IA:
A grande farra à borda do abismo
O
Goldman Sachs, o megabanco de investimento, acredita que a “IA é o único grande
negócio dos EUA”. E a bolha de investimentos em IA está ficando a cada mês
maior. Na última semana, a Anthropic, fabricante de modelos de IA, anunciou que
estava emitindo ações para potenciais investidores por meio do que é chamado,
no jargão do mercado de ações, de “oferta pública inicial” (initial public
offer ou IPO). A Anthropic tem a
pretensão de acompanhar a IPO planejada pela Space X de Elon Musk, que chegará
ao enorme montante de US$ 1,8 trilhão —
92 vezes a receita anual da companhia.
A
Alphabet, controladora do Google, também planeja levantar US$ 85 bilhões em
financiamento por meio de ações — sua primeira oferta de papéis ao mercado em
mais de duas décadas. Juntos, esses três grandes IPOs podem alcançar uma
arrecadação de cerca de US$ 4 trilhões. Equivalem a um terço de todo o valor
das IPOs emitidas nos nos EUA desde 1980 (em valores ajustados pela inflação)!
As empresas SpaceX, OpenAI e Anthropic estão atualmente gerando prejuízos. O
potencial de venda dos serviços dos modelos de IA – em especial o da fantástica
corrida da SpaceX para Marte –, permanece desconhecido.
A IA é
um grande negócio para os investidores do mercado de ações dos EUA e uma grande
aposta para a economia norte-americana.
Isso porque a quantidade de investimento de capital feita pelas empresas
chamadas de “hiperescalares” em modelos de IA, centros de dados e outros
equipamentos é impressionante. Como fatia do PIB dos EUA, essa onda de
investimento está prestes a superar em muito àquela provocada pela expansão
ferroviária do século XIX.
Em
dezembro de 1996, o então presidente do banco central dos EUA (o Federal
Reserve), Alan Greenspan, caracterizou como “exuberância irracional” o boom das
ações de tecnologia, mídia e telecomunicações, que estão acontecia. Quase 30
anos depois, podemos dizer o mesmo sobre o boom da IA. Esse boom de
investimentos já é muito maior do que do que foi a bolha pontocom, originada de
investimento na internet e ocorrida no final dos anos 1990.
Em
2025, empresas americanas investiram quase US$ 1,5 trilhão em equipamentos e
programas de computador no campo da tecnologia de informação (TI). No auge da
bolha de pontocom, o montante chegou a US$ 466 bilhões num mesmo trimestre, ou
US$ 829 bilhões ajustados pela inflação. As empresas hiperescalares Microsoft,
Alphabet, Amazon, Meta e Oracle planejam investir centenas de bilhões nos
próximos cinco anos em centros de dados para fornecer o poder computacional
necessário para rodar os modelos de IA que estão sendo construídos. Espera-se
que os investimentos de capital aumentem 20% ao ano, uma taxa de crescimento
nunca vista antes nesse setor.
O
crescimento do PIB dos EUA agora é impulsionado quase exclusivamente pelo
aumento dos gastos com tecnologia. Se ele começar a cair, a economia dos EUA
entrará em recessão muito rapidamente — mesmo que os investimentos em
tecnologia caiam apenas um pouco, digamos de 4% a 6%, como aconteceu após booms
tecnológicos muito menores nos anos 1960 e durante a recessão de 2009.
Como
mostrei em meu último post sobre a evolução dos lucros corporativos nos EUA,
eles aumentaram significativamente no período recente. Mas, segundo Brian Green, em uma postagem recente,
cerca de 80% do aumento nos lucros corporativos não financeiros dos EUA veio da
Nvidia e das empresas hiperescalares. O mercado de ações está cada vez mais
concentrado em um punhado de ações de empresas empenhadas no desenvolvimento de
IA. O montante representa agora cerca de 40% da capitalização de mercado do
S&P 500, segundo dados do Bank of America.
