Quem
produz e circula as imagens do Brasil?
Tornou-se
comum ouvir que o cinema brasileiro vive um momento de fortalecimento
internacional. A presença brasileira em fóruns multilaterais, a valorização da
economia criativa como vetor de desenvolvimento, a entrada do audiovisual no
programa Nova Indústria Brasil anunciada em Cannes este ano são alguns dos
indicadores desse momento. No entanto, há uma pergunta que permanece
insuficientemente formulada: que cultura estamos produzindo e
internacionalizando?
A
resposta parece evidente. O Brasil abriga a maior população negra fora do
continente africano. A música, a literatura, as festas populares, as tradições
religiosas e a produção audiovisual foram profundamente moldadas por
contribuições negras. Ainda assim, quando observamos as estruturas responsáveis
por financiar, preservar, distribuir e internacionalizar a produção cultural
brasileira, percebemos que a questão racial continua sendo tratada como um tema
nichado, frequentemente dissociado das discussões econômicas e geopolíticas que
definem o futuro do setor.
Há
pouco mais de uma década, o debate sobre o cinema negro brasileiro tem sido
conduzido principalmente em termos de representatividade. A pergunta central
era quem está sendo visto nas telas? Sabemos que essa pergunta continuará
relevante por mais algumas décadas, mas a verdade é que já não é suficiente
abordar a questão por esse viés.
Hoje,
precisamos perguntar: quem possui acesso às estruturas que permitem transformar
ideias em negócios de tela, obras em circulação internacional, memória em
patrimônio e reconhecimento simbólico em desenvolvimento econômico? Essa
desconexão tem consequências concretas.
Nas
últimas semanas, estive em agendas internacionais que ajudam a clarear a
questão. Em Cannes, no quinto ano consecutivo trabalhando no Marché du Film,
promovi agendas que reuniram agentes de vendas, programadores, diplomatas,
produtores e representantes de instituições culturais de diferentes
continentes. Poucos dias depois, na Romênia, discursei no primeiro Fórum
Brasil-Romênia de Economia Criativa, Tecnologia e Inovação, a convite da
Embaixada do Brasil. Mais cedo, este ano fui convidada para o almoço em que o
presidente Lula recepcionou o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, na
sede do Itamaraty.
Compartilho
um pouco sobre o que conecta experiências tão distintas ao redor da reflexão
“quem circula as imagens do Brasil?”.
A
percepção de que a cultura está cada vez mais presente nas estratégias de
desenvolvimento econômico, projeção internacional e cooperação entre países
anda junto com a constatação de que o Brasil ainda não desenvolveu
infraestrutura compatível com a potência cultural que possui.
Vimos
surgir nos últimos anos, no Brasil, um número crescente de realizadores negros,
festivais, laboratórios e formação. O desaparecimento de parte dessas
iniciativas a partir de 2023 revela uma fragilidade estrutural: boa parte dos
avanços conquistados ao longo da última década não foi convertida em
instituições permanentes.
A
soberania cultural exige infraestrutura. Em outras palavras, arquivos,
plataformas, mercados, oferta de formação continuada, sistemas permanentes de
circulação. Exige mecanismos capazes de conectar criadores a oportunidades
econômicas de forma contínua.
Essa é
precisamente a diferença que se observa quando olhamos para ecossistemas
culturais consolidados. O Festival de Cannes, frequentemente lembrado por seu
glamour, é apenas a face visível de uma estrutura muito mais complexa. O que
torna Cannes relevante não é apenas a exibição de filmes, mas sua capacidade de
reunir financiamento, distribuição, diplomacia, formação de público e negócios
em um mesmo ambiente institucional.
Em um
contexto em que países africanos ampliam investimentos em suas indústrias
audiovisuais e consolidam redes próprias de circulação cultural, o Brasil ainda
não construiu mecanismos permanentes de cooperação capazes de transformar sua
centralidade afro-diaspórica em vantagem estratégica.
África
e Europa compreenderam que cultura não é apenas expressão simbólica. É também
infraestrutura estratégica. Mas no Brasil, continuamos tratando boa parte desse
debate como se fosse uma questão exclusivamente artística.
A
título de ilustrar essa limitação, tomemos a regulação das plataformas de vídeo
sob demanda que ocupou lugar central na agenda do Ministério da Cultura na
atual gestão. A expectativa era que a regulamentação criasse mecanismos capazes
de fortalecer a produção nacional diante da crescente concentração de poder das
grandes plataformas globais. O debate era necessário. Mas sua demora produziu
um efeito colateral raramente discutido. Embora a regulação das plataformas
seja fundamental para a sustentabilidade do audiovisual brasileiro, sua
priorização acabou reduzindo o espaço público para outras discussões
estruturantes, entre elas os mecanismos permanentes de acesso, circulação e
internacionalização voltados ao cinema negro brasileiro.
Com
isso, perdemos uma oportunidade dupla. Não construímos plenamente a
infraestrutura necessária para fortalecer nossa produção interna. E tampouco
consolidamos uma estratégia internacional capaz de posicionar o Brasil como
liderança global em um campo no qual possui vantagens históricas, demográficas
e culturais evidentes.
Essa é
uma contradição difícil de ignorar. O país que abriga a maior população negra
fora da África ainda não dispõe de uma política consistente de acesso à
produção, internacionalização e memória do cinema feito por esta comunidade.
A
entrada do audiovisual na Nova Indústria Brasil cria uma oportunidade histórica
para corrigir essa lacuna. Mas a experiência brasileira demonstra que políticas
universais nem sempre produzem resultados universais. Sem mecanismos de
participação, indicadores de acompanhamento e escuta das lideranças que vêm
construindo o campo do audiovisual negro há mais de uma década, existe o risco
de que a nova política industrial reproduza antigas assimetrias de acesso.
Se o
audiovisual passa a ser reconhecido como setor estratégico para o
desenvolvimento nacional, a questão racial deixa de ser apenas uma pauta de
representatividade. Passa a ser também uma questão de política industrial,
competitividade internacional e soberania cultural. E esse momento nos obrigará
a reconhecer algo desconfortável: não existe soberania cultural sem
distribuição de poder cultural que, em um país como o Brasil, significa
enfrentar honestamente a questão racial.
O
cinema ocupa um lugar privilegiado nessa reflexão porque reúne memória,
imaginação e economia. É o cinema que registra quem fomos e projeta quem
desejamos ser, além de movimentar recursos, empregos, tecnologias e relações
internacionais.
Quando
um filme brasileiro circula pelo mundo, não estamos apenas exportando uma obra.
Estamos exportando visões de país. Por essa razão, fortalecer o cinema negro
brasileiro não deve ser compreendido como uma política setorial voltada
exclusivamente para um grupo específico.Trata-se de uma estratégia de soberania
cultural. Uma estratégia que interessa ao conjunto da sociedade brasileira.
Porque
um país incapaz de preservar, financiar e internacionalizar a diversidade de
suas próprias narrativas corre o risco de se tornar dependente não apenas de
tecnologias estrangeiras, mas também de imaginários produzidos por outros. E
nenhuma nação alcança plena soberania quando perde a capacidade de controlar as
imagens através das quais é vista, lembrada e compreendida.
Fonte:
Por Fernanda Lomba, no Le Monde

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