quarta-feira, 2 de abril de 2025

Urariano Mota: 31 de Março ou Primeiro de Abril?

No mais recente 30 de março, durante a movimentação do Sem Anistia no Recife, em conversa com o camarada Helmiton Beserra destacamos: os nossos cabelos brancos deixam-nos a oportunidade de repor fatos fundamentais. Isso porque, a partir de certa idade, a nossa memória é história. Mais adiante, na Rua da Aurora, com a pedagoga Fátima Oliveira lembrei que as novas gerações de estudantes não conhecem a história da ditadura. Os livros didáticos não falam. Os novos professores a desconhecem. Daí o sucesso, por justiça e louvor merecidos, do filme Ainda estou aqui. Então, portanto, é preciso falar mais que nunca da história viva da ditadura. Como tento mais uma vez a seguir.

Em primeiro lugar, para não reescrever a história sem contextualizar o tempo, passemos de volta um olhar sobre os dias do calendário. Pois na  propaganda do golpe, o primeiro de abril de 1964 sempre foi antecipado para o 31 de março. Nós não podemos nem devemos deixar essa versão se perpetuar. Como publicava O Pasquim, o negó é o seguim, o negócio é o seguinte: para evitar a piada do dia  universal da mentira, os golpistas mentiram por antecipação. Falaram que o golpe se fez em 31 de março de 1964. E que nesse dia foi decretada a revolução. O problema é que os subversivos calendários não obedeceram à ordem. E falaram que tal revolução foi mesmo de primeiro de abril. Em amis de um sentido. Aos fatos.  

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Os ideólogos do núcleo reacionário das forças armadas acharam por bem deslocar o golpe para a véspera do dia consagrado às ações mentirosas. E tinham bons motivos, porque ao grande dia sempre impuseram uma frase maior: “Revolução de 31 de março”. Imaginem a gargalhada mundial, se escrevessem esta verdade: “Revolução de primeiro de abril”. Mas em 31 março todos os governos legítimos, eleitos em eleições livres, estavam no poder!

Em dúvida, para que não se caia no revisionismo histórico, olhem os jornais brasileiros de 2 de abril de 1964:

O Globo: “Ressurge a democracia!”. O Estado de São Paulo, “Vitorioso o movimento democrático”. Diário de Pernambuco: “Jango sai de Brasília rumo a Porto Alegre ou exterior”. Folha de S. Paulo: “Congresso declara Presidência vaga: Mazzilli assume”. E por que relaciono as notícias de 2 de abril? A razão é simples: em uma época sem edição on-line, se o golpe tivesse ocorrido em 31 de março, os jornais publicariam a notícia em primeiro de abril. Mas como em 31 todos os governos eleitos estavam no poder, os jornais somente puderam noticiar a “revolução” no dia 2 de abril. O curioso é que, a partir daí, houve uma desmemória geral e  rara. A imprensa amordaçada passou a se referir a um certo 31 de março que acontecera depois do dia 31 de março. Piada trágica.   

E para melhor contextualizar a história, o ambiente de terror contra a resistência democrática no Brasil, os assassinatos que vieram depois de primeiro de abril de 1964, retornar aos crimes  no fim de torturas aos presos políticos, devo relacionar um acontecimento central de um dos massacres da ditadura.

Eu retomo no romance “A mais longa duração da juventude” aos seis assassinatos no Recife em janeiro de 1973.  Os seis “terroristas” mortos juntos em uma só notícia. “Terroristas”, porque todas as pessoas que lutavam contra a ditadura eram chamadas de terroristas. Aqui vai um trecho dos crimes contextualizados no romance:  

“Assim era o velho Orlando. Com um jornal nas mãos, ele desfere o primeiro golpe:

– Pegaram uns terroristas hoje. Vocês viram?

Eu sei, ele fala a todos, mas se dirige a mim. Sou capaz de sentir que ele fala e me aponta com o queixo, pois me encontro na máquina de escrever com os olhos fitos em lugar nenhum. Não consigo me concentrar na guia de material, que devo copiar para o formulário. A minha voz está contra mim. Aliás, tudo em mim, tudo que é sobrevivência é o meu contrário. Eu não sou aquele que se encontra na sala, com o ar-condicionado rugindo alto feito motor de carro de praça em 1970. O velho, o feitor, se aproxima, eu sei pela repugnante mistura de perfume barato e cigarros.

– A puta era até bonitinha – ele fala.  – Carinha de anjo, mas terrorista. Você viu? – E toca o meu ombro tenso. Não o escuto, bato a esmo na máquina. Tenho que me concentrar para não escrever “Maldito. Maldição. Mal do mundo. Mal de porcos. Foda-se”. E vem um novo toque, mais firme, como uma intimidação:

– Viu ou não viu as carinhas de puta? Você.

Então levanto a custo o queixo e vejo um indivíduo de olhos verdes, cabelos brancos, boca murcha e sinais de animal velho na cara. Ele sorri, mas sei que o sorriso é ofensa, escárnio, gatilho apontado. E respondo, na altura da minha covardia:

– Eu? – “Darás a tua vida por mim?”, penso. – Não vi o jornal hoje.

– Não viu?! – O escarnecedor volta. – Olhe.

“Meu Deus, o que será de mim?”. Ele mostra a primeira página.

– Aqui. – Com o dedo seboso aponta Soledad. Com o dedo seboso aponta Pauline. Com o dedo seboso aponta Vargas. Com o dedo seboso aponta as fotos dos seis socialistas mortos. E volta para Soledad. – Está vendo?

Eu olho e mudo a vista. Eu vejo e baixo os olhos. Não sou um homem. Me sinto menos que um cachorro castrado. É doloroso fitar o rosto de Soledad, aquela a quem beijei na casa de Marx. Olho e  baixo os olhos. O velho parece notar minha aflição.

– Moça tão bonitinha… – o velho fala. – Desencaminhando os filhos da gente para o terror. – E olha para mim: – Mata!

