João
Carlos Salles: Filosofia e universidade
A
filosofia interroga a identidade dos fenômenos. Seu trabalho conceitual não
pode, contudo, ser reduzido a uma mera taxonomia. Volta-se, afinal, às coisas
mesmas não somente para dizer o que são, mas para pensar o que podem ser.
Isso
sabe em geral a um paradoxo: o pensamento sempre fixa, solidifica os fenômenos,
inclusive aqueles tendentes a uma inescapável fluidez, de sorte que, por si só,
envolve alguma impostura. É inevitável que cristalize o que jamais pode
agarrar, como quando espacializa o tempo ou quantifica qualidades. Difícil
aceitar esse destino, até por serem muitos e necessários os ofícios da
inteligência: todos nós, enquanto pensamos, temos algo de farsantes.
O preço
é elevado, sendo importante ter consciência da negatividade de qualquer gesto
subjetivo, de tudo que, enfim, envolve linguagem e representação, seja na
produção de conhecimento, seja na vida política. Não por acaso, tomando a
analogia da representação na política, é óbvio que a presença efetiva sempre
será mais que a representação, pois toda representação implica algum
deslizamento, não podendo representante algum conter a presença. Tais
deslizamentos, não obstante, são inevitáveis, como bem o sabemos e
testemunhamos.
O
paradoxo parece mesmo ineludível. Mais ainda, ele chega ao paroxismo quando o
objeto do pensamento é algo da ordem de um sujeito – como é o caso com
instituições vivas: a universidade, e ela própria, a filosofia. Nosso desafio
hoje, cifrado em nosso tema, não é pequeno: posta no espelho, a filosofia deve
interrogar a si mesma. Flagra-se então como aquilo que se tornou, como um
conjunto de feitos e não como mais um ser em se fazendo.
A
primeira aproximação, a mais empírica, já nos retira o fôlego ao pensar a
relação entre filosofia e universidade, adiantando alguns pontos sobre seu
futuro. Paciência, pois é o nosso tema. Como uma constatação empírica, no que
pode ter de bênção ou de maldição, a filosofia é isso, sim: uma coisa
universitária; e a universidade, por sua feita, é também uma coisa, marcada
embora por exigências filosóficas.
De
forma um tanto dura, conquanto entremeada de rebeldia, José Arthur Giannotti
nos dizia em 1975: “Ao contrário de outras épocas, o filosofar de hoje é em
geral trabalho remunerado. O filósofo é um funcionário, poucas vezes um
escritor, vivendo de sua própria produção. Goza assim de um lazer ritmado pelo
livro de ponto, pelos horários das aulas, onde se obriga a comunicar, com
rígida periodicidade, o resultado de suas investigações livres. Qual é o
mistério que leva uma sociedade moderna, quase sempre tecnocrata e autoritária,
a financiar a vagabundagem bem comportada do filósofo?”.
O
quadro talvez devesse hoje ser mais severo. A aula não é sempre o espaço de
comunicação de uma pesquisa. Com frequência, é a antípoda do exercício livre do
pensamento. Por sua feita, a vagabundagem consentida perdeu muito do que seria
próprio de uma rebeldia e uma errância. De todo modo, seja como lugar de
repetição, reprodução e competição, seja como lugar de criação e liberdade, a
equação está posta: a filosofia se realiza na universidade.
Tem
bastante razão José Arthur Giannotti, ao afirmar a necessidade de decifrar o
escopo e as limitações de nossa possível ação ou atuação. Cabe voltar ao chão
concreto dos fenômenos sociais nos quais nos inserimos. Assim, necessitaríamos
também “deixar de ser meros filósofos, profissionais da reflexão, para
participar conscientemente da reflexão objetiva que constitui o cerne dos
fenômenos sociais”.
Vejamos,
pois, algumas imagens características (algumas historicamente datadas e
localizadas na UFBA) do trabalho da filosofia na universidade, para em seguida
pensarmos, quiçá mais fundamente, a relação entre a filosofia e a universidade
– uma conjunção enigmática e talvez adversativa.