Os
maiores lucros, portanto, estão sendo obtidos por uma pequena fração da
economia. Um pequeno grupo de empresas obtém retornos extraordinários na
corrida para desenvolver a capacidade em infraestrutura de IA. O risco que a
economia norte-americana está correndo, segundo ainda Brian Green, vem do fato
de que o mercado de ações “está sendo apoiado numa mesma base estreita. Se os
retornos esperados da infraestrutura e das plataformas de IA começarem a
faltar, as consequências não irão afetar somente as ações das empresas de
tecnologia que, por ora, estão sendo altamente valorizadas.”
Como já
apontei em postagens anteriores, até recentemente o enorme investimento em IA
havia sido financiado principalmente pelos lucros já obtidos pelas próprias
empresas hiperescalares. Mas, dada a impossibilidade de encontrar receitas
adicionais suficientes para autofinanciar as próprias despesas de capital, elas
e seus fornecedores de equipamentos passaram a recorrer cada vez mais ao
financiamento de mercado.
A
primeira alternativa tem sido o “financiamento circular”, ou seja, aquele
obtido por meio de investimentos cruzados entre Microsoft, OpenAI e outras do
ramo. Como ele funciona? Basicamente, uma empresa hiperescalar que tem dinheiro
sobrando – a Microsoft por exemplo —
compra hardware da Nvidia, da AMD e de outros fornecedores. A Nvidia
então usa essa receita para comprar uma participação multibilionária na OpenAI.
A OpenAI, por sua vez, usa o dinheiro para garantir a computação nos centros de
dados da Microsoft. A própria Microsoft
também investe na OpenAI e estabelece uma divisão mútua de receita; assim, uma
parte das receitas da OpenAI vai para a Microsoft – esse fluxo também corre em
sentido contrário –, já que as duas empresas usam os produtos uma da outra.
Assumindo
que a Microsoft possa gastar US$ 100 bilhões para encomendar equipamentos para
seus centros de dados, a Nvidia, a AMD e outras fornecedoras de equipamentos
podem obter esses US$ 100 bilhões como receita. Estes usam o dinheiro para
investir na OpenAI (por exemplo), que emprega os recursos para reservar
capacidade de centro de dados junto à Microsoft. A Microsoft recebe esse
investimento na OpenAI como receita, transformando assim seu gasto de US$ 100
bilhões em bilhões de receita!
Contudo,
mesmo esse sistema já não tem sido suficiente. Por isso, cada vez mais as
empresas hiperescalares estão recorrendo a empréstimos para levantar o dinheiro
para os seus investimentos. Os gigantes da tecnologia dos EUA estão emitindo
dívidas não só no mercado interno, mas em todo o mundo. O Google/Alphabet está
liderando esse movimento.
Em
resumo, primeiro, elas investiram com seus próprios fundos; depois cada uma
investiu em outra; depois, elas passaram a pegar empréstimos dos bancos e dos
chamados fundos de crédito privado. Agora, elas transferem o risco de sucesso
ou fracasso de suas aplicações para os investidores do mercado de ações. Se todo esse investimento não entregar os
retornos esperados, isso afetará fortemente o setor financeiro e a economia em
geral.
As
empresas de IA e as hiperescalares dizem que não ninguém deve se preocupar,
pois é esperado que as receitas cresçam 15% ao ano. Ao se fazer a suposição
heroica de que não haverá custos, essas receitas adicionais se reverteriam em
lucros. No entanto, mesmo sob essa suposição extremamente otimista, os retornos
implícitos esperados sobre os investimentos mostram-se altamente negativos para
todas, exceto para a Amazon.
Se as
empresas hiperescalares precisarem gerar, digamos, um retorno de 10% sobre o
investimento, teriam que encontrar entre 2 e 5 triilhões adicionais de receita
por ano. Isso se afigura como bem difícil já que esse grupo de empresas tem
gerado receitas de apenas US$ 1,5 trilhão por ano.