“Eu a quero como um homem sozinho quer o seu amor”, penso. E resmungo, no limite:

– Os jornais mentem muito. – E continuo na cabeça o poema que não escrevo: “Eu a quero como um homem sozinho. Eu a quero com a ternura e ódio de um covarde cujo amor é segredo”. O poema que não escrevo se inscreve em meus olhos. E dilato as órbitas para secar a minha condenação. O velho me pergunta:

– Hem? O que você disse?

Eu quis responder com voz alta, à meia altura do meu sentimento: “eu disse que os jornais mentem muito”. Falando assim, falaria menos do que deveria: “É tudo mentira. As notícias são uma farsa criminosa. Matam a melhor juventude do Brasil”. Mas fiquei a balbuciar palavras inverossímeis:

– A – sim… tende? Assim…

– Assim o quê, rapaz?

– Assim.. ah… o jornal de hoje tem o resultado do vestibular.

– Vestibular que nada. O vestibular de hoje é a morte dos bandidos. – No que foi acompanhado por um idiota de plantão:

– Isso mesmo. Se eles estudassem, se fossem gente direita, não estavam mortos. A polícia não mata um jovem de bem.

Era tão estúpido e esmagador, que sorri amargo três vezes, assim como Pedro negou três vezes a Jesus. Sorri de imbecil, sorri da minha desgraça, sorri como um adulador sorri. Os três sorrisos unificados em um só, o da infâmia de desejar sobreviver em paz, não importava como. Sorri. E para não sorrir indefinidamente da minha abjeção, tive a infelicidade de completar com o máximo de coragem:

– Jornal exagera um pouco. Algumas vezes temos que dar uns descontos.

Para quê disse isso? Recebi pelos peitos:

– Mas eles eram terroristas, não eram? Isso é mentira?

“Jesus respondeu-lhe: Darás a tua vida por mim? Em verdade, em verdade te digo: Não cantará o galo sem que tu me tenhas negado três vezes”. Então baixei a cabeça e procurei bater à máquina. As denunciantes lágrimas insistiam em voltar aos meus olhos.

– Eles eram ou não eram terroristas? – O velho tornou”.

O mais grave, hoje, é que esse tempo sempre corre o risco de voltar. Os criminosos do “movimento” de 64 continuam impunes. Aquele velho sempre volta.  É nosso dever falar, escrever e divulgar o que sabemos. Dever e honra.  

 

¨      1º de Abril de 1964, o verdadeiro dia do golpe. Por Luiz Alberto Melchert

Eu tinha oito anos e estava no 2º primário. Aquele 1º de abril era um dia nublado com temperatura amena, tendendo para o fresco, como era típico em São Paulo dos anos 1960, quando o aquecimento global ainda não nos tinha atingido em cheio. Acordamos, como sempre, às seis horas para ir à escola. Como éramos sete, quatro em idade escolar, já fazíamos fila para tomar banho. Primeiro as meninas e os meninos em seguida.

Naquele dia, no entanto, não pusemos o uniforme do Colégio Assis Pacheco, de que tenho as piores lembranças. Nosso pai não passou Gumex nos nossos cabelos, nem fez o topete que nos deixava iguais a todos os colegas, como se o penteado fizesse parte do uniforme. Pusemos as roupas de ficar em casa. No café da manhã, observamos que nosso pai não estava com o indefectível terno. Foi quando minha mãe disse que estávamos em Estado de sítio e que ficaríamos todos em casa por ordem dos militares. Perguntei a ela: “Se estamos num sítio, por que continuamos na cidade?” Ela explicou que não era um sítio, mas um estado de sítio. Lembro-me bem que meu irmão, dois anos mais velho, questionou se estávamos ou não no estado de São Paulo. Honestamente, não me lembro de ter dado importância a qualquer explicação mais profunda. Estava mais preocupado em ir brincar no quintal.

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Obviamente, não correlacionamos aquele bem-vindo feriado com uma passeata que minha mãe assistiu pela televisão. Era um bando de mulheres bem vestidas andando por uma avenida de cujo nome não tínhamos a menor ideia. Só sei que não assisti desenho algum naquela tarde.

Para nós, aquele 1º de abril não fez diferença alguma. No dia seguinte voltamos às aulas. Hoje entendo que os militares, orientados pelos seus mentores americanos, foram extremamente hábeis no desviar da atenção do povo. Era o auge do Iê-iê-iê, com a Jovem Guarda tornando esperadas as tardes de domingo, com o programa do Roberto Carlos estrategicamente fixado para depois do jogo de futebol e do seriado estadunidense “Perdidos no Espaço”. Claro que se tratou de um sucesso advindo também do talento dos dirigentes da TV Record, mas, por se ter baseado em traduções de canções americanas como “Calhambeque” com Roberto Carlos ou  “Biquini Amarelinho” com Rony Cord (cognome de Ronaldo Cordovil), já se demonstrava sermos compelidos a nos americanizar.

A exemplo do que se via nos filmes, em que hordas de fãs aglomeravam-se em frente aos teatros e canais de televisão, o fenômeno repetiu-se aqui com intensidade inaudita para um país que se estava urbanizando aceleradamente. Cabe lembrar que São Paulo tinha ao redor de 1,5 milhão de habitantes e que só viria a alcançar o Rio de Janeiro em 1968, quando atingiu os três  milhões de moradores.

softpower forjou os idosos de hoje que pintam de cor-de-rosa os anos que se tornaram de chumbo logo a seguir. Costuma-se falar dos movimentos revolucionários, anti-imperialistas que se perderam na Serra dos Órgãos, da guerra entre o Mackenzie e a FFLCH na Rua Maria Antônia, do CCC (Comando de Caça aos Comunistas) invadindo o Teatro Oficina durante a apresentação da peça Roda Viva, mas não se fala de como se forjou uma geração de americanófilos. Não se fala que foi por aquele tempo que as calças rancheiras tornaram-se calças Jeans, que o surf dominou as praias do Rio, impondo um vocabulário execrado por Caetano Veloso na canção “Língua”. Não se fala que foram os anos anteriores à ditadura ficar descarada, como diria Hélio Gaspari, que se gestaram os homens de cabeça branca e as mulheres tingidas de louro que, aposentados em busca de pertencimento, aglomeraram-se em frente aos quartéis. Infelizmente, também estão brancos os cabelos de quem se opôs à ditadura. Carecemos de renovação, caso contrário, viveremos sempre com a espada de Dâmocles do fascismo sobre nossas cabeças.

