Sob
pretexto falso de revitalização, capitais expulsam os mais pobres do centro
As
reportagens exclusivas do Intercept Brasil sobre Flávio Bolsonaro e Daniel
Vorcaro ajudaram a revelar coisas importantes também sobre as trocas de favores
e contratos suspeitos no nível municipal. Uma delas é a relação entre a
prefeitura de Ricardo Nunes, do Movimento Democrático Brasileiro, o MDB, em São Paulo, e a ONG Instituto Conhecer
Brasil, o ICB.
A
apuração revelou que após o contrato de R$ 108 milhões com a entre o ICB e a
prefeitura para implementar Wi-Fi livre pela cidade, o ICB contratou uma
empresa para utilizar dados captados dos usuários para “marketing digital”, o que viola a Lei Geral
de Proteção de Dados, a LGPD, para fins de publicidade.
O caso
não surpreende, já que faz parte de um contexto comum de parcerias entre o
setor público, ONGs e a iniciativa privada nas cidades, onde o uso de espaços e
serviços públicos é instrumentalizado para aprofundar o lucro e a entrada do
capital.
Embora
pareçam situações diferentes, a relação com o ICB faz parte do mesmo modelo de
apropriação que está sendo promovido no projeto da “Times Square” paulista. O
projeto do Boulevard São João visava instalar telões de LED na intersecção
entre as avenidas São João e Ipiranga, atraindo também eventos periódicos, no
espírito de ocupação do espaço público pela iniciativa privada já fomentado
pela prefeitura e pelo governo de Tarcísio de Freitas, do Republicanos. Por
enquanto, a Justiça suspendeu o projeto.
Com
todos os males frequentes da maior cidade do Brasil, gosto de lembrar que há
uma coisa boa que é usada de referência no resto do mundo: a Lei Cidade Limpa e
sua regulação da publicidade e da poluição visual nos espaços públicos.
Com o
tempo, exceções estratégicas de cooperação com a iniciativa privada passaram a
ser exploradas, e o projeto proposto se enquadra no tipo de brecha que pode
desvirtuar ainda mais a lei e lançar moda em outras cidades brasileiras.
Mas o
problema não é só a publicidade extrema. Há um contexto geral baseado em
parâmetros colonizados sobre a estética de uma grande cidade e a ideia de que a
revitalização de espaços deve ser atravessada pelo capital, seja na forma de
prédios cada vez mais altos construídos por grandes incorporadoras ou na forma
da propaganda e grandes painéis de LED — como símbolo de modernidade e
tecnologia — que consomem energia, poluem visualmente e distraem motoristas
numa região feita mais para carros do que para pedestres.
Isso se
reflete em todo o país. Em várias metrópoles e capitais brasileiras, o avanço
do capital sobre o espaço urbano está piorando as condições básicas para uma
vida social pacífica, prazerosa, segura e adaptada à crise ecológica. Sabendo
que nossa urbanização é sinônimo de crise urbana, prefeitos e governadores
aliados do capital imobiliário estão prometendo melhorias através de grandes
obras de infraestrutura e iniciativas que trariam vida novamente a lugares
abandonados e/ou inseguros das cidades.
O foco,
claro, são regiões centrais ou com potencial alto de gentrificação, expulsando
a classe trabalhadora desses espaços, rumo à periferia já esquecida pelo poder
público.
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A formação de grandes cidades descompensadas
Foi na
década de 60 que a população urbana brasileira superou a população rural. Desde
então, a concentração aumentou tanto que, em 2022, 87% dos brasileiros viviam
em território urbano. É claro que nem toda área urbana é igual. Nem mesmo a
classificação do que é urbano é consenso geral e o Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística, o IBGE, tem que se debruçar cuidadosamente para traçar
uma distinção entre rural e urbano, enquanto o rural também passa por
transformações relacionadas ao modo de vida e de produção no século 21. Também
há urbanizações e urbanizações, o que me leva a um ângulo específico: o das
metrópoles e capitais.
