Luis
Pellegrini: O poder é tóxico? Sim, quando cai em mãos erradas
Quando
exercido sem os devidos freios e contrapesos, o poder pode levar a
comportamentos que desafiam normas democráticas e éticas. O conceito de
"efeito corruptor do poder" sugere que, em certas circunstâncias,
indivíduos no poder podem adotar práticas autoritárias ou antiéticas, especialmente
se houver uma falta de mecanismos eficazes de responsabilização.
O
julgamento de Jair Bolsonaro e seu grupo pelo Supremo Tribunal Federal (STF)
que começou esta semana e provavelmente se estenderá pelos próximos meses, não
representa apenas a possibilidade de se fazer justiça a respeito de importantes
crimes cometidos contra o Estado de Direito e a Constituição cometidos pelo
ex-presidente e seus mancomunados. Ele representa também, para todos os
cidadãos e notadamente para os profissionais da política, uma oportunidade de
ouro: a de percebermos como o poder pode ser nefasto quando cai nas mãos de
quem não está preparado para usá-lo e/ou tem índole avessa aos princípios e
valores democráticos. Quando isso acontece, geralmente ocorrem consequências
negativas, tanto para quem detém o poder quanto para aqueles que estão sob sua
influência.
Algumas
dessas consequências incluem:
#
Decisões impulsivas e desinformadas – Sem preparo, a pessoa pode tomar decisões
precipitadas, sem considerar as consequências a longo prazo.
# Abuso
de poder – O indivíduo pode usar sua autoridade de maneira irresponsável, seja
por ego, insegurança ou falta de compreensão sobre seu verdadeiro propósito.
# Falta
de visão e liderança – Sem preparo, não há estratégia clara para conduzir
pessoas ou administrar recursos, levando à desorganização e ao caos.
#
Corrupção e instabilidade – O poder pode corromper aqueles que não têm uma base
ética sólida, resultando em injustiças e crises sociais ou institucionais.
#
Resistência e revolta – Se a incompetência for evidente, aqueles que estão sob
o comando podem se rebelar, gerando conflitos e até colapsos estruturais.
A
história está repleta de exemplos de líderes e governantes que, sem preparo,
causaram desastres políticos, econômicos e sociais. O poder exige
responsabilidade, conhecimento e sabedoria para ser exercido de forma justa e
eficaz.
Existe
na mente de um número imenso de pessoas a ideia de que o poder é sempre tóxico
e capaz de envenenar e corromper não apenas os que estão submetidos a ele mas
também o próprio chefe, aquele que detém o poder nas mãos. Isso é verdade, mas
trata-se de uma verdade parcial. Depende de como o poder é exercido e da pessoa
que o detém. O poder em si não é inerentemente tóxico, mas pode se tornar
quando usado sem limites éticos, sem prestação de contas ou com um forte desejo
de controle sobre os outros.
Existe
um conceito chamado "efeito corruptor do poder", que sugere que, à
medida que uma pessoa ganha mais poder, pode se tornar menos empática, mais
egoísta e mais propensa a abusar da sua posição. Isso acontece porque o poder
pode diminuir a necessidade de considerar as emoções e necessidades dos outros,
levando a atitudes mais autoritárias ou insensíveis.
Por
outro lado, o poder também pode ser algo positivo quando usado com
responsabilidade. Líderes que exercem poder com empatia, justiça e propósito
podem promover mudanças significativas e melhorar a vida das pessoas ao seu
redor.
Bolsonaro
é um exemplo de como o poder pode ser exercido de maneira controversa e
polarizadora. Durante seu governo, muitas pessoas argumentaram que ele
demonstrou características associadas ao efeito corruptor do poder, como a
resistência a críticas, a centralização de decisões e o uso de retórica
agressiva. Outros, no entanto – inclusive membros da militância bolsonarista -
acreditam que ele não fez mais do que manter sua essência combativa desde antes
de assumir o poder e que sua postura não foi um resultado da toxicidade do
cargo, mas sim um reflexo de sua personalidade e ideologia.
É
verdade que, o poder, por si só, não necessariamente corrompe, mas pode
amplificar traços já existentes em uma pessoa. No caso de Bolsonaro, aqueles
que o criticam enxergam um aumento até mesmo patológico no autoritarismo e na
indiferença em relação a certas questões sociais, enquanto seus apoiadores veem
coerência com sua postura antes mesmo de ser presidente. Estes últimos aceitam
e até mesmo defendem o fato de que seu líder tem vocação autocrata e, como
todos os desse mesmo feitio, deseja concentrar poder, enfraquecer instituições
democráticas e reprimir qualquer oposição.
As recentes acusações
e processos judiciais contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus aliados
levantam questões sobre como o exercício do poder pode influenciar comportamentos
e decisões. Atualmente, o STF está avaliando denúncias que acusam Bolsonaro de
liderar uma tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. Além disso,
em junho de 2023, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) condenou o ex-presidente
por abuso de poder político e o declarou inelegível por oito anos.
Esses
eventos podem ser interpretados como exemplos de como o poder, quando exercido
sem os devidos freios e contrapesos, pode levar a comportamentos que desafiam
normas democráticas e éticas. O conceito de "efeito corruptor do
poder" sugere que, em certas circunstâncias, indivíduos no poder podem
adotar práticas autoritárias ou antiéticas, especialmente se houver uma falta
de mecanismos eficazes de responsabilização.
Independentemente
da interpretação, esses casos ressaltam a importância de instituições
democráticas fortes e de mecanismos de controle que garantam que o poder seja
exercido de maneira responsável e em conformidade com os princípios
democráticos. Pois, acima de
qualquer desejo ou ambição de poder, político ou qualquer outro, paira a
inexorável Lei do Retorno, conceito que aparece não apenas na sabedoria
popular, mas também em várias filosofias, religiões e crenças espirituais. Essa
lei expressa a ideia de que tudo o que fazemos—seja bom ou ruim—em algum
momento volta para nós de alguma forma. No caso de Jair Bolsonaro a Lei do
Retorno agiu rápido.
¨ Reimont Otoni:
Locaute parlamentar da extrema direita tenta emparedar STF
A
estratégia dos parlamentares bolsonaristas, de impedir os trabalhos no
Congresso faltando às votações, é inconstitucional, vergonhosa, irresponsável,
daninha e profundamente antidemocrática. Trata-se de uma releitura dos nefastos
locautes, como são conhecidas as greves empresariais que tanto dano já causaram
às democracias, no mundo, e que são proibidas no Brasil.
Com
esse ineditismo perverso e arrogante, a extrema direita promove um locaute
parlamentar para forçar a Câmara Federal e o Senado a pautarem o projeto de
anistia prévia ao réu Jair Bolsonaro e a seus cúmplices civis e militares do
núcleo central da tentativa de golpe de estado.
Usam e
ampliam a estratégia de obstrução, um instrumento pontual de luta parlamentar,
para defender os interesses particularíssimos do ex-presidente e de sua tropa
golpista. Não fizeram isso em nenhum outro momento, nem mesmo em suposta defesa
dos presos de 8 de janeiro de 2023. Só o fazem agora, quando a cúpula da
conspiração foi declarada Ré, iniciando o processo de julgamento.
Esse
locaute parlamentar da extrema direita é também uma óbvia tentativa de queda de
braço com o Supremo Tribunal Federal, na tentativa de pressionar a Corte para
aliviar no julgamento dos crimes cometidos pela Organização Criminosa que
pretendia instaurar uma ditadura no país; uma conspiração que só não foi
adiante por falta de adesão ampla das Forças Armadas e do empresariado e pela
resposta firme e imediata das instituições brasileiras, como o STF.
O
comportamento fere a Lei de Greve de 1989 e a Constituição Federal de 1988,
que, em seu artigo 2º, trata exatamente da separação de poderes, dispondo que
"são poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo,
o Executivo e o Judiciário." Mas os bolsonaristas querem emparedar o STF,
usando como arma o Congresso Nacional.
