Extrair
e calar: terras raras, silêncio informacional e o padrão colonial na exploração
de minerais críticos no Brasil
“A
senhora aguarde só um instante, e eu peço que não tire fotos, por favor“, me
disse um segurança à porta do escritório da Mineradora Serra Verde, a única
fora da China a produzir terras raras, em Minaçu, no norte do Goiás. Minha
entrada na sede da empresa foi barrada assim que me identifiquei como
jornalista.
Apesar
de se tratar de um local público – um complexo de casas que antes serviam aos
trabalhadores da mineradora Sama, predecessora da Serra Verde em Minaçu –, a
hostilidade do segurança à minha presença e à da minha câmera fotográfica era
notória.
Aguardei.
Poucos minutos depois, o homem retorna acompanhado de duas mulheres. Uma delas
era Herta Torres que, apesar de responsável pela comunicação da empresa, se
negou a responder a qualquer uma de minhas perguntas. “Aqui não falamos com
jornalistas, ainda mais porque o Grossi, nosso porta-voz, não está“, argumentou
a funcionária, referindo-se a Ricardo Grossi Neves, presidente da Serra Verde.
Em 20
de abril de 2026, a empresa norte-americana USA Rare Earth anunciou a compra
integral da mineradora Serra Verde por US$ 2,8 bilhões. A transação não é uma
operação de mercado ordinária: inclui US$ 565 milhões em financiamento da DFC
(a agência federal de desenvolvimento dos EUA), um contrato de fornecimento
exclusivo de 15 anos com preços mínimos garantidos e 100% da produção da
primeira fase vinculada a uma estrutura capitalizada pelo governo dos Estados
Unidos, com cláusulas que explicitamente excluem a China. Na prática, a compra
significou que o aparelho de Estado norte-americano capturou a única cadeia de
terras raras em escala comercial fora da Ásia.
O
silêncio da Serra Verde quanto ao assunto quando da minha visita, cerca de duas
semanas depois da venda, se revelou não incidental. Noeli Ferreira, repórter
local da Rádio Serra Dourada, não teve sorte diferente quando tentou chegar ao
complexo de Cana Brava, a base de operações da mineradora, apenas uma semana
antes da minha visita.
Na
primeira das três guaritas do complexo da mineradora, seguranças armados
barraram Noeli e os outros dois jornalistas da equipe da TV Serra Dourada.
“Eles (os seguranças) impediram inclusive que a gente fotografasse a fachada do
complexo“, relatou Noeli. Segundo a jornalista, as tentativas de contato com a
equipe de comunicação da empresa começaram dias antes da visita, mas foram
sistematicamente ignoradas por Herta Torres, a mesma funcionária que se recusou
a responder às minhas perguntas durante minha passagem pela sede da Serra
Verde. “Eles não estão falando o que está acontecendo“, afirmou Noeli. “Existe
um sigilo muito grande em torno da empresa desde a compra pelos americanos.”
Naquela
mesma tarde, tentei, sem sucesso, chegar ao complexo de Cana Brava, na mina de
Pela Ema, onde Noeli havia sido impedida de entrar. Localizada a cerca de uma
hora de carro de Minaçu, a base de operações da Serra Verde parece protegida
não apenas por guaritas e seguranças, mas também pelo próprio isolamento
geográfico. A estrada de terra que leva ao local não possui sinalização e
atravessa uma região sem cobertura de telefonia móvel. Em meio ao emaranhado de
bifurcações e caminhos vicinais, avançar sem orientação prévia se revelou
impossível. O acesso à mina parece desenhado exclusivamente para quem foi
previamente autorizado a chegar até ela.
É
justamente ali, no meio do cerrado goiano, que está o único ativo mineral fora
da Ásia capaz de reduzir, em escala comercial, a dependência dos Estados Unidos
em relação à China para o fornecimento de terras raras utilizadas em sistemas
de defesa, veículos elétricos, turbinas eólicas e semicondutores. O futuro de
setores considerados estratégicos para a economia e a segurança nacional
norte-americanas passa por uma cidade brasileira de pouco mais de 27 mil
habitantes.
Minaçu
fica no extremo norte de Goiás, a cerca de 460 quilômetros de Goiânia. Cercada
por reservatórios hidrelétricos e extensas áreas de cerrado, a cidade está
distante não apenas dos grandes centros econômicos, mas também dos principais
circuitos da imprensa nacional. A estrutura midiática local é reduzida: existem
duas rádios, mas não há jornais locais nem redações capazes de manter cobertura
permanente sobre uma empresa que movimenta bilhões de dólares e ocupa posição
central na disputa geopolítica entre Estados Unidos e China.
