O
imperialismo e o retorno da questão militar
A
presença militar dos Estados Unidos na América Latina precisa ser examinada
como um problema estrutural da soberania regional. Não se trata apenas de
localizar bases em um mapa, mas de compreender como a instalação de enclaves
militares, centros de vigilância, acordos operacionais, pontos logísticos e
dispositivos de cooperação em segurança reorganizam a relação entre poder
externo e autonomia nacional local. O problema central está no fato de que a
militarização estrangeira do espaço latino-americano cria uma soberania
sobreposta: formalmente, os Estados continuam independentes; materialmente,
parte de suas decisões estratégicas passa a ser condicionada por interesses,
doutrinas e comandos definidos fora da região.
Esse
fenômeno atinge o Brasil de maneira indireta, mas profunda e preocupante. Ainda
que o país não abrigue uma base militar estadunidense em seu território,
encontra-se cercado por uma malha de instalações, acessos e acordos que incidem
sobre seu entorno geopolítico imediato. A Amazônia, o Atlântico Sul, as
fronteiras setentrionais, as rotas marítimas, os recursos energéticos, os
minerais estratégicos e os corredores logísticos regionais tornam-se elementos
de uma disputa mais ampla. Embora esse cerco não precise assumir a forma de
ocupação direta para produzir efeitos, basta que imponha limites à autonomia
diplomática, condicione políticas de defesa e normalize a presença militar de
uma potência estrangeira como árbitro da segurança continental para que surjam
atritos diplomáticos ou militares.
A
história latino-americana demonstra, porém, que esse processo não é episódico.
Desde a Doutrina Monroe, a região foi tratada pelos Estados Unidos como zona
preferencial de influência. No século XX, essa orientação assumiu formas
diversas: intervenções militares diretas, apoio a golpes de Estado, treinamento
de forças repressivas, financiamento de operações anticomunistas e imposição de
doutrinas de segurança nacional subordinadas à lógica da Guerra Fria. No século
XXI, o vocabulário se atualizou. Fala-se em combate ao narcotráfico, crime
organizado transnacional, ajuda humanitária, segurança cibernética, migrações,
influência chinesa e presença russa. Mas a estrutura permanece inalterada: a
segurança latino-americana continua sendo frequentemente traduzida segundo os
interesses estratégicos de Washington.
As
instalações mais evidentes desse dispositivo são a Base Naval de Guantánamo, em
Cuba; a Base Aérea de Soto Cano, em Honduras; as estruturas militares em Porto
Rico, especialmente no eixo de Roosevelt Roads; o ponto de cooperação de
segurança em Comalapa, em El Salvador; e as instalações de Aruba e Curaçao, no
Caribe meridional. A essas se somam arranjos de cooperação, treinamento, acesso
operacional e inteligência em países como Colômbia e Peru, além de exercícios
militares recorrentes sob coordenação do Comando Sul dos Estados Unidos. Ainda
que algumas dessas estruturas sejam apresentadas oficialmente como locais de
cooperação, e não como bases tradicionais, sua função política e estratégica é
inequívoca: garantir presença, vigilância, mobilidade e capacidade de projeção
de força.
Para o
Brasil, esse quadro possui implicações decisivas. O país não está separado do
sistema regional de poder. Sua soberania territorial depende do controle da
Amazônia – que se estende por nove países da América do Sul –, da preservação
do Atlântico Sul como zona de paz, da autonomia tecnológica de defesa, da
capacidade de dissuasão e de uma diplomacia regional capaz de impedir a
fragmentação estratégica da América Latina. Quando bases, radares, centros de
treinamento, instalações logísticas e acordos militares estrangeiros se
multiplicam no entorno brasileiro, não estamos diante de uma questão
diplomática periférica. Estamos diante de um deslocamento concreto do
equilíbrio regional de poder.
