sábado, 13 de junho de 2026

Dark Horse: filme de Bolsonaro entra na mira da PF por elo com Master e lavagem de dinheiro do PCC

Polícia Federal investiga transações financeiras realizadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, por meio da empresa Entre Investimentos e Participações, para o suposto financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Segundo as apurações, cerca de R$ 61 milhões teriam sido repassados, a pedido do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), para o fundo de investimentos Havengate, nos Estados Unidos, administrado pelo advogado Paulo Calixto, que atua para o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

A avaliação preliminar da PF é que o episódio pode configurar crime de evasão de divisas. A mesma empresa intermediária dos repasses ao filme também movimentou R$ 20 milhões com o FIDC Gold Style, fundo administrado pela Reag Trust que é investigado por receber R$ 1 bilhão de empresas identificadas como parte do esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC).

<><> As investigações sobre o financiamento do filme ‘Dark Horse’

A Polícia Federal analisa as transações feitas por Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, por meio da empresa Entre Investimentos e Participações Ltda., para supostamente financiar o Dark Horse. O montante sob investigação chega a R$ 61 milhões, que teriam sido repassados, a pedido do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), para o fundo de investimentos nos Estados Unidos ligado a Paulo Calixto, advogado que atua para o ex-deputado Eduardo Bolsonaro. A avaliação preliminar da corporação é que o episódio pode configurar crime de evasão de divisas, mas os investigadores avaliam que o caso precisa ser mais bem apurado antes de qualquer conclusão definitiva.

Os documentos que embasam as suspeitas incluem um comprovante de transferência internacional SWIFT, datado de 13 de fevereiro de 2025, que indicaria uma remessa de US$ 2 milhões para o Havengate Development Fund LP, controlado por Paulo Calixto.

Segundo o The Intercept Brasil, que divulgou os registros bancários e uma planilha denominada Funding Schedule, o documento detalha um cronograma de financiamento de quase US$ 24 milhões para o projeto, com 14 desembolsos previstos entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. Ao final do período, o fundo teria recebido US$ 10,6 milhões. A operação teria sido processada pelo Banco BS2 e destinada a uma conta vinculada ao JPMorgan Chase Bank, nos Estados Unidos, configurando uma rota financeira internacional que envolve o Banco Master e empresas associadas.

<><> As conexões com o FIDC Gold Style e o PCC

A empresa Entre Investimentos e Participações, apontada como intermediária no financiamento do Dark Horse, não aparece apenas nessa investigação. Segundo apuração da Folha de S.Paulo, de Vinicius Sassine e Thaísa Oliveira, o FIDC Gold Style, administrado pela Reag Trust e investigado por receber R$ 1 bilhão de empresas ligadas ao esquema de lavagem de dinheiro do PCC, também registrou transações de R$ 20 milhões com a mesma empresa usada por Vorcaro para os repasses ao filme.

A coincidência de atores coloca a Entre Investimentos no centro de duas frentes investigativas distintas, conectadas por uma estrutura financeira que, segundo o Coaf, foi desenhada para dificultar o rastreamento de recursos.

O FIDC Gold Style foi constituído em abril de 2020 com aporte inicial de R$ 480,1 milhões. Em maio de 2024, seu patrimônio líquido havia saltado para R$ 1,84 bilhão, conforme dados públicos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O fundo é administrado, gerido, custodiado e distribuído integralmente pela Reag Trust, estrutura que, segundo investigadores, dificulta a identificação dos beneficiários finais.

Relatórios do Coaf descrevem que as operações ligadas ao Gold Style serviram para “ocultar beneficiários, dificultar a identificação de pessoas envolvidas e atrapalhar o rastreamento”, com o uso de “camadas complexas”. Entre as empresas que alimentaram o fundo estão a Aster Petróleo, com repasses de R$ 759,5 milhões, a BK Bank, com R$ 158 milhões, e a Inovanti Instituição de Pagamento, com R$ 175 milhões, todas investigadas na Operação Carbono Oculto e identificadas pela PF como parte do esquema de lavagem do PCC. As transações cobrem o período entre 2023 e 2025.

<><> A atuação de parlamentares e o contexto das investigações da PF

Em 11 de junho de 2026, os deputados Pedro Uczai (PT-SC), Pedro Campos (PSB-PE), Jandira Feghali (PCdoB-RJ) e André Janones (Rede-MG) encaminharam ao Partido Democrata dos Estados Unidos uma “Petição de Juntada de Fatos Novos”, com documentos que reforçam as suspeitas sobre o financiamento do Dark Horse.

