Bruno
Mota: Os impasses na relação Brasil-China
A
ascensão da China recolocou no centro do debate uma velha questão da economia
política brasileira: como transformar vínculos externos em desenvolvimento
interno? Para o Brasil, o comércio com o gigante asiático trouxe ganhos
cambiais, superávits comerciais e algum alívio externo, mas também reforçou a
especialização em commodities e a perda de densidade industrial, um dilema que
a tradição desenvolvimentista já havia diagnosticado como expressão da
dependência estrutural (FURTADO, 2007; TAVARES, 1972).
O
problema, portanto, não é a China em si. O problema é a forma como o Brasil se
insere nessa relação: exportando soja, minério de ferro e petróleo, enquanto
importa máquinas, componentes e bens de maior conteúdo tecnológico. Sem
política industrial, coordenação estatal e estratégia tecnológica, a parceria
sino-brasileira tende a reproduzir heteronomia, e não autonomia produtiva
(BRESSER-PEREIRA, 2014; BELLUZZO, 2013).
<><>
A nova centralidade chinesa
Em
poucas décadas, a China se tornou a principal plataforma manufatureira do
capitalismo global. Isso não ocorreu por “milagre de mercado”, mas por uma
combinação de planejamento estatal, política industrial, crédito dirigido e
expansão agressiva da capacidade produtiva. O resultado foi a construção de um
parque industrial raro entre economias que chegaram tardiamente à modernização
capitalista (CHANG, 2004; RODRIK, 2011).
No
Brasil, a virada chinesa coincidiu com a intensificação da pauta exportadora
primária. A partir dos anos 2000, o país passou a vender mais minério, soja,
petróleo bruto e celulose, ao mesmo tempo em que importava mais manufaturas e
insumos de maior complexidade. A relação bilateral se fortaleceu, mas em bases
assimétricas, com ganhos comerciais de curto prazo e perdas estruturais de
longo prazo (MDIC, 2025; UNCTAD, 2024).
Essa
assimetria importa porque desenvolvimento não é apenas crescer. Desenvolvimento
supõe mudança da estrutura produtiva, internalização do progresso técnico e
ampliação da capacidade de decisão nacional. Quando o comércio reforça
especializações regressivas, ele pode aumentar o faturamento externo sem
ampliar a autonomia econômica.
<><>
Dependência e reprimarização
Celso
Furtado é decisivo para entender esse impasse. Em sua leitura, o
subdesenvolvimento não é uma etapa “atrasada” de um caminho linear, mas uma
forma específica de inserção periférica no capitalismo mundial (FURTADO, 1961;
FURTADO, 2007). Isso ajuda a interpretar a trajetória brasileira recente: a
expansão das exportações para a China aliviou restrições externas, mas
aprofundou a dependência de poucos produtos básicos.
A
reprimarização não é um fenômeno neutro. Economias com forte peso de
commodities tendem a apresentar menor difusão tecnológica, menor complexidade
produtiva e maior vulnerabilidade às oscilações de preços internacionais. Além
disso, a dependência de setores primários costuma pressionar a taxa de câmbio e
reduzir a competitividade industrial doméstica, reforçando a chamada doença
holandesa (BRESSER-PEREIRA, 2003; BRESSER-PEREIRA, 2014).
Maria
da Conceição Tavares aprofundou esse diagnóstico ao mostrar que
industrialização periférica e heterogeneidade estrutural caminham juntas. Mesmo
quando há crescimento, ele pode coexistir com fragmentação produtiva, baixa
produtividade e forte desigualdade entre setores modernos e setores atrasados
(TAVARES, 1972). No caso brasileiro, a relação com a China atualizou esse
padrão: exporta-se o que tem menor valor agregado e importa-se o que concentra
conhecimento e tecnologia.
<><>
Estratégia nacional
A
pergunta central não deveria ser se o Brasil deve ou não comerciar com a China.
A pergunta relevante é outra: sob quais condições essa relação pode fortalecer
capacidades internas? É aqui que o novo desenvolvimentismo oferece uma pista
importante. Para Bresser-Pereira, desenvolvimento exige taxa de câmbio
competitiva, investimento produtivo e política industrial consistente, em vez
de mera confiança na alocação espontânea do mercado (BRESSER-PEREIRA, 2014).