A
disposição espacial desses enclaves revela uma lógica de contenção indireta. O
Caribe funciona como plataforma de vigilância e projeção. A América Central
opera como corredor logístico e político. O norte da América do Sul torna-se
zona sensível de monitoramento amazônico, energético e fronteiriço. O Atlântico
Sul permanece como área decisiva para o controle de rotas marítimas, cabos
submarinos, recursos energéticos e cadeias comerciais. Nenhuma potência global
organiza instalações militares no exterior por neutralidade técnica. A presença
militar antecede, acompanha ou garante interesses econômicos, tecnológicos,
diplomáticos e políticos.
Uma
análise à esquerda precisa enfrentar esse problema sem cair em simplificações.
A crítica ao imperialismo não pode se converter em desprezo abstrato pela
questão militar nacional. Ao contrário: ela exige recolocar o tema da defesa no
centro do debate sobre soberania popular. Forças Armadas submetidas ao povo, ao
interesse nacional e à Constituição são instrumentos indispensáveis para
qualquer projeto autônomo de país. O problema não reside, naturalmente, na
existência da instituição militar, mas em sua possível captura por doutrinas
estrangeiras, alinhamentos automáticos, concepções importadas de segurança e
uma visão subalterna do lugar do Brasil no mundo.
O
rearranjo militar estadunidense na América Latina abre uma disputa decisiva:
que papel terão as Forças Armadas brasileiras no século XXI? Serão forças
auxiliares de uma ordem hemisférica comandada por Washington, treinadas para
internalizar agendas externas sob a aparência de cooperação técnica? Ou serão
instituições de Estado orientadas para a defesa da soberania, da integridade
territorial, da Amazônia, do Atlântico Sul, da indústria nacional de defesa e
de uma política externa independente?
Essa
pergunta não é secundária. Sem efetiva soberania militar não pode haver real
soberania econômica. Sem autonomia estratégica, não há desenvolvimento
nacional. Sem capacidade de defesa, qualquer projeto popular permanece
vulnerável a chantagens externas, bloqueios tecnológicos, pressões
diplomáticas, sanções, sabotagens e intervenções indiretas. A esquerda
brasileira, ao longo de sua história, muitas vezes oscilou entre a denúncia
correta do militarismo autoritário e a dificuldade de formular uma política
nacional de defesa. Essa lacuna precisa imediatamente ser superada.
A
presença militar estadunidense no entorno do Brasil deve ser analisada como
parte de uma disputa maior pelo controle dos recursos naturais, das rotas
comerciais, das cadeias energéticas, da infraestrutura crítica e da orientação
política dos Estados latino-americanos. A Amazônia, o pré-sal, os minerais
estratégicos, os cabos submarinos, os portos, a base industrial de defesa e a
capacidade de integração sul-americana são elementos de um mesmo tabuleiro. O
que está em jogo não é apenas segurança. É poder e controle tutelar.
Por
isso, discutir as bases e instalações militares dos Estados Unidos na América
Latina é discutir o destino estratégico do Brasil. A soberania nacional não
pode ser reduzida a uma palavra de ordem eleitoral. Ela exige doutrina,
orçamento, indústria, ciência, tecnologia, inteligência, integração regional e
direção política. Exige também que as Forças Armadas deixem de ser pensadas
como corporação isolada e passem a ser compreendidas como parte de um projeto
nacional-democrático de defesa.
O cerco
existe porque o Brasil importa. Importa por seu território, por sua população,
por seus recursos, por sua posição atlântica, por sua fronteira amazônica e por
sua capacidade potencial de liderar uma ordem sul-americana menos dependente. O
desafio histórico consiste em transformar essa constatação em estratégia. Uma
esquerda que deseje governar o Brasil com profundidade não pode ignorar a
Questão Militar. Deve disputá-la, qualificá-la e submetê-la a um horizonte de
soberania popular. Porque, numa região marcada por esses dispositivos de
vigilância e enclaves estrangeiros, a independência não se proclama: luta-se
por ela.
