sábado, 13 de junho de 2026

Bruno Mota: Os impasses na relação Brasil-China

A ascensão da China recolocou no centro do debate uma velha questão da economia política brasileira: como transformar vínculos externos em desenvolvimento interno? Para o Brasil, o comércio com o gigante asiático trouxe ganhos cambiais, superávits comerciais e algum alívio externo, mas também reforçou a especialização em commodities e a perda de densidade industrial, um dilema que a tradição desenvolvimentista já havia diagnosticado como expressão da dependência estrutural (FURTADO, 2007; TAVARES, 1972).

O problema, portanto, não é a China em si. O problema é a forma como o Brasil se insere nessa relação: exportando soja, minério de ferro e petróleo, enquanto importa máquinas, componentes e bens de maior conteúdo tecnológico. Sem política industrial, coordenação estatal e estratégia tecnológica, a parceria sino-brasileira tende a reproduzir heteronomia, e não autonomia produtiva (BRESSER-PEREIRA, 2014; BELLUZZO, 2013).

<><> A nova centralidade chinesa

Em poucas décadas, a China se tornou a principal plataforma manufatureira do capitalismo global. Isso não ocorreu por “milagre de mercado”, mas por uma combinação de planejamento estatal, política industrial, crédito dirigido e expansão agressiva da capacidade produtiva. O resultado foi a construção de um parque industrial raro entre economias que chegaram tardiamente à modernização capitalista (CHANG, 2004; RODRIK, 2011).

No Brasil, a virada chinesa coincidiu com a intensificação da pauta exportadora primária. A partir dos anos 2000, o país passou a vender mais minério, soja, petróleo bruto e celulose, ao mesmo tempo em que importava mais manufaturas e insumos de maior complexidade. A relação bilateral se fortaleceu, mas em bases assimétricas, com ganhos comerciais de curto prazo e perdas estruturais de longo prazo (MDIC, 2025; UNCTAD, 2024).

Essa assimetria importa porque desenvolvimento não é apenas crescer. Desenvolvimento supõe mudança da estrutura produtiva, internalização do progresso técnico e ampliação da capacidade de decisão nacional. Quando o comércio reforça especializações regressivas, ele pode aumentar o faturamento externo sem ampliar a autonomia econômica.

<><> Dependência e reprimarização

Celso Furtado é decisivo para entender esse impasse. Em sua leitura, o subdesenvolvimento não é uma etapa “atrasada” de um caminho linear, mas uma forma específica de inserção periférica no capitalismo mundial (FURTADO, 1961; FURTADO, 2007). Isso ajuda a interpretar a trajetória brasileira recente: a expansão das exportações para a China aliviou restrições externas, mas aprofundou a dependência de poucos produtos básicos.

A reprimarização não é um fenômeno neutro. Economias com forte peso de commodities tendem a apresentar menor difusão tecnológica, menor complexidade produtiva e maior vulnerabilidade às oscilações de preços internacionais. Além disso, a dependência de setores primários costuma pressionar a taxa de câmbio e reduzir a competitividade industrial doméstica, reforçando a chamada doença holandesa (BRESSER-PEREIRA, 2003; BRESSER-PEREIRA, 2014).

Maria da Conceição Tavares aprofundou esse diagnóstico ao mostrar que industrialização periférica e heterogeneidade estrutural caminham juntas. Mesmo quando há crescimento, ele pode coexistir com fragmentação produtiva, baixa produtividade e forte desigualdade entre setores modernos e setores atrasados (TAVARES, 1972). No caso brasileiro, a relação com a China atualizou esse padrão: exporta-se o que tem menor valor agregado e importa-se o que concentra conhecimento e tecnologia.

<><> Estratégia nacional

A pergunta central não deveria ser se o Brasil deve ou não comerciar com a China. A pergunta relevante é outra: sob quais condições essa relação pode fortalecer capacidades internas? É aqui que o novo desenvolvimentismo oferece uma pista importante. Para Bresser-Pereira, desenvolvimento exige taxa de câmbio competitiva, investimento produtivo e política industrial consistente, em vez de mera confiança na alocação espontânea do mercado (BRESSER-PEREIRA, 2014).