De
acordo com a hierarquia urbana brasileira, São Paulo é uma grande metrópole
nacional, assim como Rio de Janeiro e Brasília. Além disso, há várias
metrópoles como Belém, Manaus, Fortaleza, Salvador, Goiânia, Belo Horizonte,
Curitiba, Porto Alegre, entre outras, inclusive Campinas, no interior de São
Paulo, que é a única metrópole que não é uma capital estadual.
Nesses
casos todos, a população ultrapassa 1 milhão, podendo chegar a um arranjo
populacional de mais de 20 milhões de habitantes no caso da região
metropolitana de São Paulo. Também há outros tipos de cidades, sendo capitais
estaduais ou cidades de referência no interior, com população que pode variar
entre 200 mil e cerca de 1,6 milhão.
Esse
contexto é importante, porque quando falamos dos problemas das grandes cidades,
há risco de reduzir o tema aos casos mais extremos de concentração de
população, atividade comercial e conexão. Mas se trata de uma realidade
generalizada, ainda que em graus diferentes, e cuja influência chega até nos
lugares não-metropolitanos, pois reflete um modelo de sociedade desigual e
atravancado.
Parafraseando
Ermínia Maricato, uma de nossas maiores especialistas em urbanismo: o Brasil é
um país em que o planejamento urbano não existe, até temos planos, mas eles não
são implementados.
Formalmente,
há planos, leis, projetos, diretrizes e tudo que puder ser aportado à gestão do
estado nos níveis federal, estadual e municipal. Mas, presos que somos ao nosso
histórico colonial e de economia dependente capitalista, não soubemos organizar
nossas cidades para que fossem mais democráticas, para que recusassem a
hierarquia elitista do espaço, para que direitos sociais fossem plenos e
assegurados, e para garantir também uma melhor relação com o meio rural de modo
que este também fosse valorizado como espaço de vivência e empregos.
Por
isso, não espanta que as nossas cidades estejam cada vez mais insustentáveis –
no sentido ambiental, econômico e social da palavra. Ao mesmo tempo em que
cidades nos soam como sinônimo de oportunidade – de emprego, de estudo, de acesso – também
remetem a imagens específicas negativas.
Se
fizermos um exercício coletivo, é provável que pensemos em congestionamento de
carros, poluição sonora constante, violência, enchentes e desafios sanitários
antes de pensarmos no acesso a museus, campus universitários, hospitais de
referência, polos gastronômicos, festivais e parques.
Para
piorar, também pensaremos no alto custo dos aluguéis, no domínio de
construtoras e seus edifícios cada vez mais altos, e na crescente presença da
especulação imobiliária que determina uma lógica de segregação espacial.
Essa
lógica se beneficia também das dificuldades de pautar, executar e manter
transporte verdadeiramente público de qualidade, numa sociedade que associa o
carro particular à mobilidade, mesmo que isso signifique perder 2-3h ao dia
preso no engarrafamento.
Há,
portanto, uma normalização a ser questionada. O modelo de cidade dominante no
Brasil remete ao cansaço, ao excesso e à desigualdade. Por conta disso,
moradores de cidades, principalmente metrópoles, passaram a achar que todos os
males urbanos são preços a pagar por morar e trabalhar nesses territórios.
É claro
que o povo cobra melhorias, pois não quer ser vítima de assaltos, não quer
pagar tarifas altas para pegar um ônibus e também acha inaceitável a água suja
que chega na torneira da periferia. Mas a ideia do que pode ser melhor atinge
um teto baixo, pois depois disso, parece que não há muito o que fazer. Parece
que se você mora em uma cidade grande, você tem que tolerar um nível moderado
de caos – ao menos no Sul Global.
Respostas
sistêmicas são necessárias, mas o que recebemos do poder público –
principalmente sob gestão da direita, mas não exclusivo a ela – equivale a
intervenções que parecem bonitas no papel, mas privilegiam os interesses do
mercado e frequentemente trazem também aumento do custo de vida, padronização
do espaço urbano, redução de áreas públicas, além de mais trânsito, mais
barulho e mais pressão sobre a infraestrutura básica existente.
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O setor público convida e otimiza a especulação
As
grandes construtoras, a especulação imobiliária e seus gestores públicos
aliados se aproveitam dessa visão da cidade “dura” para vender falsas soluções.