Pode
ter sido diferente ou muito parecido em outros lugares. Entretanto, tendo em
conta nossa história particular, podemos espalhar algumas imagens da filosofia
na nossa Universidade, como o álbum breve de uma travessia de décadas.
A
filosofia entre nós já foi tratada como se fora um mero compartimento, uma
disciplina a mais – no que seria exemplo de uma má disciplinaridade, uma
espécie de reserva de saber, um agregado de proposições e de argumentos datados
que conformariam um campo.
Também
foi tratada como se fora uma concessão nobiliárquica, uma espécie de mel de
coruja, a espalhar gotas de sabedoria para engenheiros e contadores – no que
seríamos um exemplo de uma má interdisciplinaridade.
Com
frequência, fomos tratados como se não tivéssemos medidas próprias e, logo,
como se devêssemos nos submeter aos critérios e modos de produção de outras
áreas. Ao mesmo tempo, por uma espécie de redução especular, enfrentamos e
continuamos a enfrentar a oferta fácil de uma medida única por alguns dos
nossos, como se nossa disciplina milenar devesse renunciar ao ensaio e, quiçá,
à poesia, e nossa competência tivesse agora de ser medida tão somente por um
conjunto de papers.
De
certa forma, essa incursão imperialista se legitimava e ainda se legitima por
escovar a contrapelo um vício antigo e oposto, o do beletrismo, que tanto nos
caracterizou por décadas, de sorte que nossos melhores quadros apressadamente
preenchiam lacunas conceituais por soluções literárias, perfazendo com relativo
sucesso a imagem de mares de uma polegada.
Há de
se conceder, todavia, que o beletrismo, com sua pobreza atávica, tinha lá algum
brilho, sobretudo se o comparamos ao modelo produtivista ultraespecializado que
enche de orgulho quem organiza colóquios para poucas pessoas, consagrando-se
como teóricos abissais e isolados para seus pares, mas, de resto, desobrigados
da tarefa penosa de qualificação da própria demanda social por filosofia.
Outras
imagens podem ocorrer, mas elas se dispõem aqui e acolá, sempre de forma
confusa e misturada, na trajetória comum de muitos departamentos de filosofia
pelo Brasil afora, que, felizmente, com grande sucesso e eventuais recuos,
deixaram de ser departamentos de serviço para se consolidarem como centros de
pesquisa, com graduação e pós-graduação em linha de conta com as dos demais
centros de excelência do país. Não obstante sua necessidade, o que tal sucesso
pode ocultar é uma certa indiferença ao destino da própria universidade que a
todos nos emprega. Vejamos mais de perto essa questão.
A
filosofia tornou-se coisa universitária. E isso não é ruim. Ao contrário, foi
no meio universitário que a comunidade filosófica conseguiu estabelecer seus
padrões mais elevados. Por outro lado, por estarmos na universidade, agarram-se
em nós vícios e virtudes, e não podemos deixar de enxergar umas e outros, no
momento em que somos desafiados a pensar em nossa realidade e em nosso futuro.
Como
essa é, porém, uma circunstância histórica, poderíamos pensar: ser coisa
universitária é um fenômeno passageiro. É uma residência datada, uma instalação
provisória. Talvez em breve o valor do “profissional da filosofia” não seja
medido pelo reconhecimento dos pares ou por sua eventual classificação como
bolsista de produtividade de alguma agência de fomento, mas sim pelo número de
seguidores nas redes e sua capacidade de fazer aderir seu discurso a múltiplos
recursos digitais. Não mais valerá seu desempenho em sala de aula ou na ágora,
mas sim seu alcance como influencer.
Entretanto,
os que são do ramo sempre saberão discernir profundidade de escândalo, rigor de
simples impacto; e continuaremos espantados com o sucesso ocasional de teóricos
medíocres. Ou seja, em tese, continuaremos a operar na longa duração, com os
critérios urdidos por nossa comunidade científica, assim como deve operar a
universidade. Desse modo, temos boa razão para invocar como mais apropriado
falar de filosofia e universidade como um laço essencial, e não apenas da
circunstância de a filosofia se dar na universidade.