A
distância física se transforma, assim, em vácuo informacional. Para jornalistas
de fora, cobrir a Serra Verde exige longos deslocamentos, custos elevados e uma
logística complexa. Para os profissionais locais, a dificuldade é outra: a
escassez de recursos, o acesso limitado às fontes e a dependência de uma
economia profundamente marcada pela presença da mineradora. Somado a isso, o
controle exercido pela empresa sobre o acesso às suas instalações cria uma
camada adicional de opacidade. No isolamento geográfico da região, a
inacessibilidade deliberada da Serra Verde encontra um aliado poderoso.
Talvez
por isso Minaçu não apareça em nenhum dos 490 registros de ataques a
jornalistas no Centro-Oeste catalogados pela Associação Brasileira de
Jornalismo Investigativo (Abraji) entre 2021 e 2025. No entanto, isso não
significa que a cobertura jornalística flua livremente pela região – pelo
contrário.
O
levantamento da Abraji documenta aquilo que se torna visível: agressões
filmadas, processos noticiados, ameaças denunciadas, notas de repúdio emitidas
por entidades de classe. O silêncio em Minaçu opera em um nível anterior ao do
incidente documentável. Não é a agressão que deixa de ser registrada – são os
jornalistas que nem sequer chegam até lá para serem agredidos. O que opera não
é a violência ostensiva, mas formas mais difusas de silenciamento: a ausência
de veículos com capacidade financeira e editorial para investigar a atividade
mineradora, a dificuldade logística de acesso ao território, o isolamento
profissional dos poucos jornalistas locais e a opacidade institucional e
intimidação a jornalistas cultivada pela própria empresa.
Esse é
um padrão recorrente nos territórios de extração. Historicamente, o
colonialismo não se sustentou apenas pela apropriação de recursos naturais, mas
também pelo controle da informação sobre esses recursos. A exploração de ouro,
borracha, petróleo ou minérios estratégicos depende da produção de zonas
periféricas onde a circulação de informação seja tão desigual quanto a
distribuição da riqueza gerada.
Não por
acaso, a exploração da Serra Verde em Minaçu também ocorre à revelia de quem
vive as consequências mais diretas da transformação do território. Dita Godinho
é liderança do Quilombo Urbano São Félix, formado por famílias deslocadas
compulsoriamente pela construção da Usina Hidrelétrica de Cana Brava em 2002 –
a mesma que hoje abastece energeticamente a operação da Serra Verde.
Mais de
duas décadas após o reassentamento forçado, a comunidade continua ausente das
discussões sobre a mineração que avança ao seu redor. “Minha terra está até
hoje debaixo da água“, contou Dita. Sobre a venda da Serra Verde para os
norte-americanos, a líder quilombola ficou sabendo pelas redes sociais. “Não
houve nenhuma espécie de consulta, nenhuma organização pública para discutir
com a gente.”
Quando
perguntada sobre a quem deveria pertencer a riqueza extraída de Minaçu, a
resposta de Dita condensou séculos de história econômica brasileira em poucas
frases: “Eu acho que ela deveria ser do nosso país, da União. Porque tudo que a
gente tem aqui, a gente entrega lá fora. Já levaram o ferro, os diamantes, a
nossa madeira do Amazonas. E não fica nada. Levam tudo embora.“
O caso
Serra Verde é, nos termos da socióloga argentina Maristella Svampa, um exemplo
do neoextrativismo do século XXI: um modelo em que governos, independentemente
de sua coloração ideológica, tendem a dar ênfase às vantagens comparativas da
exportação de recursos primários, negando ou minimizando as assimetrias
econômicas, ambientais e territoriais que esse modelo produz. O que muda, em
relação ao extrativismo clássico, não é a lógica – é o vocabulário. “Transição
energética”, “cadeia de valor integrada” e “parceria estratégica” substituem o
léxico colonial de outrora, mas a estrutura permanece: extração na periferia,
beneficiamento no centro, e comunidades locais excluídas tanto da decisão
quanto do resultado.
As
terras raras extraídas em Minaçu abastecerão a fabricação de ímãs permanentes
para veículos elétricos, data centers e sistemas militares nos Estados Unidos,
sem garantia de processamento local, transferência tecnológica ou
industrialização significativa em território brasileiro. É a velha posição de
exportador de matérias-primas, agora aplicada ao recurso estratégico mais
disputado do século XXI.
O caso
Serra Verde não pode ser lido isoladamente da intervenção militar
norte-americana na Venezuela em janeiro de 2026, da pressão de Trump sobre a
Groelândia, da expansão militar dos EUA no Oriente Médio, em especial com a
guerra contra o Irã desde fevereiro de 2026, e do Project Vault, iniciativa de
US$ 12 bilhões do Estado americano para constituir estoques estratégicos de
minerais críticos. Com a aquisição da Serra Verde, Washington faz da soberania
brasileira mais uma variável subordinada à sua política industrial e de
segurança nacional.
Fonte:
Por Giovanna Vial, no Blog da Boitempo

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