Como
conquistar a Gen Z? As campanhas presidenciais testam suas armas
O
deputado federal Nikolas
Ferreira (PL-MG) aparece em um vídeo de seu perfil no Instagram
"rasgando" uma tela virtual com a imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e, em um tom
informal, disparou sua mensagem: "Sabe o que eles fazem com os jovens?
Eles usam vocês!".
O
perfil do movimento Juventude do PT, destinado à mobilização do público jovem,
lança uma campanha nas redes sociais batizada de "Brota na urna".
Durante
um evento em Ji-Paraná (RO), o senador e pré-candidato à Presidência da
República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) dança um funk
criado em sua homenagem.
Enquanto
isso, Renan Santos (Missão) dispara
anúncios nas redes sociais se apresentando como o pré-candidato do
"partido da geração Z".
Seja
nas redes sociais ou no mundo real, esses movimentos têm uma coisa em comum: a
esquerda e a direita já deram início à disputa pelo eleitorado jovem, um
público estimado em 18,7 milhões de pessoas entre 16 e 24 anos. São os
eleitores da chamada geração Z, aqueles nascidos
entre 1996 e 2012.
O
motivo desse interesse é óbvio. Com todas as principais pesquisas de intenção
de voto apontando que as eleições deste ano tendem a ser tão ou mais disputadas
que as de 2022, o apoio dos jovens está entre os mais cobiçados.
Em
jogo, está uma fatia responsável por 11,5% do eleitorado total, estimado em
156,4 milhões de eleitores, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Trata-se de um
volume nada desprezível, considerando que as eleições presidenciais foram
vencidas por Lula por uma diferença de apenas 2,1 milhões de votos.
Mas, na
busca por esses votos, especialistas ouvidos pela BBC News Brasil apontam que
tanto a esquerda quanto a direita deverão enfrentar desafios.
À
esquerda, o principal desafio, dizem, será reverter os baixos índices de
aprovação do governo Lula junto a essa faixa etária e romper a resistência ao
fato de o petista ter 80 anos de idade.
À
direita, pesquisas e especialistas apontam que o desafio será reverter a
preferência momentânea que o público jovem vem demonstrando em favor de Lula e
diminuir a rejeição de parte do eleitorado geral em relação ao pai de Flávio,
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Os
especialistas apontam ainda que ambos os lados enfrentaram pelo menos dois
desafios adicionais: a aversão à polarização política e o tradicional
descrédito do eleitorado jovem brasileiro em relação à importância do próprio
voto, o que leva a uma taxa de abstenção maior que a média nacional.
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Apoio, desaprovação e mobilização
As
principais pesquisas de intenção de voto divulgadas nos últimos meses apontam
um cenário desafiador para o presidente Lula, que busca a reeleição.
Segundo
pesquisa divulgada em maio pelo instituto Datafolha, entre eleitores de 16 a 24
anos, Lula venceria Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no primeiro turno com 35% dos
votos, contra 28% do senador. No segundo turno, no entanto, Lula aparece com
47% a 41%. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais para mais
ou para menos.
Apesar
de aparecer como favorito no segmento até 24 anos, segundo o Datafolha, uma
outra pesquisa do instituto aponta um sinal de alerta para a equipe de campanha
do presidente.
A
pesquisa que avalia a aprovação do governo Lula também divulgada em maio mostra
que os jovens estão entre os segmentos mais descontentes com a atual
administração do petista.
No
total, 50% dos entrevistados desse segmento desaprovam o governo, contra 45%
que o aprovam. Aqui, a margem de erro também é de dois pontos percentuais.
Um dado
ainda mais preocupante para o governo é que é neste segmento que Lula encontra
o pior índice dos que consideram seu governo ótimo ou bom, 19%, quando a média
nesse quesito foi de 32%.
A
diretora do Datafolha, Luciana Chong, diz que a comparação com pesquisas
anteriores mostra o tamanho do desafio de Lula junto aos jovens.
"Em
março de 2023, Lula tinha 36% de avaliação ótima ou boa entre os jovens. Agora,
ele tem 19%. Por outro lado, em 2023, ele tinha 17% de avaliação ruim ou
péssima nesse segmento. Agora, ela subiu para 37%", diz Chong à BBC News
Brasil.
