidente que as consequências socioambientais vão incidir sobre o
interior do território”, afirma André Porreca, titular do 2º Ofício da Amazônia
Ocidental e responsável pela investigação do MPF-AM.
Após
reunião com os indígenas no mês passado, o MPF-AM solicitou providências à ANM
(Agência Nacional de Mineração), responsável pela fiscalização da atividade
minerária. A autarquia respondeu que iria se reunir com a equipe técnica da
Mineração Taboca para “tratar de vários assuntos”, entre eles uma “programação
de vistoria de campo com possível data de ocorrência para o mês de junho”.
Em
nota, a ANM confirmou que se reuniu com a Taboca na última sexta-feira (22) e
informou que deve realizar uma vistoria na área da mineradora na segunda
quinzena de junho, “com o objetivo de apurar pendências técnicas e
processuais”.
A
agência afirmou que não foi informada pelos órgãos ambientais sobre atividade
de extração mineral fora dos limites autorizados. Ressaltou, porém, que a
“eventual constatação de irregularidade está sujeita à devida apuração,
mediante instauração dos procedimentos administrativos pertinentes e adoção das
medidas cabíveis, nos termos da legislação vigente”. A resposta pode ser lida
na íntegra neste link.
Em
março, a assessoria de imprensa da mineradora enviou nota à Repórter Brasil
informando que “não há evidências que indiquem nexo de causalidade” entre suas
operações e a possível contaminação do rio.
O
posicionamento informou ainda que o relatório de análises químicas que detectou
traços de chumbo, arsênio e outras substâncias tóxicas no igarapé Tiaraju
“apresenta lacunas metodológicas que comprometem a reprodutibilidade de
informações, além de inconsistências técnicas, o que demanda aprofundamento
para conclusão definitiva”. A íntegra da manifestação está disponível neste
link.
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Animais mortos assustam indígenas
Em 27
de abril, indígenas encontraram uma tartaruga morta boiando no rio Alalaú. Na
manhã seguinte, foi a vez de dois botos – um deles já em estado de
decomposição.
A água
apresentava então coloração barrenta e odor forte, segundo o ofício enviado
pela Funai ao MPF-AM em 29 de abril e um relatório de fiscalização de 18 de
maio. “A cor da água não está normal”, confirma Ewepe Atroari, morador da
aldeia Maryda.
Duas
semanas após o envio do ofício ao MPF-AM, os indígenas encontraram uma arraia e
outra tartaruga mortas no leito do rio Alalaú. “A nossa preocupação é com os
animais que vivem no rio e morreram”, diz Ewepe.
Essa
não foi a primeira vez que os kinja encontraram peixes e mamíferos aquáticos
mortos. Em 2021, após o transbordamento de rejeitos da mineração, eles
registraram em fotografias os cadáveres de tartarugas e de um peixe-boi. Também
relataram diminuição dos peixes, base da sua alimentação.
“A água
barrenta desceu pelo rio, matando o peixe. Não tem mais condição de tomar água
e o peixe está morrendo”, relatou o ancião Kynetxiri Atroari, em entrevista
realizada em outubro de 2025.
Ele
guarda a lembrança de um rio limpo que, a partir da instalação da mineradora
nos anos 1980, teria sido alterado. “Na minha infância o Alalaú era limpo,
tinha muito peixe e fartura. A poluição da Taboca chegou e atingiu tudo”,
queixa-se.
A
investigação do MPF-AM busca identificar se a mineradora é responsável pelo
vazamento de rejeitos e pela contaminação do rio. Se a suspeita for confirmada,
o próximo passo “seria impedir que o dano ambiental continue acontecendo”,
afirma o procurador André Porreca.
Uma das
hipóteses investigadas é que as barragens não seriam adequadas para a contenção
dos rejeitos. Nesse caso, explica o procurador, seria preciso avaliar melhorias
nas estruturas, além de possíveis indenizações e medidas de despoluição. “Época
de chuvas tem todos os anos, então precisa resolver”, complementa.
No
final de abril, o MPF-AM ouviu os indígenas em uma audiência extrajudicial. “É
muito tempo causando problemas. Falamos, mandamos documento. A Taboca está aí,
será que eles escutam a palavra do indígena?”, questionou Mário Paruwe, diretor
da ACWA, a Associação Comunidade Waimiri Atroari.
De
acordo com a ata da reunião, os indígenas “identificaram, ainda, a Mineração
Taboca como a única fonte poluidora da região e mencionaram que o transbordo de
resíduos ocorre de forma recorrente nos períodos de pluviosidade”.
Em meio
às investigações, a mineradora firmou em abril um termo de cooperação de R$ 12
milhões com a ACWA. A empresa se comprometeu a apoiar iniciativas de segurança
alimentar, com projetos de criação de animais (como peixes, porcos e galinhas)
e de perfuração e manutenção de poços artesianos nas aldeias.
Fonte:
Repórter Brasil

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