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Juventude sindical vê eleição colombiana como disputa
entre Estado social e desmonte neoliberal
Dezenas
de lideranças da juventude convocadas pela Internacional dos Serviços
Públicos (ISP),
federação que reúne mais de 700 sindicatos de 150 países, reiteraram nesta
semana seu compromisso de dar continuidade ao projeto progressista colombiano,
representado pela candidatura de Iván Cepeda, e barrar o ultradireitista
Abelardo de la Espriella.
Reunidos
em Cali, os dirigentes jovens traçaram um paralelo entre o caminho do Pacto Histórico, soberanamente
percorrido pelo presidente Gustavo Petro, e o de vassalagem aos Estados Unidos,
alertando para o “enorme significado das escolhas para o presente e o futuro
das novas gerações”.
“O que
está em jogo são dois caminhos diametralmente opostos: a preservação ou a
devastação ambiental, a defesa dos serviços públicos ou o desmonte, o respeito
à legislação e ao trabalho digno ou a precarização”, sintetizou Marcela Suarez,
coordenadora do Comitê Nacional de Jovens da ISP.
Assinalando
que essa é uma “questão estratégica”, por se tratar de uma ofensiva da
oligarquia colombiana para a destruição da natureza e do Estado, Marcela
conclamou todos a mobilizarem seus bairros e locais de trabalho nesta reta
final, porque o que está em jogo é um projeto de nação.
Uma
opção pela direita, enfatizou, “seria devastadora para a maioria da população,
que inclui não apenas os jovens, mas as crianças, os idosos e o país como um
todo”.
De
acordo com Ivan Sanchez, delegado do Sindicato de Empregados da Direção
Nacional de Impostos e Aduanas (DIAN), a redução de 40% do Estado, como
proposto pelos neoliberais, provocaria um corte drástico nos investimentos não
somente em setores sociais, como saúde e educação.
“Um dos
temas que trouxemos para o debate é a manutenção das alfândegas ecológicas. Por
meio delas, não estamos apenas monitorando as passagens de fronteira do país
para prevenir o contrabando, mas também atentos ao tráfico de espécies, animais
selvagens e plantas, além da importação de materiais proibidos, como mercúrio e
plástico, que não são permitidos pelas normas internacionais”, esclareceu
Sánchez.
Portanto,
com o risco de uma vitória da ultradireita, avisou, “o progresso alcançado com
a política ambiental estaria em risco de ser revertido”.
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Projeto da direita prevê degradação ambiental, privatização e desmonte do
Estado
“Temos,
de um lado, a continuidade das políticas do atual governo, defendendo uma
ideologia progressista, focada na proteção da natureza e em um desenvolvimento
econômico mais sustentável. Do outro, o programa é de degradação ambiental,
privatização e desmonte do Estado”, afirmou Andrés Olaya, presidente do
Sindicato de Trabalhadores do Sistema Nacional Ambiental (Sintrambiente), em
Palmira.
Na sua
avaliação, “é imprescindível encontrar maneiras de proteger e capacitar as
pessoas para que melhorem sua situação econômica e sua qualidade de vida sem
prejudicar os recursos naturais”. Afinal, ponderou, “sem um meio ambiente
saudável, não importa quanto dinheiro tenhamos, não conseguiremos viver neste
mundo”.
Com
Abelardo de la Espriella, advertiu Olaya, o candidato que a mídia hegemônica
vende como “um novo messias”, “deixaríamos de ser um Estado progressista, que
garante direitos, para sermos geridos pelo salve-se quem puder neoliberal,
governado totalmente em função dos interesses do capital privado”.
“Isso
também pode levar a ações arbitrárias, criando uma situação opressiva, como
ocorre na Argentina, com Milei, ou em El Salvador, com Bukele. Portanto, é
importante votar pensando como sociedade”, frisou. Daí, defendeu o líder
ambientalista, “a necessidade de eleger alguém que tenha a capacidade de unir e
nos ajudar a crescer como país, que governe para todos”.