Ela
afirma que o Datafolha ainda não produziu dados qualitativos para entender, em
detalhes, o que fez a avaliação de Lula cair tanto junto aos jovens.
Ela
afirma, no entanto, que os entrevistados verbalizam um sentimento comum:
"O que dá para perceber é que há um mau humor generalizado da população e
uma grande desconfiança em relação às instituições".
Duas
pesquisas divulgadas pelo Datafolha nos últimos meses apontam para este
cenário.
Em uma
delas, sobre quais são os principais problemas do país na avaliação dos
entrevistados, os jovens apontaram que, para eles, o tema que mais os preocupa
é a situação da economia. O resultado destoa da média dos entrevistados, que
apontou a saúde como o principal problema.
"Os
mais jovens parecem perceber essa piora da sensação econômica e relatam uma
falta de perspectiva. Eles estão pessimistas em relação a tudo", afirma
Chong.
Por
outro lado, o fato de o cenário ser desafiador para Lula não significa,
necessariamente, que a situação seja mais fácil para Flávio Bolsonaro ou para
outros candidatos de direita.
A
pesquisa mais recente de intenção de votos do Datafolha aponta que Lula
venceria todos os adversários da direita no segundo turno neste segmento.
Além
disso, Flávio Bolsonaro está empatado com Lula no quesito rejeição. Segundo o
Datafolha, o senador e o petista têm uma rejeição de 46% no segmento do
eleitorado mais jovem.
Além
disso, segundo Luciana Chong e o pesquisador e presidente do Instituto Ideia,
Maurício Moura, as pesquisas apontam que, também neste público, as mulheres
demonstram mais apoio a Lula do que a Flávio Bolsonaro.
"A
gente percebe que as mulheres mais jovens têm uma percepção mais positiva,
especialmente por conta de políticas de proteção contra a violência doméstica e
de programas como o Pé-de-Meia", diz Moura à BBC News Brasil.
A BBC
News Brasil procurou Flávio Bolsonaro para comentar sobre esses dados, mas não
obteve retorno.
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Nikolas: 'Antes, a gente só via mobilização do jovem por meio da esquerda'
Considerado
um dos principais cabos eleitorais da direita, Nikolas Ferreira contou à BBC
News Brasil qual foi estratégia por trás do vídeo em que pediu o engajamento
dos eleitores jovens e que já acumulou 22,6 milhões de visualizações no
Instagram. O número é quase igual ao total de seguidores do parlamentar, 22
milhões.
"Eu
fiz o vídeo porque, antigamente, a gente só via a mobilização do jovem na
política por meio da esquerda. Hoje, penso que o cenário se alterou e tem muita
gente que ainda não sabe como tirar o título. Foi por isso que fiz o vídeo e
não esperava a repercussão que teve", diz o parlamentar à BBC News Brasil.
O
vídeo, no entanto, não se limita a orientar os jovens sobre como tirar o
título. Boa parte da produção se dedica a criticar o atual governo e a dizer
que a esquerda só se mobiliza em busca do voto jovem no período eleitoral.
À
esquerda, a mobilização da Juventude do PT ainda parece longe de alcançar os
mesmos números de Nikolas.
A
campanha "Brota na urna", com vídeos e postagens em redes sociais
orientando jovens a tirarem o título de eleitor, começou neste ano em meados de
março e os vídeos com os maiores números de visualizações chegaram a ter entre
49 mil e 50 mil.
A
presidente da Juventude do PT, Julia Köpf, diz à BBC News Brasil que uma das
principais preocupações do movimento é com a taxa de abstenção do eleitorado
brasileiro e, em especial, do eleitorado jovem.
"A
gente tem atenção ao absenteísmo, que é presente na geração Z, mas também em
outras faixas etárias. Nosso trabalho de militância é encantar as pessoas e
mostrar que a política vale a pena", afirma.
A
preocupação de Julia procede. Em 2022, a abstenção média no segundo turno das
eleições foi de 20,5%, enquanto no público jovem, essa taxa foi de 21,5%.
Köpf
diz ver os movimentos feitos pela direita em direção à geração Z como naturais
em um cenário de disputa política.
"Da
mesma forma que a gente tenta engajar esse público, a direita também vai tentar
fazer isso. Faz parte da disputa pelos corações e mentes e vai fazer parte do
restante deste ano", diz.
