Bolsa
Família, uma política de saúde pública
Mesmo
quando os discursos preconceituosos em relação ao Programa Bolsa Família (PBF)
já parecem enterrados no passado, volta e meia as direitas brasileiras
recolocam o questionamento à sua validade na ordem do dia. No entanto, o Brasil
já conta com evidências científicas que reafirmam o sucesso do programa.
Se
figuras de proa do empresariado do país acusam o programa de estimular a
acomodação, pesquisadores e indicadores oficiais mostram que o programa é um
catalisador de integração e avanços sociais. E isso inclui, de forma marcante,
a saúde pública.
Na
semana passada, o Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde
(Cidacs), da Fiocruz Bahia, realizou evento online para apresentar o documento
Efeitos do Programa Bolsa Família na Saúde da População Brasileira. O trabalho
reúne e sistematiza pesquisas realizados por importantes especialistas da Saúde
no Brasil, vários deles com passagens por governos e experiência na coordenação
de políticas públicas.
“Vivemos
uma nova onda de desinformação sobre o Bolsa Família, que culpabiliza os pobres
pela sua pobreza. Este conjunto de evidências dá materialidade e argumentos
para a construção de uma rede de proteção social. Ao lado do SUS, da rede de
educação pública, da assistência social, o PBF complementa toda esta rede, em
grande escala”, resumiu Tereza Campello, diretora Socioambiental do BNDES no
atual governo, com uma longa trajetória no campo da saúde pública e coletiva.
Um
tesouro público
O
trabalho apresentado faz parte do projeto Evidências e Síntese e traz em
documento de oito páginas um resumo, munido de numerosa bibliografia, dos
avanços em saúde provocados pelo programa. As conclusões foram possíveis graças
ao ativo mais precioso do Cidacs: os dados de 100 milhões de brasileiros
registrados no CadÚnico, o cadastro do governo que concentra dados de todos os
beneficiários de políticas assistenciais. “Depois do IBGE, quem tem a maior
base de dados do Brasil é o CIDACS”, resumiu Rômulo Paes, presidente da
Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).
Tal
grupo foi denominado “Coorte dos 100 milhões”, a base de dados de onde as
pesquisas sistematizadas no documento têm extraído as conclusões que associam o
Bolsa Família a melhores indicadores de saúde. Talvez a mais impactante das
descobertas é a de que 700 mil vidas foram salvas e 8 milhões de internações
hospitalares evitadas em função do Bolsa Família desde sua criação, em 2004.
Ministra
do Desenvolvimento Social e Combate à Fome e coordenadora do Plano Brasil Sem
Miséria nos governos Dilma, Campello é diretora Socioambiental do BNDES no
atual governo e tem uma longa trajetória no campo da saúde pública e coletiva.
“O PBF
está associado a melhorias em vários indicadores, incluindo taxas mais baixas
de partos prematuros e mortalidade infantil, menos mortes por doenças
cardiovasculares e outras enfermidades, incluindo aquelas relacionadas à saúde
mental. Essa tese foi inequivocamente demonstrada”, afirma o documento.
Como
afirmado pelos debatedores reunidos na vídeoconferência, o programa reduziu
casos de doenças cardiovasculares, tuberculose, transtornos mentais e até
suicídios, dentre outros agravos.
“As
mães que recebem Bolsa Família têm 15% menos chance de morrer por alguma causa
associada à maternidade. Isso sobe para 30% se o benefício para aquelas que
receberam por 8 anos ou mais. O PBF reduz em 17% os déficits estaturais, ou
seja, dificuldades de crescimento. Entre os beneficiários, a incidência e
mortalidade por hiv/aids é significativamente menor. Hospitalização por
transtornos mentais psiquiátricos caem 23%, por álcool e drogas caem 17% no
geral e 41% nos municípios mais pobres”, enumerou Maurício Barreto, pesquisador
do Cidacs e da Fiocruz Bahia.
Em
outras palavras, as repercussões positivas do Bolsa Família na economia – outra
dimensão que têm conquistado espaço no debate público – também dizem respeito
ao SUS. Maurício sintetizou a sinergia entre ambas políticas públicas: “A
mortalidade infantil caiu de 28 pra 12 por 1.000 nascidos vivos e a expectativa
de vida aumentou 4,5 anos desde que o SUS existe. Nossa tese é que se trata de
resultado da combinação do sistema de saúde com outras políticas sociais”.
