sábado, 13 de junho de 2026

O imperialismo e o retorno da questão militar

A presença militar dos Estados Unidos na América Latina precisa ser examinada como um problema estrutural da soberania regional. Não se trata apenas de localizar bases em um mapa, mas de compreender como a instalação de enclaves militares, centros de vigilância, acordos operacionais, pontos logísticos e dispositivos de cooperação em segurança reorganizam a relação entre poder externo e autonomia nacional local. O problema central está no fato de que a militarização estrangeira do espaço latino-americano cria uma soberania sobreposta: formalmente, os Estados continuam independentes; materialmente, parte de suas decisões estratégicas passa a ser condicionada por interesses, doutrinas e comandos definidos fora da região.

Esse fenômeno atinge o Brasil de maneira indireta, mas profunda e preocupante. Ainda que o país não abrigue uma base militar estadunidense em seu território, encontra-se cercado por uma malha de instalações, acessos e acordos que incidem sobre seu entorno geopolítico imediato. A Amazônia, o Atlântico Sul, as fronteiras setentrionais, as rotas marítimas, os recursos energéticos, os minerais estratégicos e os corredores logísticos regionais tornam-se elementos de uma disputa mais ampla. Embora esse cerco não precise assumir a forma de ocupação direta para produzir efeitos, basta que imponha limites à autonomia diplomática, condicione políticas de defesa e normalize a presença militar de uma potência estrangeira como árbitro da segurança continental para que surjam atritos diplomáticos ou militares.

A história latino-americana demonstra, porém, que esse processo não é episódico. Desde a Doutrina Monroe, a região foi tratada pelos Estados Unidos como zona preferencial de influência. No século XX, essa orientação assumiu formas diversas: intervenções militares diretas, apoio a golpes de Estado, treinamento de forças repressivas, financiamento de operações anticomunistas e imposição de doutrinas de segurança nacional subordinadas à lógica da Guerra Fria. No século XXI, o vocabulário se atualizou. Fala-se em combate ao narcotráfico, crime organizado transnacional, ajuda humanitária, segurança cibernética, migrações, influência chinesa e presença russa. Mas a estrutura permanece inalterada: a segurança latino-americana continua sendo frequentemente traduzida segundo os interesses estratégicos de Washington.

As instalações mais evidentes desse dispositivo são a Base Naval de Guantánamo, em Cuba; a Base Aérea de Soto Cano, em Honduras; as estruturas militares em Porto Rico, especialmente no eixo de Roosevelt Roads; o ponto de cooperação de segurança em Comalapa, em El Salvador; e as instalações de Aruba e Curaçao, no Caribe meridional. A essas se somam arranjos de cooperação, treinamento, acesso operacional e inteligência em países como Colômbia e Peru, além de exercícios militares recorrentes sob coordenação do Comando Sul dos Estados Unidos. Ainda que algumas dessas estruturas sejam apresentadas oficialmente como locais de cooperação, e não como bases tradicionais, sua função política e estratégica é inequívoca: garantir presença, vigilância, mobilidade e capacidade de projeção de força.

Para o Brasil, esse quadro possui implicações decisivas. O país não está separado do sistema regional de poder. Sua soberania territorial depende do controle da Amazônia – que se estende por nove países da América do Sul –, da preservação do Atlântico Sul como zona de paz, da autonomia tecnológica de defesa, da capacidade de dissuasão e de uma diplomacia regional capaz de impedir a fragmentação estratégica da América Latina. Quando bases, radares, centros de treinamento, instalações logísticas e acordos militares estrangeiros se multiplicam no entorno brasileiro, não estamos diante de uma questão diplomática periférica. Estamos diante de um deslocamento concreto do equilíbrio regional de poder.

A disposição espacial desses enclaves revela uma lógica de contenção indireta. O Caribe funciona como plataforma de vigilância e projeção. A América Central opera como corredor logístico e político. O norte da América do Sul torna-se zona sensível de monitoramento amazônico, energético e fronteiriço. O Atlântico Sul permanece como área decisiva para o controle de rotas marítimas, cabos submarinos, recursos energéticos e cadeias comerciais. Nenhuma potência global organiza instalações militares no exterior por neutralidade técnica. A presença militar antecede, acompanha ou garante interesses econômicos, tecnológicos, diplomáticos e políticos.

Uma análise à esquerda precisa enfrentar esse problema sem cair em simplificações. A crítica ao imperialismo não pode se converter em desprezo abstrato pela questão militar nacional. Ao contrário: ela exige recolocar o tema da defesa no centro do debate sobre soberania popular. Forças Armadas submetidas ao povo, ao interesse nacional e à Constituição são instrumentos indispensáveis para qualquer projeto autônomo de país. O problema não reside, naturalmente, na existência da instituição militar, mas em sua possível captura por doutrinas estrangeiras, alinhamentos automáticos, concepções importadas de segurança e uma visão subalterna do lugar do Brasil no mundo.

