O
Templo da Lambada em Hong Kong — uma história verídica
O ano
era 2011. Fui para a minha 1ª viagem internacional a trabalho. E foi na China
esta minha experiência. Chegando a Xangai, logo comecei a notar toda a
propaganda ocidental a que eu havia sido submetido. Já no aeroporto foi o
primeiro choque: uma enorme televisão 3D, na qual não eram necessários óculos
especiais para ver os efeitos visuais produzidos por esta tecnologia. Não
percebia nas ruas nada parecido com aquele terror que as mídias ocidentais
costumavam me mostrar. Estradas novas e todas as marcas de carro que existiam
nos países do hemisfério político ocidental, além, é claro, dos veículos
produzidos pela própria China. Os shopping centers eram gigantes e muitos deles
luxuosos, com todas aquelas marcas famosas da alta costura e da cosmética internacional.
Até as modelos internacionais dos pôsteres eram as mesmas que eu já havia visto
nas propagandas brasileiras.
Agora
um alerta: se você não gosta de comida picante, é recomendável que, nos
restaurantes, solicite claramente que a comida não seja apimentada, pois
normalmente a culinária chinesa carrega fortemente na pimenta; isto é cultural.
Até em um sanduíche que comi em um famoso fast food estadunidense percebi um
leve sabor apimentado. Sim, é isso mesmo, lá havia diversos dos famosos fast
foods estadunidenses que temos no Brasil. E se por acaso em um restaurante
estiver disponível wasabi, o qual, na verdade, é um tradicional condimento da
comida japonesa, também recomendo cautela, pois o que comi em Xangai era mais
ou menos umas 10 vezes mais ardido em comparação aos que eu havia experimentado
no Brasil.
De
Xangai fui para Shenzhen, cidade que faz parte do que seria comparado ao Vale
do Silício estadunidense. Lá trabalhei dentro de uma das gigantes das
telecomunicações do planeta. E, por coincidência, em um dos dias em que estava
lá, a presidenta Dilma também estava em visita oficial à fábrica. Meu cicerone
apontou os carros onde estava a comitiva presidencial brasileira, dizendo: “Sua
presidenta está em um desses carros”. Infelizmente, este foi o único contato
que tive com os meus compatriotas na visita do governo brasileiro à fábrica,
fábrica esta que mais parecia um bairro de tão grande que era.
Além de
Xangai e Shenzhen, fui a Pequim e a Hong Kong. Por todos os lugares por que
passei vi um país em intenso desenvolvimento. As ruas eram todas limpas. Não vi
nenhum morador de rua nesta minha viagem, e olha que eu não fui somente a
locais turísticos. Visitei alguns grandes e bonitos templos, nos quais
aproveitei para comprar muitos incensos. Além dos turistas, muitos chineses
estavam também nestes templos fazendo os seus rituais. Ou seja, comecei a
perceber que era outra propaganda anti-China dizer que a religião era proibida
neste país. Fui inclusive a um imenso templo em Pequim que era composto por
templos de três religiões orientais distintas.
Quando
estávamos em Hong Kong, eu e outro amigo do trabalho resolvemos dar uma volta
próximo ao hotel onde estávamos hospedados. Nesta ocasião estávamos sem guia
turístico, e nossos demais colegas de trabalho ficaram no hotel descansando. E
acabou que este foi um dos momentos mais marcantes e icônicos de minha estadia
neste país. E olha que fui a locais espetaculares nesta viagem: Muralha da
China e Cidade Proibida, ambas em Pequim; “A Symphony of Lights” (“Uma Sinfonia
de Luzes”) na “Victoria Harbour” (“Baía de Victoria”), em Hong Kong; um
fantástico show artístico em Shenzhen; muitos restaurantes tradicionais, onde
as atendentes se vestiam com roupas tradicionais; vários belíssimos templos
religiosos; e, pasmem, uma loja subterrânea gigante da Apple em Xangai, na qual
todos os tipos de aparelhos e acessórios desta marca estavam disponíveis para
compra.
Voltando
ao nosso passeio icônico. Então entramos em uma loja bem próxima ao nosso
hotel, pois a vitrine nos chamou a atenção, mas não lembro mais por qual
motivo. O chinês dono da loja se comunicava muito mal em inglês e nós também
não éramos “experts” neste idioma, mas conseguimos nos comunicar. Ele perguntou
qual era o nosso país de origem. Respondemos: “Somos do Brasil”. Foi aí que ele
exclamou com imensa admiração: “Brasil!”. O dono da loja mostrou grande
felicidade por sermos do Brasil e nós ainda não sabíamos o motivo. Foi aí que
ele abriu um armário e tirou dele uma imensa coleção de discos de lambada. Logo
em seguida, ele começou a tocar na vitrola vários destes vinis. E ele não só
colocava os discos para tocar: ele sorria e dançava ao som das músicas. O cara
estava muito feliz ali mostrando os discos de lambada para nós. Ele era um
grande fã deste estilo musical brasileiro que fez muito sucesso no Brasil no
final dos anos 80.
O
sujeito realmente estava se divertindo muito ali, sorrindo, dançando, mostrando
para a gente como amava este estilo musical. Ele colocava um disco atrás do
outro. Ele queria nos mostrar mais e mais. Ele entrou em algum tipo de êxtase
de alegria provocado pela música que ele tanto admirava, ou, melhor dizendo,
que ele tanto amava. O tempo passava e ele continuava lá em êxtase, colocando
os discos, sorrindo, dançando e fazendo gestos com as mãos para a gente para
indicar que ele adorava aquele som.
Acabou
que não conseguimos ver mais nada do que tinha nesta interessante loja, pois
fomos cooptados pelo entusiasmo do dono, que era totalmente fã de lambada. Não
conseguimos mais nos desvencilhar desta energia entusiástica dele. E o tempo
foi passando e não conseguíamos nos despedir dele. O sujeito estava mesmo
tomado por uma alegria extrema. Tivemos que sair à francesa do local, pois, se
ficássemos ali, é bem provável que ainda estivéssemos lá com ele até hoje
ouvindo este conhecido estilo musical brasileiro naquela loja que batizei de
Templo da Lambada de Hong Kong.
Com
certeza, o encontro com este fã de lambada em Hong Kong foi inesperado, sui
generis e até surrealista. Essa foi uma grata surpresa que tive nesta minha
primeira experiência profissional no exterior, motivo pelo qual resolvi
compartilhar. O que me fez pensar também que a cultura brasileira pode ser
muito bem utilizada como soft power mundo afora pelo nosso país.
Fonte:
Por Claudio Furtado, em Brasil 247

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