A
experiência chinesa mostra o oposto do receituário liberal periférico. O país
combinou proteção estratégica, investimento público, planejamento industrial e
captura ativa de tecnologia. Já o Brasil oscilou entre liberalização
financeira, juros elevados, descontinuidade industrial e dependência de ciclos
externos. Nessa comparação, a diferença não está apenas no comércio, mas na
capacidade do Estado de organizar uma estratégia (RODRIK, 2011; CHANG, 2004).
Belluzzo
ajuda a ver o quadro mais amplo: o capitalismo contemporâneo segue estruturado
por hierarquias entre centros tecnológicos e periferias exportadoras (BELLUZZO,
2013). A ascensão chinesa não elimina essas assimetrias; ela apenas reposiciona
os atores dentro delas. O desafio brasileiro é impedir que a integração com a
China se limite à venda de primários e à compra de industrializados.
<><>
Dimensão regional
Wilson
Cano é fundamental para introduzir a dimensão regional desse problema. A
industrialização brasileira se concentrou historicamente no Centro-Sul,
deixando vastas áreas do país em posição subordinada na divisão interna do
trabalho (CANO, 2007). Isso significa que a dependência externa também é uma
dependência territorial: não afeta todas as regiões do mesmo modo.
No caso
do Nordeste, a questão ganha relevo especial. A transição energética, a
expansão de cadeias ligadas à bioeconomia e a reindustrialização verde abrem
oportunidades concretas, mas elas só serão virtuosas se vierem acompanhadas de
encadeamentos produtivos, formação tecnológica e integração com o restante da
economia nacional. Caso contrário, o risco é repetir o velho padrão de enclave:
investimento moderno em território periférico, com baixo impacto sobre a
estrutura produtiva local.
Essa é
uma agenda especialmente relevante para quem pensa desenvolvimento regional. O
Nordeste pode ser espaço de experimentação de uma nova industrialização, desde
que o país abandone a lógica de exportar valor bruto e importar valor agregado.
<><>
Nova indústria
A Nova
Indústria Brasil recoloca o Estado como coordenador estratégico do investimento
produtivo, mobilizando instrumentos como BNDES, Finep e Embrapii. Em princípio,
a iniciativa aponta para uma recuperação da capacidade de planejamento
industrial, com prioridade para transição energética, saúde, digitalização,
defesa e complexos tecnológicos mais sofisticados (MDIC, 2025).
O
problema é que nenhuma política industrial funciona isoladamente. Sem
coordenação macroeconômica, crédito direcionado, conteúdo local e continuidade
institucional, programas desse tipo correm o risco de virar enunciado sem
transformação estrutural. A política industrial só ganha densidade quando
dialoga com taxa de câmbio, financiamento, inovação e compras públicas
(BRESSER-PEREIRA, 2014; IPEA, 2025).
A
relação com a China pode ser útil nesse processo, desde que subordinada a
objetivos nacionais claros. Parcerias industriais, joint ventures e
transferência tecnológica podem ajudar a reconstruir capacidades produtivas.
Mas, sem esse enquadramento, a cooperação tende a reproduzir a dependência que
diz combater.
<><>
Considerações finais
A China
não é, por si só, uma alternativa sistêmica à dependência brasileira. Ela pode
ser parceira estratégica, mas também pode reforçar padrões antigos de
heteronomia econômica, agora sob uma nova geografia do capitalismo global. O
resultado depende menos da potência asiática do que da capacidade do Brasil de
formular sua própria estratégia de desenvolvimento (FURTADO, 2007;
BRESSER-PEREIRA, 2014).
Se o
país continuar exportando commodities e importando tecnologia, a relação
bilateral seguirá sendo assimétrica. Se, ao contrário, conseguir articular
política industrial, integração regional, transição energética e soberania
produtiva, a parceria com a China poderá servir como alavanca de transformação.
O
dilema é político antes de ser comercial. E talvez essa seja a lição mais
importante: desenvolvimento não se improvisa na balança comercial; ele se
constrói na disputa pelo comando da estrutura produtiva.