 

Fonte: Jornal GGN

 

"Sabedoria na vida não depende da formação intelectual”,  afirma Drauzio Varella

Desde 1992, a Amazônia faz parte da rotina do famoso médico brasileiro Drauzio Varella. Mais especificamente a bacia do Rio Negro. De lá para cá, ele conta que empreendeu cerca de 150 viagens à região, coordenando um projeto de pesquisa farmacológica dentro do programa Escola da Natureza, iniciativa da Universidade Paulista (Unip).

"Na primeira vez [que lá estive] fiquei deslumbrado mesmo. E me sentindo culpado, porque nessa época eu já conhecia muitos países e ainda não conhecia a Amazônia de perto", comenta ele.

As viagens pela região renderam um livro O Sentido das Águas: Histórias do Rio Negro, que será lançado nesta quarta-feira (02/04) pela Companhia das Letras. A exemplo dos clássicos diários de viagem, a obra reúne histórias coletas e vividas pelo carismático médico em suas incursões pela mais importante floresta do planeta, destacando não só as paisagens naturais como, principalmente, os personagens humanos que compõem o ameaçado bioma.

Drauzio Varella se tornou celebridade no Brasil não só pelas suas qualidades como médico oncologista, mas pela facilidade de comunicação. De linguagem fácil, cuidadosa e acessível, ele é um dos principais divulgadores de informação médica no país, com quadros e aparições constantes em programas de TV, rádio e internet.

Aos 81 anos, Varella diz à reportagem que segue visitando a Amazônia pelo menos três vezes por ano — houve épocas em que as viagens ocorriam na média de uma por mês. Como fica claro na saborosa narrativa do livro, essa assiduidade transformou-o não só em um conhecedor daquela região, mas também em uma pessoa que transita e dialoga com muitos ribeirinhos, dos quais conhece nome, família e muitos causos.

O médico concedeu entrevista à DW na última sexta-feira, de sua residência em São Paulo, a partir de chamada de vídeo. Fez apenas uma exigência: que não fosse chamado de senhor, mas tratado simplesmente por você.

>>>> Leia a entrevista:

  • Nesses mais de 30 anos de viagens à Amazônia, quais foram as principais transformações? O que se destacou mais para você em 1992 e que, agora, é diferente?

Drauzio Varella:  O que me levou a essas viagens frequentes foi esse projeto de pesquisa. Na primeira vez fiquei deslumbrando mesmo. Realmente, me sentindo culpado. Nessa época eu já conhecia muitos países e não conhecia a Amazônia de perto. Vi aquele rio… Olha, que deslumbramento! Os rios europeus parecem riachos perto dos rios amazônicos. É um tipo de paisagem que tem impacto nos olhos da gente, uma imagem muito forte.

No decorrer dos anos, isso se modificou. Eu fiquei mais seletivo, meu olhar ficou mais detalhista. Aquilo é tão bonito que cega a gente, você não tem olhos para mais nada. À medida que o tempo vai passando, você olha mais para os reflexos do rio, para a floresta, para a composição da floresta. Essa coisa da biodiversidade é visível, não é teoria.

Quando mais você olha, mais perscrutador fica seu olhar, mais belezas você encontra. E isso depois se dirige aos habitantes da região, às pessoas, aos ribeirinhos, aos indígenas. Você começa a querer entender a história deles, de onde vem essa gente. Quando os portugueses chegaram, lá já havia milhões no Brasil.

  • Você menciona os celulares, que não começo não havia nenhum e agora toda criança, toda pessoa, está usando, todo mundo olhando para a tela. Como médico, acredita que esse uso abusivo seja uma doença uma epidemia?

Não sei se a gente pode chamar de doença isso. Eu sou um pouco cauteloso com esse termo. Para dar um exemplo: você mede sua pressão e deu 14 por 10. Tecnicamente, você tem hipertensão. Mas não posso dizer que você está doente. Posso dizer que você tem uma condição, que é a hipertensão, que poderá se transformar em doença. Você vai estar doente quando tiver um infarto no miocárdio, quanto tiver insuficiência renal.

Mas eu diria que essa é uma nova condição, uma condição devastadora, não só aqui nas grandes cidades como lá [na Amazônia] também. Porque essa tecnologia veio sem que nós nos preparássemos para ela. De repente, ela caiu e se disseminou numa velocidade impressionante. Aí você vê aquelas populações que viveram uma realidade completamente diferente dessa e isso dá uma impressão ruim, porque eles saem do universo em que viviam e passam a viver no universo das redes sociais.

Se as redes sociais causam problemas para pessoas que cresceram nas grandes cidades, têm um impacto grande na formação de nossas crianças, adolescentes e de nós mesmos, adultos, imagina em populações que viveram em comunidades distantes e, de repente, migram para cidades que já têm uma certa cultura urbana, cultura nem sempre no bom sentindo de cultura. Isso é um impacto muito maior.

  • Ou seja: o uso do celular é uma condição, mas as consequências são as "doenças" que aparecem?

Sem dúvida. Acha que tem cabimento? O índice de suicidas entre indígenas que vivem em suas comunidades, não há estudos, pelo menos que eu conheça, é baixo, certamente. Eles migram para as cidades e aí as crianças começam a se matar com 13, 14, 15 anos. Não faz o menor sentido, não é verdade? Alguma coisa acontece aí que leva essas crianças… Eu acho que é a perda da identidade. Quando chegam à cidade, começam com celular, rede social e o diabo. Eles não são mais os indígenas que eram. Passam a ser nada. Perde a identidade completamente.