O material se baseia na reportagem do The Intercept Brasil publicada dois dias antes, que divulgou a planilha Funding Schedule e o comprovante SWIFT. Os parlamentares já haviam estado nos Estados Unidos na semana anterior para apresentar denúncias a autoridades e congressistas democratas, argumentando que há fortes indícios de que parte dos recursos destinados ao filme foi transferida para um fundo sediado no Texas e administrado por Eduardo Bolsonaro. A iniciativa evidencia que as suspeitas de evasão de divisas e lavagem de dinheiro transcendem as fronteiras nacionais e passaram a mobilizar atores políticos em dois países.

No Brasil, a PF avalia que as investigações envolvendo Vorcaro não chegaram nem à metade e pretende acelerar as apurações antes do período eleitoral, para evitar questionamentos e críticas semelhantes aos que marcaram a Operação Lava-Jato, quando delações foram tornadas públicas às vésperas de eleições. A corporação se debruça sobre o vasto material apreendido e periciado para mapear a rede de empresas e fundos utilizados por Vorcaro e seus auxiliares.

A Operação Compliance Zero, que já completou oito fases, alcançou políticos como o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o ex-governador do Rio Cláudio Castro (PL), e a expectativa é de que a lista de investigados seja ampliada em breve. Quanto à colaboração premiada, a PF avalia que a segunda proposta apresentada por Vorcaro não traz fatos novos e deve rejeitar o acordo, por considerar que as informações não permitem avançar em novas frentes de investigação.

•        Fundo da Reag ligado ao PCC fez transações com empresa usada por Vorcaro para enviar dólares ao filme de Bolsonaro

Fundo de Investimento em Direito Creditório (FIDC) Gold Style, administrado pela Reag Trust e investigado por receber R$ 1 bilhão de empresas ligadas ao esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC), também realizou transações de R$ 20 milhões com a Entre Investimentos e Participações, empresa que foi utilizada por Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para repassar recursos à produção do filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Os dados constam em relatórios de inteligência financeira do Coaf enviados à CPI do Crime Organizado no Senado e foram apurados com base em comunicados bancários que apontam operações com “camadas complexas” para ocultar beneficiários e dificultar o rastreamento dos recursos. As informações foram divulgadas nesta sexta-feira (11) por Vinicius Sassine e Thaísa Oliveira na Folha de S.Paulo.

<><> O Fundo Gold Style e suas conexões suspeitas

O FIDC Gold Style foi constituído em abril de 2020 com um aporte inicial de R$ 480,1 milhões. Em maio de 2024, seu patrimônio líquido havia saltado para R$ 1,84 bilhão, conforme informações públicas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O fundo é administrado, gerido, custodiado e distribuído integralmente pela Reag Trust, gestora que concentra todas as funções operacionais do veículo. Não é possível identificar quem são os donos e beneficiários finais do fundo, lacuna que, segundo investigadores, foi amplamente explorada pela Reag e pelo Banco Master para fraudes e expansão artificial de ativos.

Os comunicados bancários enviados ao Coaf apontam que o Gold Style recebeu R$ 1 bilhão de empresas identificadas pela Polícia Federal como integrantes do esquema de lavagem de dinheiro do PCC. Entre elas estão a Aster Petróleo, com repasses de R$ 759,5 milhões; a BK Bank, com R$ 158 milhões; e a Inovanti Instituição de Pagamento, com R$ 175 milhões. Todas são investigadas na Operação Carbono Oculto. As transações cobrem o período entre 2023 e 2025 e foram compartilhadas com a CPI do Crime Organizado no Senado.

O mesmo fundo que recebeu esses recursos também registrou transações de R$ 20 milhões com a Entre Investimentos e Participações, empresa apontada como intermediária no financiamento do filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Relatórios do Coaf descrevem que as operações ligadas ao Gold Style serviram para “ocultar beneficiários, dificultar a identificação de pessoas envolvidas e atrapalhar o rastreamento”, com o uso de “camadas complexas”. A Reag, quando procurada pela reportagem da Folha de S.Paulo, disse que não comentaria o assunto.

<><> A teia do PCC: lavagem de dinheiro e o sistema financeiro

A Aster Petróleo é apontada como peça central em um esquema de fraudes e sonegação no setor de combustíveis que operou em oito estados brasileiros. A distribuidora era usada como engrenagem de lavagem de dinheiro e evasão fiscal em larga escala, com o Banco do Brasil comunicando ao Coaf, em agosto de 2024, os repasses de R$ 759,5 milhões da empresa ao Gold Style, antes mesmo da deflagração da Operação Carbono Oculto.