¨ China reafirma
amizade com a América Latina e propõe nova etapa de cooperação em
infraestrutura verde e digital
A China
reafirmou seu compromisso de longo prazo com a América Latina e o Caribe
durante o 12º Fórum de Cooperação em Infraestrutura China-América Latina
(China-CELAC), realizado nesta quinta-feira (11), em Macau. Reunindo
autoridades governamentais, representantes de organismos internacionais e
executivos de grandes empresas de infraestrutura, energia e tecnologia, o
encontro consolidou a visão de uma nova etapa da parceria
sino-latino-americana, baseada em infraestrutura sustentável, industrialização,
economia digital e fortalecimento do multilateralismo.
A
principal mensagem política do evento foi transmitida por Zhang Run,
diretor-geral do Departamento de América Latina e Caribe do Ministério das
Relações Exteriores da China. Citando mensagem enviada pelo presidente Xi
Jinping à 10ª Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e
Caribenhos (CELAC), Zhang afirmou que a China manterá seu compromisso histórico
com a região.“A China será sempre uma boa amiga e uma boa parceira dos
países da América Latina e do Caribe”, declarou.
Play
Video
Segundo
Zhang Run, a realização da 12ª edição do Fórum de Infraestrutura China-CELAC
representa uma demonstração concreta dessa política. Em um cenário
internacional marcado por conflitos, instabilidade e profundas transformações
geopolíticas, ele afirmou que as relações entre China e América Latina seguem
avançando com estabilidade, baseadas na confiança política, na expansão da
cooperação econômica e no fortalecimento dos laços entre os povos.
O
diplomata destacou que, apenas no último ano, Xi Jinping realizou mais de dez
encontros e conversas com líderes latino-americanos, incluindo representantes
de Brasil, Colômbia, Chile, Cuba e Uruguai. Também ressaltou que a 10ª
Cúpula da CELAC, realizada na Colômbia, incluiu pela primeira vez em seu
documento final uma avaliação positiva da cooperação institucional entre China
e América Latina.
<><>
Comércio bate recorde histórico
Zhang
Run apresentou números que ilustram a crescente integração econômica entre as
duas regiões. Segundo ele, o comércio bilateral atingiu o recorde histórico
de US$ 549 bilhões em 2025.Nos cinco primeiros meses de 2026, o
intercâmbio comercial alcançou US$ 247,3 bilhões, crescimento
de 17,6% em relação ao mesmo período do ano anterior.O dado mais
significativo, segundo o diplomata, foi a expansão das importações chinesas
provenientes da América Latina, que cresceram 27,6%, atingindo US$
120 bilhões. Para Zhang, o resultado demonstra um equilíbrio cada vez maior nas
relações comerciais.Ele também ressaltou medidas recentes para ampliar a
integração entre as duas regiões, incluindo a política de isenção de vistos
para cidadãos de Brasil, Argentina, Chile, Peru e Uruguai, além da
ampliação dos voos diretos entre a China e países latino-americanos, entre eles
o Brasil.
Segundo
Zhang, pesquisas recentes realizadas por centros internacionais de pesquisa
mostram crescimento da percepção positiva da China entre os latino-americanos,
tornando o país a única grande potência extrarregional cuja imagem registrou
avanço na região.
<><>
Infraestrutura entra em nova fase
Na
sequência do fórum, Wang Qi, diretor-adjunto do Departamento de
Investimentos Externos e Cooperação Econômica do Ministério do Comércio da
China, apresentou um panorama da evolução da cooperação em infraestrutura entre
a China e a América Latina.
Segundo
ele, os projetos desenvolvidos sob a Iniciativa Cinturão e Rota (Belt and Road
Initiative) permitiram a construção de uma rede abrangente de cooperação que
hoje engloba transportes, energia, telecomunicações e desenvolvimento urbano.
