Copa
nos EUA transforma festa do futebol em vitrine de exclusão e vigilância
A Copa do Mundo de Futebol é apresentada
como uma das poucas experiências verdadeiramente universais da
contemporaneidade, um momento em que nações inteiras suspenderiam suas
diferenças para compartilhar a mesma emoção diante do futebol.
A FIFA constrói essa
narrativa com disciplina quase monástica — apoiada por campanhas publicitárias,
cerimônias de abertura e discursos oficiais que insistem na ideia de que o
esporte seria um território capaz de produzir união onde antes haveria apenas conflito.
Entretanto,
quando observamos o que se acumula ao redor desse espetáculo ao longo das
décadas, torna-se difícil sustentar essa imagem sem ignorar o que acontece fora
do enquadramento das câmeras. E agora, em 2026, não é diferente.
Mas
algumas perguntas precisam ser feitas. Que tipo de união é possível quando as
fronteiras permanecem abertas para investidores e patrocinadores enquanto
trabalhadores, migrantes e cidadãos de determinados países são tratados como
suspeitos?
Que
universalidade existe em um evento que depende de um sistema internacional
profundamente desigual? Que fraternidade pode ser construída sobre estruturas
que reproduzem discriminações históricas?
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Vetor de desigualdades e aprofundamento de hierarquias
Desde
que a Copa se transformou em um megaevento global plenamente integrado à lógica
corporativa e estatal contemporânea, ela passou a funcionar como uma poderosa
engrenagem de reorganização dos espaços urbanos e das relações sociais nos
países-sede. O que se anuncia como festa frequentemente se materializa como um
processo de reestruturação acelerada de cidades inteiras, no qual interesses
econômicos, políticos e imobiliários se sobrepõem às necessidades concretas das
populações que ali vivem.
A
promessa de desenvolvimento — repetida em cada edição — costuma vir acompanhada
de endividamento público, flexibilização de leis urbanísticas e expansão de
dispositivos de vigilância. E também de intensificação do controle policial
sobre territórios considerados estratégicos para o espetáculo.
As
perguntas que fiz acima ajudam a explicar por que os movimentos contra a Copa
se expandiram para além das críticas tradicionais aos gastos públicos e às
obras urbanas. É nesse contexto que se evidenciam, de forma recorrente e em
diferentes continentes, movimentos de resistência à Copa do Mundo e à própria
FIFA enquanto instituição. E esses movimentos não podem ser reduzidos a uma
única identidade política, pois reúnem desde organizações de moradores
ameaçados por remoções até coletivos feministas, sindicatos, grupos
antirracistas, organizações indígenas e iniciativas ecologistas.
O que
os conecta não diz respeito a uma oposição abstrata ao futebol, mas à percepção
concreta de que o megaevento funciona como vetor de desigualdades e
aprofundamento de hierarquias sociais já existentes. Suas denúncias conectam o
futebol-espetáculo a questões mais amplas — como colonialismo, racismo
estrutural, destruição ambiental, violência de gênero, militarização dos
territórios e concentração de riqueza. Essa crítica se fortalece quando
observamos a repetição de padrões ao longo das edições da Copa do Mundo.
Agora,
em 2026, no México, por exemplo, organizações feministas e coletivos de
familiares de desaparecidos lembram que a chegada da Copa ocorre em um país
marcado por uma crise humanitária permanente.
Em
diversas regiões, mães continuam procurando filhos desaparecidos enquanto
autoridades investem recursos na construção da imagem internacional do país. Em
comunidades indígenas, persistem conflitos ligados à exploração econômica dos
territórios. Em áreas urbanas, moradores denunciam processos de gentrificação
associados à preparação para o megaevento.
Esses
movimentos demonstram que a Copa não funciona como um evento isolado. Ela deve
ser lida como um dispositivo de reorganização de relações de poder em escala
transnacional, pois mobiliza recursos públicos e privados, redefine prioridades
estatais e constrói uma imagem cuidadosamente administrada dos países-sede para
consumo global.
Nesse
processo, a FIFA atua como um centro de poder capaz de negociar diretamente com
governos, influenciar políticas públicas e impor exigências estruturais. Isso
tudo evidencia o distanciamento entre a narrativa de neutralidade esportiva e
as condições materiais que tornam o espetáculo possível.
A
preparação para a Copa de 2026 — organizada conjuntamente por Estados Unidos,
México e Canadá — tornou visível o papel das fronteiras e dos regimes
migratórios na definição de quem pode participar efetivamente daquilo que é
anunciado como um evento que une povos.