Luciana
Chong diz que as pesquisas mostram que apostar nesse público pode render bons
frutos aos candidatos presidenciais.
"Temos
um grupo de 27% dos eleitores brasileiros que se identificam como
não-alinhados. Eles não indicam que votarão em Lula ou em Flávio. E dentro
desse segmento, quase um quarto é composto por eleitores jovens. Isso significa
que há um espaço para crescer nessa faixa etária", diz.
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Renan Santos e a geração Z
Explorando
o duelo entre Lula e Flávio Bolsonaro, o pré-candidato Renan Santos (Missão)
vem se destacando, segundo algumas pesquisas de intenção de voto, justamente
por seu desempenho nas pesquisas até agora junto a essa fatia do eleitorado.
No Agregador de Pesquisas da BBC News
Brasil,
que mostra as estimativas de intenções de voto para os pré-candidatos – uma
"média" das pesquisas, mas que leva em conta pesos diferentes para
cada levantamento –, Renan aparece com 3% dos votos, bem distante dos 31% de
Flávio e de 40% de Lula.
Mas,
segundo a pesquisa de intenção de voto mais recente divulgada pela AtlasIntel,
de maio, Renan lidera entre o público jovem em todos os três cenários de
primeiro turno.
No
cenário em que Lula e Flávio Bolsonaro disputam o primeiro turno, Santos lidera
o público entre 16 e 24 anos com 36,1% das intenções de voto, contra 28,2% de
Lula e 24,5% do senador fluminense.
No
cenário em que Flávio não aparece, sua liderança nesse segmento sobe para
41,5%.
Esta é
a mesma pesquisa que foi suspensa pelo presidente do Tribunal Superior
Eleitoral (TSE) após um pedido da defesa de Flávio Bolsonaro sob suspeitas de o
instituto ter manipulado questões para prejudicar o senador após ter vindo à
tona seu áudio com o banqueiro preso Daniel Vorcaro. O instituto afirma que
apenas exibiu o áudio ao final do que questionário e nega ter cometido
irregularidades.
Segundo
o Datafolha, Santos é o terceiro mais bem colocado entre os eleitores de 16 a
24 anos de idade, com 7% das intenções de voto, atrás de Flávio Bolsonaro (28%)
e Lula (35%) e a frente dos demais candidatos, inclusive, de políticos com
longa trajetória com o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), que
aparece com 2%, e do ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), também
com 2%.
Yuri
Sanches, da Atlas/Intel, diz que a diferença nos dados sobre a preferência do
eleitor jovem entre sua pesquisa e a do Datafolha é resultado da metodologia
usada pela sua empresa, que utiliza formulários online e não os questionários
aplicados por entrevistadores em pontos de fluxo, como o Datafolha.
Segundo
Sanches, os formulários online deixariam os eleitores jovens mais à vontade
para expressar suas preferências, especialmente quando elas se direcionam a um
candidato ainda pouco conhecido ou marcado por posicionamentos considerados
controversos como Renan Santos, que já defendeu o fim da presunção de inocência
para pessoas suspeitas de pertencer a uma facção criminosa e a imposição de
Estado de Defesa em áreas supostamente dominadas pelo crime organizado.
Aos 42
anos, Renan Santos é um dos fundadores do Movimento Brasil Livre (MBL), no
início dos anos 2010, ao lado do agora deputado federal Kim Kataguiri
(Missão-SP). Após quase dez anos de militância à direita, Santos conseguiu
fundar um partido, o Missão, em 2025.
No
início deste ano, ele anunciou que disputaria a Presidência da República e,
desde então, vem intensificando sua atuação nas redes sociais. Seu foco vem
sendo se colocar como uma alternativa para o voto de direita em contraposição
ao senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro.
Para
isso, um dos seus principais trunfos tem sido ampliar sua popularidade junto ao
público jovem, que, por algum tempo, mobilizou o MBL, especialmente durante o
processo que levou ao impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT), em
2016.
Dados
da biblioteca de anúncios da empresa Meta, que controla o Facebook, Instagram e
WhatsApp, mostram que, nos últimos 30 dias, o Missão publicou 513 anúncios. Uma
análise de alguns deles mostra que boa parte dos anúncios atinge o público
entre 16 e 24 anos de idade.
