Do
social-desenvolvimento à reconstrução nacional: economia brasileira entre
inclusão, austeridade e desenvolvimento
Quando
os historiadores econômicos analisarem as primeiras décadas do século XXI no
Brasil, dificilmente enxergarão uma trajetória linear. O que encontrarão será
uma sucessão de projetos distintos de país, marcados por avanços, rupturas e
disputas em torno do papel do Estado, do mercado e da própria ideia de
desenvolvimento.
Entre
2003 e 2014, consolidou-se um ciclo de expansão econômica acompanhado por forte
inclusão social. A partir de 2015, iniciou-se uma inflexão que culminaria em
uma experiência prolongada de austeridade, desmonte das capacidades estatais e
enfraquecimento dos instrumentos de planejamento público. Desde 2023,
observa-se uma tentativa de reconstrução nacional em um contexto internacional
muito diferente daquele que marcou os governos Lula e Dilma no início do
século.
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Compreender
essa trajetória é essencial para entender não apenas o passado recente, mas
também os caminhos que se apresentam para o Brasil nas eleições de 2026.
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O ciclo do social-desenvolvimentismo
A
chegada de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República, em 2003,
representou uma inflexão importante na trajetória econômica brasileira. A
estabilidade monetária conquistada na década anterior foi preservada, mas
passou a conviver com uma agenda voltada à expansão do emprego, da renda e da
inclusão social.
Ao
longo dos dois governos de Lula e do primeiro mandato de Dilma Rousseff, o país
viveu um dos períodos de maior mobilidade social de sua história. O salário
mínimo acumulou ganhos reais significativos. Milhões de brasileiros ingressaram
no mercado de consumo. O desemprego atingiu níveis historicamente baixos. O
Bolsa Família tornou-se referência internacional. O crédito expandiu-se,
universidades federais foram criadas e ampliadas, e instituições como a Caixa
Econômica Federal, o Banco do Brasil e o BNDES voltaram a desempenhar papel
relevante no financiamento do investimento produtivo.
O
crescimento econômico passou a ser impulsionado pela incorporação de amplas
parcelas da população ao mercado interno. Em vez de concentrar seus benefícios
em grupos restritos, o crescimento produziu efeitos distributivos que
contribuíram para reduzir a pobreza e a desigualdade.
Muitos
analistas classificaram essa experiência como uma forma de
neodesenvolvimentismo. A definição, entretanto, permanece objeto de debate.
Para
Luiz Carlos Bresser-Pereira, principal formulador do novo-desenvolvimentismo, o
Brasil não chegou a implementar plenamente essa estratégia. Embora tenha havido
ampliação das políticas sociais e fortalecimento da ação estatal, permaneceram
problemas estruturais importantes, especialmente a manutenção de juros elevados
e de uma taxa de câmbio frequentemente apreciada.
Por
essa razão, talvez seja mais apropriado definir aquele período como uma
experiência de social-desenvolvimentismo. Seu principal motor não foi uma
estratégia de competitividade baseada no câmbio, mas a ampliação do emprego, da
renda e do consumo popular.
Os
resultados sociais foram expressivos. A pobreza caiu, a desigualdade diminuiu,
o acesso ao ensino superior foi ampliado e o Brasil passou a exercer papel mais
ativo nos BRICS, no G20 e em diversos organismos multilaterais.
Mas o
modelo também revelou limitações importantes.
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O limite da financeirização
Apesar
dos avanços obtidos entre 2003 e 2014, uma questão central permaneceu
praticamente intocada: a estrutura financeira construída a partir dos anos
1990.
A
estabilização monetária proporcionada pelo Plano Real foi uma conquista
histórica. Entretanto, ela veio acompanhada de um regime macroeconômico baseado
em elevadas taxas de juros, ampla liberdade para os fluxos de capitais e
crescente influência do sistema financeiro sobre a formulação da política
econômica.