O caso
do árbitro somali Omar Abdulkadir
Artan —
reconhecido internacionalmente e selecionado para atuar no torneio, mas
impedido de entrar nos Estados Unidos e posteriormente deportado, apesar de sua
credencial oficial — tornou-se emblemático por escancarar que nem mesmo a
condição de agente diretamente integrado à estrutura da Copa garante mobilidade
plena dentro do sistema que a sustenta.
A
justificativa baseada em procedimentos migratórios internos do país anfitrião
foi aceita pela FIFA sem contestação significativa, evidenciando os limites de
sua autoridade quando confrontada com regimes estatais de controle fronteiriço.
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Legitimador de concentração de poder e [re]produtor de desigualdades
Mas
esse episódio não é o único. Ele está contido em um contexto de revistas
excessivas, constrangimentos administrativos e tratamento diferenciado
enfrentado por delegações, jornalistas e profissionais oriundos de países
africanos e do Sul Global durante o processo de preparação do torneio. Ainda
que essas práticas sejam frequentemente apresentadas como “questões
burocráticas” ou “de segurança”, elas reforçam uma assimetria estrutural que
contrasta diretamente com o discurso de inclusão global promovido pela
organização.
A ideia
de uma Copa do Mundo aberta a todos os povos torna-se, nesse contexto, uma
abstração que convive com sistemas concretos de filtragem, hierarquização e
controle de circulação baseados em nacionalidade, origem e posição geopolítica.
Sendo
mais enfática, parece-me uma piada de mau gosto. Essa coexistência entre
discurso universalista e prática seletiva legitima a crítica à FIFA e ao modelo
de megaevento esportivo que ela representa. Para os movimentos que se opõem à
Copa, não se trata tão somente de questionar custos financeiros ou impactos
urbanos.
A
intenção é evidenciar o futebol — ao ser incorporado plenamente à lógica
corporativa global — como legitimador de processos mais amplos de concentração
de poder e de [re]produção de desigualdades.
A
celebração do espetáculo não elimina esses problemas, como querem pensar muitas
pessoas; ao contrário, frequentemente os encobre sob a estética da festa, da
emoção compartilhada e da identidade nacional temporariamente reativada.
Mas é
preciso ressaltar que a crítica à Copa não se confunde com uma rejeição ao
futebol enquanto prática social. Em diversos contextos surgem iniciativas que
buscam recuperar o esporte como experiência comunitária, desvinculada da
mediação corporativa e das estruturas de mercado que caracterizam o futebol de
elite.
Campeonatos
populares, ligas autogeridas e projetos esportivos de base expressam a
tentativa de reinscrever o jogo em circuitos locais de sociabilidade, nos quais
o futebol não é mercadoria, e sim prática coletiva.
Essa
dimensão é central para que possamos compreender que o conflito não se dá entre
o futebol e seus opositores, mas entre diferentes formas de organização e
apropriação de uma prática enraizada nas classes populares.
Precisamos
não perder de vista que a Copa do Mundo concentra fluxos financeiros globais,
reorganiza territórios, intensifica regimes de controle e, ao mesmo tempo,
mobiliza afetos e identificações profundas em escala planetária. E que essa
combinação entre emoção coletiva e estrutura de poder torna possível a sua
permanência como espetáculo global, mesmo diante das denúncias reiteradas que a
acompanham há décadas.
E
devemos ressaltar que os movimentos contra a Copa querem lembrar que essa festa
não é igualmente vivida por todas as pessoas que dela participam — seja como
espectadoras, trabalhadoras ou habitantes das cidades que a tornam possível;
que, em vez de uma suspensão temporária das desigualdades, o evento
frequentemente funciona como um mecanismo que as reorganiza e, em muitos casos,
as intensifica sob novas formas.
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Da volta do Haiti ao fracasso da Itália: o que muda no
mapa do futebol em 2026
Quarenta
e oito seleções — 50% a mais do que na era moderna — desenharão um mapa em que
as fronteiras do futebol já não coincidem com as de ontem.
A Copa
do Mundo cresce, mas, ao crescer, se desorganiza, porque, se há algo que este
novo formato deixa, não é apenas uma lista mais longa de classificados, mas uma
evidência incômoda: o poder no futebol já não é estável.
Os
retornos: a memória que insiste
Cada
Copa do Mundo é também um arquivo que se abre, e a de 2026 traz de volta nomes
que pareciam condenados à nota de rodapé.