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Novas metodologias
Como
destacaram os pesquisadores no debate virtual, e está registrado no documento,
os estudos que alcançaram tais conclusões se serviram de metodologias
inovadoras. Basicamente, foram analisados dados de agravos de saúde
disponibilizados em sistemas públicos de informação, como o Sinan (Sistema de
Informação de Agravos de Notificação) e o SIH (Sistema de Internações
Hospitalares). A eles se somaram informações sobre os números de beneficiários
do programa e as contrapartidas exigidas, como vacina atualizada e frequência
escolar, de forma retrospectiva, ano após ano.
“Cerca
de 60% das pessoas deixaram o programa porque melhoraram suas condições de
vida. E o estudo mostra o que temos de mais potente na epidemiologia, com um
estudo de coorte, com monitoramento de grupo controle, ótimo delineamento,
avaliação de programas e produção de evidências. Não existe método melhor.
Conseguimos mostrar que para além da mobilidade social há melhoria expressiva
nos indicadores de saúde”, explicou Déborah Malta, pesquisadora e professora da
Escola de Enfermagem da UFMG.
Parte
inerente da Saúde Coletiva, o olhar sociológico se faz presente na fala dos
pesquisadores. Dessa forma, as relações apresentadas entre o Bolsa Família e os
indicadores de saúde reforçam a defesa da ação estatal em políticas sociais, em
contraponto aos dogmas de austeridade fiscal que ainda predominam na classe
política e mesmo na sociedade.
“Do
ponto de vista tecnológico, a mudança no mundo do trabalho e expulsão de massas
dos ramos industrial e comercial trazem a criação de novos programas de apoio a
setores que nunca vão se integrar. A proteção social nunca foi tão necessária,
mas segue muito contestada. E para isso precisamos de conhecimento sofisticado,
robusto e organizado. Na prática, o discurso científico disputa espaço com o
senso comum”, afirmou Rômulo Paes, que menciona a transição demográfica como
outro fator de forte impacto no futuro próximo.
“Esse
debate se renovou em era de fake news e negacionismo científico. E quando as
famílias estão em contato com o serviço de saúde é possível contornar essa
adversidade. Precisamos avançar na integração entre esses dados e as diferentes
políticas e estruturas de serviços e assistência sociais”, acrescentou Rafael
Osório, do Ministério do Desenvolvimento Social.
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O valor estratégico do Cidacs
Como
destacado por Tereza Campello, o Cidacs possui um caráter inovador em sua
própria existência, pelo fato de produzir informações quase em tempo real, uma
ferramenta preciosa para tornar o Estado capaz de produzir políticas públicas
mais rapidamente.
“O
Cidacs contribui para disponibilizar informações e pesquisas, o que tem de
melhor em evidências científicas, e entregar a quente para o gestor que tomará
decisões”, celebrou.
Nesse
sentido, os pesquisadores defendem que o Estado brasileiro acelere a integração
de dados entre a plataforma e o SUS, a fim de refinar sua ação no contato
diário e direto com a população.
“Lido
com mais de mil movimentos sociais no Brasil e tenho certeza que a grande
maioria não domina essas informações apresentadas aqui. Saúde mental, por
exemplo, está na reivindicações de todos eles. E o PBF se conecta muito com a
atenção primária. Este trabalho é fundamental para mostrar como ambos se
conectam, a exemplo da saúde da mulher ou dos CAPS”, disse André Luís
Bonifácio, servidor do Ministério da Saúde.
Membro
da Rede de Mulheres Negras para Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional e
pesquisadora do Cidacs, Débora Olímpio tem experiência direta com os setores
mais vulneráveis da população, em especial mulheres, e não poupa palavras na
defesa do programa e seu significado histórico.
“As
pessoas não entendem os impactos reais do programa. Num país onde se vive
racismo estrutural e institucional, determinados grupos querem que partes da
população permaneçam em insegurança. O Bolsa Família é só um início de
reparação social”, concluiu.
Fonte:
Por Gabriel Brito, em Outra Saúde

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