“A
escola tem que formar hereges, não soldadinhos passivos,” afirma filósofo
italiano
O renomado ensaísta, filósofo e professor italiano
Nuccio Ordine (Diamante, Calábria, 1958), que acaba de ganhar o Prêmio Princesa
das Astúrias de Humanidades, veio a Bogotá para participar da Feira
Internacional do Livro, e pudemos conversar sobre a sua obra e seus postulados,
que estão girando o mundo.
Nuccio Ordine acaba de publicar seu mais recente
livro na Espanha, Los hombres no son islas (Acantilado, 2023), obra que por
vários dias foi o livro mais vendido na categoria não ficção, na Amazon, em
todo o mundo, e que chega para fechar uma esplêndida trilogia crítica e devota
da cultura universal e de suas representações, que começou com A utilidade do
inútil, traduzido para 24 idiomas e publicado em 33 países.
Ordine foi professor convidado de centros como Yale,
Paris IV-Sorbonne e Instituto Max Planck para a História da Ciência, de Berlim.
Também é membro do Centro Italiano para Estudos da Renascença Italiana, da
Harvard University, e da Fundação Alexander von Humboldt.
<<< Eis a entrevista.
• Chegará
ou já alcançamos esse ponto da história em que a memória do passado, a arte, as
disciplinas humanas e o pensamento crítico morrem?
Hoje, a tecnologia nos faz entender que o passado é
obsoleto, não conta para nada. Toda a ideia da tecnologia é que o importante é
o amanhã, não o dia de ontem. Essa é uma visão consumidora da vida e da
cultura. Observe, por exemplo, o que acontece com o IPhone 17: consideram que
os 16 modelos que o antecedem não servem para nada, pois os novos programas e
aplicativos deixam de ser lidos por esses modelos. Essa é a forma como o
mercado diz que você deve sempre comprar coisas novas.
A cultura da tecnologia está ligada a um consumismo
permanente e eterno, cujo principal objetivo é nos tornar consumidores
permanentes, quase até a morte. Temos que defender uma outra visão de mundo. Em
Cem anos de solidão, Gabriel García Márquez nos fala sobre o risco de perder a
memória. O que significa perder a memória? Há uma frase maravilhosa de Milan
Kundera que pode descrever tudo isso: “A luta do homem contra o poder é a luta
da memória contra o esquecimento”.
Se esquecermos, se perdermos o contato com a
memória, vamos criar um mundo de bárbaros, um mundo de ignorantes, um mundo de
gente que não tem senso crítico para dizer não. Hoje, a tecnologia e seus
dispositivos nos fecham em um cárcere que não vemos, estamos felizes em viver
nesse cárcere. Por que será? Porque roubam a nossa intimidade em troca de
coisas práticas muito úteis, mas o preço que estamos pagando é muito alto.
No romance de Orwell, 1984, o Grande Irmão
controlava toda a sua vida, cada gesto, cada palavra, cada instante de sua vida
era registrado pelos olhos do Grande Irmão, e as pessoas o odiavam. Hoje, temos
os dispositivos, uns “grandes irmãozinhos” que roubam a nossa intimidade, mas
que queremos, e essa é a grande invenção da tecnologia: fazer com que queiramos
o cárcere. Isso não é ser contra a tecnologia, sabemos que é muito útil, mas
uma coisa é usar a tecnologia e outra muito diferente é ser usado por ela.
• Diderot
dizia que desprezava tudo o que não é útil, porque o tempo é curto demais para
perdê-lo com especulações ociosas. Quanto isso mudou, especialmente no século
XX?
Diderot era um provocador, seu pensamento era contra
a corrente, possui páginas muito afiadas sobre temas como o casamento, em que
questiona, por exemplo, que um homem diga a uma mulher “vou te amar por toda a
vida”, em um mundo no qual a eternidade não existe e a incerteza é muito forte.
É claro que hoje a sociedade pensa que o útil é fundamental, no econômico e o
material, mas existem outras utilidades e benefícios que são importantes,
existe um pão para o corpo e outro para o espírito.
Penso que hoje não vemos a importância do pão para o
espírito. Há um discurso maravilhoso que García Lorca preparou para a
inauguração de uma biblioteca em sua cidade natal, Fuente Vaqueros, no qual
disse: “Se eu não tivesse dinheiro e estivesse na rua, não pediria um pão,
pediria meio pão e um livro”. Se ficarmos apenas com o pão que o corpo precisa,
acabaremos vivendo em tempos de barbárie.
• Montaigne
disse algo no mesmo sentido, questionando o desejo de posse...
Claro, em seu momento, Montaigne nos disse que a
coisa mais valiosa na vida do homem havia se tornado possuir, comprar, vender,
ter dinheiro. Não, o mais importante na vida é aprender a desfrutar, porque
quando se aprende a desfrutar, é possível ser verdadeiramente feliz,
autenticamente feliz.
