sábado, 13 de junho de 2026

O “PRAZER” DE SER BOLSONARISTA: Ira, emoções e a promessa de ‘Dark Horse’

As democracias contemporâneas se estabeleceram sobre uma concepção do cidadão como sujeito de razão. Tudo acontece como se só houvesse legitimidade em combater adversários políticos por meio de informações verificáveis e argumentos plausíveis. É o que faz uma democracia “civilizada”, conforme o legado europeu e iluminista que ainda organiza boa parte do nosso imaginário político.

Surpreende, assim, que certas informações – por mais escandalosas que sejam – não alterem de maneira significativa a orientação política da população. A informação conta, é certo, mas talvez não conte por tudo na arena política.

É possível que o jornalismo convencional não tenha, sozinho, todas as armas necessárias para enfrentar a expansão da extrema-direita no Brasil. A produção de informação rigorosa e a investigação jornalística seguem indispensáveis. Mas talvez não disponham da força mobilizadora que muitas vezes esperamos delas.

<><> Por que será?

Uma pista pode estar no suposto blockbuster do bolsonarismo, o filme Dark Horse, anunciado como projeto de forte apelo político e identitário no interior do campo bolsonarista. Se este longa seguir o exemplo de outras grandes peças de propaganda política, dificilmente buscará convencer seu público com informações que este já não disponha. Seu papel mais decisivo será outro: satisfazer o prazer de ser bolsonarista.

Porque ser bolsonarista é, antes de tudo, um prazer. Um prazer de pertencimento.

O bolsonarismo, como o trumpismo e outros movimentos contemporâneos de extrema-direita, emergiu, como se sabe, em meio a uma sucessão de crises (institucionais, econômicas e ecológicas). Como lembra Elias Canetti em Massa e poder, são nesses contextos que movimentos de massa aparecem como promessa de proteção coletiva. Eles respondem ao medo do isolamento e da vulnerabilidade.

Pertencer a um grupo coeso e bem definido permite desfrutar de uma sensação de poder. A devoção ao líder não é vivida como submissão, mas como uma forma de canalização da energia coletiva para enfrentar as ameaças e realizar o impossível.

Dark Horse parece operar justamente nesse registro: desenhar o horizonte do impossível tornado possível e converter a frustração coletiva em energia organizada.

Daí o êxito do bolsonarismo e de seus meios de comunicação: constituir um estoque de ira – para usar uma expressão de Peter Sloterdijk –, acumular ressentimentos e frustrações, alimentar a percepção de injustiça, despertar o desejo de vingança e cristalizar essas emoções em uma narrativa compartilhada que aponta para a conquista final.

O “núcleo duro” do bolsonarismo é identitário. Ele não se alimenta prioritariamente de informações – às quais pode permanecer impermeável –, mas de uma estética de grupo.

Vestir verde e amarelo, vociferar os lemas conservadores, declamar o ódio aos opositores, desafiar as autoridades, manifestar desprezo pelas instituições, demonstrar lealdade ao líder sob quaisquer circunstâncias são atos e atitudes que constituem uma linguagem política distinta da linguagem jornalística ou do debate institucional. São expressões de poder.

A violência, como linguagem, expressa independentemente de seu conteúdo informacional uma identidade coletiva. Ela marca uma diferença radical e fortalece os elos do grupo.

Dark Horse é, e será, um filme de congregação que permite a expressão dessa violência ritualizada, seja pelas representações ou pelas reações previsíveis do público. Independentemente de seu sucesso comercial ou de seu mérito artístico, ele já é um filme operacional. Em torno dele se constitui uma forma de cooperação intensa do bolsonarismo. Enquanto elemento de confrontação pública com os grupos adversos, o filme é um acelerador de solidariedade identitária e um instrumento de violência programada.

O que quer que digam seus críticos, o longa-metragem funcionará como uma tecnologia social de coesão pelo conflito. Ele demonstra a função primordial da comunicação política bolsonarista: permitir a expressão e o reconhecimento mútuo dos membros ativos e multiplicar as ocasiões de grande intensidade emocional partilhada. Diante de tal tecnologia social e política, as considerações sensatas das instituições democráticas são totalmente impotentes. O apelo à moderação ou ao bom senso não dialoga com essas estruturas de mobilização afetiva.

Talvez isso nos obrigue a repensar de maneira mais profunda o papel das emoções na democracia.

Há uma longa tradição de desqualificação política das emoções. No cenário atual do Brasil e do mundo, busca-se muitas vezes atribuir a expansão do neofascismo à intensa circulação, por via de algoritmos, de apelos emocionais e narrativas que conduzem ao “fanatismo”. No entanto, a história mostra algo mais complexo.

As acusações de fanatismo não recaíram historicamente apenas sobre movimentos autoritários e fascistas: também foram dirigidas a formas populares de mobilização que escapavam ao repertório político dominante e não se alinhavam com um certo conceito de civilização. Em particular na época colonial, fanáticos eram aqueles movidos por energias políticas consideradas irracionais e, portanto, marginalizados.