O
retorno do Haiti e da República
Democrática do Congo encerra
um jejum de 52 anos, e meio século fora do maior palco do futebol não é apenas
uma ausência esportiva; é um silêncio prolongado que agora encontra voz. Em
suas camisas não está apenas uma classificação: está uma história interrompida
que volta a ser escrita.
Na
Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe (Concacaf), o
crescimento haitiano não passou despercebido. O estadunidense Herculez
Gomez destacou que “o Haiti tem sido uma das equipes mais
incômodas de enfrentar na região nos últimos anos e agora está colhendo os
frutos desse crescimento”, uma leitura que desmonta a ideia de surpresa e a
substitui pela de evolução sustentada.
Na
mesma linha, o ex-treinador argentino Ricardo
La Volpe insiste
que “o futebol do Caribe evoluiu muito; o Haiti é um exemplo claro de como
competir com organização e disciplina”, enquanto o estadunidense Alexis Lalas introduz a
nuance do novo formato: “com 48 equipes veremos mais histórias como a do Haiti,
mas isso não tira seu mérito: é preciso vencer em campo”.
Na
África, o retorno da República Democrática do Congo se insere em uma
transformação mais ampla. O francês Hervé Renard adverte que “as seleções
africanas reduziram muito a distância em relação ao resto do mundo”, situando o
Congo dentro de uma tendência continental.
Essa
tese é reforçada pelo camaronês Samuel Eto’o: “A África já não
vai às Copas do Mundo apenas para participar; vamos para competir”, enquanto o
ganês Abedi Pelé recorda que o talento sempre esteve ali, mas agora é
acompanhado de organização e experiência internacional.
Em um
degrau mais próximo no tempo, mas igualmente simbólico, aparece o Iraque, que
retorna após quatro décadas. Entre 1986 e 2026 não passaram apenas gerações de
jogadores; passou um país inteiro por conflitos, reconstruções e rupturas, e
sua classificação é, por si só, uma história.
Do
ponto de vista da análise técnica, o espanhol Xavi Hernández destacou que “o
futebol na Ásia cresceu enormemente”, enquanto o greco-australiano Ange
Postecoglou aponta a disciplina tática e a identidade como chaves de sua
competitividade.
Mais
abaixo, em outra camada do calendário, ressurgem equipes como Paraguai, África
do Sul e Nova Zelândia, ausentes por 16 anos, ou seleções como Suécia, Colômbia
e Egito, que retornam após um ciclo de Copa do Mundo.
Três
tempos convivem em um mesmo torneio: o da longa história, o da reconstrução e o
da simples renovação geracional. Nunca antes eles haviam coincidido com tanta
clareza.
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As surpresas: novos territórios do jogo
Mas a
Copa do Mundo de 2026 não olha apenas para trás; ela também abre portas. A
ampliação para 48 equipes modifica a aritmética do poder: a África quase dobra
sua presença, a Ásia cresce com força e a Concacaf mais do que multiplica suas
vagas. Onde antes se classificava uma minoria, agora o faz quase um quarto do
planeta futebolístico.
Nesse
novo espaço emergem nomes como Curaçao, Uzbequistão, Jordânia e Cabo Verde. E
estas não são anomalias: são consequências.
Durante
anos, o talento cresceu em silêncio, muitas vezes longe dos centros
tradicionais. Academias, migrações, dupla nacionalidade e ligas periféricas
cada vez mais conectadas ajudaram o futebol a se globalizar antes que a Copa do
Mundo reconhecesse isso.
O caso
de Curaçao sintetiza esse fenômeno. Um país pequeno, com forte dependência de
sua diáspora nos Países Baixos, conseguiu alcançar o cenário principal.
Para o
neerlandês Patrick Kluivert, “com o talento da diáspora e um projeto sério é
possível competir com nações muito maiores”, enquanto o estadunidense Bruce
Arena o define como “a essência do azarão: uma equipe pequena, organizada e bem
dirigida que pode surpreender”.
Em
torneios anteriores, o número de seleções realmente “surpresa” raramente
ultrapassava quatro. Agora, porém, esse número pode dobrar. A margem para novas
aparições aumenta e, com ela, a possibilidade de que a história mude, porque,
quando o acesso aumenta, a incerteza também cresce.
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As ausências: o peso do que falta
Mas
cada porta que se abre deixa outra fechada. A Copa do Mundo de 2026 também se
define por suas ausências, e nenhuma pesa tanto quanto a da Itália. Quatro
vezes campeã do mundo, ela acumula três edições consecutivas sem se
classificar. Isso não é uma sequência ruim, é uma ruptura histórica.