Esses
senhores e senhoras reafirmam o seu profundo desprezo pela Democracia e pela
vontade e soberania dos milhões de eleitores brasileiros. Desrespeitam as
atividades política e parlamentar e os interesses públicos.
Eles
trazem prejuízos a toda população, impedindo a votação de pautas importantes,
como o Projeto de Lei do Imposto de Renda, que isentará totalmente 20 milhões
de trabalhadoras e trabalhadores que ganham até 5 mil reais, reduzirá o tributo
de quem paga até 7 mil e tributará os 141 mil mais ricos que, hoje, nada pagam.
No total, cerca de 95 milhões de contribuintes serão favorecidos.
Mas o
Congresso precisa votar; com obstrução, não dá!
O mesmo
acontece com o debate e a votação do fim da escala 6 por 1, de interesse de
milhões de trabalhadores, ou com a votação do PL que agrava as penas de quem
promove incêndios florestais e comete crimes ambientais.
Tudo
parado pelo locaute da extrema direita.
Dizem
que os golpistas não cometeram crimes já que o golpe não se concretizou. Parece
piada, mas é mais um atentado, desta vez contra a verdade. A conspiração, em
si, é o crime, a ser julgado na Suprema Corte, por atentar contra o país. É o
que rege a Lei.
Que
enfrentem o tribunal, como estabelece o regramento de qualquer estado
democrático.
E sem
anistia para golpistas!
¨ “Não vamos cair nessa
armadilha”, diz Marco Aurélio de Carvalho sobre tentativas de deslegitimar as
condenações dos golpistas
Em
entrevista ao programa Boa Noite 247, o jurista Marco Aurélio de
Carvalho, coordenador do grupo Prerrogativas, analisou os desdobramentos do
julgamento dos responsáveis pelos ataques de 8 de janeiro de 2023 e reafirmou a
responsabilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro na tentativa de golpe contra
as instituições democráticas. Segundo ele, há um esforço deliberado de setores
da sociedade para minimizar os acontecimentos, mas os elementos reunidos pela
Justiça são mais do que suficientes para justificar as duras penas que vêm
sendo aplicadas.
Carvalho
argumentou que o fato de Jair Bolsonaro ter deixado o Brasil antes da
consumação dos atos não o isenta de culpa. “Na história dos crimes, inclusive
os de sangue, os mandantes não aparecem na cena do crime. Pelo contrário, se
distanciam. Eles criam álibis, subterfúgios, para tentar se afastar da autoria
dos delitos”, afirmou. Para o jurista, o ex-presidente ocupa uma posição clara
como líder e incentivador da ação golpista. “Isso é um caso clássico do que o
Bolsonaro fez. Ao se afastar do Brasil, não se exime de responsabilidade por
ter liderado e incentivado essa horda de golpistas. Ao contrário, isso lhe dá
uma posição privilegiada de mandante.”
Sobre a
atuação do ministro Alexandre de Moraes ao apresentar um vídeo como evidência
durante o julgamento no Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio defendeu a
medida e negou que tenha havido abuso por parte do magistrado. “Para receber a
denúncia, eu preciso comprovar que existem indícios sólidos. Nada mais adequado
do que mostrar quais são esses indícios. Imagens se eternizam”, disse. “Ele foi
muito feliz ao escolher essa forma de apresentar a denúncia. As imagens mostram
que os indícios eram mais do que sólidos: eram verdadeiras provas.”
Carvalho
criticou também a tentativa de dar destaque excessivo às delações premiadas.
Segundo ele, os demais elementos da denúncia já seriam suficientes. “A delação
é lateral. Ela poderia até ser desconsiderada, porque os outros elementos da
denúncia são, por si só, suficientes para que eles sejam condenados com penas
super rigorosas”, declarou. Para o jurista, a relevância excessiva atribuída às
colaborações premiadas tem servido para criar confusão e desviar o foco da
solidez das provas.