No cenário político atuam forças que as instituições democráticas nem sempre reconhecem. De Gandhi aos coletes amarelos, a história do mundo moderno nos ensina que a criatividade política é também estética. As forças coletivas que movem as democracias são afetivas, dionisíacas, e não apenas discursivas ou informacionais. Elas dependem de ritmos, melodias, danças, cores, rituais, êxtases, ídolos, agrupamentos, festas e processos identitários.

É preciso mais do que a informação para mobilizar energias capazes de desintegrar o bolsonarismo. Não há convulsão política sem a mobilização ativa de emoções inconscientes.

Cabe sobretudo ficarmos atentos à criatividade popular. É dela que devem surgir os motes de uma estética política que mina o bolsonarismo. A primavera dos povos emerge nas periferias do mundo civilizado. Os mais bem formados e informados nem sempre estão preparados para ouvir seu despertar.

•        Correia cobra CPMI por possível elo entre fintech investigada por ligação com PCC e filme sobre Bolsonaro

O deputado federal Rogério Correia (PT-MG) cobrou a instalação da CPMI do Dark Horse após a revelação de transações envolvendo o fundo Gold Style, uma fintech apontada como "banco paralelo" do Primeiro Comando da Capital (PCC), e a empresa ligada a repasses para a produção do filme sobre Jair Bolsonaro (PL).

"Vai dar cadeia, queda na pesquisa e não adianta fazer censura de instituto de pesquisa. Filme ligado a organização criminosa que eles chamam de terroristas. O que tem que ser feito é a CPMI Dark Horse", afirmou Correia.

O caso envolve o Gold Style Fundo de Investimento em Direito Creditório, administrado pela Reag Trust. Segundo a Folha de S.Paulo, a gestora aparece em investigações da Polícia Federal sobre a engrenagem financeira montada pelo Banco Master para fraudar carteiras de crédito e inflar ativos.

O Banco Central liquidou o Master em novembro, e a Reag Trust, em janeiro. Segundo relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), entre as movimentações identificadas estão transações entre o fundo com a BK Bank, fintech investigada na Operação Carbono Oculto.

A apuração conduzida pela Polícia Federal, Receita Federal e Ministério Público de São Paulo investiga a infiltração do PCC no mercado financeiro por meio de empresas e instituições que teriam facilitado a circulação de recursos sem transparência.

Os registros analisados indicam transferências de R$ 133,6 milhões da BK Bank para o Gold Style em 2023, além de outras operações realizadas em 2024 e 2025 que somam R$ 12,9 milhões. No total, as movimentações entre as duas instituições alcançam pelo menos R$ 146,5 milhões.

<><> Banco Master financiou filme sobre Jair Bolsonaro

A produção de Dark Horse, filme biográfico sobre Jair Bolsonaro, entrou no centro da controvérsia depois que vieram à tona informações sobre negociações financeiras conduzidas pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Ele tratou diretamente com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, de um financiamento de R$ 134 milhões para investir no filme. Desse total, ao menos R$ 61 milhões seguiram para a estrutura ligada à produção.

Vorcaro está preso e negocia delação premiada após a Operação Compliance Zero. A PF (Polícia Federal) investiga um esquema de fraudes financeiras que, segundo a corporação, movimentou pelo menos R$ 12 bilhões. A polêmica ganhou novo capítulo nesta terça-feira (9), quando documentos revelados pelo Intercept Brasil apontaram que Vorcaro participou de uma operação financeira para enviar recursos aos Estados Unidos destinados ao financiamento de Dark Horse. Outro ponto sensível envolve a compra de um imóvel milionário no Texas.

Um fundo ligado a Paulo Calixto, advogado do ex-deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos, adquiriu uma casa avaliada em R$ 3,6 milhões em Arlington. O imóvel entrou para o patrimônio do Mercury Legacy Trust, fundo privado de gestão patrimonial usado para administrar bens em nome de terceiros. Calixto também administra o Havengate Development Fund, estrutura que recebeu parte dos R$ 61 milhões enviados por Vorcaro em 2025.

<><> Mais detalhes do fundo

Dados públicos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) mostraram que o Gold Style surgiu em abril de 2020, com aporte inicial de R$ 480,1 milhões, segundo a Folha de S.Paulo. Em maio de 2024, o patrimônio líquido do fundo chegou a R$ 1,84 bilhão. Nos registros do órgão regulador, o fundo aparece como "em funcionamento normal".

Ainda de acordo com a reportagem, os documentos públicos não permitem identificar os donos nem os beneficiários do Gold Style. Segundo a Polícia Federal (PF), estruturas desse tipo de investimento e circulação de recursos figuraram entre os mecanismos usados por Reag e Master em operações voltadas a fraudes e à ampliação artificial de ativos. O fundo também apareceu em operações com debêntures privadas nas quais a Reag atuou como emissora, escrituradora ou agente fiduciário.

Conforme comunicação da B3, a Bolsa de Valores de São Paulo, ao Coaf, 11 debêntures somaram R$ 3,6 bilhões. Esses papéis representam títulos de dívida emitidos por empresas para captar recursos e gerar direitos de crédito a investidores. Como todas as debêntures listadas no relatório financeiro são privadas e sigilosas, não há identificação pública dos responsáveis pelas movimentações.

<><> Pesquisa Quaest

A fala de Rogério Correia também fez referência ao impacto político do caso. Pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (10) apontou o presidente Lula com 44% das intenções de voto em um eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro, que registrou 38%.

Entre os eleitores independentes, o levantamento indicou vantagem de 13 pontos para o presidente Lula em relação ao senador da extrema-direita. Correia associou a repercussão das suspeitas ao cenário eleitoral e à necessidade de investigação sobre o financiamento do filme.

<><> Facções criminosas

Na publicação, o deputado também lembrou que os EUA classificaram as facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. No Brasil, lideranças progressistas afirmam que essa decisão busca abrir caminho para sanções contra o governo brasileiro em meio às condenações ligadas a investigações sobre ações golpistas.

O governo Donald Trump representa a extrema-direita estadunidense e mantém aliança política com a família Bolsonaro. No começo do mês, a gestão trumpista anunciou a intenção de aplicar uma tarifa de 25% sobre parte dos produtos brasileiros e criticou o Pix, sem apresentar provas, ao acusar o Brasil de adotar práticas desleais no comércio. O governo Lula negocia para evitar a aplicação da medida.

O caso também se conecta à atuação de Eduardo Bolsonaro em território estadunidense. O STF julgará o ex-parlamentar em 16 de junho por coação judicial. Ele mora nos EUA e responde à acusação de articular ações para interferir em processos judiciais brasileiros e favorecer condenados por ações golpistas. O STF condenou 29 pessoas no inquérito da trama golpista e determinou mais de 1,4 mil condenações na investigação sobre os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.

•        Uczai denuncia mentiras do clã Bolsonaro e condena "mais uma falcatrua do escândalo BolsoMaster"

O líder do PT na Câmara dos Deputados, Pedro Uczai (SC), cobrou nesta quarta-feira (10) investigação sobre repasses ligados ao escândalo "BolsoMaster" e acusou a família Bolsonaro de mentir sobre a relação com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e sobre o financiamento do filme Dark Horse.

Em postagem na rede social X, antigo Twitter, o parlamentar fez o comentário após reportagem do site The Intercept Brasil apontar que documentos e recibos comprovaram repasses de US$ 10,6 milhões feitos pelo ex-banqueiro para financiar o longa sobre a biografia de Jair Bolsonaro (PL), atualmente em prisão domiciliar após condenação pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos de prisão no inquérito da trama golpista.

O filme recebeu US$ 10,6 milhões, o equivalente a R$ 61 milhões, dentro de uma negociação de R$ 134 milhões feita pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com Daniel Vorcaro. O ex-banqueiro é investigado pela Operação Compliance Zero, da Polícia Federal. A corporação apura um esquema de fraudes financeiras que, segundo investigadores, movimentou ao menos R$ 12 bilhões.

"Os recibos e as planilhas de pagamentos confirmam: dinheiro roubado pelo Banco Master foi para um fundo ligado a Eduardo Bolsonaro nos EUA", afirmou Uczai.

O deputado também disse que Eduardo e Flávio Bolsonaro negavam o vínculo entre os repasses e o fundo Havengate Development, que recebeu parte dos R$ 61 milhões enviados por Vorcaro em 2025. "Os irmãos negavam, mas o dinheiro foi sim para um fundo de investimentos administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro. Tudo isso enquanto ele vive sem salário nos EUA", acrescentou o petista.

O fundo Havengate Development é administrado por Paulo Calixto, advogado do ex-deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). O filho de Jair Bolsonaro mora nos Estados Unidos, onde articula apoio da extrema direita estadunidense para pressionar o Brasil. Nos EUA, o ex-parlamentar tenta obter apoio do governo Donald Trump com o objetivo de pressionar o Supremo Tribunal Federal a libertar pessoas condenadas por ações golpistas.

Ainda em sua postagem, Uczai questionou a origem dos recursos usados por Eduardo Bolsonaro para se manter nos Estados Unidos. "Será que é com essa grana que o bananinha está vivendo em uma mansão alugada por lá? Com o dinheiro roubado dos aposentados do INSS? O portal The Intercept Brasil publicou as mensagens trocadas entre Daniel Vorcaro e seus subordinados para enviar o dinheiro que Flávio Bolsonaro solicitou para o 'filme'. É mais uma falcatura do escândalo BolsoMaster que precisa ser investigada!", escreveu.

Assim como Jair Bolsonaro, Vorcaro está detido e em processo de colaboração premiada no caso Master. A Polícia Federal rejeitou a primeira proposta de delação feita pela defesa do ex-empresário e alegou "seletividade" dos fatos. Advogados do ex-banqueiro preparam uma nova proposta de colaboração.

 

Fonte: Por Guilherme da Silva Machado, no Le Monde

 

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