sábado, 13 de junho de 2026

Além de mercadorias e patrocínio: como a China está subindo na cadeia de valor da Copa do Mundo

A Copa do Mundo da FIFA é frequentemente celebrada como o evento esportivo mais influente do mundo. No entanto, por trás de cada torneio existe um vasto sistema econômico. À medida que os países-sede utilizam cada vez mais a Copa do Mundo para acelerar a transformação econômica e o desenvolvimento urbano, as empresas chinesas ampliaram seu papel muito além da fabricação de mercadorias ou da compra de espaços publicitários. De cadeias de suprimentos responsivas e sistemas de arbitragem impulsionados por inteligência artificial a estádios, redes de transporte e projetos de energia limpa, a China tornou-se uma participante cada vez mais importante na economia da Copa do Mundo — e, em muitos casos, uma parceira de longo prazo nas ambições de desenvolvimento dos países-sede.

<><> Da venda de produtos à entrega de cadeias de suprimentos

A conexão da China com a Copa do Mundo começou muito antes de marcas chinesas aparecerem em placas de publicidade nos estádios. Durante décadas, fabricantes da cidade de Yiwu, na província de Zhejiang, no leste da China, frequentemente chamada de maior mercado atacadista do mundo para pequenas mercadorias, forneceram bandeiras, cachecóis e outros produtos para torcedores em torneios. O que está mudando hoje não é o volume de encomendas, mas a sofisticação da cadeia de suprimentos por trás delas.

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A Copa do Mundo da FIFA de 2026, sediada por Canadá, México e Estados Unidos, será a maior da história, com 48 seleções e 104 partidas. Essa escala cria padrões de demanda que mudam rapidamente e que os modelos tradicionais de produção em massa têm dificuldade para atender. Aproveitando clusters industriais integrados e ferramentas digitais, fornecedores de Yiwu agora conseguem passar do design ao protótipo em um único dia e ajustar cronogramas de produção em resposta aos acontecimentos dentro de campo.

Ao mesmo tempo, comerciantes dependem cada vez mais do TikTok e de plataformas de comércio eletrônico transfronteiriço para acompanhar as preferências dos consumidores em todo o mundo. Novos produtos, que vão de chapéus de torcedor com proteção solar a dispositivos portáteis de resfriamento e até camisetas para pets, estão sendo lançados em velocidade notável, com algumas empresas apresentando dezenas de novos produtos a cada semana.

Talvez a mudança mais significativa seja a transição da manufatura para a propriedade intelectual. Em vez de simplesmente produzir artigos licenciados para terceiros, algumas empresas de Yiwu obtiveram autorizações oficiais de seleções nacionais e clubes de futebol, ao mesmo tempo em que registraram dezenas de patentes de design no exterior para roupas de torcedores.

A transformação de Yiwu reflete uma evolução mais ampla da manufatura chinesa. O que as empresas chinesas exportam hoje não é apenas mercadoria, mas um sistema de cadeia de suprimentos altamente responsivo, capaz de identificar a demanda, organizar a produção e alcançar consumidores globais com velocidade sem precedentes.

<><> Da exposição de marca à viabilização tecnológica

Durante muitos anos, participar da Copa significava, em grande medida, patrocinar o evento. Empresas chinesas como Hisense, Mengniu e Lenovo usaram a audiência global da Copa do Mundo para fortalecer sua visibilidade internacional. Essa estratégia continua importante, mas já não representa toda a história.

O torneio de 2026 já foi descrito por observadores do setor como a primeira “Copa do Mundo da IA”. A FIFA adotou abertamente a inteligência artificial e as tecnologias digitais para melhorar a gestão do torneio, a precisão da arbitragem e o engajamento dos torcedores. Nesse contexto, empresas chinesas estão se tornando parte da infraestrutura operacional do torneio, e não apenas de seu ecossistema publicitário.