O rearranjo militar estadunidense na América Latina abre uma disputa decisiva: que papel terão as Forças Armadas brasileiras no século XXI? Serão forças auxiliares de uma ordem hemisférica comandada por Washington, treinadas para internalizar agendas externas sob a aparência de cooperação técnica? Ou serão instituições de Estado orientadas para a defesa da soberania, da integridade territorial, da Amazônia, do Atlântico Sul, da indústria nacional de defesa e de uma política externa independente?

Essa pergunta não é secundária. Sem efetiva soberania militar não pode haver real soberania econômica. Sem autonomia estratégica, não há desenvolvimento nacional. Sem capacidade de defesa, qualquer projeto popular permanece vulnerável a chantagens externas, bloqueios tecnológicos, pressões diplomáticas, sanções, sabotagens e intervenções indiretas. A esquerda brasileira, ao longo de sua história, muitas vezes oscilou entre a denúncia correta do militarismo autoritário e a dificuldade de formular uma política nacional de defesa. Essa lacuna precisa imediatamente ser superada.

A presença militar estadunidense no entorno do Brasil deve ser analisada como parte de uma disputa maior pelo controle dos recursos naturais, das rotas comerciais, das cadeias energéticas, da infraestrutura crítica e da orientação política dos Estados latino-americanos. A Amazônia, o pré-sal, os minerais estratégicos, os cabos submarinos, os portos, a base industrial de defesa e a capacidade de integração sul-americana são elementos de um mesmo tabuleiro. O que está em jogo não é apenas segurança. É poder  e controle tutelar.

Por isso, discutir as bases e instalações militares dos Estados Unidos na América Latina é discutir o destino estratégico do Brasil. A soberania nacional não pode ser reduzida a uma palavra de ordem eleitoral. Ela exige doutrina, orçamento, indústria, ciência, tecnologia, inteligência, integração regional e direção política. Exige também que as Forças Armadas deixem de ser pensadas como corporação isolada e passem a ser compreendidas como parte de um projeto nacional-democrático de defesa.

O cerco existe porque o Brasil importa. Importa por seu território, por sua população, por seus recursos, por sua posição atlântica, por sua fronteira amazônica e por sua capacidade potencial de liderar uma ordem sul-americana menos dependente. O desafio histórico consiste em transformar essa constatação em estratégia. Uma esquerda que deseje governar o Brasil com profundidade não pode ignorar a Questão Militar. Deve disputá-la, qualificá-la e submetê-la a um horizonte de soberania popular. Porque, numa região marcada por esses dispositivos de vigilância e enclaves estrangeiros, a independência não se proclama: luta-se por ela.

¨      Juventude sindical vê eleição colombiana como disputa entre Estado social e desmonte neoliberal

Dezenas de lideranças da juventude convocadas pela Internacional dos Serviços Públicos (ISP), federação que reúne mais de 700 sindicatos de 150 países, reiteraram nesta semana seu compromisso de dar continuidade ao projeto progressista colombiano, representado pela candidatura de Iván Cepeda, e barrar o ultradireitista Abelardo de la Espriella.

Reunidos em Cali, os dirigentes jovens traçaram um paralelo entre o caminho do Pacto Histórico, soberanamente percorrido pelo presidente Gustavo Petro, e o de vassalagem aos Estados Unidos, alertando para o “enorme significado das escolhas para o presente e o futuro das novas gerações”.

“O que está em jogo são dois caminhos diametralmente opostos: a preservação ou a devastação ambiental, a defesa dos serviços públicos ou o desmonte, o respeito à legislação e ao trabalho digno ou a precarização”, sintetizou Marcela Suarez, coordenadora do Comitê Nacional de Jovens da ISP.

Assinalando que essa é uma “questão estratégica”, por se tratar de uma ofensiva da oligarquia colombiana para a destruição da natureza e do Estado, Marcela conclamou todos a mobilizarem seus bairros e locais de trabalho nesta reta final, porque o que está em jogo é um projeto de nação.

Uma opção pela direita, enfatizou, “seria devastadora para a maioria da população, que inclui não apenas os jovens, mas as crianças, os idosos e o país como um todo”.

De acordo com Ivan Sanchez, delegado do Sindicato de Empregados da Direção Nacional de Impostos e Aduanas (DIAN), a redução de 40% do Estado, como proposto pelos neoliberais, provocaria um corte drástico nos investimentos não somente em setores sociais, como saúde e educação.

“Um dos temas que trouxemos para o debate é a manutenção das alfândegas ecológicas. Por meio delas, não estamos apenas monitorando as passagens de fronteira do país para prevenir o contrabando, mas também atentos ao tráfico de espécies, animais selvagens e plantas, além da importação de materiais proibidos, como mercúrio e plástico, que não são permitidos pelas normas internacionais”, esclareceu Sánchez.

Portanto, com o risco de uma vitória da ultradireita, avisou, “o progresso alcançado com a política ambiental estaria em risco de ser revertido”.