Ao
comentar a repercussão da possível revisão de pena da ré Débora Rodrigues dos
Santos, apelidada de “mulher do batom”, o jurista advertiu contra o uso do caso
como ferramenta de desinformação. “Se houve excesso, que o excesso seja
corrigido. Estamos no campo democrático. Queremos para Chico, para Francisco,
para aliado, para adversário, para bolsonarista e para lulista a mesma coisa.
Ninguém quer estar acima da lei, mas ninguém quer estar abaixo”, afirmou. Ainda
segundo ele, “essa patriota quis pagar para ver, vai pagar caro, vai comer
cadeia”.
O
jurista reforçou que revisões individuais, quando necessárias, são bem-vindas e
fazem parte do processo democrático, mas não comprometem o conjunto da
responsabilização. “Se houver motivo para revisão, isso é saudável. Não temos
que criar polêmica. Isso não pode virar um ponto importante do tratamento que a
gente pretende fazer em relação a esse processo. Não vamos cair nessa
armadilha”, alertou.
Por
fim, Marco Aurélio reiterou que os ataques de 8 de janeiro configuram o crime
mais grave possível contra a democracia. “Numa democracia como a do Brasil, não
existe nenhum outro crime mais grave do que a tentativa violenta de abolição do
Estado de Direito.” Ele defendeu penas exemplares como forma de garantir que
esse tipo de conduta não se repita. “As penas são altas porque os tipos penais
são muito graves. A sugestão de pena é alta exatamente por conta da gravidade
do delito”, afirmou.
Com uma
fala firme, mas pautada pela legalidade, o jurista conclamou a sociedade a não
relativizar os crimes cometidos. Para ele, as condenações têm valor não apenas
jurídico, mas também simbólico e pedagógico. “A imagem tem uma força muito
singular. É algo que materializa o delito. A defesa está fazendo pirotecnia.
Eles podem ter até excelentes advogados, que estão fazendo o que podem. Mas o
que está em jogo aqui é o próprio Estado Democrático de Direito.”
¨ Gleisi: PL da anistia
quer livrar da punição Bolsonaro e os comandantes do golpe, não se destina aos
já sentenciados
A
presidente nacional do PT e ministra da Articulação Política, Gleisi Hoffmann,
criticou duramente o Projeto de Lei da anistia em tramitação na Câmara dos
Deputados, afirmando que a proposta não tem o objetivo de beneficiar os
condenados pelos atos de 8 de janeiro, mas sim de proteger o ex-presidente Jair
Bolsonaro e seus aliados que ainda nem foram julgados pelo Supremo Tribunal
Federal (STF).
Em
declaração, Gleisi destacou que a anistia não se destina aos manifestantes já
sentenciados, mas sim à cúpula que teria organizado os atos antidemocráticos.
"Dados do STF mostram que, dos 1.604 réus nas ações penais do 8 de
janeiro, nada menos que 546 fizeram acordo com a PGR, tiveram as ações
suspensas e foram soltos. Dentre os que não aceitaram o acordo e foram acusados
de crimes mais simples, 237 foram condenados a 1 ano de prisão e já cumpriram
pena. Eles são praticamente a metade dos 500 condenados até agora. Há 205
condenados pelos crimes graves de tentativa de abolição do Estado Democrático
de Direito, golpe, dano qualificado e associação criminosa armada. Receberam
penas de 14 a 17 anos e, pelos critérios de progressão de pena, estarão em
regime semiaberto e até em prisão domiciliar antes do fim deste ano. Portanto,
não é para estes condenados do 8 de janeiro que se volta o projeto de lei de
anistia apresentado na Câmara. É para livrar da punição o réu Jair Bolsonaro e
os comandantes do golpe, que ainda nem foram julgados pelo STF."
Parlamentares
e especialistas jurídicos têm alertado que uma eventual aprovação do projeto
pode representar um retrocesso no enfrentamento aos atos golpistas e na
garantia da responsabilização dos envolvidos. O debate segue acirrado na
Câmara.
Fonte:
Brasil 247

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