Quando
Lula assumiu a Presidência, esse arranjo já estava consolidado.
Embora
os governos petistas tenham ampliado investimentos públicos, fortalecido
políticas sociais e promovido significativa inclusão econômica, não conseguiram
alterar estruturalmente o papel central desempenhado pelos juros na economia
brasileira.
A
tentativa mais importante ocorreu entre 2011 e 2013, durante o primeiro governo
de Dilma Rousseff. O Banco Central promoveu uma redução expressiva da taxa
Selic e o governo buscou ampliar o crédito produtivo e reduzir spreads
bancários.
Pela
primeira vez em décadas, discutia-se a possibilidade de o Brasil conviver com
taxas de juros mais próximas dos padrões internacionais.
A
experiência, porém, fracassou. A resistência dos setores financeiros, a
desaceleração da economia mundial e dificuldades de coordenação econômica
contribuíram para sua reversão.
O país
retornou rapidamente ao padrão histórico de juros elevados.
Esse
talvez tenha sido o principal limite do ciclo iniciado em 2003. Enquanto o
Brasil avançava na inclusão social, permanecia submetido a uma estrutura
econômica que continuava privilegiando a rentabilidade financeira em detrimento
do investimento produtivo de longo prazo.
Em
outras palavras, construiu-se um importante projeto de inclusão social sem que
fosse possível romper integralmente com a lógica da financeirização.
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A inflexão de 2015
A
partir de 2015, a economia brasileira entrou em uma fase distinta.
A
desaceleração da economia mundial, a queda dos preços das commodities, os
conflitos políticos internos e erros de condução econômica contribuíram para o
esgotamento do ciclo anterior.
Nesse
contexto, a nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda do governo
Dilma marcou uma mudança importante de orientação econômica.
A
adoção de uma agenda de austeridade centrada no ajuste fiscal foi interpretada
por amplos setores desenvolvimentistas como uma tentativa de responder às
pressões dos mercados financeiros mediante cortes de gastos, contenção dos
investimentos públicos e busca de superávits primários.
O
resultado foi oposto ao esperado.
Longe
de restaurar a confiança dos agentes econômicos, o ajuste aprofundou a
desaceleração, enfraqueceu a base social do governo e agravou a crise política
que culminaria no impeachment de Dilma Rousseff em 2016.
Aquele
momento marcou o início da ruptura com o ciclo social-desenvolvimentista.
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A restauração liberal
O
governo Michel Temer transformou a austeridade em política de Estado.
A
Emenda Constitucional nº 95, conhecida como Teto de Gastos, tornou-se o símbolo
mais visível dessa mudança. Pela primeira vez na história brasileira,
impunha-se um limite rígido à expansão das despesas públicas por um horizonte
de vinte anos, independentemente do crescimento populacional, das necessidades
sociais ou dos desafios do desenvolvimento.
A
premissa era simples: reduzir o papel do Estado para estimular a confiança dos
mercados.
Na
prática, os resultados foram ruins. O investimento público recuou. Projetos de
infraestrutura foram desacelerados. Universidades, instituições científicas e
centros de pesquisa passaram a enfrentar restrições orçamentárias crescentes. A
capacidade de planejamento estatal foi progressivamente enfraquecida.
O
governo Jair Bolsonaro aprofundou essa orientação sob a liderança de Paulo
Guedes. Privatizações, desregulamentação, flexibilização trabalhista e
contenção fiscal tornaram-se os pilares centrais da política econômica. A
prometida explosão de investimentos privados jamais ocorreu. A produtividade
permaneceu estagnada. A indústria continuou perdendo participação na economia.
O crescimento foi modesto e a reprimarização produtiva avançou. Ciência,
tecnologia, inovação e planejamento estatal deixaram de ocupar posição
estratégica.