  • No seu livro, em comum, quase todas as histórias trazem lições de sabedoria das pessoa simples e sábias, conectadas à natureza. Como aprender mais com elas?

A sabedoria diante da vida não depende da formação intelectual. Um homem, uma mulher que vive aquela realidade e consegue entender aquela realidade que está vivendo tem muito a nos ensinar. Eu conto no livro a história de, quando estávamos com um barco para fazer coletas, tinha um indígena tucano sentado num tronco de árvore caído na beira do rio. Ele estava olhando, com o olhar perdido. Duas horas depois, quando passamos novamente, ele estava exatamente na mesma condição. Um de nós perguntou: o que você está fazendo aí? Ele respondeu: estou sentado. Que resposta mais lógica que ele poderia dar? A gente é que tem essa coisa de "você não está fazendo nada", de ter de estar fazendo alguma coisa. Temos essa pressão para fazer, para se mexer, para construir. Ele estava sentado olhando o rio, era o que ele estava fazendo. Essa sabedoria é muito interessante.

  • Seu livro dialoga com a produção contemporânea de nomes de destaque dentre os povos originários, como o próprio escritor Ailton Krenak. A solução para os males da natureza e os próprios males dos seres humanos está no retorno aos conhecimentos ancestrais?

Não sei responder. Mas acho que o abandono dos conhecimentos ancestrais, dessa filosofia de vida, empobrece a gente.

  • E a evolução do desmatamento? Os números chocam, é claro. Mas na vida real isso também é perceptível, visível?

É visível, sim. Você passa por um lugar, volta cinco anos depois e vê uma parte desflorestada. Temos uma parcela botânica que estudamos no baixo Rio Negro, [no entorno do] penúltimo afluente antes de chegar a Manaus. Você vê as pessoas tirando madeira de lá. É uma coisa feita assim, sem muito disfarce. É feito com uma certa discrição, mas não muda.

  • Você é otimista com relação a isso? O desmatamento tem cura?

Eu acho que o grande equívoco aqui, quando a gente pensa na floresta amazônica, é pensar em um lugar ermo, um tapete verde ou um inferno verde. Você conversa com as pessoas e aí o cara diz: quando eu cheguei aqui, há 30 anos, não tinha nada. Não tinha nada! Tinha uma floresta! Derrubou, aí pôs o gado e plantou uma gramínea ali para alimentar esse gado. Ou plantou soja. Agora que não tem nada.

Naquela época tinha muita coisa, tinha uma tremenda biodiversidade. Tinha uma floresta ali, o bem maior da natureza. Mas se você não leva em conta que a floresta é habitada e isso tem de fazer parte de todo o pensamento, de todas as políticas públicas da região, você não preserva. Porque se morássemos em um lugar desse, sem comida para dar para os filhos, e chega nas cheias não tem peixe, não acha peixe, também iríamos derrubar. Porque entre uma árvore e meu filho, eu nem tenho escolha a fazer. Então, enquanto nós não pensamos sobre isso, enquanto não tivermos políticas públicas que dê condição de sobrevivência para essas populações, esquece.

Esquece, porque não vai ser possível. Nessa região em que a gente vai [fazer as pesquisas] tinha um angelim [espécie de árvore] maravilhoso. Devia ter 30 metros ou mais de altura. E eu passava sempre e achava uma coisa incrível. Um dia passei por lá e ele não estava. Aí conversei com um homem que morava ali e ele: ah, eu troquei por um guarda-roupas, eu precisava e não tinha dinheiro para comprar. Trocou uma maravilha da natureza como aquela árvore por um guarda-roupas que eu vi e que eu poderia ter comprado para ele. Mas nunca me ocorreu comprar. Achei que [a árvore] era perto da casa dele e ele iria preservar. Por que ele iria preservar?

 

Fonte: DW Brasil

 

Como barulho virou 'assassino silencioso' ligado a diabetes, doenças cardíacas e até demência

Estamos cercados por um assassino invisível. Tão banal que mal percebemos que está encurtando nossas vidas.

Ele está causando ataques cardíacosdiabetes tipo 2 e, agora, estudos o associam até mesmo à demência.

O que você acha que pode ser?

A resposta é o barulho — e seu impacto no corpo humano vai muito além de prejudicar a audição.

"É uma crise de saúde pública, pois temos um grande número de pessoas expostas em sua vida cotidiana", adverte Charlotte Clark, professora da Universidade St. George de Londres, no Reino Unido.

É uma crise sobre a qual não falamos.

Por isso, decidi investigar quando o barulho se torna perigoso, conversando com pessoas cuja saúde está sendo prejudicada, e verificando se há alguma maneira de solucionar nosso mundo barulhento.

Comecei a apuração me encontrando com Clark em um laboratório de som assustadoramente silencioso. Para ver como meu corpo reage ao ruído, fui equipado com um dispositivo que parece um smartwatch (relógio inteligente) robusto.

Ele vai medir minha frequência cardíaca e o quanto minha pele transpira.

Você também pode participar se tiver fones de ouvido. Pense em como estes cinco sons fazem você se sentir.

O que eu acho realmente irritante é o barulho do trânsito de Dhaka, capital de Bangladesh, que tem o título de cidade mais barulhenta do mundo. Imediatamente me sinto como se estivesse em um engarrafamento enorme e estressante.

E os sensores estão captando minha agitação — minha frequência cardíaca dispara, e minha pele transpira mais.

"Há evidências muito fortes de que o barulho do trânsito afeta a saúde do coração", diz Clark, enquanto o próximo som é preparado.

Somente os sons alegres do playground têm um efeito calmante no meu corpo. Os latidos dos cães e a festa na casa do vizinho de madrugada provocam uma reação negativa.

Mas por que o som está afetando meu corpo?

"Você tem uma resposta emocional ao som", afirma Clark.

