Urariano
Mota: 31 de Março ou Primeiro de Abril?
No mais
recente 30 de março, durante a movimentação do Sem Anistia no Recife, em
conversa com o camarada Helmiton Beserra destacamos: os nossos cabelos brancos
deixam-nos a oportunidade de repor fatos fundamentais. Isso porque, a partir de
certa idade, a nossa memória é história. Mais adiante, na Rua da Aurora, com a
pedagoga Fátima Oliveira lembrei que as novas gerações de estudantes não
conhecem a história da ditadura. Os livros didáticos não falam. Os novos
professores a desconhecem. Daí o sucesso, por justiça e louvor merecidos, do
filme Ainda estou aqui. Então, portanto, é preciso falar mais que nunca da
história viva da ditadura. Como tento mais uma vez a seguir.
Em
primeiro lugar, para não reescrever a história sem contextualizar o tempo,
passemos de volta um olhar sobre os dias do calendário. Pois na
propaganda do golpe, o primeiro de abril de 1964 sempre foi antecipado para o
31 de março. Nós não podemos nem devemos deixar essa versão se perpetuar. Como
publicava O Pasquim, o negó é o seguim, o negócio é o seguinte: para evitar a
piada do dia universal da mentira, os golpistas mentiram por antecipação.
Falaram que o golpe se fez em 31 de março de 1964. E que nesse dia foi
decretada a revolução. O problema é que os subversivos calendários não
obedeceram à ordem. E falaram que tal revolução foi mesmo de primeiro de abril.
Em amis de um sentido. Aos fatos.
Os
ideólogos do núcleo reacionário das forças armadas acharam por bem deslocar o
golpe para a véspera do dia consagrado às ações mentirosas. E tinham bons
motivos, porque ao grande dia sempre impuseram uma frase maior: “Revolução de
31 de março”. Imaginem a gargalhada mundial, se escrevessem esta verdade:
“Revolução de primeiro de abril”. Mas em 31 março todos os governos legítimos,
eleitos em eleições livres, estavam no poder!
Em
dúvida, para que não se caia no revisionismo histórico, olhem os jornais
brasileiros de 2 de abril de 1964:
O
Globo: “Ressurge a democracia!”. O Estado de São Paulo, “Vitorioso o movimento
democrático”. Diário de Pernambuco: “Jango sai de Brasília rumo a
Porto Alegre ou exterior”. Folha de S. Paulo: “Congresso declara
Presidência vaga: Mazzilli assume”. E por que relaciono as notícias de 2 de
abril? A razão é simples: em uma época sem edição on-line, se o golpe tivesse
ocorrido em 31 de março, os jornais publicariam a notícia em primeiro de abril.
Mas como em 31 todos os governos eleitos estavam no poder, os jornais somente
puderam noticiar a “revolução” no dia 2 de abril. O curioso é que, a partir
daí, houve uma desmemória geral e rara. A imprensa amordaçada passou a se
referir a um certo 31 de março que acontecera depois do dia 31 de março. Piada
trágica.
E para
melhor contextualizar a história, o ambiente de terror contra a resistência
democrática no Brasil, os assassinatos que vieram depois de primeiro de abril
de 1964, retornar aos crimes no fim de torturas aos presos políticos,
devo relacionar um acontecimento central de um dos massacres da ditadura.
Eu
retomo no romance “A mais longa duração da juventude” aos seis assassinatos no
Recife em janeiro de 1973. Os seis “terroristas” mortos juntos em uma só
notícia. “Terroristas”, porque todas as pessoas que lutavam contra a ditadura
eram chamadas de terroristas. Aqui vai um trecho dos crimes contextualizados no
romance:
“Assim
era o velho Orlando. Com um jornal nas mãos, ele desfere o primeiro golpe:
–
Pegaram uns terroristas hoje. Vocês viram?
Eu sei,
ele fala a todos, mas se dirige a mim. Sou capaz de sentir que ele fala e me
aponta com o queixo, pois me encontro na máquina de escrever com os olhos fitos
em lugar nenhum. Não consigo me concentrar na guia de material, que devo copiar
para o formulário. A minha voz está contra mim. Aliás, tudo em mim, tudo que é
sobrevivência é o meu contrário. Eu não sou aquele que se encontra na sala, com
o ar-condicionado rugindo alto feito motor de carro de praça em 1970. O velho,
o feitor, se aproxima, eu sei pela repugnante mistura de perfume barato e
cigarros.