A esse
quadro somou-se a pandemia de Covid-19, que atingiu o Brasil de forma
particularmente severa entre 2020 e 2022. Além da tragédia humana, com centenas
de milhares de mortes, a crise sanitária aprofundou a recessão, ampliou o
desemprego, pressionou as contas públicas e interrompeu cadeias produtivas em
diversos setores. Embora a pandemia tenha afetado economias do mundo inteiro,
no Brasil, seus impactos foram agravados pela condução errática da emergência
sanitária, pelos conflitos entre diferentes níveis de governo e pela ausência
de uma estratégia nacional articulada capaz de combinar proteção à saúde
pública com recuperação econômica. Ao final daquele período, o país
encontrava-se mais desigual, mais fragilizado institucionalmente e com menor
capacidade de planejamento do que havia uma década antes.
A
experiência revelou uma lição frequentemente ignorada pelos defensores do
liberalismo econômico: mercados são mecanismos eficientes de coordenação, mas
não substituem a ação estratégica do Estado nos processos de industrialização,
inovação tecnológica e transformação estrutural. Muito menos na redistribuição
da renda nacional.
Nenhum
país hoje desenvolvido percorreu esse caminho sem planejamento público,
financiamento de longo prazo e políticas nacionais de desenvolvimento.
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Reconstrução em um mundo transformado
Quando
Lula retornou à Presidência, em 2023, encontrou um país marcado não apenas
pelos efeitos da austeridade e do desmonte institucional dos anos anteriores,
mas também pelas profundas cicatrizes econômicas e sociais deixadas pela
pandemia.
A
rivalidade entre Estados Unidos e China tornou-se o principal eixo da
geopolítica mundial. A transição energética ganhou centralidade. A inteligência
artificial começou a redefinir cadeias produtivas inteiras. A emergência
climática passou a influenciar decisões de investimento, comércio e política
industrial.
O
desafio já não consistia apenas em reconstruir o que havia sido desmontado.
Era
necessário preparar o Brasil para uma nova etapa do desenvolvimento.
Nesse
contexto, surgiram iniciativas como a Nova Indústria Brasil, a retomada dos
investimentos públicos, o fortalecimento das políticas sociais e a recuperação
gradual das capacidades estatais.
Ao
mesmo tempo, novos temas passaram a ocupar posição estratégica: a bioeconomia
amazônica, a transição ecológica, a reindustrialização tecnológica, a soberania
digital e a integração produtiva com os países do Sul Global.
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A reconstrução e os limites da austeridade
A volta
de Lula à Presidência interrompeu o ciclo de desmonte institucional observado
nos anos anteriores. Programas sociais foram retomados, investimentos públicos
voltaram a crescer, políticas industriais reapareceram na agenda governamental
e o Estado recuperou parte de sua capacidade de planejamento.
Entretanto,
a reconstrução ocorreu sem uma ruptura mais profunda com o regime
macroeconômico herdado das décadas anteriores.
A
aprovação do novo arcabouço fiscal, sob a condução do ministro Fernando Haddad,
substituiu o Teto de Gastos criado em 2016, mas preservou a preocupação central
com a obtenção de resultados fiscais capazes de sinalizar compromisso
permanente com a estabilidade das contas públicas. Embora mais flexível que o
modelo anterior, o novo regime continuou subordinando parte importante da
política econômica aos critérios de equilíbrio fiscal exigidos pelos mercados
financeiros.
Ao
mesmo tempo, o país permaneceu convivendo com algumas das mais elevadas taxas
de juros reais do mundo. Durante boa parte do período recente, a taxa Selic
manteve-se em níveis extremamente elevados, impondo custos significativos ao
investimento produtivo, à expansão industrial e ao financiamento de longo
prazo.
Essa
realidade revela uma das grandes contradições da economia brasileira
contemporânea. Enquanto o governo busca promover reindustrialização, transição
ecológica, inovação tecnológica e ampliação da infraestrutura, o custo do
capital continua funcionando como um poderoso freio ao investimento.