Está em
jogo não apenas o vínculo empregatício, o fato de sermos funcionários do
Estado, mas sim o fato mais relevante de o Estado, em condições normais de
temperatura e pressão (tirante os períodos estritamente ditatoriais), poder
abrigar esses dois projetos, compreendendo, por isso mesmo, que a ameaça a
esses projetos que guardam as condições de uma argumentação razoável implica a
ameaça a um pacto social democrático.
Tendo
em vista tal contexto (esse cenário em que operamos), podemos sustentar alguns
pontos:
(i) O
futuro da filosofia não pode estar apenas no seu passado, sob pena de nos
tornarmos uma gigantesca paráfrase de nós mesmos e de reduzirmos nosso labor à
disciplina do comentário; (ii) O futuro da filosofia não pode, contudo,
renunciar a uma confrontação sistemática com nosso passado, sob pena de
abandonarmos nossos principais contendores e de precisarmos reformular, em meio
à nossa precariedade, questões mais bem formuladas outrora. Filósofos
formadores distinguem-se naturalmente por seu fôlego na corrida filosófica e,
na verdade, quem não percebe o significado profundo dessa diferença passa a
sobreviver de mera retórica, sem dominar bens os instrumentos de nosso ofício.
(iii) O
futuro da filosofia não está apenas na Europa ou nos Estados Unidos, de sorte
que nos enriquecemos se colhemos os frutos do pensamento rigoroso ou de sua
crítica nas diversas línguas e múltiplos lugares em que tenha florescido, sendo
uma tarefa necessária a recuperação de matrizes múltiplas e um diálogo sério
com elas. Aqui, como em toda parte, o pensamento exige disciplina e dedicação,
nunca estando legitimado previamente qualquer consentimento teórico.
(iv) Da
mesma forma, o futuro da filosofia nunca estará inteiramente fora da Europa (ou
até dos Estados Unidos), uma vez que a desconstrução de pretensos sujeitos
universais, tarefa bastante atual, envolve a reconstrução permanente das
condições mesmas da subjetividade, ou seja, uma pauta clássica e contemporânea
que, como herança ou como futuro, define-se como nossa.
(v) O
trabalho filosófico, em suma, caso tenha direitos e algum futuro, não se faz
por mera substituição, mas sim por agregação e confronto, sob pena de se
transformar em mera dogmática, não importando saber a serviço de quais
senhores.
Se
coisa universitária, o futuro da filosofia não é apenas a filosofia. Cabe aqui
enfatizar um traço próprio das proposições filosóficas: elas não são apenas
teóricas, mas sim normativas. Nossas proposições são degeneradas, porquanto
infensas à mera bipolaridade dos enunciados significativos. Por isso mesmo,
podem ser mais relevantes para dizerem o que ainda não é, pois capazes de
antever edificações onde incautos só veem ruínas. Por outro lado, se falamos de
universidades, estas não se fazem como soma de vocações disciplinares, de sorte
que, bem pensadas, não se fazem sem filosofia.
Aprofundemos,
pois, esse traço de afinidade, destacando o lado normativo da filosofia e de
qualquer política com horizontes mais largos para a construção da vida
universitária. Refletindo, então, sobre as condições de sentido, sem estar
voltada à produção de verdades, a filosofia deve interrogar o sentido desse
equipamento de construção ou de destruição do pensamento, a universidade. Ou
seja, dialoga com as ciências e as artes, sem lhes fazer uma mera apologia.
Entre
outras coisas, a filosofia deve iluminar um paradoxo que nos concerne a todos e
apontar os caminhos de uma reação organizada, a saber, o paradoxo por meio do
qual, em linhas gerais, documentos da civilização são também documentos da
barbárie e como, em específico, é possível o absurdo concreto de um
desenvolvimento científico e tecnológico cada vez maior não ser incompatível
como a mais profunda degradação cultural e mesmo a favoreça.
Como
disciplina normativa, para dar outro exemplo, a filosofia afirma sua identidade
precária ao questionar a identidade definidora da própria universidade, que
associa a gestão autônoma de pessoal, saberes e patrimônio ao princípio da
indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.