A experiência chinesa mostra o oposto do receituário liberal periférico. O país combinou proteção estratégica, investimento público, planejamento industrial e captura ativa de tecnologia. Já o Brasil oscilou entre liberalização financeira, juros elevados, descontinuidade industrial e dependência de ciclos externos. Nessa comparação, a diferença não está apenas no comércio, mas na capacidade do Estado de organizar uma estratégia (RODRIK, 2011; CHANG, 2004).

Belluzzo ajuda a ver o quadro mais amplo: o capitalismo contemporâneo segue estruturado por hierarquias entre centros tecnológicos e periferias exportadoras (BELLUZZO, 2013). A ascensão chinesa não elimina essas assimetrias; ela apenas reposiciona os atores dentro delas. O desafio brasileiro é impedir que a integração com a China se limite à venda de primários e à compra de industrializados.

<><> Dimensão regional

Wilson Cano é fundamental para introduzir a dimensão regional desse problema. A industrialização brasileira se concentrou historicamente no Centro-Sul, deixando vastas áreas do país em posição subordinada na divisão interna do trabalho (CANO, 2007). Isso significa que a dependência externa também é uma dependência territorial: não afeta todas as regiões do mesmo modo.

No caso do Nordeste, a questão ganha relevo especial. A transição energética, a expansão de cadeias ligadas à bioeconomia e a reindustrialização verde abrem oportunidades concretas, mas elas só serão virtuosas se vierem acompanhadas de encadeamentos produtivos, formação tecnológica e integração com o restante da economia nacional. Caso contrário, o risco é repetir o velho padrão de enclave: investimento moderno em território periférico, com baixo impacto sobre a estrutura produtiva local.

Essa é uma agenda especialmente relevante para quem pensa desenvolvimento regional. O Nordeste pode ser espaço de experimentação de uma nova industrialização, desde que o país abandone a lógica de exportar valor bruto e importar valor agregado.

<><> Nova indústria

A Nova Indústria Brasil recoloca o Estado como coordenador estratégico do investimento produtivo, mobilizando instrumentos como BNDES, Finep e Embrapii. Em princípio, a iniciativa aponta para uma recuperação da capacidade de planejamento industrial, com prioridade para transição energética, saúde, digitalização, defesa e complexos tecnológicos mais sofisticados (MDIC, 2025).

O problema é que nenhuma política industrial funciona isoladamente. Sem coordenação macroeconômica, crédito direcionado, conteúdo local e continuidade institucional, programas desse tipo correm o risco de virar enunciado sem transformação estrutural. A política industrial só ganha densidade quando dialoga com taxa de câmbio, financiamento, inovação e compras públicas (BRESSER-PEREIRA, 2014; IPEA, 2025).

A relação com a China pode ser útil nesse processo, desde que subordinada a objetivos nacionais claros. Parcerias industriais, joint ventures e transferência tecnológica podem ajudar a reconstruir capacidades produtivas. Mas, sem esse enquadramento, a cooperação tende a reproduzir a dependência que diz combater.

<><> Considerações finais

A China não é, por si só, uma alternativa sistêmica à dependência brasileira. Ela pode ser parceira estratégica, mas também pode reforçar padrões antigos de heteronomia econômica, agora sob uma nova geografia do capitalismo global. O resultado depende menos da potência asiática do que da capacidade do Brasil de formular sua própria estratégia de desenvolvimento (FURTADO, 2007; BRESSER-PEREIRA, 2014).

Se o país continuar exportando commodities e importando tecnologia, a relação bilateral seguirá sendo assimétrica. Se, ao contrário, conseguir articular política industrial, integração regional, transição energética e soberania produtiva, a parceria com a China poderá servir como alavanca de transformação.

O dilema é político antes de ser comercial. E talvez essa seja a lição mais importante: desenvolvimento não se improvisa na balança comercial; ele se constrói na disputa pelo comando da estrutura produtiva.

