Os danos não visíveis: como as
mudanças climáticas afetam a saúde mental
“Fui
pega de surpresa ao receber o alerta para sair de casa por causa da enchente.
Estava em meio a atendimentos de imprensa relativos aos nossos hospitais
atingidos no estado e me vi numa situação de vítima daquilo tudo. Entrei em
pânico, não sabia por onde começar a reorganizar minha vida para os dias a
seguir. Acabei ficando sete meses fora de casa, pois perdemos quase tudo e foi
necessário nos reconstruirmos. O apoio psicológico que recebi no hospital me
fez perceber que eu precisava pausar, acolher minhas emoções e ressignificar
aquilo tudo que os gaúchos estavam vivendo, inclusive eu.”
Esse o
relato é de Mariana Duarte, relações públicas na Empresa Brasileira de Serviços
Hospitalares (Ebserh) e chefe da Unidade de Imprensa e Informação Estratégica
para as regiões Sul, Sudeste e Centro-oeste.Mariana mora em Pelotas (RS), às
margens da Lagoa dos Patos, e trabalha no Hospital Escola da Universidade
Federal de Pelotas (HE-UFPel).
Há
quase um ano, as enchentes, deslizamentos e alagamentos afetaram 95% dos
municípios gaúchos. Assim como ela, milhares de brasileiros já enfrentam os
impactos dos desastres climáticos, situações que afetam não somente a
infraestrutura, mas o cotidiano e a saúde mental das pessoas.
Diante
desse cenário, a Ebserh tem se mobilizado para apoiar o Sistema Único de Saúde
(SUS) no atendimento aos impactos físicos e emocionais ocasionados pelas
mudanças climáticas extremas. A estatal conta com 45 hospitais universitários
federais, nas cinco regiões brasileiras.
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Apoio emocional e psicológico
A
psicóloga hospitalar Luciana Zanetello, do Hospital Universitário Professor
Polydoro Ernani de São Thiago da Universidade Federal de Santa Catarina
(HU-UFSC/Ebserh), orientou sobre o impacto psicológico de desastres e como
lidar com essas situações.
Segundo
ela, entre as respostas emocionais estão pensamentos recorrentes sobre o
evento, dificuldade de concentração, irritabilidade, tristeza, medo e mudanças
de humor. Já os sintomas físicos incluem fadiga, dores musculares, alterações
no sono e apetite, além de problemas gastrointestinais. Em crianças, as reações
podem envolver maior ansiedade de separação, choro frequente, irritabilidade e
pesadelos.
A
psicóloga destacou que a intensidade dessas respostas varia conforme fatores
como resiliência individual, nível de exposição ao evento e o apoio
recebido. “Embora esses sintomas sejam comuns, geralmente são
temporários. Muitas pessoas demonstram resiliência e os sintomas diminuem com o
tempo”, apontou.
Luciana
reforçou a importância de práticas cotidianas para auxiliar na recuperação,
como restabelecer rotinas – “pois ajudam a devolver uma sensação de
normalidade e previsibilidade” -, manter uma alimentação equilibrada,
praticar exercícios físicos e garantir um sono regular.
Para
crianças, momentos de brincadeira, acolhimento e explicações adequadas ao
entendimento delas são fundamentais. Técnicas como respiração profunda,
meditação e atividades de lazer também podem ser eficazes no manejo do
estresse. Além disso, “o apoio social é um dos fatores mais importantes
para a recuperação”, afirmou.
Também,
segundo a psicóloga, é importante limitar a exposição a notícias sobre o
desastre, pois o excesso de informações pode aumentar a ansiedade. “ Se
os sintomas persistirem por mais de um mês, prejudicarem o dia a dia ou se
houver pensamentos de autoagressão, é fundamental procurar suporte psicológico
profissional”, alertou.
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Evento científico
Para
aprofundar essa questão, de 29 a 31 de maio, a Universidade Federal de Santa
Maria (UFSM) sediará o Congresso Brasileiro sobre Catástrofes Climáticas
(ConBrasCC), organizado em parceria com o Hospital Universitário de Santa Maria
(Husm-UFSM) e a Rede Ebserh.
O
evento reunirá especialistas e gestores da empresa pública para discutir os
desafios e soluções relacionados a desastres como os que afetaram o Rio Grande
do Sul há quase um ano.
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Documento para a COP 30
O
médico do Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes da Universidade
Federal do Espírito Santo (Hucam-UFES/Ebserh) José Geraldo Mill, também
coordena o Grupo de Trabalho na área da Saúde no estado. Esse grupo está
elaborando o Plano Estadual de Enfrentamento às Mudanças Climáticas.
“No
documento, que deverá ser apresentado na próxima edição da COP 30, elencamos
três áreas onde a saúde humana será afetada pelo aumento da temperatura média
mundial”, explicou.
A COP 30 (Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025)
está prevista para ser realizada de 10 a 21 de novembro de 2025, em Belém, no
Pará.
O
primeiro impacto, segundo o coordenador, é o aumento da frequência e
intensidade das ondas de calor. Temperaturas mais altas podem levar a
desidratação e queda da pressão arterial, com riscos maiores para idosos e
crianças menores de três anos. “Os idosos que moram sozinhos são os
mais vulneráveis a eventos graves, como colapso cardiocirculatório e até
morte”, alertou.
O
segundo impacto é a expansão das arboviroses, como dengue e febre
amarela. “Os mosquitos transmissores dessas doenças se reproduzem mais
rapidamente em temperaturas altas. Isso pode dificultar o combate e aumentar a
frequência de surtos epidêmicos”, explicou. No entanto, há uma
expectativa positiva: o desenvolvimento de vacinas eficazes e em larga escala.
O
terceiro impacto apontado por Mill é a intensificação de desastres ambientais,
como chuvas torrenciais e queimadas, episódios que tendem a sobrecarregar o
sistema de saúde, afetando hospitais e unidades de pronto atendimento. Além
disso, a fumaça produzida por queimadas pode agravar problemas respiratórios,
como crises de asma e insuficiência respiratória. “Esses eventos já
ocorrem com maior frequência, como vimos nas enchentes no Rio Grande do Sul e
nas queimadas em todo o Brasil em 2024”, destacou.
Fonte: Por Andreia Pires – Rede Ebserh, da Agência Gov
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