– A
puta era até bonitinha – ele fala. – Carinha de anjo, mas terrorista.
Você viu? – E toca o meu ombro tenso. Não o escuto, bato a esmo na máquina.
Tenho que me concentrar para não escrever “Maldito. Maldição. Mal do mundo. Mal
de porcos. Foda-se”. E vem um novo toque, mais firme, como uma intimidação:
– Viu
ou não viu as carinhas de puta? Você.
Então
levanto a custo o queixo e vejo um indivíduo de olhos verdes, cabelos brancos,
boca murcha e sinais de animal velho na cara. Ele sorri, mas sei que o sorriso
é ofensa, escárnio, gatilho apontado. E respondo, na altura da minha covardia:
– Eu? –
“Darás a tua vida por mim?”, penso. – Não vi o jornal hoje.
– Não
viu?! – O escarnecedor volta. – Olhe.
“Meu
Deus, o que será de mim?”. Ele mostra a primeira página.
– Aqui.
– Com o dedo seboso aponta Soledad. Com o dedo seboso aponta Pauline. Com o
dedo seboso aponta Vargas. Com o dedo seboso aponta as fotos dos seis
socialistas mortos. E volta para Soledad. – Está vendo?
Eu olho
e mudo a vista. Eu vejo e baixo os olhos. Não sou um homem. Me sinto menos que
um cachorro castrado. É doloroso fitar o rosto de Soledad, aquela a quem beijei
na casa de Marx. Olho e baixo os olhos. O velho parece notar minha
aflição.
– Moça
tão bonitinha… – o velho fala. – Desencaminhando os filhos da gente para o
terror. – E olha para mim: – Mata!
“Eu a
quero como um homem sozinho quer o seu amor”, penso. E resmungo, no limite:
– Os
jornais mentem muito. – E continuo na cabeça o poema que não escrevo: “Eu a
quero como um homem sozinho. Eu a quero com a ternura e ódio de um covarde cujo
amor é segredo”. O poema que não escrevo se inscreve em meus olhos. E dilato as
órbitas para secar a minha condenação. O velho me pergunta:
– Hem?
O que você disse?
Eu quis
responder com voz alta, à meia altura do meu sentimento: “eu disse que os
jornais mentem muito”. Falando assim, falaria menos do que deveria: “É tudo
mentira. As notícias são uma farsa criminosa. Matam a melhor juventude do
Brasil”. Mas fiquei a balbuciar palavras inverossímeis:
– A –
sim… tende? Assim…
– Assim
o quê, rapaz?
–
Assim.. ah… o jornal de hoje tem o resultado do vestibular.
–
Vestibular que nada. O vestibular de hoje é a morte dos bandidos. – No que foi
acompanhado por um idiota de plantão:
– Isso
mesmo. Se eles estudassem, se fossem gente direita, não estavam mortos. A
polícia não mata um jovem de bem.
Era tão
estúpido e esmagador, que sorri amargo três vezes, assim como Pedro negou três
vezes a Jesus. Sorri de imbecil, sorri da minha desgraça, sorri como um
adulador sorri. Os três sorrisos unificados em um só, o da infâmia de desejar
sobreviver em paz, não importava como. Sorri. E para não sorrir indefinidamente
da minha abjeção, tive a infelicidade de completar com o máximo de coragem:
–
Jornal exagera um pouco. Algumas vezes temos que dar uns descontos.
Para
quê disse isso? Recebi pelos peitos:
– Mas
eles eram terroristas, não eram? Isso é mentira?
“Jesus
respondeu-lhe: Darás a tua vida por mim? Em verdade, em verdade te digo: Não
cantará o galo sem que tu me tenhas negado três vezes”. Então baixei a cabeça e
procurei bater à máquina. As denunciantes lágrimas insistiam em voltar aos meus
olhos.
– Eles
eram ou não eram terroristas? – O velho tornou”.
O mais
grave, hoje, é que esse tempo sempre corre o risco de voltar. Os criminosos do
“movimento” de 64 continuam impunes. Aquele velho sempre volta. É nosso
dever falar, escrever e divulgar o que sabemos. Dever e honra.
