Internet: falta
debater o essencial
No
Brasil, o debate sobre como regular o funcionamento das redes sociais tem
acontecido via PL 2630/2020, equivocadamente apelidado de “PL das Fake News”.
Mas o tema cresce em todo o mundo. O escopo varia. Na lei européia, no Digital
Services Act (DSA), foram listadas 19 plataformas, todas com grande
número de usuários (“very large platforms”), de redes sociais a mecanismos de busca,
passando por mercados digitais, como Amazon e Aliexpress. O projeto brasileiro
deixa os mercados de fora, mas inclui serviços de mensagem, como WhatsApp e
Telegram. O DSA europeu foi concebido tendo a seu lado um gêmeo, para dar conta
do lado econômico. É o Digital Markets Act, ou DMA, onde se
desenham políticas em favor da soberania digital europeia. Nesse aspecto, o
projeto de regulamentação brasileiro é manco. Poderia ser descrito como um
projeto de regulação de redes sociais mais mecanismos de busca, e não como uma
lei abrangente para plataformas digitais.
Não
é difícil descobrir o porquê da lacuna. A esquerda tem usado intensamente as
grandes plataformas, a despeito de toda crítica que faz dos algoritmos e seus
viéses racista, sexista e político. Aprisionou-se no jardim murado das Big
Techs, demandando que o Estado mande o dono tirar as ervas daninhas, controlar
as pragas e, se possível, aparar a grama.
A
extrema-direita agiu de modo oposto. Percebeu que, para chegar às pessoas,
precisava usar de instrumentos não tradicionais. Surgiram os grupos de WhatsApp
– que não foi criado como rede social, mas virou. Como a rede é porosa, os
conteúdos extravasam e inundam as redes tradicionais. Para fazer com que certos
vídeos “bombem” no Youtube, os promotores de fake news o
promovem amplamente em sua vasta malha de grupos. A própria plataforma
terminará recomendando a peça, por identificar nela algo que atrai interesse,
audiência e dinheiro
Quando
as redes sociais de maior peso começaram minimamente a apertar o cerco contra a
desinformação, pressionadas pela opinião pública, a extrema-direita foi
constituindo outros espaços. Plataformas alternativas foram criadas ou
ocupadas, e passaram a abrigar os discursos mais claramente fascistas, e a
servir como espaços de formulação, além de zonas de interação internacional.
Exemplos: Parler, Rumble, Gettr, nomes que a
maioria de nós desconhece. Claro, eles têm a vantagem de contar com seus
bilionários de plantão para eventualmente desperdiçar dinheiro com um projeto
político – vide Elon Musk. Mas, ao mesmo tempo, incorporaram o discurso da
marginalidade contra o sistema, do radical rebelde. Um discurso que sustenta
também um pedido constante por recursos e contribuições voltados aos
apoiadores. Nada enche mais um cofrinho do que um banimento do YouTube.
A
esquerda tem sido muito mais conservadora. Claro, para nos defender do
nazi-fascismo, é natural nos unirmos na defesa da democracia liberal. E as
plataformas mais populares das Big Tech tornaram-se quase
sinônimos dessa mesma democracia liberal (umas mais, outras menos). Além disso,
não são mais os jornais e TVs que monopolizam os meios de contato com o público
final. O próprio conteúdo é majoritariamente acessado, hoje, via plataformas.
São elas que detém não só a agenda de contatos dos indivíduos, seus amigos,
parentes e rede de relacionamento, mas os meios para que a mídia atinja seu
público. Por isso, quando confrontadas com a possibilidade de uma regulação
incômoda, rapidamente as Big Techs ameaçam retirar os grandes
jornais de suas plataformas, por exemplo. Elas detêm hoje os meios de
distribuição de conteúdo.
Quando
começaram a ganhar relevância, ao oferecer “gratuitamente” serviços aos seus
usuários, as plataformas foram vistas como meios eficazes para atingir a
democratização das comunicações. Pareciam muito mais eficazes do que a própria
Internet ou a web de até então. Hospedar o site em um servidor próprio, ainda
que não fosse caro, facilmente era classificado como desperdício de recursos
pelas organizações sociais. Hospedar e transmitir vídeos era mais difícil e
custoso ainda – além de ineficiente, pois o YouTube entrega audiência, além de
facilitar o trabalho. Havia exceções: pressionadas por militantes mais ligados
à área de tecnologia, muitos deles vindos do movimento software livre, muitos
movimentos ainda procuravam manter suas estruturas próprias, embora sem abrir
mão dos espaços que surgiam.
Isso
praticamente acabou. As organizações encontram-se completamente
plataformizadas. Escrevem seus documentos coletivos no Google Docs. Relegam sua
produção audiovisual a alguma esquina do YouTube, ou ao palanque performático
do Instagram. Conversam entre si no WhatsApp/Telegram (algumas usam o Signal).
Debatem furiosamente na “esfera pública” do Twitter. Hospedam seus sites no
AWS, o serviço da Amazon. Pior, muitas repetem os cacoetes dos influencers para
tentar aumentar seu público.
Não
é o caso de se apontar dedos aqui, mas de refletir sobre nossas contradições.
Há pressões e contextos totalmente compreensíveis para chegar onde chegamos.
Porém, não podemos reduzir nosso horizonte. É preciso lembrar que a web não se
reduz às grandes plataformas e que é preciso retomar a autonomia tecnológica (e
estética) das organizações. A desplataformização é urgente. A web oferece um
conjunto excelente de protocolos abertos que permitem construir ambientes e
contatos para além das plataformas. Isso não significa abrir mão dos espaços
das Big Techs, que hoje monopolizam o contato com o público, mas
ter consciência que é prudente ter estratégias variadas para objetivos variados
(recrutamento, formulação, espalhamento). E que é preciso ter noção de que
parte da força social de um indivíduo ou organização passa por combater a
alienação que os espaços oligopolísticos produzem.
Aliás,
um modelo regulatório eficaz exige uma desplataformização forçada. Não adianta
só manter o poder das Big Techs sob rédea curta: é preciso
combatê-lo. É por isso que o modelo regulatório europeu, por exemplo, é feito
pelo conjunto DSA + DMA. Demanda responsabilidades das plataformas, mas também
força uma competição que dê alguma chance aos atores europeus. Do nosso lado,
do Sul, precisamos recuperar a imaginação, de modelos regulatórios que
favoreçam os protocolos abertos e livres da web, e a iniciativa de construção
de organizações e países soberanos digitalmente.
Fonte:
Outras Palavras

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