Em um
desses anúncios, o apelo ao público jovem é claro.
"O
nome desse partido é Missão. É o partido da geração Z. Se você não quer apenas
ser aquela propaganda que aparece na TV [...] aqui é a tua casa. Aqui você não
é apenas o foco. Você manda", diz Santos em um vídeo de aproximadamente 48
segundos, que atingiu, majoritariamente, internautas homens e com idades entre
18 e 34 anos.
Para o
chefe de análise política da Atlas/Intel, Yuri Sanches, Santos vem crescendo
sua popularidade junto a esse público usando uma estratégia bem definida.
"Ele
se coloca como crítico tanto de Lula quanto de Flávio Bolsonaro. Ele acena para
um eleitor jovem que está cansado ou desinteressado na polarização e oferece
uma alternativa pro eleitor que é contra Lula, mas não quer abraçar o
bolsonarismo", diz Sanches à BBC News Brasil.
Sanches
afirma que a tendência é de que Santos se torne mais conhecido junto a outros
segmentos do eleitorado à medida em que a campanha avance, mas salienta que a
aparente liderança junto aos eleitores jovens não é suficiente para alavancar
sua pré-candidatura.
"Por
mais que ele lidere nessa faixa, ele precisa aumentar seu alcance para outros
segmentos. Como se trata de um eleitorado reduzido na comparação com o total,
ser líder entre os jovens ainda não faz dele um candidato competitivo no
geral".
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Impacto do caso Master
Uma das
principais preocupações dos comandos de campanha à esquerda e à direita é com
relação ao potencial eleitoral das revelações do caso do Banco Master. O banco
era comandado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, que está preso sob suspeita de ter
cometido fraudes bilionárias contra o sistema financeiro nacional.
A
pesquisa de intenção de voto divulgada em 19 de maio pelo instituto Atlas/Intel
mostra que o público de 16 a 24 anos de idade está particularmente mobilizado
em torno do assunto.
No
início de maio, o site The Intercept Brasil revelou um áudio em que Flávio
Bolsonaro pediu dinheiro para Vorcaro um dia antes de ele ser preso pela
primeira vez pela Polícia Federal. Segundo o senador, o pedido era para
financiar parte dos custos do filme Dark Horse, uma cinebiografia de seu pai.
Em
seguida, Flávio admitiu ainda ter se encontrado pessoalmente com Vorcaro após
ele ter sido solto, em novembro de 2025, quando já havia suspeitas sobre
supostas transações ilegais praticadas pelo banqueiro.
A
pesquisa Atlas/Intel, realizada após a divulgação dos vínculos entre Flávio e
Vorcaro, mostrou que o impacto do caso junto ao público mais jovem foi forte.
Em
abril, Flávio estava na frente de Lula nesse segmento, com 36,6% das intenções
de voto, enquanto o petista tinha 28,5%. Em maio, Flávio perdeu 12,1 pontos
percentuais, caindo para 24,5%, enquanto Lula ficou com 28,2%.
A
pesquisa mostrou que quase a totalidade das intenções de voto nesse segmento
migraram de Flávio para Renan Santos.
A
pesquisa mostrou, também, que o segmento jovem é o que menos diz acreditar na
versão dada por Flávio de que o pedido a Vorcaro era uma tentativa legítima de
obter financiamento para o filme. Apenas 12,9% disseram crer no relato do
parlamentar. A média foi de 33%.
A
pesquisa, no entanto, também mostra um cenário preocupante para Lula.
Seu
desempenho junto a essa faixa do eleitorado, segundo a Atlas/Intel, não subiu
na mesma proporção da queda de seu principal adversário.
Segundo
o levantamento de maio, os eleitores entre 16 e 24 anos são os que mais avaliam
negativamente o governo Lula: 66,3% dizem que o governo do petista é ruim ou
péssimo. O número é pouco menor que o registrado em abril, quando 69,4%
avaliavam o governo Lula de forma negativa.
Apesar
da queda no percentual da avaliação negativa, a avaliação positiva (ótimo e
bom) também caiu. A queda foi de 17,2% para 12,7%. A diferença se refletiu no
aumento de 13,5% para 21,2% no percentual de jovens que avaliam o governo como
regular.
Fonte:
BBC News Brasil

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