Ao
ativar, nesse caso, sua vocação normativa, a filosofia questiona não apenas a
letra da definição da autonomia e a atual realidade de degradação do tecido,
por conta da penúria orçamentária, das empobrecidas relações interpessoais, da
cisão interna que perpassa categorias e unidades, mas sobretudo que a
identidade se faça por ajuntamento, e seja morta, e não por uma viva coesão.
Como
disciplina normativa, a filosofia se aproxima então da universidade indagando
como um projeto talhado no papel para a produção da igualdade e a ampliação de
direitos e de conhecimentos pode correr o risco de ser considerado agora apenas
um projeto caro e até desnecessário (como o está sendo pela grande mídia, O
Globo, Estadão e Folha de S. Paulo) — projeto que poderia ser substituído com
vantagens por novas tecnologias e pela mais completa privatização da educação
superior.
A
filosofia pode bem ajudar a combater tais aleivosias, mas apenas se, como
disciplina normativa que interroga a identidade de fenômenos, for capaz de
identificar o que lhe corrói a identidade e faz produzir o seu reverso. Em
outras palavras, como exclusão e a desigualdade podem estar sendo produzidas em
cada uma de suas dimensões constitutivas.
No
ensino – por exemplo, na manutenção custosa de assimetrias pedagógicas que
substituem uma autoridade legítima (e, de resto, necessária) por exercícios de
aprendizado que, na expressão de Marilena Chaui, não deixam a cadeira vazia. A
atividade formadora, afinal, renova pactos e consensos, legitima autoridades e
cria condições para uma transmissão que é também escuta, de sorte que, também
no ensino, a universidade deve ser capaz de alimentar o sentido de sua
autonomia, a saber, a maioridade intelectual do exercício esclarecido de seu
entendimento.
Ao
contrário, e não por acaso, temos visto o conjunto dos universitários
vulneráveis à baixa qualidade narrativa das redes, que é sempre mais ágil no
que se trata de repetição, reprodução do já estabelecido. Vimos isso, aliás, em
campanha recente, pontuada menos pela violência dos ataques e mais pela
infantilidade das argumentações. Muita inteligência artificial e pouco talento
– o que prova que o uso de tecnologias de informação sofisticadas não nos salva
da mediocridade.
Na
pesquisa – na disparidade dos recursos disponíveis e a perigosa intromissão,
sem mediações, de imperativos deslinguistizados nos rumos da pesquisa, ou seja,
o investimento seletivo e tendente ao clientelismo de recursos
extraorçamentários para a definição dos rumos e temas de pesquisa, doravante
subordinada aos interesses relevantes da inovação, que deveria ser sua
sucedânea e não sua bitola.
A
disparidade tende a aprofundar a diversa posição de cursos em relação a
demandas ou em função de seu prestígio social, bem como tende a fortalecer os
grupos consolidados e a internacionalizar seletivamente quem já tem ampla
relação internacional.
Na
extensão – com a manutenção de assimetrias, de projetos unilaterais, que
terminam por reduzir a extensão a uma disputa por alunos, como o fazem as
privadas, ou a uma forma menor de divulgação científica também de mão única,
uma vez que tais projetos estão longe de favorecer uma ocupação das
universidades por demandas e saberes que não mais deveriam ser compreendidos
como externalidades.
Na
gestão universitária – por exemplo, quando a instituição, vista como mera
empresa ou como mais uma repartição pública, é ameaçada pelo empreendedorismo e
aceita medir-se pela mera eficácia dos resultados, sem que estes estejam em
linha de conta com os propósitos finalísticos da instituição, de sorte que seus
gestores, de representantes mais ou menos próximos da vontade democrática dos
representados, se desnaturam e mesmo se amesquinham como executivos ou
lobistas.
Longe
de desenvolver aqui tais pontos, apenas os sugerimos, indicando que podem e
devem ser desenvolvidos por uma interrogação filosófica radical e coletiva dos
comprometimentos hoje sofridos pela identidade dessa instituição singular, cujo
destino deveria ser pautado pelos desígnios da educação e não pelas forças da
barbárie.