A
partir da análise especializada, as críticas apontam para causas estruturais. O
alemão Jürgen Klinsmann assinalou a
falta de liderança e de aposta nos jovens talentos como um dos males de fundo,
sugerindo uma cultura futebolística excessivamente conservadora.
Por sua
vez, o belga Kevin De Bruyne contextualiza a
queda em um ambiente mais competitivo: “o nível na Europa é cada vez mais alto…
seleções pequenas podem construir equipes decentes e obter resultados”,
deixando em aberto a questão sobre uma possível crise estrutural do futebol
italiano.
O
fenômeno transcende o aspecto tático. Até mesmo figuras alheias à análise
técnica, como o tenista italiano Jannik Sinner,
refletiram o impacto emocional da ausência, evidenciando que a eliminação não é
apenas esportiva, mas também cultural.
Nesse
sentido, o estatístico espanhol Mister Chip foi contundente
em suas intervenções públicas ao classificar a terceira ausência consecutiva
como “uma anomalia histórica difícil de justificar em uma Copa do Mundo
ampliada”, reforçando a ideia de que não se trata de um acidente, mas de uma
crise profunda.
Ao seu
redor, outras fissuras se tornam visíveis. Na África, a ausência da Nigéria e
de Camarões confirma uma mudança de paradigma. O próprio Renard interpreta
essas eliminações como “um sinal claro de que o futebol africano está se
nivelando”, e Eto’o adverte que “não se pode depender apenas da história e da
reputação”.
Na
Concacaf, a eliminação de Costa Rica e Honduras rompe uma inércia de anos e,
por sua vez, a Europa deixa de fora seleções competitivas como Polônia e
Dinamarca. O dado é contundente: mais vagas não significam mais estabilidade;
significam mais competição e, portanto, mais quedas.
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O fator 48: uma elite em transformação
A
decisão da Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA) de ampliar o
torneio responde a uma lógica clara: inclusão, mercado e expansão global. A
Copa do Mundo deixa de ser um clube seletivo — no qual se classificavam cerca
de 16% das associações — para se tornar um espaço em que quase 25% têm lugar.
Um em cada quatro países.
A elite
se amplia, mas, nessa ampliação, surge a pergunta inevitável: o futebol se
democratiza ou se dilui?
Essa
resposta, por enquanto, não é absoluta. O que é evidente é a mudança de
natureza. A Copa do Mundo deixa de ser apenas a reunião dos melhores para se
tornar também o reflexo de um sistema mais amplo, mais diverso e menos
previsível.
O
narrador e comentarista cubano Boris Luis Leyva sustenta, em
declarações à Prensa Latina, que a ampliação da Copa do Mundo
“diversifica o que vamos ver”, ao incorporar seleções de diferentes
confederações que antes não tinham acesso, o que amplia o universo de torcidas,
estilos e realidades futebolísticas, além de reforçar sua vocação universal.
No
entanto, ele adverte que esse mesmo processo impacta a qualidade: o nível médio
“cai” ao incluir equipes que não fariam parte do torneio sob o formato
anterior. Em sua leitura, a fase de grupos perde peso competitivo, pois o
formato favorece o avanço das equipes mais fortes e permite que vários
terceiros colocados sigam na disputa, de modo que a verdadeira exigência é
transferida para as fases eliminatórias.
Para
Leyva, o novo esquema equilibra expansão e espetáculo com uma lógica na qual
prevalece o negócio — mais partidas, mais público e maior alcance — acima da
preservação de uma elite estritamente esportiva.
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Uma nova ordem em movimento
A Copa
do Mundo de 2026 — de 11 de junho a 19 de julho — será, em essência, uma
transição. Os retornos demonstram que a história nunca se encerra
completamente; as surpresas evidenciam que o talento deixou de se concentrar em
poucos territórios; e as ausências lembram que o prestígio não é uma garantia,
mas uma responsabilidade que se renova a cada quatro anos.
Tudo
acontece ao mesmo tempo. O resultado é um torneio em que as hierarquias se
desgastam, os mapas são redesenhados e as certezas se tornam frágeis, porque,
se esta classificação deixa algo, não é apenas uma lista de equipes, mas um
sinal.
Em
2026, o futebol não será maior apenas porque haverá mais seleções; será
diferente porque já não pertence aos mesmos de sempre. E, nessa mudança,
silenciosa, mas profunda, está em jogo algo mais do que uma Copa do Mundo: está
em jogo o lugar que cada país ocupa na nova ordem do futebol.
Fonte:
Diálogos do Sul Global

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