¨
1º de Abril de 1964, o verdadeiro dia do golpe. Por Luiz
Alberto Melchert
Eu
tinha oito anos e estava no 2º primário. Aquele 1º de abril era um dia nublado
com temperatura amena, tendendo para o fresco, como era típico em São Paulo dos
anos 1960, quando o aquecimento global ainda não nos tinha atingido em cheio.
Acordamos, como sempre, às seis horas para ir à escola. Como éramos sete,
quatro em idade escolar, já fazíamos fila para tomar banho. Primeiro as meninas
e os meninos em seguida.
Naquele
dia, no entanto, não pusemos o uniforme do Colégio Assis Pacheco, de que tenho
as piores lembranças. Nosso pai não passou Gumex nos nossos cabelos, nem fez o
topete que nos deixava iguais a todos os colegas, como se o penteado fizesse
parte do uniforme. Pusemos as roupas de ficar em casa. No café da manhã,
observamos que nosso pai não estava com o indefectível terno. Foi quando minha
mãe disse que estávamos em Estado de sítio e que ficaríamos todos em casa por
ordem dos militares. Perguntei a ela: “Se estamos num sítio, por que
continuamos na cidade?” Ela explicou que não era um sítio, mas um estado de
sítio. Lembro-me bem que meu irmão, dois anos mais velho, questionou se
estávamos ou não no estado de São Paulo. Honestamente, não me lembro de ter dado
importância a qualquer explicação mais profunda. Estava mais preocupado em ir
brincar no quintal.
Obviamente,
não correlacionamos aquele bem-vindo feriado com uma passeata que minha mãe
assistiu pela televisão. Era um bando de mulheres bem vestidas andando por uma
avenida de cujo nome não tínhamos a menor ideia. Só sei que não assisti desenho
algum naquela tarde.
Para
nós, aquele 1º de abril não fez diferença alguma. No dia seguinte voltamos às
aulas. Hoje entendo que os militares, orientados pelos seus mentores
americanos, foram extremamente hábeis no desviar da atenção do povo. Era o auge
do Iê-iê-iê, com a Jovem Guarda tornando esperadas as tardes de domingo, com o
programa do Roberto Carlos estrategicamente fixado para depois do jogo de
futebol e do seriado estadunidense “Perdidos no Espaço”. Claro que se tratou de
um sucesso advindo também do talento dos dirigentes da TV Record, mas, por se
ter baseado em traduções de canções americanas como “Calhambeque” com Roberto
Carlos ou “Biquini Amarelinho” com Rony Cord (cognome de Ronaldo
Cordovil), já se demonstrava sermos compelidos a nos americanizar.
A
exemplo do que se via nos filmes, em que hordas de fãs aglomeravam-se em frente
aos teatros e canais de televisão, o fenômeno repetiu-se aqui com intensidade
inaudita para um país que se estava urbanizando aceleradamente. Cabe lembrar
que São Paulo tinha ao redor de 1,5 milhão de habitantes e que só viria a
alcançar o Rio de Janeiro em 1968, quando atingiu os três milhões de
moradores.
O softpower forjou
os idosos de hoje que pintam de cor-de-rosa os anos que se tornaram de chumbo
logo a seguir. Costuma-se falar dos movimentos revolucionários,
anti-imperialistas que se perderam na Serra dos Órgãos, da guerra entre o
Mackenzie e a FFLCH na Rua Maria Antônia, do CCC (Comando de Caça aos
Comunistas) invadindo o Teatro Oficina durante a apresentação da peça Roda
Viva, mas não se fala de como se forjou uma geração de americanófilos. Não se
fala que foi por aquele tempo que as calças rancheiras tornaram-se calças
Jeans, que o surf dominou as praias do Rio, impondo um vocabulário execrado por
Caetano Veloso na canção “Língua”. Não se fala que
foram os anos anteriores à ditadura ficar descarada, como diria Hélio Gaspari,
que se gestaram os homens de cabeça branca e as mulheres tingidas de louro que,
aposentados em busca de pertencimento, aglomeraram-se em frente aos quartéis.
Infelizmente, também estão brancos os cabelos de quem se opôs à ditadura.
Carecemos de renovação, caso contrário, viveremos sempre com a espada de
Dâmocles do fascismo sobre nossas cabeças.
Fonte:
Jornal GGN