Os termos utilizados variam, mas tornou-se comum apresentar iniciativas de
parceria público-privada como grandes oportunidades de modernização e melhorias
urbanas.
Algumas
vezes, ofertam coisas que ninguém pediu, como entregar um parque público já bem
cuidado ao setor privado para a realização de eventos e instalação de comércio.
Já não basta tanto shopping center, até o parque tem que virar um centro
comercial também.
Em
outros casos, usam demandas legítimas para propor projetos que dizem resolver o
problema, mas acabam intensificando e adicionando outros. Em cidades onde a
região central se encontra abandonada e perigosa, considera-se fundamental
recuperar espaços de moradia, para que sejam ocupados, vivos e cuidados no
cotidiano.
Isso
exige também nova infraestrutura, de preferência colocando ciclovias, separando
áreas exclusivas para pedestres e bem integradas à natureza que precisa existir
em ambiente urbano. Essas mudanças colaboram para trazer mais seguranças às
regiões e podem restituir senso de comunidade e coesão social a eixos urbanos
tomados pelo medo e o individualismo.
Movimentos
de moradia que ocupam prédios abandonados e outras edificações entregues à
especulação imobiliária nas regiões centrais sabem da importância disso tudo,
mas não são essas famílias trabalhadoras que as prefeituras parecem querer em
sua visão de reocupação e revitalização urbana – afinal, construtora ganha
pouco reformando prédio para trabalhadores precarizados morarem.
O
negócio é derrubar o que permitirem e construir tudo novo, de preferência com
bastante concreto e vidro, alguns arranha-céus onde for permitido, e o que mais
favorecer a visão de adensamento urbano que tem garantido lucros bilionários ao
setor imobiliário no Brasil. Tudo isso em um contexto que despreza adaptação
climática real, já que adensamento sem inclusão social também negligencia o
impacto ambiental de áreas já fragilizadas.
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Revitalização para quem?
As
chuvas em Pernambuco evidenciam a desastrosa conexão entre o acirramento das
mudanças climáticas e a ausência de adaptação urbana real, deixando partes
inteiras de Olinda alagadas, além de causar soterramentos e deslizamentos com
vítimas fatais na região metropolitana de Recife.
Enquanto
isso, planeja-se o “Distrito Guararapes” no centro da capital. Também
apresentado pela prefeitura como uma oportunidade de revitalização e
requalificação urbana, o projeto de concessão privada, idealizado junto ao
BNDES e o Instituto Jaime Lerner, foi mal dialogado com a população da cidade e
da região central.
De
acordo com matéria do site Marco Zero, a revitalização se dará por meio de
investimento público direto na concessão e além dela. Apesar do discurso ser de
interesse social, os 873 apartamentos do Distrito Guararapes terão em média
35m2 e irão custar cerca de R$310 mil, registrando valor R$ 8.770 por metro
quadrado, acima da média da cidade.
O Minha
Casa Minha Vida entra forte no desenho, mas a verdade mora nos detalhes. A
precificação indica o foco nas faixas 3 e 4, atendendo famílias com renda
mensal mais alta. O projeto também normaliza moradias minúsculas em áreas
centrais que pouco provavelmente conseguem atender famílias com mais de 2 ou 3
membros.
Esses
“detalhes” passam batido quando a propaganda desse tipo de projeto visa mostrar
apenas benefícios gerais da modernização. Quem não quer calçadas renovadas? Ou
novas ciclovias e espaços culturais? Porém, quando esses projetos não são
acompanhados de redistribuição social e democratização das cidades, a tendência
é a gentrificação.
Quem já
morava ali talvez não consiga usufruir das melhorias e se manter no local, uma
vez que o mercado reorganiza o espaço. E novos moradores talvez não sejam
realmente moradores, uma vez que empreendimentos tecnicamente destinados à
habitação social estão sendo desvirtuados ao redor do país para atender
investidores.