O som é detectado pelo ouvido e transmitido para o cérebro, onde uma região — a amígdala — realiza a avaliação emocional.

Isso é parte da resposta de "luta ou fuga" do corpo que evoluiu para nos ajudar a reagir rapidamente aos sons, como o barulho de um predador avançando em meio aos arbustos.

"Então sua frequência cardíaca aumenta, seu sistema nervoso começa a entrar em ação, e você libera hormônios do estresse", explica Clark.

Tudo isso é benéfico no caso de uma emergência — mas com o passar do tempo, começa a causar danos.

"Se você for exposto por vários anos, e seu corpo reagir desta forma o tempo todo, isso aumenta o risco de desenvolver coisas como ataques cardíacos, pressão altaderrame e diabetes tipo 2", diz Clark.

É curioso que isso aconteça até mesmo quando estamos dormindo profundamente. Você pode achar que se adapta ao barulho. Era o que eu achava quando morava perto de um aeroporto. Mas a biologia conta uma história diferente.

"Você nunca desliga os ouvidos; quando está dormindo, continua ouvindo. Portanto, essas respostas, como o aumento da frequência cardíaca, estão acontecendo enquanto você está dormindo", ela acrescenta.

Barulho é um som indesejado. Os meios de transporte — o tráfego de carros, trens e aviões — são uma das principais fontes, mas também os sons gerados quando estamos nos divertindo. Uma festa de arromba para uma pessoa, pode ser um barulho insuportável para outra.

Encontrei Coco em seu apartamento no quarto andar de um prédio na charmosa Vila de Gràcia, em Barcelona, na Espanha.

Há um saco de limões recém-colhidos amarrado à sua porta, presente de um vizinho; sua geladeira contém uma tortilla preparada por outro; e ela me oferece bolos sofisticados feitos por um terceiro vizinho, que está estudando confeitaria.

Da varanda, é possível ver a famosa basílica da cidade, a Sagrada Família. É fácil entender por que Coco se apaixonou por viver aqui, mas isso vem acompanhado de um preço muito alto — e ela acha que será obrigada a se mudar.

"É extremamente barulhento... É barulho 24 horas por dia", ela me diz.

Há um parque para cães, para os donos passearem com seus cachorros, que "latem às 2h, 3h, 4h, 5h da manhã". E o pátio é um espaço público usado para tudo, desde festas de aniversário de crianças até shows que duram o dia inteiro e terminam com fogos de artifício.

Ela pega o celular e reproduz as gravações da música que está sendo tocada tão alto que faz vibrar o vidro das janelas.

Sua casa deveria ser um refúgio contra o estresse do trabalho, mas o barulho "traz frustração, dá vontade de chorar".

Ela foi "hospitalizada duas vezes com dor no peito" — e "não tem dúvida" de que o barulho está causando o estresse que está prejudicando sua saúde. "Há uma mudança física que eu sinto, isso com certeza faz algo com o corpo", diz ela.

Em Barcelona, estima-se que ocorram 300 ataques cardíacos e 30 mortes por ano apenas em decorrência do barulho do trânsito, de acordo com a pesquisadora Maria Foraster, que analisou as evidências sobre o barulho para a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Em toda a Europa, o barulho está associado a 12 mil mortes prematuras por ano, além de milhões de casos graves de distúrbio do sono, e de incômodo induzido pelo ruído, que pode afetar a saúde mental.

Me encontrei com Foraster em um café que fica separado de uma das ruas mais movimentadas de Barcelona por um pequeno parque. Meu medidor de som diz que o barulho distante do trânsito está um pouco acima de 60 decibéis.

Podemos conversar facilmente sem levantar a voz, mas este já é um volume prejudicial à saúde.

O volume crucial para a saúde do coração é 53 decibéis, ela me diz, e quanto mais alto, maiores os riscos à saúde.

"Estes 53 decibéis significam que precisamos estar em um ambiente bastante silencioso", afirma Foraster.

E isso é apenas durante o dia, pois precisamos de níveis ainda mais baixos para dormir. "À noite, precisamos de silêncio", diz ela.

Embora não se trate apenas do volume, o grau de perturbação do som e do controle que se tem sobre ele afeta nossa resposta emocional ao barulho.

Foraster argumenta que o impacto do barulho na saúde está "no mesmo nível da poluição do ar", mas é muito mais difícil de compreender.

"Estamos acostumados a entender que os produtos químicos podem afetar a saúde e que são tóxicos, mas não é tão simples entender que um fator físico, como o ruído, afeta nossa saúde além da audição", diz ela.

Uma festa animada pode ser considerada pura diversão, e um barulho intolerável para outra pessoa.

O som do trânsito tem o maior impacto sobre a saúde porque muita gente está exposta a ele. Mas o tráfego também é o som para chegar ao trabalho, fazer compras e levar as crianças à escola. Combater o barulho significa pedir às pessoas que vivam suas vidas de forma diferente — o que gera problemas por si só.

Natalie Mueller, do Institute for Global Health de Barcelona, me leva para uma caminhada pelo centro da cidade. Começamos em uma rua movimentada — meu medidor de som marca mais de 80 decibéis —, e seguimos para uma avenida tranquila e arborizada, onde o barulho cai para a casa dos 50 decibéis.

Mas há algo diferente nesta rua — ela costumava ser uma via movimentada, mas o espaço foi cedido para pedestres, cafés e jardins. Posso ver o fantasma de um antigo cruzamento pelo formato dos canteiros de flores. Os veículos ainda podem passar por aqui, mas devagar.

Lembre-se de que descobrimos no laboratório que alguns sons podem acalmar o corpo.

"Não é completamente silencioso, mas é uma percepção diferente de som e barulho", diz Mueller.

O plano inicial era criar mais de 500 áreas como esta, chamadas de "superquadras" — áreas voltadas para pedestres criadas pelo agrupamento de vários quarteirões da cidade.