A
alternativa é que o investimento planejado em centros de dados, chips de
computador etc. nunca se concretize. Isso pode acontecer caso os investidores
em ações tornem-se mais cautelosos. Também pode ocorrer que o endividamento
como forma de financiamento dos centros de dados torne-se mais difíceis de
obter. Uma análise do JP Morgan constatou que mais de 60% da capacidade dos
centros de dados planejada para estar concluída em 2027 ainda não está em
construção. Outros 7% estão ainda mais atrasados. O que acontecerá se essas
empresas anunciarem cortes em alguns de seus planos de investimento?
Será
que essas empresas “herocas” do setor de IA, tais cono a OpenAI e a Anthropic,
vão entregar os retornos que os seus proprietários e os seus investidores estão
esperando? Os CEOs dessas corporações estão otimistas. Nos últimos três anos,
desde que a OpenAI lançou o ChatGPT, eles afirmam que os ganhos acumulados de
produtividade têm sido da ordem de 0,3% a 1% ao ano. Nos próximos três anos,
estimam que os ganhos de produtividade acelerem para 1,4%. Nota-se que os
executivos nos EUA e no Reino Unido mostram-se muito mais otimistas do que os
seus congêneres na Alemanha e na Austrália.
Eles
acreditam que esses ganhos de produtividade serão alcançados por meio da
dispensa de mão de obra. Líderes
empresariais esperam que o quadro de funcionários em suas empresas caia cerca
de 0,7% nos próximos três anos. Os executivos nos EUA e no Reino Unido esperam
quedas muito mais pronunciadas no emprego do que executivos na Alemanha e
Austrália.
Contudo,
nos últimos três anos, não foi visto tal impacto da IA no emprego. Logo, tudo
não passa de expectativa otimista das empresas. Além disso, a pesquisa de
tendências feita pelo “Outlook survey of US census bureau” mostra que, desde o
segundo trimestre de 2025, as companhias com 50 funcionários ou mais não
aumentaram o uso de IA. As empresas ainda não sabem como usar a IA de forma
eficaz e estão cada vez mais preocupadas com as desvantagens que essa
utilização pode trazer.
Entre
essas desvantagens incluem-se as “alucinações” (ou seja, resultados fictícios
inventados pelos modelos de IA), os quais parecem ser inerentes aos assim
chamados “grandes modelos de linguagem” ou LLMs (ou seja, “languages large
models” ou LLMs). Um estudo descobriu que, para um conjunto de treinamento de
32.000 palavras, a taxa média de alucinações produzidas pelos MALs era de
6,8%. Quando isso foi ampliado para
128.000 palavras, a taxa média de alucinações subiu para 10%. Isso exige um
gasto de tempo para monitoramento e correção o que tem de ser feito por
trabalhadores humanos.
Outro
problema vem do fato de que os MALs são projetados para serem bons em tudo; por
isso, eles não são muito bons em coisas específicas quando comparados a
aplicativos especializados. Um relatório sobre o uso de IA no desenvolvimento
de software encontrou um impacto explosivo no início, com programadores criando
ou editando quase 300% mais arquivos. Contudo, esse aumento foi reduzido pela
metade para 150% quando as empresas receberam o número de trabalhos submetidos
para análise. Em consequência, houve um encolhimento de cinco vezes para um
aumento de cerca de 30% no momento dos lançamentos completos do software.
Além
disso, quando pesquisadores analisaram se o aumento da produção de softwares
assistidos por IA gerou um aumento no uso por parte dos clientes, encontraram
poucas evidências. O aumento significativo nos lançamentos de aplicativos
móveis no último ano não veio acompanhado de nenhum aumento nos “downloads”. A
maioria dos novos aplicativos não consegue conquistar nem mesmo um público
modesto.
Enquanto
isso, a OpenAI gastou cerca de US$ 6 bilhões em 2025 e gastará US$ 17 bilhões
em 2026. Até 2028, só os custos de inferência (treinamento) devem crescer para
US$ 121 bilhões com prejuízos projetados em US$ 85 bilhões. O gasto de caixa da
Anthropic é bem menor, mas ainda assim chegou a 3 bilhões de dólares em 2025.
