DIA
NACIONAL DA CARDIOPATIA CONGÊNITA: O coração de uma criança não pode depender
do CEP onde ela nasceu
Todos
os anos, cerca de 30 mil crianças nascem no Brasil com cardiopatia congênita,
que é uma das formas mais frequentes de anomalias congênitas ao nascimento. São
aproximadamente 80 novos casos por dia. Muitas dessas crianças precisarão de
acompanhamento especializado desde os primeiros meses de vida e parte delas
dependerá de cirurgia cardíaca para sobreviver.
Os
avanços da medicina nas últimas décadas proporcionaram o diagnóstico mais
precoce das cardiopatias e, além disso, com a inovação e a tecnologia, houve
uma melhora na sobrevida destes pacientes por conta do tratamento e cirurgias.
Mas ainda temos um grande desafio, que é melhorar o acesso às unidades
especializadas.
Embora
o Brasil conte com centros de excelência e profissionais altamente
qualificados, a realidade mostra que as oportunidades de diagnóstico e
tratamento ainda são profundamente desiguais. Em muitos casos, as chances de
uma criança receber assistência adequada continuam relacionadas à região onde
nasceu, à existência de serviços especializados próximos e à capacidade de sua
família de percorrer longas distâncias em busca de atendimento.
Essa é
uma discussão que precisa ganhar mais espaço na sociedade.
A
cardiopatia congênita não é uma doença rara. Ela afeta aproximadamente um em
cada 100 nascidos vivos e está entre as principais causas de morte por
malformações congênitas na infância. Ainda assim, permanece pouco conhecida
pela população. Quando o diagnóstico acontece tardiamente, aumentam os riscos
de complicações, internações prolongadas e desfechos que poderiam ser evitados.
O
Brasil avançou muito ao incorporar medidas como o Teste do Coraçãozinho na
triagem neonatal. O exame é simples, rápido, indolor e pode identificar
possíveis alterações cardíacas graves logo nos primeiros dias de vida. Mas o
exame, sozinho, não resolve o problema. É preciso garantir que a criança tenha
acesso imediato à investigação complementar, ao especialista e ao tratamento
necessário.
A
jornada de uma família após o diagnóstico costuma revelar desafios que vão
muito além da medicina. São deslocamentos frequentes, afastamento do trabalho,
custos indiretos, impacto emocional e incertezas constantes. Não raramente,
pais e mães precisam reorganizar completamente suas vidas para garantir o
cuidado dos filhos.
Ao
longo dos últimos 30 anos acompanhando crianças com cardiopatias congênitas
pelo Pro Criança Cardíaca testemunhei uma transformação extraordinária. Hoje,
graças aos avanços da cirurgia cardíaca pediátrica, da terapia intensiva e da
assistência multidisciplinar, milhares de crianças que antes não sobreviveriam
chegam à adolescência e à vida adulta. Essa é uma das grandes vitórias da
medicina contemporânea.
Mas
essa conquista trouxe um novo desafio. Cada vez mais pessoas vivem com
cardiopatias congênitas e necessitam de acompanhamento contínuo ao longo da
vida. Estamos diante de uma geração de sobreviventes que exige políticas
públicas capazes de integrar cuidado pediátrico, assistência especializada e
acompanhamento na vida adulta.
O
sucesso não pode ser medido apenas pelo número de cirurgias realizadas. Ele
precisa ser avaliado pela capacidade de garantir que cada criança tenha acesso
ao diagnóstico precoce, ao tratamento oportuno e ao acompanhamento adequado,
independentemente de sua condição social ou localização geográfica.
Neste
Dia Nacional da Cardiopatia Congênita, celebrado em 12 de junho, a reflexão que
proponho é simples: a medicina já demonstrou que é possível salvar a maioria
dessas crianças. O que falta é garantir que essa possibilidade esteja
disponível para todas.
Nenhuma
criança deveria ter seu futuro definido pela distância entre sua casa e um
centro especializado. Nenhuma família deveria enfrentar sozinha a busca por um
tratamento que é um direito.
O
coração de uma criança não pode esperar. E suas chances de viver não podem
depender do CEP onde ela nasceu.
Fonte:
Por Dra. Isabela Rangel, no Le Monde

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