A BK Bank, fintech que repassou R$ 158 milhões ao fundo, é uma das principais investigadas na operação. De acordo com apurações da Polícia Federal, da Receita Federal e do Ministério Público de São Paulo, a instituição atuou para a facção criminosa por meio de contas-bolsão em bancos que concentravam depósitos de clientes diversos, dificultando o rastreamento das transações. A estrutura oferecia às empresas de fachada controladas pelo grupo a aparência de operações financeiras regulares. A Inovanti Instituição de Pagamento, por sua vez, movimentou mais de R$ 778 milhões de pessoas físicas e jurídicas investigadas pela Operação Carbono Oculto, segundo comunicados bancários ao Coaf .

Como a Fórum já noticiou, a Operação Carbono Oculto investiga justamente a infiltração do PCC no mercado financeiro, com o uso do sistema para dar aparência lícita a recursos de origem ilegal. Investigadores suspeitam que a facção utilizou a estrutura de fundos da Reag, incluindo o Gold Style, para lavar dinheiro por meio de um mecanismo com único cotista, artifício que dificulta ainda mais a identificação dos beneficiários finais e torna o rastreamento dos recursos praticamente inviável sem acesso a documentos sigilosos.

<><> O filme Dark Horse e os repasses sob investigação

A conexão entre o Gold Style e o universo político bolsonarista passa pela Entre Investimentos e Participações. A empresa, que transacionou R$ 20 milhões com o fundo, teria sido utilizada por Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para repassar dinheiro à produção de Dark Horse, documentário sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. O filme conta com a participação direta do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro e do senador Flávio Bolsonaro, que cobrou Vorcaro para garantir repasses ao filme no valor de R$ 134 milhões.

<><> O papel da Reag e o escândalo do Banco Master

A Reag Trust não é uma coadjuvante nas investigações: é o centro operacional de toda a estrutura do Gold Style e figura em duas operações policiais de grande porte. A gestora foi alvo da Operação Compliance Zero, a mesma que apura fraudes no âmbito do Banco Master e que levou Daniel Vorcaro de volta à prisão em 4 de março. A suspeita dos investigadores é que a Reag atuou na estruturação e administração de uma “ciranda” de fundos suspeitos de movimentar recursos de forma atípica, inflar resultados e ocultar riscos, com indícios de fraude e lavagem de dinheiro. O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Reag Investimentos em janeiro, dois meses após solvência do Banco Master.

A Reag também foi alvo da Operação Carbono Oculto, que investiga o esquema bilionário de fraudes e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis atribuído a integrantes do PCC. A dupla exposição da gestora, em operações que investigam tanto fraudes no mercado de capitais quanto lavagem de dinheiro do crime organizado, coloca a Reag no centro de uma teia que conecta o sistema financeiro regulado a práticas ilícitas de grande escala. O fundo Gold Style, com ativo de R$ 2 bilhões segundo dados da CVM, permanecia “em funcionamento normal” conforme os registros públicos mais recentes.

<><> Implicações e desdobramentos das investigações

As revelações sobre o Gold Style aprofundam um quadro que a Fórum tem acompanhado: a relação entre a Faria Lima e o crime organizado, agravada pelo escândalo do Banco Master. A complexidade das estruturas de fundos como o Gold Style, com beneficiários ocultos e camadas sucessivas de transações, levanta questões concretas sobre a eficácia da fiscalização exercida pelo Banco Central e pela CVM. O mecanismo do fundo com único cotista, em especial, é um ponto cego regulatório que as investigações em curso colocam em evidência.

A CPI do Crime Organizado no Senado já recebeu os dados do Coaf sobre as movimentações do Gold Style, o que indica que as apurações parlamentares devem avançar sobre essas conexões. A chegada desse material à comissão abre espaço para convocações, requerimentos de documentos e eventuais encaminhamentos ao Ministério Público Federal, ampliando o alcance político e judicial do caso.

A convergência entre lavagem de dinheiro do PCC e o financiamento de um filme com participação direta de filhos do ex-presidente Bolsonaro, mediada por um fundo administrado por uma gestora já liquidada pelo Banco Central, é um nó que as investigações ainda estão desatando. A liquidação da Reag e do Banco Master, somada às duas operações policiais em curso, sinaliza que o período de maior escrutínio sobre fundos de investimento e gestoras no Brasil está apenas começando. O que os documentos do Coaf já mostram é suficiente para colocar em xeque a narrativa de que essas estruturas operam à margem do crime organizado por mero descuido regulatório.

 

Fonte: Fórum

 

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