Mueller realizou uma pesquisa sobre as superquadras projetando uma redução de 5% a 10% no barulho na cidade, o que evitaria cerca de "150 mortes prematuras" somente em decorrência do barulho a cada ano. E isso seria "apenas a ponta do iceberg" dos benefícios para a saúde.

Mas, na realidade, apenas seis superquadras foram construídas. O conselho municipal não quis comentar.

<><> Urbanização

Os perigos do barulho, no entanto, continuam a crescer. A urbanização está colocando mais gente em cidades barulhentas.

Dhaka, capital de Bangladesh, é uma das megacidades que mais crescem no mundo. Isso gerou mais tráfego, conferindo à cidade uma trilha sonora cacofônica de buzinas.

O artista Momina Raman Royal ganhou o rótulo de "herói solitário", à medida que seus protestos silenciosos chamaram a atenção para o problema do barulho na cidade.

Por cerca de 10 minutos todos os dias, ele fica no cruzamento de duas ruas movimentadas com um grande cartaz amarelo acusando os motoristas que buzinam alto de causar um enorme incômodo.

Ele assumiu a missão depois que a filha nasceu. "Quero acabar com todas as buzinas não só de Dhaka, mas de Bangladesh", diz ele.

"Se você observar os pássaros, as árvores ou os rios, ninguém está fazendo barulho sem os humanos, então os humanos são responsáveis."

Mas aqui também há o início de uma ação política. Syeda Rizwana Hasan, conselheira ambiental e ministra do governo de Bangladesh, disse que estava "muito preocupada" com os impactos do barulho na saúde.

Está havendo uma repressão às buzinas para reduzir os níveis de ruído — por meio de uma campanha de conscientização e uma aplicação mais rigorosa das leis existentes.

"É impossível fazer isso em um ou dois anos, mas acho que é possível garantir que a cidade se torne menos barulhenta e, quando as pessoas sentirem isso, elas vão se sentir melhor, quando a cidade for menos barulhenta, tenho certeza de que seus hábitos também vão mudar", ela afirmou.

As soluções para o ruído podem ser difíceis, complicadas e desafiadoras.

Devemos valorizar quando encontramos algum espaço em nossas vidas para simplesmente fugir do barulho, pois, nas palavras de Masrur Abdul Quader, da Universidade de Profissionais de Bangladesh, ele é "um assassino silencioso e um veneno lento".

 

Fonte: BBC News

 

 

Luís Nassif: 1964 e 2014, a banalidade do mal

A idade me permitiu assistir às Marchas com Deus, Família e Propriedade, que chegaram a Poços de Caldas através do Padre Patrick Peyton e seu bordão “família que reza unida permanece unida”.

Imigrante irlandês, ele foi trazido ao Brasil pelos irmãos Grace, católicos irlandeses-americanos donos de linhas de navio e da representação da Caterpillar no Brasil.

Quando completei 14 anos, dois meses após o golpe, ainda era lacerdista, influência de um avô udenista e amigo de Carlos Lacerda. Mudei pouco tempo depois, quando a polícia passou a espancar estudantes em uma passeata em São Paulo.

Minha intuição, de menino-rapaz de 14 anos, era de que o novo regime não podia ser do bem.

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Desde os 12 anos, nas Semanas do Estudante, eu debatia com os comunistas do Colégio Pelicano, os Furtados, o Gerinho. Depois, saíamos de lá para um bar, eles bebendo cerveja e eu bebendo guaraná.

Nosso sonho, aliás, era convidar Carlos Lacerda e Leonel Brizola para um debate na nossa Semana.

Quando veio o golpe, tudo mudou. Apareceu a figura execrável do “dedo duro”, delatando nossos amigos-adversários comunistas. Depois, delataram Sebastião Trindade – um comunista eletricista que semanalmente ia à casa de meus avós, para trocar informação sobre santos com minha avó Martina. E também o Zé Caé, filho do dono da funerária, um rinoceronte de força e um doce de amigo: no período em que meu avô ficou doente, ele esperava todo final de noite, quando minhas tias fechavam o Bar e Restaurante Serigy, para acompanhá-las até em casa, a meros dois quarteirões de distância.

A vida da cidade virou de ponta cabeça. O Marechal Juarez Távora, amigo da minha família, distribuiu armamentos para meio mundo, através da Cooperativa dos Cafeicultores. Até o dr. Fabrino, médico boêmio, foi apanhado com metralhadoras no porta-mala do carro e interrogado pelo delegado. Bastou dizer que tinha sido presenteado por Juarez, para ser solto.

Depois, no secundário, em São João da Boa Vista, fui denunciado ao 2o Exército por ter organizado um grupo de teatro que encenou a peça “Liberdade, Liberdade”, delatado por Acácio Vaz de Lima, um membro do CCC que estudava na Faculdade de Direito do Largo São Francisco.

Mesmo assim, no interior, sofríamos apenas os ecos da ditadura. No tiro de guerra, o Sargento Meyer – um carioca transferido para Poços – gostava de contar que, no Rio, montavam uma bateria de escola de samba, batendo em pratos e panelas, para abafar os gritos dos prisioneiros torturados.

Nas grandes cidades, instalara-se o terror: prisões arbitrárias, torturas, mortes, censura, sob os gritos histéricos de uma opinião pública e jornalística que ainda não acordara para o pesadelo fascista.

Todo o período anterior a 1964 foi de preparação. Meu avô me mandava exemplares do Ação Democrática, revista do IBAD, com discursos contra os comunistas, contra as estatais, contra a corrupção, tudo semelhante ao período mensalão-impeachment.

·        A ditadura da década de 2010

Esse mesmo clima eu vi formando-se na década de 2010, depois que Joaquim Barbosa encantou-se com a capa da Veja – sobre o menino pobre que salvou o Brasil – e deixou de ser o maior exemplo para se tornar a mancha mais vergonhosa da história do Supremo Tribunal Federal pós-Constituinte.