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Trajetória de Abelardo de la Espriella é marcada pelo preconceito
Como
coordenadora de Igualdade da ISP, apontou Liliana Guzmán, “nossa entidade se
posiciona abertamente contra os graves preconceitos manifestados pelo senhor
Abelardo de la Espriella em relação às mulheres e aos homossexuais”.
“Temos
em nosso país um sólido arcabouço legal, no qual foram alcançados progressos
significativos em relação ao respeito à diversidade. Removemos inúmeras
barreiras que antes impediam pessoas transgênero de ocupar certos cargos.
Considero
extremamente preocupante que alguém questione a legitimidade dessas pessoas
como indivíduos, tornando-as potenciais alvos de ataques, preconceito e
violência”, condenou.
Traçando
um paralelo com a trajetória fascista, Liliana recordou que, como costuma
acontecer, uma vez no poder eles atacam os “diferentes”, como fizeram contra os
comunistas.
“Depois
é a vez dos indígenas, dos negros e das mulheres.” Deslegitimar temas de
tamanha relevância como o respeito à diferença representa um brutal atropelo,
“já que certamente nos prejudicará a todos”.
Vale
lembrar que o candidato da ultradireita “reforça o discurso de violência em um
país historicamente violento, que passou por décadas de conflito armado”.
Dentro desse contexto, asseverou a dirigente da ISP, “é muito sério dizer
explicitamente que alguém deve ser ‘destripado’, como defendeu Abelardo. A
proposta é que sejamos eliminados ou assassinados simplesmente por pensar
diferente”.
“É como
voltar aos anos setenta e oitenta, quando pessoas eram presas, espancadas ou
desaparecidas apenas por terem uma cópia do Manifesto Comunista nas
mãos”, afirmou.
O que
está em jogo no próximo dia 21 de junho, acrescentou Liliana, é “não retroceder
aos tempos de guerra dos quais temos tentado escapar, é respeitar os direitos
humanos e tudo o que envolve a consideração ao pensamento diferente e a
construção de um país onde possamos coexistir”.
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Bélgica inicia comboio europeu em solidariedade a Cuba contra bloqueio dos EUA
A Praça
Luxemburgo, em Bruxelas, Bélgica, localizada em frente ao Parlamento Europeu,
tornou-se o ponto de partida das atividades da caravana europeia de
solidariedade a Cuba na quarta-feira (10/06). Acarreata continuará sua jornada
nesta quinta-feira (11/06) em Paris, onde está prevista uma manifestação em
frente à sede da Assembleia Nacional Francesa.
Apesar
do frio e da chuva durante todo o dia, mais de cem pessoas se reuniram nesse
espaço para demonstrar seu apoio à ilha e rejeitar as políticas opressivas
implementadas pelo governo dos Estados Unidos.
A
mobilização reuniu um grupo diversificado de participantes, incluindo ativistas
sociais, eurodeputados, parlamentares belgas, intelectuais, cubanos residentes
no exterior, líderes políticos e sindicais, juntamente com a delegação do
movimento de solidariedade da Itália.
Durante
o encontro na praça, eles fizeram discursos nos quais condenaram o bloqueio energético
e a política de sanções de Washington, denunciando o impacto que essas medidas têm
no cotidiano da população cubana.
Como
atividade prévia ao comício na praça, as instalações do Parlamento Europeu
acolheram o debate político intitulado ” Rumo a um novo internacionalismo em
tempos de guerra”.
Nesse
fórum, intelectuais e ativistas exigiram uma declaração institucional e uma
condenação da União Europeia em relação à estratégia dos EUA para a nação
caribenha, que descreveram como uma política genocida.
Esta
iniciativa de solidariedade, que viaja sob os lemas “Deixe Cuba Respirar” e
“Europa, Acorde”, continuará sua jornada por diversas cidades do continente.
Fonte:
Opera Mundi/Diálogos do Sul Global

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