¨      China reafirma amizade com a América Latina e propõe nova etapa de cooperação em infraestrutura verde e digital

A China reafirmou seu compromisso de longo prazo com a América Latina e o Caribe durante o 12º Fórum de Cooperação em Infraestrutura China-América Latina (China-CELAC), realizado nesta quinta-feira (11), em Macau. Reunindo autoridades governamentais, representantes de organismos internacionais e executivos de grandes empresas de infraestrutura, energia e tecnologia, o encontro consolidou a visão de uma nova etapa da parceria sino-latino-americana, baseada em infraestrutura sustentável, industrialização, economia digital e fortalecimento do multilateralismo.

A principal mensagem política do evento foi transmitida por Zhang Run, diretor-geral do Departamento de América Latina e Caribe do Ministério das Relações Exteriores da China. Citando mensagem enviada pelo presidente Xi Jinping à 10ª Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), Zhang afirmou que a China manterá seu compromisso histórico com a região.“A China será sempre uma boa amiga e uma boa parceira dos países da América Latina e do Caribe”, declarou.

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Segundo Zhang Run, a realização da 12ª edição do Fórum de Infraestrutura China-CELAC representa uma demonstração concreta dessa política. Em um cenário internacional marcado por conflitos, instabilidade e profundas transformações geopolíticas, ele afirmou que as relações entre China e América Latina seguem avançando com estabilidade, baseadas na confiança política, na expansão da cooperação econômica e no fortalecimento dos laços entre os povos.

O diplomata destacou que, apenas no último ano, Xi Jinping realizou mais de dez encontros e conversas com líderes latino-americanos, incluindo representantes de Brasil, Colômbia, Chile, Cuba e Uruguai. Também ressaltou que a 10ª Cúpula da CELAC, realizada na Colômbia, incluiu pela primeira vez em seu documento final uma avaliação positiva da cooperação institucional entre China e América Latina.

<><> Comércio bate recorde histórico

Zhang Run apresentou números que ilustram a crescente integração econômica entre as duas regiões. Segundo ele, o comércio bilateral atingiu o recorde histórico de US$ 549 bilhões em 2025.Nos cinco primeiros meses de 2026, o intercâmbio comercial alcançou US$ 247,3 bilhões, crescimento de 17,6% em relação ao mesmo período do ano anterior.O dado mais significativo, segundo o diplomata, foi a expansão das importações chinesas provenientes da América Latina, que cresceram 27,6%, atingindo US$ 120 bilhões. Para Zhang, o resultado demonstra um equilíbrio cada vez maior nas relações comerciais.Ele também ressaltou medidas recentes para ampliar a integração entre as duas regiões, incluindo a política de isenção de vistos para cidadãos de Brasil, Argentina, Chile, Peru e Uruguai, além da ampliação dos voos diretos entre a China e países latino-americanos, entre eles o Brasil.

Segundo Zhang, pesquisas recentes realizadas por centros internacionais de pesquisa mostram crescimento da percepção positiva da China entre os latino-americanos, tornando o país a única grande potência extrarregional cuja imagem registrou avanço na região.

<><> Infraestrutura entra em nova fase

Na sequência do fórum, Wang Qi, diretor-adjunto do Departamento de Investimentos Externos e Cooperação Econômica do Ministério do Comércio da China, apresentou um panorama da evolução da cooperação em infraestrutura entre a China e a América Latina.

Segundo ele, os projetos desenvolvidos sob a Iniciativa Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative) permitiram a construção de uma rede abrangente de cooperação que hoje engloba transportes, energia, telecomunicações e desenvolvimento urbano.