Nesse período, de reação indignada contra o arbítrio, fui intimado três vezes na Polícia Federal, em inquéritos destinados a identificar dissidentes na corporação. Alguma semelhança com o pós-64? Dois delegados, aliás, tiveram problemas de saúde e foram afastados da PF, meramente por discordarem de métodos ilegais.

Algumas vezes fui ameaçado fisicamente, as duas em padarias de Higienópolis, por direitistas enfurecidos, estimulados pelo jornalismo de esgoto que se organizara em defesa da ditadura próxima.

Não pense nas bestas feras da direita, que passaram a povoar os jornais, em sua demanda por jornalismo de ódio. Jornalistas do sistema caíram de cabeça no jogo do ódio.

Enquanto alimentavam o monstro, calavam-se, assim como toda a imprensa, ante um período de abusos jurídicos típico das ditaduras, que se espalhou por todos os poros da República. Fechavam os olhos aos abusos, à perseguição e a própria ABRAJI (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) montava uma força tarefa para auxiliar nas investigações.

·        A ditadura do Judiciário

Em todo período, fui colecionando os principais abusos e, com eles, montei um mapa da mente.

Alguns dos crimes contra a democracia, devidamente anotados:

  • Juiz federal que proibiu cultos africanos.
  • Promotora que montou uma denúncia contra 75 alunos da USP.
  • Desembargadores do TRF-4 que manipularam sentenças contra Lula.
  • Juíza que intimou um cientista de reputação internacional, por ter participado de um seminário sobre poderes medicinais da maconha.
  • Juiz que proibiu debates em universidades.
  • Promotor que fez uma série de denúncias falsas contra Haddad.
  • Delegada, juiz e procurador responsáveis pelo suicídio do ex-reitor da Universidade Federal de Santa Catarina.
  • Juiz que multou passeatas.
  • Juiz da vara de execuções que quase matou Genoíno, ao proibir sua saída do presídio para se tratar em uma clínica cardiológica, após ter sofrido uma cirurgia complexa em São Paulo.
  • Juiz e Procurador que denunciaram Lula pela licitação FX, fechada no governo Dilma, e cuja decisão pelo Gripen foi do brigadeiro comandante da Aeronáutica.
  • Procurador que ordenou a condução coercitiva de dezenas de funcionários do BNDES.
  • Juiz e Procurador que ordenaram o fechamento do Instituto Lula.
  • Juíza e Delegado responsáveis pela condução coercitiva de reitor e professores da Universidade Federal de Minas Gerais.
  • Delegado que algemou pés e mãos do  ex-governador Sérgio Cabral Filho.
  • Juiz que ordenou o desligamento de água e luz de escola ocupada por alunos do ensino médio.
  • Juiz e Procurador que tentaram apreender passaporte de Lula.
  • Juíza e Promotor que arruinaram a vida de estudantes, acusados falsamente no episódio em que se envolveu um espião do Exército.
  • Juiz e Procuradora que denunciaram o Museu do Trabalhador.
  • Juíza que autorizou escuta que chegava até o Palácio do Planalto, a pretexto de grampear o telefone de presos da Papuda.
  • Presidente de vários Tribunais Regionais Eleitorais, que autorizaram a invasão de universidades por policiais militares, na véspera das eleições de 2018.
  • Delegado que invadiu a casa de filho de Lula, tendo como álibi uma denúncia anônima.
  • Delegado que invadiu Instituto Florestan Fernandes, do MST.

E muito mais. Jamais foram apurados os atentados contra o Instituto Lula e contra o ônibus que transportava uma comitiva de Lula no Rio Grande do Sul.

Tudo isso se enquadra na psicologia de massa do fascismo, nas análises sobre a banalização do mal. Criado o clima, só os caráteres mais fortes resistem. Os demais se curvam aos seus interesses, ao espaço público conquistado e tratarão de aderir, para não correr riscos. Entram no embalo e passam a normalizar todas as práticas imorais.

A sorte da democracia brasileira é que, na ponta fascista, estavam pessoas de baixo nível político e intelectual. Houvesse um Golbery no grupo, a esta altura teríamos ingressado irreversivelmente no período AI-5. Todos os demais personagens reagiram da mesma maneira em 1994 a 2014.

¨      61 anos do golpe militar de 1964: lembrar nossos mortos para que nunca mais aconteça. Por João Ricardo Dornelles

Mais um dia 31 de março, mais um dia 1º. de abril, afinal tudo se passou há 61 anos atrás naquela madrugada do dia da mentira. 

Já são 61 anos daqueles acontecimentos dramáticos que mudaram a história do Brasil e afundaram o país em um longo período de trevas que durou 21 anos. Muita coisa aconteceu naqueles anos de chumbo, muita gente foi perseguida, muita gente perdeu o seu emprego, muita gente foi presa, muita gente foi exilada, muita gente foi torturada, muita gente foi morta, muita gente foi desaparecida: Rubens Paiva, Stuart Angel, sua mãe Zuzu, Fernando Santa Cruz, Eduardo Collier Filho, Mário Alves, Honestino Guimarães, Paulo Stuart Wrigth, Helenira Resende de Souza Nazareth, Vladimir Herzog, Manuel Fiel Filho, Oswaldo Orlando da Costa (Osvaldão), Iara Iavelberg, Marighella, Lamarca, Soledad Barrett Viedma e muitos mais tiveram o mesmo destino trágico. Também temos a multidão das vítimas desconhecidas, trabalhadores pobres, moradores das favelas, camponeses e populações indígenas chacinadas pela expansão das fronteiras agrícolas do agronegócio em formação e das atividades mineradoras. Foram 1.654 camponeses mortos e desaparecidos na ditadura, segundo um estudo coordenado pelo pesquisador da Universidade de Brasília (UnB) e ex-preso político Gilney Viana, número bem maior do que o constatado pela Comissão Nacional da Verdade. 