Ivan
Moraes, jornalista e ex-vereador de Recife, apontou no ano passado que o
problema não é fazer propostas que, em tese, ajudam nos problemas urbanos. A
questão passa por método e, claro, pelos demais interesses que são
privilegiados nessas propostas. Nas palavras de Moraes:
“É
reconhecer que conceder partes da cidade à iniciativa privada não é um gesto
neutro. Que concessões moldam usos, preços, permanências e expulsões. Que
parques públicos com eventos pagos não são detalhe administrativo, mas sinal de
uma lógica que precisa ser discutida com profundidade.”
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Destruir para construir
Quem
acompanhou o violento tratamento do governo do estado de São Paulo com os
moradores da Favela do Moinho – bastante documentado pela equipe do Intercept
Brasil – é testemunha de que uma gestão aliada à especulação imobiliária e ao
modelo de cidade segregada não se preocupa com gente.
O
objetivo é limpar terreno, destruindo edificações e pertences, efetivamente
apagando histórias e quebrando espíritos, para que nenhum pertencimento prévio
consiga reivindicar o espaço novamente.
Como é
de praxe, governos alegam que precisam retirar moradores para combater o crime
organizado e avançar na farsa da guerra às drogas. Seria o necessário para
trazer segurança à toda a região central e tornar o ambiente atrativo para
novos empreendimentos. Mas em vez de trabalhar com as comunidades para
estruturar sua região, melhorar as moradias, garantir equipamentos públicos e
criar um ecossistema social capaz de resistir ao enraizamento do crime, apenas
uma solução é apresentada: a remoção dos moradores para dar novo propósito à
área. No caso da Favela do Moinho, seria um parque e um novo megacomplexo para o governo de São Paulo.
Quando
um mínimo de procedimento legal é cumprido, oferecem a promessa de novas
moradias, em outro lugar. Mas Tarcísio de Freitas, obviamente, largou os
moradores da Favela do Moinho na mão.
O
Intercept Brasil precisou usar a Lei de Acesso à Informação para verificar que
apenas 227 das 854 famílias que viviam ali conseguiram uma moradia definitiva.
Outras recebem um pífio auxílio-moradia para subsidiar aluguel e outras sumiram
do sistema de monitoramento do governo.
Enquanto
isso, o governo promoveu um leilão para escolher o consórcio privado a executar
a obra do complexo administrativo, além de sua gestão e zeladoria por 30 anos.
Prevendo um investimento de R$6 bilhões de reais e contrapartida mensal
milionária do governo estadual, a área que antes abrigava famílias
trabalhadoras passa para as mãos do consórcio MEZ-RZK Novo Centro, formado por
cinco grandes empresas do ramo.
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Para o povo, as sobras
É muita
obra, o tempo inteiro. Quando não são obras de manutenção obrigatória feitas de
qualquer jeito e a qualquer hora do dia e da noite, são obras para a iniciativa
privada. Isso dá a impressão de que as cidades avançam e se tornam lugares mais
desenvolvidos. Porém, se olharmos bem de perto, veremos que a orientação geral
é de tornar a cidade um grande espaço de ativos, compatível com o tradicional
rentismo brasileiro.
Embora
haja uma trajetória de queda recente no déficit habitacional brasileiro, nossa
análise não pode ser simplesmente quantitativa. Queremos pessoas com casa, para
que ninguém mais passe dificuldades para manter um teto sobre sua cabeça. Mas
também queremos que sejam boas moradias, conectadas a equipamentos públicos de
qualidade e que forneçam os meios para usufruir de espaços comuns. No contexto
das metrópoles, é para ir além de morar nelas para enfim viver bem nelas.
É
também sobre oferecer meios de vida e trabalho vantajosos no meio rural e nos
pequenos municípios para que ninguém se sinta forçado a migrar para uma cidade
caótica em busca de um emprego ou oportunidade de estudo.
As
lutas por acesso e direito à cidade precisam ser acompanhadas de um bom debate
de reforma urbana, que não pode estar alheio à reforma agrária, e que precisa
ressignificar o investimento público nesses espaços.
Se a
lógica de ordenamento urbano continuar mirando no investidor imobiliário, na
incorporadora e na concessão privada, além de acreditarmos que a vida na cidade
será sempre um pouco ruim, passaremos a crer que a especulação será sempre um
preço a pagar por qualquer melhoria que seja.
Fonte:
Por Sabrina Fernandes, em The Intercept

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