Não se
trata apenas de um debate técnico sobre política monetária. Trata-se de uma
disputa em torno do próprio modelo de desenvolvimento nacional. Juros
persistentemente elevados favorecem a valorização dos ativos financeiros e a
remuneração da riqueza já acumulada. Em contrapartida, dificultam a expansão da
produção, reduzem a competitividade industrial e limitam a capacidade do Estado
de financiar projetos estratégicos.
A
experiência recente sugere que o Brasil avançou na reconstrução de políticas
públicas, mas ainda não resolveu um dos problemas estruturais que atravessam
sua história econômica: a predominância da lógica financeira sobre as
necessidades do desenvolvimento produtivo.
Essa
questão ajuda a explicar por que o crescimento tem sido mais modesto do que
muitos esperavam. Também ajuda a compreender por que o debate sobre juros,
investimento público e papel do Estado continuará ocupando posição central na
disputa política e econômica dos próximos anos.
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O que está em disputa em 2026?
As
eleições de 2026 transcendem a escolha entre candidatos, partidos ou coalizões
políticas. O que estará em disputa é a própria interpretação da experiência
brasileira das últimas duas décadas e, sobretudo, a definição de qual projeto
de desenvolvimento deverá orientar o país nos próximos anos.
De um
lado, encontra-se a visão segundo a qual o crescimento econômico depende
fundamentalmente da contenção dos gastos públicos, da redução do papel do
Estado e da ampliação dos espaços de atuação do mercado. Trata-se de uma
perspectiva que ganhou força após 2015, orientou os governos Temer e Bolsonaro
e continua influenciando parcelas importantes do debate econômico nacional.
De
outro, está a compreensão de que países de grande dimensão territorial,
populacional e econômica, como o Brasil, dificilmente conseguem superar o
subdesenvolvimento sem planejamento estratégico, investimento público, política
industrial, fortalecimento da ciência e da tecnologia, expansão da
infraestrutura e coordenação estatal de longo prazo.
A
experiência recente oferece elementos concretos para essa avaliação. O ciclo
iniciado em 2003 demonstrou que crescimento econômico, geração de empregos e
inclusão social podem caminhar simultaneamente. O período posterior mostrou que
a simples retração do Estado não produz automaticamente investimentos,
inovação, produtividade ou desenvolvimento sustentado.
Mas a
questão de 2026 vai além do balanço do passado. O mundo atravessa uma
transformação histórica marcada pela transição energética, pela revolução da
inteligência artificial, pela reorganização das cadeias produtivas globais e
pela crescente disputa tecnológica entre as grandes potências.
Nesse
novo cenário, países que não investirem em conhecimento, inovação,
infraestrutura e capacidade produtiva correm o risco de ocupar posições cada
vez mais periféricas na economia mundial.
O
desafio brasileiro já não consiste apenas em crescer. Consiste em decidir como
crescer, em quais setores concentrar esforços e quem deverá se beneficiar dos
frutos desse crescimento.
Trata-se,
em última instância, de escolher entre um modelo baseado predominantemente na
valorização financeira, na austeridade permanente e na remuneração do capital
rentista, e outro orientado pela expansão da capacidade produtiva, pela
inovação, pela soberania tecnológica e pela inclusão social.
A
eleição de 2026 decidirá, portanto, muito mais do que a ocupação temporária do
Palácio do Planalto. Ela ajudará a definir se o Brasil continuará buscando
reconstruir suas capacidades produtivas, científicas e tecnológicas ou se
retornará a uma estratégia que, nos últimos anos, produziu baixo crescimento,
fragilidade industrial e aumento das desigualdades.
Em um
mundo cada vez mais competitivo, tecnológico e marcado por disputas
geoeconômicas de grande escala, essa escolha poderá influenciar não apenas o
desempenho da próxima década, mas o lugar que o Brasil ocupará no século XXI.
Fonte:
Por Maria Luiza Falcão, em Brasil 247

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