A
república não deve precisar de sábios, mas sim de universidades. Por isso,
insistimos na importância da conjunção. Filosofia e universidade, registrando
que a conjunção encobre uma natureza adversativa. É verdadeira tão somente se
ambos os termos se afirmam, mas não é uma mera função de verdade de dimensões
isoladas. A conjunção é adversativa, pois os termos se matizam. Cada um é,
apesar do outro; cada qual pode ser por causa do outro.
Em
sendo assim, as medidas próprias da competência filosófica devem se afirmar, em
todo país e em face de todas as áreas, da mesma forma que as universidades
federais não podem ser reduzidas a instituições de terceiro grau. Aqui, importa
registrar que as universidades, uma vez medidas por um tempo comum que não se
congela nos prédios já construídos, são da ordem do que se move e não do que se
classifica em rankings. Estes são importantes como são indispensáveis os
relógios para o medir das horas e o estabelecimento de acordos, mas os rankings
não são as universidades, assim como os relógios não são o tempo.
Os
profissionais autênticos de filosofia, os que não estão fechados em seus
próprios interesses ou em suas carreiras, devem empregar sua vocação além de
suas comunidades diminutas, que podem continuar diminutas, mesmo se
internacionais. Se somos operários de uma coisa universitária, temos obrigações
com nossa casa, com esse lugar que nos abriga e emprega, de sorte que nosso
labor intelectual não pode descurar nosso compromisso militante com essa morada
que nos alimenta. Mais que nunca, em defesa de nossa profissão e de nossa casa,
devemos nos proteger tanto do obscurantismo alheio quanto de nós mesmos, de
nossas próprias limitações pouco esclarecidas.
A
conjunção é adversativa, mas não repulsiva. Além disso, é essencial para
situarmos esses dois projetos de Estado (e, queremos crer, de um Estado
democrático) na longa duração, ou seja, projetos que não se medem pelo
imediato. Essa ligação entre filosofia e universidade, longe de ser absurda,
prenuncia o laço entre seres definidos pela mesma temporalidade. Como têm esse
horizonte comum, não guardam a incompatibilidade incontornável dos centauros,
dos quais asseverara Lucrécio: “Não houve centauros nem podem em tempo algum
existir conjuntos de dupla natureza e de dois corpos, formados de membros
díspares, nem haver forças desiguais”.
Filosofia
e universidade (permito-me acrescentar, as humanidades, as artes, as ciências e
a universidade) não são imiscíveis, como o seriam o corpo do homem e o do
cavalo, definidos por temporalidades distintas, sendo adulto em um ano um
cavalo, mas não um homem. Ao contrário, são projetos que têm em comum a longa
duração. Em sendo assim, nossa tarefa como animais universitários é permanente,
sobretudo quando, além de ensino, pesquisa e extensão, também nos comprometemos
com a representação do interesse coletivo.
Nesse
caso, nunca podemos esquecer e repetimos. Nenhuma representação se completa ou
se faz sem a renovação da presença, nem pode falar de um lugar abstrato, que
representasse por si a razão. Tal lugar puro seria falso e mesmo ultrajante,
face nossa realidade e nossa história. Logo, não havendo mesmo um sujeito
universal, ninguém encarna a realidade por completo, cabendo ao representante
que se importe com sua própria legitimidade, renovar os votos a cada instante,
lavar suas guias, negar-se para enfim manter a aposta originária.
Não se
abrevia o tempo, nem se reduz a longa duração. O tempo da universidade não se
reduz a documentos sem vida, a normas nunca seguidas, nem se aninha nas
restrições orçamentárias. O tempo da universidade, se relevante a instituição,
mede-se por um não ser, ou seja, por conhecimentos ainda não adquiridos e em
vidas por serem ainda transformadas. A nós, profissionais da filosofia, das
artes e das ciências, cabe apenas a tarefa simples de criação das condições que
nos permitam, por nossas ações comuns, confiar-nos ao tempo.
Fonte:
A Terra é Redonda

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