A Hisense tornou-se a fornecedora oficial de televisores para revisão do árbitro assistente de vídeo, o VAR, no torneio de 2026. Suas TVs RGB Mini LED de última geração serão utilizadas nas salas de VAR da FIFA, onde a nitidez da imagem e a precisão das cores podem influenciar diretamente decisões críticas envolvendo impedimentos, toques de mão e outros momentos capazes de mudar o rumo de uma partida.

Enquanto isso, a Lenovo fornecerá dispositivos para todos os 16 locais do torneio, além de implementar tecnologias de modelagem digital e aprimoramento de vídeo impulsionadas por inteligência artificial. Entre suas inovações estão avatares 3D altamente precisos de jogadores, gerados por escaneamentos realizados antes do torneio, melhorando a transparência e a visualização de decisões de jogo, como impedimentos.

À medida que a inteligência artificial sai das margens e passa a integrar o sistema operacional dos grandes eventos esportivos, a China exporta não apenas produtos, mas também capacidades tecnológicas em processamento de dados, visualização e apoio inteligente à tomada de decisões.

<><> De projetos de torneio ao desenvolvimento de longo prazo

A Copa do Mundo já não é simplesmente um evento esportivo. Ela se tornou um projeto nacional de desenvolvimento — capaz de acelerar investimentos e remodelar cidades por décadas. No Oriente Médio, sediar a Copa do Mundo é cada vez mais visto não como um evento de um mês, mas como um catalisador para a diversificação econômica e a transformação urbana.

A Copa do Mundo do Catar de 2022 oferece um exemplo claro. Embora o Catar tenha recebido mais de 1,4 milhão de visitantes durante o torneio, os ganhos de longo prazo do país vão muito além da venda de ingressos e das receitas do turismo. O Estádio Lusail, construído com significativa participação chinesa, sediou a final da Copa do Mundo e desde então se tornou um dos marcos mais reconhecíveis do Catar, aparecendo inclusive na cédula de 10 riais do país. Enquanto isso, a Usina Solar de Al Kharsaah, o primeiro projeto de energia em larga escala do Catar não baseado em combustíveis fósseis e apoiado por empresas chinesas, continua fornecendo energia limpa muito depois do fim do torneio.

A mesma lógica está moldando as futuras Copas do Mundo. O Marrocos, que será coanfitrião do torneio de 2030, está investindo bilhões de dólares na expansão da ferrovia de alta velocidade, conectando cidades importantes como Casablanca e Marrakech. Empresas chinesas participam de segmentos desses projetos, ao mesmo tempo em que fornecem equipamentos ferroviários críticos. A Arábia Saudita, sede da Copa do Mundo de 2034, está integrando os preparativos do torneio à sua estratégia mais ampla Visão 2030. Empresas chinesas já estão envolvidas na construção de estádios e em projetos de desenvolvimento urbano destinados a apoiar não apenas o torneio em si, mas também os objetivos de diversificação econômica de longo prazo do Reino.

Para os países-sede, o valor de uma Copa do Mundo se estende cada vez mais para muito além da venda de ingressos, das receitas de transmissão ou de algumas semanas de atenção global. O verdadeiro legado está na infraestrutura, nas tecnologias e nos ativos urbanos que continuam gerando valor econômico muito depois do fim do torneio. Muitos dos projetos que envolvem empresas chinesas são concebidos precisamente com esse propósito de longo prazo em mente.

De muitas maneiras, a Copa do Mundo tornou-se uma vitrine não apenas para o talento futebolístico, mas também para as cadeias de suprimentos, tecnologias e modelos de desenvolvimento que moldam a economia global moderna. A presença crescente da China reflete uma mudança mais ampla: sua contribuição para os eventos esportivos globais é cada vez mais medida não apenas pelo que vende, mas pelo que ajuda a construir.

