Mulheres
50+ lutam contra uma exclusão vergonhosa
Milhões
de mulheres brasileiras chegam aos 50 anos depois de décadas de trabalho,
responsabilidades familiares e contribuições decisivas para a economia do país.
Ainda assim, justamente quando acumulam mais experiência, conhecimento e
maturidade, muitas descobrem que a idade se transformou em uma barreira
invisível. O mercado de trabalho brasileiro continua desperdiçando talentos que
levaram uma vida inteira para serem construídos.
Os
números mostram a dimensão da mudança demográfica em curso. Dados do IBGE
revelam que a população com 60 anos ou mais cresceu 56% entre 2010 e 2022,
passando de 20,6 milhões para 32,1 milhões de pessoas. O contingente de
brasileiros com 65 anos ou mais aumentou 57,4% no mesmo período. Trata-se de
uma transformação estrutural que torna insustentável qualquer modelo baseado na
exclusão precoce de profissionais maduros.
As
projeções indicam que, em 2070, quase 40% da população brasileira terá mais de
60 anos. O país que durante décadas se apoiou em sua juventude precisará
aprender a conviver com uma sociedade mais longeva. Persistir em práticas de
descarte profissional significa ignorar a realidade demográfica e comprometer a
própria capacidade de crescimento econômico.
As
mulheres enfrentam esse cenário em condições ainda mais desiguais. Muitas
interrompem carreiras para cuidar dos filhos, dos pais idosos ou de familiares
enfermos. Outras carregam décadas de desigualdade salarial e menor acesso aos
postos de liderança. Ao alcançarem a maturidade, encontram uma segunda forma de
discriminação: o preconceito etário.
Essa
combinação produz consequências concretas. Currículos deixam de ser analisados,
entrevistas se tornam raras e profissionais altamente qualificadas passam a ser
consideradas inadequadas por empresas que, ao mesmo tempo, reclamam da escassez
de mão de obra qualificada. É uma contradição que revela mais preconceito do
que racionalidade.
A
exclusão das mulheres maduras não representa apenas uma injustiça social. É
também uma irracionalidade econômica. Em um país que envelhece rapidamente,
afastar profissionais produtivas significa desperdiçar competências, reduzir
renda e ampliar vulnerabilidades justamente em uma etapa da vida em que a
estabilidade financeira se torna mais necessária.
O
debate internacional já avançou além desses preconceitos. Desde 2015, a
Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) recomenda
políticas destinadas a ampliar a participação dos trabalhadores mais velhos,
fortalecer a qualificação contínua e combater a discriminação por idade. O
envelhecimento populacional passou a ser tratado como tema estratégico.
Empresas
que incorporam diversidade geracional colhem resultados concretos. A combinação
entre inovação e experiência fortalece lideranças, preserva conhecimento
institucional e amplia a capacidade de enfrentar ambientes econômicos cada vez
mais complexos. Maturidade profissional é um ativo. Tratá-la como um problema é
um erro.
A
expectativa de vida dos brasileiros alcançou 76,6 anos. Isso significa que
milhões de mulheres com 50 anos ainda possuem décadas de vida produtiva pela
frente. Negar oportunidades a esse grupo equivale a condenar o país a
desperdiçar parte importante de sua inteligência e de sua capacidade de
trabalho.
Capacitação
permanente, atualização tecnológica e estímulo ao empreendedorismo feminino
nessa faixa etária deixaram de ser políticas desejáveis para se transformar em
necessidades econômicas e sociais. Uma nação que envelhece não pode continuar
tratando experiência como defeito.
Essa
discussão já alcançou o Congresso Nacional por meio do PL 1566/2025, de autoria
da deputada Laura Carneiro (PSD-RJ). A proposta segue em tramitação na Câmara
dos Deputados e recebeu, em 9 de junho, parecer da relatora na Comissão de
Finanças e Tributação, deputada Ana Pimentel (PT-MG), que concluiu pela
inexistência de impacto sobre receitas ou despesas públicas, apresentou emendas
ao texto e permitiu o avanço da matéria.
Sempre
me impressionou o fato de que quase todas as conquistas femininas tenham sido
arrancadas da resistência de estruturas que insistiam em negar direitos
básicos. Nada veio facilmente. Cada avanço custou décadas de mobilização e
sacrifícios. Por isso, considero moralmente inaceitável que mulheres que
passaram a vida inteira trabalhando sejam descartadas justamente quando
acumulam mais experiência. Os deputados federais têm agora a oportunidade de
corrigir essa distorção. A história não costuma absolver a omissão diante de
injustiças evidentes.
Fonte:
Por Washington Araújo, em Brasil 247

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