Segundo Eugênia Augusta Gonzaga, do Ministério Público Federal e Presidente da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, passam de 10 mil o número de mortos e desaparecidos políticos no Brasil, número bem superior aos 434 listados no Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade, de 2014. Em relação às populações originárias, a Comissão Nacional da Verdade só conseguiu investigar dez povos indígenas chegando a uma estimativa, já que não existe números oficiais, de cerca de 9 mil mortos em decorrência de ações da ditadura. Todos os pesquisadores, entidades indígenas e movimentos de direitos humanos informam que os números são bem superiores. Um verdadeiro genocídio.

Aos mortos e desaparecidos juntamos o grande número de torturados, exilados, demitidos, censurados (homens, mulheres e crianças) pelo regime ditatorial. O golpe de 1964 deu o sinal verde para a implementação da barbárie através de um modelo de desenvolvimento fundado nas práticas da acumulação primitiva permanente em nome de uma modernização autoritária e conservadora que concentrou a riqueza e acumulou capital nas mãos de uma burguesia colonial oligárquica e predadora. 

Assim, para (des)comemorar essa data tão vergonhosa, lembrar os mártires do povo brasileiro e representar todo esse sofrimento imposto pelos bolsonaros da época, relataremos um caso que poucos conheciam e que pode ser tão simbólico como o de Rubens Paiva, a Chacina de Quintino. 

O golpe militar começou na madrugada de 31 de março para 1º. de abril de 1964, instaurou um regime ditatorial, suprimiu direitos, prendeu, perseguiu, torturou e matou desde os seus primeiros dias. No entanto, a partir do dia 13 de dezembro de 1968, com a edição do AI-5, os generais-ditadores aprimoraram e ampliaram a sua política de extermínio das esquerdas, de quaisquer formas de oposição e do povo brasileiro. Era a fase da ditadura militar escancarada, com uma perseguição, iniciada no dia 1º. de abril de 1964, que se ampliou imensamente a partir de 1969. Foi o momento em que a repressão se expandiu, onde não apenas os militantes revolucionários e oposicionistas políticos foram perseguidos, mas também intelectuais, artistas, profissionais liberais etc. Foi o momento do exílio de Chico Buarque, da prisão e exílio de Gil e Caetano, da prisão de advogados de presos políticos como Heleno Fragoso. Também foi o momento da guerra suja, do terror de Estado, da criação dos DOI-Codis, da Operação Oban, das Casas da Morte, com a prática generalizada da tortura, das execuções e dos desaparecimentos. Foi o período em que desapareceram Rubens Paiva, Stuart Angel, Fernando Santa Cruz e muitos mais. 

E foi assim que, no dia 29 de março de 1972, em uma vila de casas no subúrbio carioca de Quintino, na casa 72 do número 8988 da Av. Dom Helder Câmara ocorreu um episódio que muitos só vieram a conhecer décadas depois. Naquele dia os jovens militantes da organização VAR-Palmares, Lígia Maria Salgado Nóbrega, Antônio Marcos Pinto de Oliveira e Maria Regina Lobo Leite Figueiredo foram executados à sangue frio por agentes do DOI-CODI. Durante décadas esse episódio foi esquecido. Ninguém o conhecia, nem mesmo muitos dos que lutaram contra a ditadura militar. Foram mais de 41 anos para que a história fosse revelada após uma intensa investigação da Comissão da Verdade do Rio de Janeiro (CEV-Rio). 

Somente após a rigorosa coleta de documentos, provas, visitas no terreno, entrevistas com moradores do local e com o médico legista responsável pelos documentos sobre os óbitos, a CEV-Rio em conjunto com a Comissão Nacional da Verdade (CNV) realizou no dia 29 de outubro de 2013 o evento “Testemunho da Verdade”, onde foram escutadas as falas de Fátima Setúbal, Lília Lobo e Iara Lobo de Figueiredo, familiares e amigos das vítimas Antônio Marcos Pinto de Oliveira, Maria Regina Lobo Leite de Figueiredo e Lígia Maria Salgado Nóbrega, assassinados pelas forças militares. A CEV-Rio apresentou os resultados da investigação que revelou a verdade, desmoralizando a versão oficial de que teriam sido mortos em meio à troca de tiros, mostrando como os militares impediram que fossem divulgados os laudos cadavéricos que comprovavam a prática de tortura e as execuções. O que se confirmou foi que foram presos, espancados e executados no local, inclusive com o esmagamento das mãos das vítimas por coronhadas de fuzil. A investigação foi realizada pela jornalista Denise Assis, sob a minha responsabilidade como membro da Comissão da Verdade do Rio de Janeiro. Vale a pena um pequeno parêntesis em relação ao trabalho de assessoria da Denise junto à CEV-Rio. A conheci naquele momento e imediatamente percebi que se tratava de uma das maiores e mais competentes jornalistas e pesquisadoras do mundo, sendo uma especialista nas questões referentes à ditadura militar no Brasil.  

Voltando à pesquisa da CEV-Rio, o trabalho realizado demonstrou que se tratava de uma execução, com os três sendo mortos, após terem se rendido, com tiros na cabeça e que em nenhum momento os militantes efetuaram disparos contra as forças da repressão. A documentação referente à Chacina de Quintino foi cedida para a Comissão Nacional da Verdade. 

Lembrar os 53 anos da Chacina de Quintino é um ato político de luta pela Memória, Verdade e Justiça que se junta ao filme “Ainda Estou Aqui”, à lembrança de outras vítimas da ditadura, seus familiares e contra os que continuam ameaçando as liberdades democráticas e os direitos humanos no nosso país. E é muito significativo que essa demonstração de repúdio à ditadura militar, aos ditadores e torturadores ocorra na semana em que o STF tornou réus os admiradores da barbárie Jair Bolsonaro e generais das forças armadas.

Mais uma vez, no final de outro mês de março, é um dever da cidadania relembrar tudo isso para que ninguém esqueça e para que nunca mais aconteça. Se eles ainda andam por aí é bom lembrar que também nós estamos aqui.

 

Fonte: Jornal GGN/Brasil 247