•        Uma Copa cheia de batalhas. Por André Barroso

Afinal, estamos congregando a alegria do esporte mais popular do planeta ou estamos mal diante de um mundo em guerra? Não se trata de falta de ingenuidade. Um momento de tensão parecida foram as Olimpíadas de Berlim, em 1936. Uma festa do esporte sob os três valores fundamentais, como amizade, excelência e respeito, foi manchada pelo clima vivido, que, após o encerramento dos Jogos, levou com força total à perseguição aos judeus e aos planos expansionistas, acabando por começar a Segunda Guerra Mundial três anos depois.

Hitler ordenou a retirada de cartazes antissemitas das ruas de Berlim. Placas que proibiam a entrada de judeus foram removidas para evitar boicotes internacionais, tentando mostrar um país tolerante e pacífico. Ainda assim, a Alemanha excluiu quase todos os atletas judeus de sua própria equipe, exceto a esgrimista Helene Meyer, que ganhou a medalha de prata. Um grande evento mundial feito para unir as nações pode se tornar propaganda, com a intenção de mostrar um país rígido e intolerante. A começar pela não exclusão dos Estados Unidos como país-sede.

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O Artigo 4, sobre neutralidade e direitos humanos, exige neutralidade estrita em questões políticas e proíbe qualquer tipo de discriminação contra um país, grupo ou pessoa, sob pena de suspensão ou expulsão. A Rússia foi banida das eliminatórias e competições da FIFA e da UEFA desde o início do conflito com a Ucrânia. Por que os Estados Unidos podem guerrear neste momento com o Irã? O grande capital pode tudo.

As recentes imposições dos anfitriões da Copa do Mundo, em vários casos, são vergonhosas aos olhos do mundo. A seleção do Senegal foi revistada de forma vexatória pela polícia de imigração de Trump, e a participação da seleção do Irã está coberta de restrições. Os jogadores não poderão permanecer em território americano e terão que entrar e sair do país no mesmo dia de cada partida. O árbitro africano Omar Artan, eleito o melhor do continente africano, foi impedido de entrar nos EUA sem nenhuma explicação pública. Muitos cidadãos são visados por sua ascendência, tanto por país de origem, cor de pele, gênero ou até posição política. O fotógrafo da seleção do Iraque, Talal Salah, foi deportado após horas de interrogatório. Tudo sob silêncio do governo, da FIFA e da imprensa. A Seleção do Uzbequistão foi tratada como terrorista na entrada ao país.

A FIFA sempre se pautou como uma entidade que preza o respeito às nações e o equilíbrio ético, mas, no caso dos Estados Unidos, tornou-se vexaminosa. A Copa do Mundo Feminina de 2003 seria realizada na China, mas, devido ao surto de SARS no país, a entidade transferiu a edição para os Estados Unidos. A dificuldade que a entidade tem em impedir cenas de racismo no futebol, com a luta de Vini Júnior durante meses e pouco sendo feito, mostra o quanto o lucro parece ser mais importante do que os valores esportivos. E pensar que o presidente da FIFA entregou o "Prêmio da Paz da FIFA" a Trump, em dezembro de 2025. Hoje, além de todos os problemas causados pela política da extrema direita de Trump, aconteceu um tiroteio em Ohio; protestos em San Antonio e anti-ICE em Nova Jersey, contra políticas de imigração e operações federais.

É uma Copa do Mundo sem que se queira o próprio mundo no país. No fundo, assiste-se à continuação de uma velha história: a guerra entre a intenção de se mostrar ordem e a truculência de quem tem ódio aos que não são americanos, que Trump carrega na alma. Os Estados Unidos de Trump são o resultado dessa situação mal resolvida de que quem tem dinheiro pode tudo. Sempre exaltavam que eram exemplo do espírito libertador, sempre lembrado pela Quinta Emenda.

Trump não valoriza a opinião alheia, achando que está acima dos direitos individuais e que tem razão. A Copa do Mundo teve o azar de se meter no meio dessas várias batalhas. Só nos resta ter jogadores que possam protestar tal qual Sócrates na Copa de 1986, com suas famosas faixas pelo povo e contra a guerra.

 

Fonte: Por Yu Miao em Brasil 247

 

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