A menos
que as empresas que desenvolvem os LLMs consigam obter grandes quantias de
novas receitas nos próximos anos, as perdas aumentarão exponencialmente,
especialmente considerando que o preço atualmente cobrado por ‘token’ não é
ainda o verdadeiro custo de computação.
Se as empresas de IA cobrassem o preço de custo por token, as perdas
poderiam diminuir, mas a demanda por LLMs poderia diminuir ainda mais.
Apesar
disso, o hype em torno da IA continua tão grande que praticamente todos os
investimentos privados nos EUA agora são em equipamentos e programas dessa
tecnologia. Nos últimos três anos, o crescimento anual médio dos investimentos
em equipamentos de TI foi de 11% e, em programas, 8%. Enquanto isso, os
investimentos em todas as outras partes da economia dos EUA juntos caíram 1,6%
ao ano.
Atualmente
há duas economias dentro de uma maior nos EUA. Existe a economia de tecnologia
e depois há todo o resto. Nos últimos quatro trimestres anteriores ao primeiro
trimestre de 2026, 93% do crescimento do PIB dos EUA se deve apenas ao
investimento em tecnologia (embora grande parte das compras sejam importações e
não produzidas internamente).
Trata-se
de uma bolha prestes a estourar. Após a bolha de inversões em tecnologia, mídia
e telecomunicações (TMT), o investimento privado fixo caiu mais de 12,7% entre
2000 e o final de 2002, à medida que uma recessão se instalava nos EUA. No ano
inicial após o estouro da bolha TMT, os investimentos em tecnologia caíram 12%,
enquanto os investimentos fixos em geral caíram 7,6%.
Gita
Gopinath, ex-economista-chefe do FMI, calculou que uma queda do mercado de
ações devido à bolha em IA equivalente àquela que encerrou o boom das empresas
ponto-com apagaria cerca de 20 trilhões de dólares da riqueza das famílias
americanas e outros 15 triilhões no exterior, o suficiente para estrangular os
gastos dos consumidores e induzir uma recessão global.
Essa
também é a visão do Fundo Monetário Internacional (FMI). O FMI teme que as
empresas de IA possam não entregar lucros tão altos quanto os previstos
atualmente. O colapso dos booms anteriores de investimentos atingiu cerca de 1
ponto percentual em média do crescimento real do PIB dos EUA. Mesmo uma
correção moderada nas avaliações de ações de IA reduziria o crescimento global
em 0,4%.
“Combinado
com ganhos de produtividade dos fatores totais abaixo do esperado e uma
correção mais significativa nos mercados de ações, as perdas globais de
produção podem aumentar ainda mais, concentradas em regiões fortemente
tecnológicas como Estados Unidos e Ásia” diz o Fundo.
Um
outro estudo constatou que mesmo uma queda muito leve no investimento no setor
de alta tecnologia, de apenas 3%, reduziria o crescimento real do PIB dos EUA
em 1%, ou metade da taxa atual. O
impacto seria maior na Europa.
Nada
disso significa que a IA não vai, em algum momento, entregar maior
lucratividade para as empresas envolvidas e maior produtividade para a economia
dos EUA como um todo. Mas isso não
acontecerá antes do estouro da bolha de investimentos – como ocorreu na mania
ferroviária dos anos 1870 e na bolha pontocom do final dos anos 1990. Como
outros estudos mostraram, levará uma década ou mais para que a IA se torne uma
tecnologia generalizada capaz de produzir
resultados satisfatórios.
Para os
trabalhadores, a IA representa um problema diferente. Para o capital e as megaempresas de mídia, o
objetivo é tornar a IA uma tecnologia lucrativa. Ora, isso só pode ser feito
dispensando mão de obra e impedindo qualquer tentativa de regular as suas
aplicações e seus usos. Se a IA gerar sucesso para o capital, isso ocorrerá
apenas às custas da maioria das pessoas trabalhadoras e suas famílias.
Fonte:
Por Michael Roberts | Tradução: Eleutério Prado, no Economia e Complexidade

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