Tem muita gente milionária e pouco feliz. Por quê?
Porque não sabem desfrutar, possuem a ideia de que é preciso ganhar dinheiro,
porque esse dinheiro serve para ganhar mais dinheiro, assim, em um círculo
vicioso infinito, não conseguem ver que o dinheiro é um meio, não o fim, o
objetivo. Montaigne nos faz entender isso: quando se sabe desfrutar, apreciar
uma sinfonia de Mozart, ler um romance como Cem anos de solidão, sabe-se curtir
e aproveitar esse deleite para ser autenticamente feliz.
• Por
que esquecemos que escola vem do grego “scholé”, que significa “ócio, tempo
livre”?
Esquecemos isso sob a crença de que a escola deve
ser produtiva, mas o verdadeiro conhecimento tem suas raízes em atividades que
não têm uma finalidade prática, econômica. Qual é a tendência da escola e da
universidade de hoje? Estão sendo transformadas em empresas que devem produzir
e os estudantes são os clientes que compram o diploma. Este comércio está
corrompendo o verdadeiro objetivo da escola. A escola e a universidade não
servem apenas para formar profissionais, advogados, médicos... Isso é
importante, mas a principal tarefa é formar cidadãos cultos e solidários.
Além disso, um cidadão que estudou uma disciplina
por amor ao conhecimento não pode exercer seu trabalho com a ideia de ganhar
dinheiro. Se você influencia os estudantes com o discurso utilitarista presente
em todo o mundo, hoje, como fez Boris Johnson com a ideia de que é necessário
escolher as disciplinas que permitem ganhar dinheiro e tudo mais, bom, isso
significa que se eu tenho que estudar uma disciplina pensando na utilidade
econômica, devo deixar de lado o que amo. Se escolhi medicina ou engenharia
para ganhar dinheiro, acabarei sendo um perigo para os outros, porque um médico
e um engenheiro que se orientam pelo lucro, nessas disciplinas, vão causar
estragos. Esse é o problema ético que enfrentamos hoje.
Claro, como a correspondência que Hipócrates mantém
com Demócrito a esse respeito: o amor à vocação e ao saber.
Falo sobre isso em Clásicos para la vida, um dos
livros que, junto com A utilidade do inútil e Los hombres no son islas, fecha a
trilogia que escrevi. Os clássicos são sempre o guia, são as palavras dos
antigos que respondem às nossas questões. Os clássicos, na realidade, são
nossos contemporâneos, por isso Hipócrates nos faz compreender que um médico
que busca ser médico pelo lucro não é um médico, mas outra coisa muito
diferente.
• Talvez
seja por isso que Italo Calvino disse que os clássicos servem para entender
quem somos e aonde chegamos, ao mesmo tempo em que nos previne contra essa
ideia de que devemos ler os clássicos porque “servem” para algo, para concluir
dizendo que ler os clássicos é melhor do que não os ler.
Como a anedota de Sócrates, que, antes de morrer,
toca flauta e alguém lhe pergunta para que serve aquilo, justamente naquele
instante mortal, e ele responde: “Para aprender um pouco de música antes de
morrer”. É uma resposta fantástica, ajuda a compreender a ideia do prazer que
vem de fazer as coisas apenas pelo próprio prazer, como o coronel Aureliano
Buendía, que fabricava em sua oficina os peixinhos de ouro, vendia e derretia
as moedas que obtinha para continuar fazendo mais peixinhos.
• Atualmente,
você é professor na Universidade da Calábria, mas antes disso já esteve em
outras instituições acadêmicas (Yale, Paris, Nova York). Como é a sua aula, em
que se concentra e por que você questiona o modelo atual de universidade
entregue ao mercado?
Sempre digo as mesmas coisas aos meus estudantes: a
ideia de que os estudos não servem para ganhar dinheiro, servem para nos
permitir ser melhores, para compreender melhor o mundo que nos rodeia. Minha
profissão como professor sempre esteve orientada a criticar os valores
dominantes da sociedade para ensinar aos estudantes a dizer não. A escola tem
que formar hereges, não soldadinhos passivos que fazem o que a sociedade lhes
pede, como, por exemplo, ser consumidores passivos, soldadinhos que pensam que
a verdadeira dignidade humana é somente o dinheiro.
Já sabemos que um homem endinheirado pode carecer de
dignidade, enquanto aquele que não tem dinheiro, pode ser imensamente digno,
como os pescadores que conheci visitando um pequeno povoado palafita em Ciénaga
Grande de Santa Marta, que trabalham o dia todo para sustentar a família com
muito pouco, mas com uma imensa dignidade; como o professor que sai de
Barranquilla e passa duas horas em uma motocicleta e outras duas em uma lancha
para chegar a esses povoados perdidos para ensinar as crianças a ler e
escrever. Isso não tem preço.