Wang
destacou o Porto de Chancay, no Peru, como um dos exemplos mais
expressivos dos resultados alcançados.Segundo ele, a nova infraestrutura
reduziu o tempo de transporte marítimo entre o Peru e a Ásia de 35 para 23
dias, diminuindo significativamente os custos logísticos e fortalecendo a
integração econômica transpacífica.Outro exemplo citado foi a Linha 1 do
Metrô de Bogotá, na Colômbia, que deverá reduzir o tempo médio de deslocamento
da população de mais de duas horas para apenas 27 minutos.O dirigente afirmou
ainda que projetos conduzidos por empresas chinesas na América Latina já
contribuíram para a criação de quase um milhão de empregos, além da
construção de hospitais, escolas, pontes, aeroportos, estradas e portos em
diversos países da região.
Durante
sua apresentação, Wang Qi defendeu uma nova fase da cooperação baseada em três
pilares fundamentais.
O
primeiro é a integração entre infraestrutura e desenvolvimento industrial.
Segundo ele, a América Latina precisa ampliar sua participação nas cadeias
globais de produção, e a infraestrutura pode desempenhar papel decisivo nesse
processo.
O
segundo é a transição ecológica. Wang afirmou que a China pretende aprofundar a
cooperação em energia limpa, infraestrutura verde, transporte sustentável e
finanças verdes.
O
terceiro eixo é a digitalização. Segundo ele, a infraestrutura latino-americana
está passando de uma etapa de simples conectividade física para uma nova fase
de conectividade digital.
“Quanto
mais fortes forem os ventos e as ondas, mais a comunidade de futuro
compartilhado China-América Latina deve navegar unida”, afirmou.
<><>
PowerChina e gigantes chinesas ampliam presença regional
As
discussões do fórum ocorreram em meio à crescente presença de grandes grupos
chineses de infraestrutura na América Latina. Entre os participantes estiveram representantes da PowerChina,
China Energy Engineering, China Railway Construction Corporation, China Harbour
Engineering e Huawei.
A
presença dessas empresas reflete a estratégia chinesa de combinar investimentos
em infraestrutura tradicional com projetos voltados à transição energética,
redes inteligentes, digitalização e modernização logística.
A PowerChina,
em particular, vem ampliando sua atuação na região em áreas como energia
renovável, transmissão elétrica, infraestrutura hídrica e grandes obras de
engenharia, setores considerados prioritários para o desenvolvimento
latino-americano.
<><>
Cooperação econômica e desenvolvimento sustentável
Na
abertura do fórum, o representante internacional de Comércio da China e
vice-ministro do Comércio, Li Chenggang, defendeu o aprofundamento da
cooperação econômica entre China e América Latina.
Segundo
ele, as duas regiões devem fortalecer o multilateralismo, ampliar a
liberalização do comércio e dos investimentos e aprofundar a cooperação em
áreas como energia renovável, redes elétricas inteligentes, proteção ambiental,
cidades inteligentes, centros de dados e redes 5G.
Li
também ressaltou a necessidade de promover mecanismos inovadores de
financiamento e ampliar a participação de empresas e instituições financeiras
nos projetos de infraestrutura.
<><>
Guiana destaca crescimento da parceria China-CELAC
Representando
a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, o ministro das Obras
Públicas da Guiana, Juan Anthony Edghill, afirmou que os países da região
atribuem grande importância à continuidade do diálogo com a China.
O
ministro destacou que a cooperação bilateral ganhou impulso desde a criação do
Fórum China-CELAC, em 2014, durante encontro realizado em Brasília com a
participação do presidente Xi Jinping.
“Temos
testemunhado um crescimento exponencial de nossa agenda de cooperação”, afirmou.
Edghill
declarou que a parceria com a China tem contribuído para o avanço das
prioridades nacionais e regionais dos países latino-americanos e caribenhos e
defendeu a construção de uma relação baseada na inclusão e no benefício mútuo.
Ao
final dos debates, emergiu uma mensagem comum entre autoridades chinesas e
latino-americanas: em um cenário internacional marcado por incertezas e
disputas geopolíticas, a cooperação em infraestrutura, energia, tecnologia e
desenvolvimento sustentável aparece cada vez mais como um dos principais
pilares da aproximação entre China e América Latina, consolidando o papel
do 12º Fórum de Infraestrutura China-CELAC, realizado em Macau, como um
dos mais importantes espaços de articulação estratégica entre as duas regiões.
Fonte:
Outras Palavras/Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário