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“PRAZER” DE SER BOLSONARISTA: Ira, emoções e a promessa de ‘Dark Horse’
As
democracias contemporâneas se estabeleceram sobre uma concepção do cidadão como
sujeito de razão. Tudo acontece como se só houvesse legitimidade em combater
adversários políticos por meio de informações verificáveis e argumentos
plausíveis. É o que faz uma democracia “civilizada”, conforme o legado europeu
e iluminista que ainda organiza boa parte do nosso imaginário político.
Surpreende,
assim, que certas informações – por mais escandalosas que sejam – não alterem
de maneira significativa a orientação política da população. A informação
conta, é certo, mas talvez não conte por tudo na arena política.
É
possível que o jornalismo convencional não tenha, sozinho, todas as armas
necessárias para enfrentar a expansão da extrema-direita no Brasil. A produção
de informação rigorosa e a investigação jornalística seguem indispensáveis. Mas
talvez não disponham da força mobilizadora que muitas vezes esperamos delas.
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Por que será?
Uma
pista pode estar no suposto blockbuster do bolsonarismo, o filme Dark Horse,
anunciado como projeto de forte apelo político e identitário no interior do
campo bolsonarista. Se este longa seguir o exemplo de outras grandes peças de
propaganda política, dificilmente buscará convencer seu público com informações
que este já não disponha. Seu papel mais decisivo será outro: satisfazer o
prazer de ser bolsonarista.
Porque
ser bolsonarista é, antes de tudo, um prazer. Um prazer de pertencimento.
O
bolsonarismo, como o trumpismo e outros movimentos contemporâneos de
extrema-direita, emergiu, como se sabe, em meio a uma sucessão de crises
(institucionais, econômicas e ecológicas). Como lembra Elias Canetti em Massa e
poder, são nesses contextos que movimentos de massa aparecem como promessa de
proteção coletiva. Eles respondem ao medo do isolamento e da vulnerabilidade.
Pertencer
a um grupo coeso e bem definido permite desfrutar de uma sensação de poder. A
devoção ao líder não é vivida como submissão, mas como uma forma de canalização
da energia coletiva para enfrentar as ameaças e realizar o impossível.
Dark
Horse parece operar justamente nesse registro: desenhar o horizonte do
impossível tornado possível e converter a frustração coletiva em energia
organizada.
Daí o
êxito do bolsonarismo e de seus meios de comunicação: constituir um estoque de
ira – para usar uma expressão de Peter Sloterdijk –, acumular ressentimentos e
frustrações, alimentar a percepção de injustiça, despertar o desejo de vingança
e cristalizar essas emoções em uma narrativa compartilhada que aponta para a
conquista final.
O
“núcleo duro” do bolsonarismo é identitário. Ele não se alimenta
prioritariamente de informações – às quais pode permanecer impermeável –, mas
de uma estética de grupo.
Vestir
verde e amarelo, vociferar os lemas conservadores, declamar o ódio aos
opositores, desafiar as autoridades, manifestar desprezo pelas instituições,
demonstrar lealdade ao líder sob quaisquer circunstâncias são atos e atitudes
que constituem uma linguagem política distinta da linguagem jornalística ou do
debate institucional. São expressões de poder.
A
violência, como linguagem, expressa independentemente de seu conteúdo
informacional uma identidade coletiva. Ela marca uma diferença radical e
fortalece os elos do grupo.
Dark
Horse é, e será, um filme de congregação que permite a expressão dessa
violência ritualizada, seja pelas representações ou pelas reações previsíveis
do público. Independentemente de seu sucesso comercial ou de seu mérito
artístico, ele já é um filme operacional. Em torno dele se constitui uma forma
de cooperação intensa do bolsonarismo. Enquanto elemento de confrontação
pública com os grupos adversos, o filme é um acelerador de solidariedade
identitária e um instrumento de violência programada.
O que
quer que digam seus críticos, o longa-metragem funcionará como uma tecnologia
social de coesão pelo conflito. Ele demonstra a função primordial da
comunicação política bolsonarista: permitir a expressão e o reconhecimento
mútuo dos membros ativos e multiplicar as ocasiões de grande intensidade
emocional partilhada. Diante de tal tecnologia social e política, as
considerações sensatas das instituições democráticas são totalmente impotentes.
O apelo à moderação ou ao bom senso não dialoga com essas estruturas de
mobilização afetiva.
Talvez
isso nos obrigue a repensar de maneira mais profunda o papel das emoções na
democracia.
Há uma
longa tradição de desqualificação política das emoções. No cenário atual do
Brasil e do mundo, busca-se muitas vezes atribuir a expansão do neofascismo à
intensa circulação, por via de algoritmos, de apelos emocionais e narrativas
que conduzem ao “fanatismo”. No entanto, a história mostra algo mais complexo.
As
acusações de fanatismo não recaíram historicamente apenas sobre movimentos
autoritários e fascistas: também foram dirigidas a formas populares de
mobilização que escapavam ao repertório político dominante e não se alinhavam
com um certo conceito de civilização. Em particular na época colonial,
fanáticos eram aqueles movidos por energias políticas consideradas irracionais
e, portanto, marginalizados.
No
cenário político atuam forças que as instituições democráticas nem sempre
reconhecem. De Gandhi aos coletes amarelos, a história do mundo moderno nos
ensina que a criatividade política é também estética. As forças coletivas que
movem as democracias são afetivas, dionisíacas, e não apenas discursivas ou
informacionais. Elas dependem de ritmos, melodias, danças, cores, rituais,
êxtases, ídolos, agrupamentos, festas e processos identitários.
É
preciso mais do que a informação para mobilizar energias capazes de desintegrar
o bolsonarismo. Não há convulsão política sem a mobilização ativa de emoções
inconscientes.
Cabe
sobretudo ficarmos atentos à criatividade popular. É dela que devem surgir os
motes de uma estética política que mina o bolsonarismo. A primavera dos povos
emerge nas periferias do mundo civilizado. Os mais bem formados e informados
nem sempre estão preparados para ouvir seu despertar.
• Correia cobra CPMI por possível elo
entre fintech investigada por ligação com PCC e filme sobre Bolsonaro
O
deputado federal Rogério Correia (PT-MG) cobrou a instalação da CPMI do Dark
Horse após a revelação de transações envolvendo o fundo Gold Style, uma fintech
apontada como "banco paralelo" do Primeiro Comando da Capital (PCC),
e a empresa ligada a repasses para a produção do filme sobre Jair Bolsonaro
(PL).
"Vai
dar cadeia, queda na pesquisa e não adianta fazer censura de instituto de
pesquisa. Filme ligado a organização criminosa que eles chamam de terroristas.
O que tem que ser feito é a CPMI Dark Horse", afirmou Correia.
O caso
envolve o Gold Style Fundo de Investimento em Direito Creditório, administrado
pela Reag Trust. Segundo a Folha de S.Paulo, a gestora aparece em investigações
da Polícia Federal sobre a engrenagem financeira montada pelo Banco Master para
fraudar carteiras de crédito e inflar ativos.
O Banco
Central liquidou o Master em novembro, e a Reag Trust, em janeiro. Segundo
relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), entre as
movimentações identificadas estão transações entre o fundo com a BK Bank,
fintech investigada na Operação Carbono Oculto.
A
apuração conduzida pela Polícia Federal, Receita Federal e Ministério Público
de São Paulo investiga a infiltração do PCC no mercado financeiro por meio de
empresas e instituições que teriam facilitado a circulação de recursos sem
transparência.
Os
registros analisados indicam transferências de R$ 133,6 milhões da BK Bank para
o Gold Style em 2023, além de outras operações realizadas em 2024 e 2025 que
somam R$ 12,9 milhões. No total, as movimentações entre as duas instituições
alcançam pelo menos R$ 146,5 milhões.
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Banco Master financiou filme sobre Jair Bolsonaro
A
produção de Dark Horse, filme biográfico sobre Jair Bolsonaro, entrou no centro
da controvérsia depois que vieram à tona informações sobre negociações
financeiras conduzidas pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Ele tratou
diretamente com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, de um financiamento de R$
134 milhões para investir no filme. Desse total, ao menos R$ 61 milhões
seguiram para a estrutura ligada à produção.
Vorcaro
está preso e negocia delação premiada após a Operação Compliance Zero. A PF
(Polícia Federal) investiga um esquema de fraudes financeiras que, segundo a
corporação, movimentou pelo menos R$ 12 bilhões. A polêmica ganhou novo
capítulo nesta terça-feira (9), quando documentos revelados pelo Intercept
Brasil apontaram que Vorcaro participou de uma operação financeira para enviar
recursos aos Estados Unidos destinados ao financiamento de Dark Horse. Outro
ponto sensível envolve a compra de um imóvel milionário no Texas.
Um
fundo ligado a Paulo Calixto, advogado do ex-deputado federal cassado Eduardo
Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos, adquiriu uma casa avaliada em R$ 3,6
milhões em Arlington. O imóvel entrou para o patrimônio do Mercury Legacy
Trust, fundo privado de gestão patrimonial usado para administrar bens em nome
de terceiros. Calixto também administra o Havengate Development Fund, estrutura
que recebeu parte dos R$ 61 milhões enviados por Vorcaro em 2025.
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Mais detalhes do fundo
Dados
públicos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) mostraram que o Gold Style
surgiu em abril de 2020, com aporte inicial de R$ 480,1 milhões, segundo a
Folha de S.Paulo. Em maio de 2024, o patrimônio líquido do fundo chegou a R$
1,84 bilhão. Nos registros do órgão regulador, o fundo aparece como "em
funcionamento normal".
Ainda
de acordo com a reportagem, os documentos públicos não permitem identificar os
donos nem os beneficiários do Gold Style. Segundo a Polícia Federal (PF),
estruturas desse tipo de investimento e circulação de recursos figuraram entre
os mecanismos usados por Reag e Master em operações voltadas a fraudes e à
ampliação artificial de ativos. O fundo também apareceu em operações com
debêntures privadas nas quais a Reag atuou como emissora, escrituradora ou
agente fiduciário.
Conforme
comunicação da B3, a Bolsa de Valores de São Paulo, ao Coaf, 11 debêntures
somaram R$ 3,6 bilhões. Esses papéis representam títulos de dívida emitidos por
empresas para captar recursos e gerar direitos de crédito a investidores. Como
todas as debêntures listadas no relatório financeiro são privadas e sigilosas,
não há identificação pública dos responsáveis pelas movimentações.
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Pesquisa Quaest
A fala
de Rogério Correia também fez referência ao impacto político do caso. Pesquisa
Quaest divulgada nesta quarta-feira (10) apontou o presidente Lula com 44% das
intenções de voto em um eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro, que
registrou 38%.
Entre
os eleitores independentes, o levantamento indicou vantagem de 13 pontos para o
presidente Lula em relação ao senador da extrema-direita. Correia associou a
repercussão das suspeitas ao cenário eleitoral e à necessidade de investigação
sobre o financiamento do filme.
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Facções criminosas
Na
publicação, o deputado também lembrou que os EUA classificaram as facções
criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como
organizações terroristas. No Brasil, lideranças progressistas afirmam que essa
decisão busca abrir caminho para sanções contra o governo brasileiro em meio às
condenações ligadas a investigações sobre ações golpistas.
O
governo Donald Trump representa a extrema-direita estadunidense e mantém
aliança política com a família Bolsonaro. No começo do mês, a gestão trumpista
anunciou a intenção de aplicar uma tarifa de 25% sobre parte dos produtos
brasileiros e criticou o Pix, sem apresentar provas, ao acusar o Brasil de
adotar práticas desleais no comércio. O governo Lula negocia para evitar a
aplicação da medida.
O caso
também se conecta à atuação de Eduardo Bolsonaro em território estadunidense. O
STF julgará o ex-parlamentar em 16 de junho por coação judicial. Ele mora nos
EUA e responde à acusação de articular ações para interferir em processos
judiciais brasileiros e favorecer condenados por ações golpistas. O STF
condenou 29 pessoas no inquérito da trama golpista e determinou mais de 1,4 mil
condenações na investigação sobre os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.
• Uczai denuncia mentiras do clã Bolsonaro
e condena "mais uma falcatrua do escândalo BolsoMaster"
O líder
do PT na Câmara dos Deputados, Pedro Uczai (SC), cobrou nesta quarta-feira (10)
investigação sobre repasses ligados ao escândalo "BolsoMaster" e
acusou a família Bolsonaro de mentir sobre a relação com Daniel Vorcaro, dono
do Banco Master, e sobre o financiamento do filme Dark Horse.
Em
postagem na rede social X, antigo Twitter, o parlamentar fez o comentário após
reportagem do site The Intercept Brasil apontar que documentos e recibos
comprovaram repasses de US$ 10,6 milhões feitos pelo ex-banqueiro para
financiar o longa sobre a biografia de Jair Bolsonaro (PL), atualmente em
prisão domiciliar após condenação pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos de
prisão no inquérito da trama golpista.
O filme
recebeu US$ 10,6 milhões, o equivalente a R$ 61 milhões, dentro de uma
negociação de R$ 134 milhões feita pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com
Daniel Vorcaro. O ex-banqueiro é investigado pela Operação Compliance Zero, da
Polícia Federal. A corporação apura um esquema de fraudes financeiras que,
segundo investigadores, movimentou ao menos R$ 12 bilhões.
"Os
recibos e as planilhas de pagamentos confirmam: dinheiro roubado pelo Banco
Master foi para um fundo ligado a Eduardo Bolsonaro nos EUA", afirmou
Uczai.
O
deputado também disse que Eduardo e Flávio Bolsonaro negavam o vínculo entre os
repasses e o fundo Havengate Development, que recebeu parte dos R$ 61 milhões
enviados por Vorcaro em 2025. "Os irmãos negavam, mas o dinheiro foi sim
para um fundo de investimentos administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro.
Tudo isso enquanto ele vive sem salário nos EUA", acrescentou o petista.
O fundo
Havengate Development é administrado por Paulo Calixto, advogado do ex-deputado
federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). O filho de Jair Bolsonaro mora nos
Estados Unidos, onde articula apoio da extrema direita estadunidense para
pressionar o Brasil. Nos EUA, o ex-parlamentar tenta obter apoio do governo
Donald Trump com o objetivo de pressionar o Supremo Tribunal Federal a libertar
pessoas condenadas por ações golpistas.
Ainda
em sua postagem, Uczai questionou a origem dos recursos usados por Eduardo
Bolsonaro para se manter nos Estados Unidos. "Será que é com essa grana
que o bananinha está vivendo em uma mansão alugada por lá? Com o dinheiro
roubado dos aposentados do INSS? O portal The Intercept Brasil publicou as
mensagens trocadas entre Daniel Vorcaro e seus subordinados para enviar o
dinheiro que Flávio Bolsonaro solicitou para o 'filme'. É mais uma falcatura do
escândalo BolsoMaster que precisa ser investigada!", escreveu.
Assim
como Jair Bolsonaro, Vorcaro está detido e em processo de colaboração premiada
no caso Master. A Polícia Federal rejeitou a primeira proposta de delação feita
pela defesa do ex-empresário e alegou "seletividade" dos fatos.
Advogados do ex-banqueiro preparam uma nova proposta de colaboração.
Fonte:
Por Guilherme da Silva Machado, no Le Monde

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