Wang destacou o Porto de Chancay, no Peru, como um dos exemplos mais expressivos dos resultados alcançados.Segundo ele, a nova infraestrutura reduziu o tempo de transporte marítimo entre o Peru e a Ásia de 35 para 23 dias, diminuindo significativamente os custos logísticos e fortalecendo a integração econômica transpacífica.Outro exemplo citado foi a Linha 1 do Metrô de Bogotá, na Colômbia, que deverá reduzir o tempo médio de deslocamento da população de mais de duas horas para apenas 27 minutos.O dirigente afirmou ainda que projetos conduzidos por empresas chinesas na América Latina já contribuíram para a criação de quase um milhão de empregos, além da construção de hospitais, escolas, pontes, aeroportos, estradas e portos em diversos países da região.

Durante sua apresentação, Wang Qi defendeu uma nova fase da cooperação baseada em três pilares fundamentais.

O primeiro é a integração entre infraestrutura e desenvolvimento industrial. Segundo ele, a América Latina precisa ampliar sua participação nas cadeias globais de produção, e a infraestrutura pode desempenhar papel decisivo nesse processo.

O segundo é a transição ecológica. Wang afirmou que a China pretende aprofundar a cooperação em energia limpa, infraestrutura verde, transporte sustentável e finanças verdes.

O terceiro eixo é a digitalização. Segundo ele, a infraestrutura latino-americana está passando de uma etapa de simples conectividade física para uma nova fase de conectividade digital.

“Quanto mais fortes forem os ventos e as ondas, mais a comunidade de futuro compartilhado China-América Latina deve navegar unida”, afirmou.

<><> PowerChina e gigantes chinesas ampliam presença regional

As discussões do fórum ocorreram em meio à crescente presença de grandes grupos chineses de infraestrutura na América Latina. Entre os participantes estiveram representantes da PowerChina, China Energy Engineering, China Railway Construction Corporation, China Harbour Engineering e Huawei.

A presença dessas empresas reflete a estratégia chinesa de combinar investimentos em infraestrutura tradicional com projetos voltados à transição energética, redes inteligentes, digitalização e modernização logística.

A PowerChina, em particular, vem ampliando sua atuação na região em áreas como energia renovável, transmissão elétrica, infraestrutura hídrica e grandes obras de engenharia, setores considerados prioritários para o desenvolvimento latino-americano.

<><> Cooperação econômica e desenvolvimento sustentável

Na abertura do fórum, o representante internacional de Comércio da China e vice-ministro do Comércio, Li Chenggang, defendeu o aprofundamento da cooperação econômica entre China e América Latina.

Segundo ele, as duas regiões devem fortalecer o multilateralismo, ampliar a liberalização do comércio e dos investimentos e aprofundar a cooperação em áreas como energia renovável, redes elétricas inteligentes, proteção ambiental, cidades inteligentes, centros de dados e redes 5G.

Li também ressaltou a necessidade de promover mecanismos inovadores de financiamento e ampliar a participação de empresas e instituições financeiras nos projetos de infraestrutura.

<><> Guiana destaca crescimento da parceria China-CELAC

Representando a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, o ministro das Obras Públicas da Guiana, Juan Anthony Edghill, afirmou que os países da região atribuem grande importância à continuidade do diálogo com a China.

O ministro destacou que a cooperação bilateral ganhou impulso desde a criação do Fórum China-CELAC, em 2014, durante encontro realizado em Brasília com a participação do presidente Xi Jinping.

“Temos testemunhado um crescimento exponencial de nossa agenda de cooperação”, afirmou.

Edghill declarou que a parceria com a China tem contribuído para o avanço das prioridades nacionais e regionais dos países latino-americanos e caribenhos e defendeu a construção de uma relação baseada na inclusão e no benefício mútuo.

Ao final dos debates, emergiu uma mensagem comum entre autoridades chinesas e latino-americanas: em um cenário internacional marcado por incertezas e disputas geopolíticas, a cooperação em infraestrutura, energia, tecnologia e desenvolvimento sustentável aparece cada vez mais como um dos principais pilares da aproximação entre China e América Latina, consolidando o papel do 12º Fórum de Infraestrutura China-CELAC, realizado em Macau, como um dos mais importantes espaços de articulação estratégica entre as duas regiões.

 

Fonte: Outras Palavras/Brasil 247

 

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