<><> Projeto da direita prevê degradação ambiental, privatização e desmonte do Estado

“Temos, de um lado, a continuidade das políticas do atual governo, defendendo uma ideologia progressista, focada na proteção da natureza e em um desenvolvimento econômico mais sustentável. Do outro, o programa é de degradação ambiental, privatização e desmonte do Estado”, afirmou Andrés Olaya, presidente do Sindicato de Trabalhadores do Sistema Nacional Ambiental (Sintrambiente), em Palmira.

Na sua avaliação, “é imprescindível encontrar maneiras de proteger e capacitar as pessoas para que melhorem sua situação econômica e sua qualidade de vida sem prejudicar os recursos naturais”. Afinal, ponderou, “sem um meio ambiente saudável, não importa quanto dinheiro tenhamos, não conseguiremos viver neste mundo”.

Com Abelardo de la Espriella, advertiu Olaya, o candidato que a mídia hegemônica vende como “um novo messias”, “deixaríamos de ser um Estado progressista, que garante direitos, para sermos geridos pelo salve-se quem puder neoliberal, governado totalmente em função dos interesses do capital privado”.

“Isso também pode levar a ações arbitrárias, criando uma situação opressiva, como ocorre na Argentina, com Milei, ou em El Salvador, com Bukele. Portanto, é importante votar pensando como sociedade”, frisou. Daí, defendeu o líder ambientalista, “a necessidade de eleger alguém que tenha a capacidade de unir e nos ajudar a crescer como país, que governe para todos”.

<><> Trajetória de Abelardo de la Espriella é marcada pelo preconceito

Como coordenadora de Igualdade da ISP, apontou Liliana Guzmán, “nossa entidade se posiciona abertamente contra os graves preconceitos manifestados pelo senhor Abelardo de la Espriella em relação às mulheres e aos homossexuais”.

“Temos em nosso país um sólido arcabouço legal, no qual foram alcançados progressos significativos em relação ao respeito à diversidade. Removemos inúmeras barreiras que antes impediam pessoas transgênero de ocupar certos cargos.

Considero extremamente preocupante que alguém questione a legitimidade dessas pessoas como indivíduos, tornando-as potenciais alvos de ataques, preconceito e violência”, condenou.

Traçando um paralelo com a trajetória fascista, Liliana recordou que, como costuma acontecer, uma vez no poder eles atacam os “diferentes”, como fizeram contra os comunistas.

“Depois é a vez dos indígenas, dos negros e das mulheres.” Deslegitimar temas de tamanha relevância como o respeito à diferença representa um brutal atropelo, “já que certamente nos prejudicará a todos”.

Vale lembrar que o candidato da ultradireita “reforça o discurso de violência em um país historicamente violento, que passou por décadas de conflito armado”. Dentro desse contexto, asseverou a dirigente da ISP, “é muito sério dizer explicitamente que alguém deve ser ‘destripado’, como defendeu Abelardo. A proposta é que sejamos eliminados ou assassinados simplesmente por pensar diferente”.

“É como voltar aos anos setenta e oitenta, quando pessoas eram presas, espancadas ou desaparecidas apenas por terem uma cópia do Manifesto Comunista nas mãos”, afirmou.

O que está em jogo no próximo dia 21 de junho, acrescentou Liliana, é “não retroceder aos tempos de guerra dos quais temos tentado escapar, é respeitar os direitos humanos e tudo o que envolve a consideração ao pensamento diferente e a construção de um país onde possamos coexistir”.

<><> Bélgica inicia comboio europeu em solidariedade a Cuba contra bloqueio dos EUA

A Praça Luxemburgo, em Bruxelas, Bélgica, localizada em frente ao Parlamento Europeu, tornou-se o ponto de partida das atividades da caravana europeia de solidariedade a Cuba na quarta-feira (10/06). Acarreata continuará sua jornada nesta quinta-feira (11/06) em Paris, onde está prevista uma manifestação em frente à sede da Assembleia Nacional Francesa.

Apesar do frio e da chuva durante todo o dia, mais de cem pessoas se reuniram nesse espaço para demonstrar seu apoio à ilha e rejeitar as políticas opressivas implementadas pelo governo dos Estados Unidos.

A mobilização reuniu um grupo diversificado de participantes, incluindo ativistas sociais, eurodeputados, parlamentares belgas, intelectuais, cubanos residentes no exterior, líderes políticos e sindicais, juntamente com a delegação do movimento de solidariedade da Itália.

Durante o encontro na praça, eles fizeram discursos nos quais condenaram o bloqueio energético e a política de sanções de Washington, denunciando o impacto que essas medidas têm no cotidiano da população cubana.

Como atividade prévia ao comício na praça, as instalações do Parlamento Europeu acolheram o debate político intitulado ” Rumo a um novo internacionalismo em tempos de guerra”.

Nesse fórum, intelectuais e ativistas exigiram uma declaração institucional e uma condenação da União Europeia em relação à estratégia dos EUA para a nação caribenha, que descreveram como uma política genocida.

Esta iniciativa de solidariedade, que viaja sob os lemas “Deixe Cuba Respirar” e “Europa, Acorde”, continuará sua jornada por diversas cidades do continente.

 

Fonte: Opera Mundi/Diálogos do Sul Global

 

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