Na Colômbia, hoje, paga-se melhor aos seguranças do
que aos professores, e proporcionalmente há mais, mas são os professores que
nos levam a sociedades mais humanas. Os filhos desses pescadores têm o direito
a aprender, a estudar, a pensar em uma profissão que não seja a de pescador
para toda a vida, só porque seus pais e avós são. É injusto. Por que não
oferecer aos jovens a oportunidade de fazer coisas muito importantes?
• Cita
Abraham Flexner para dizer que criar rivalidades entre conhecimentos
humanísticos e científicos só nos leva a um debate estéril. Ao contrário,
sugere que, junto aos humanistas, os cientistas têm muito a nos ensinar sobre a
utilidade do inútil. De fato, é assim?
Isso é muito valioso, é profético porque o
utilitarismo de hoje não só ameaça as humanidades, mas também a ciência, pois
por questão de rentabilidade são realizadas pesquisas a curto prazo e o
imediatismo nunca produziu grandes pesquisas. As grandes revoluções na ciência
foram produzidas por pessoas que não tinham pressões utilitaristas.
Se hoje temos o GPS, é porque Albert Einstein criou
sua teoria da relatividade, e se um jornalista tivesse perguntado a ele para
que servia sua teoria, certamente, teria dito que para conhecer o mundo, não
para fazer o GPS. O GPS é uma consequência. Hoje, sempre pensamos em produzir
algo no curto prazo para ganhar dinheiro, e por aí perdemos a importância da
boa pesquisa que não pede rapidez, pede lentidão.
• Os
livros e as bibliotecas sempre sofreram a perseguição de regimes totalitários.
Dos nazistas aos talibãs no século XX, a queima de livros foi habitual em
certos períodos. Devemos a próxima grande proibição a essa chamada cultura do
cancelamento, que você criticou veementemente?
Para mim, essa ideia de cancelar a história é uma
barbaridade, porque a história não pode ser cancelada, pode ser criticada, o
que é normal. A principal função da educação é aprender a criticar. A ideia de
que há pessoas censurando os clássicos e dizendo: “Você tem que ler isso, mas
não aquilo porque não é bom e também não leia esta página”..., essa forma de
censura é terrível. Quem pode dizer que eu tenho o direito de censurar os
clássicos?
Na história, são os regimes ditatoriais que sempre
pensaram assim. Para mim, é regressar à barbárie. Você pode criticar algo, mas
a história não pode ser reescrita, reescrever a história é como entrar no mundo
de Orwell. Em 1984, já falavam de um ministério que continuamente reescrevia a
história segundo os interesses que iam mudando. Isso é uma loucura. A história
deve ser respeitada e os clássicos sempre nos oferecem contradições.
Por exemplo, um tolo ignorante que compra o Orlando
furioso, de Ariosto, que é o clássico básico que permitirá a Cervantes escrever
Dom Quixote, se esse leitor ignorante ler versos misóginos naquele texto e
disser que esses versos devem ser eliminados, apagados, porque ofendem a
dignidade das mulheres, cai em um grande erro porque são justamente esses
versos que nos ajudam a entender a loucura da misoginia. E, além disso, porque
em outras páginas de Orlando furioso há versos nos quais se pergunta por que
uma mulher que tem três amantes é prostituta e um homem com três mulheres é um
Don Juan... Isso é de uma modernidade incrível, um clássico ajuda a entender
essas contradições. Temos que ler integralmente porque escolher uma página não
permite a compreensão do todo. Por isso, para mim, essas operações de
cancelamento são muito perigosas.
• Claro,
mas não é paradoxal que se cancele em nome de ideias progressistas?
Em nome do progressismo, também foram feitas coisas
que provocaram enormes danos ao verdadeiro progresso. O progresso é como um
fármaco. A raiz grega de fármaco significa “veneno e remédio”, o resultado
depende das doses. A mesma coisa que salva, pode matar. É a lógica do fármaco
mal utilizado. Se você tomar 25 aspirinas, talvez possa morrer; se tomar três,
pode se salvar. Isso não significa ser contra o progresso, significa não o usar
como um instrumento violento, que nos faça retroceder.
• Estamos
mais isolados do que antes, apesar das múltiplas redes de conexão que nos
cercam diariamente, com a virtualidade?
Essa é uma ilusão da tecnologia. A tecnologia
provoca a ilusão de que você está conectado 24 horas com o mundo todo, quando,
na realidade, você está trancado em seu quarto, sozinho. Os jovens e as pessoas
de hoje acreditam que a amizade está a apenas um clique no Facebook. Isto é uma
banalização da amizade que, na realidade, exige tempo, um abraço, uma relação
face a face. A construção da vida virtual nada tem a ver com a humanidade real
e, por isso, as próximas décadas podem ser muito perigosas para nós.
Fonte: Entrevista com Nuccio Ordine, para Erick C.
Duncan, para revista Cambio - tradução do Cepat, para IHU.

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