sábado, 13 de junho de 2026

Copa nos EUA transforma festa do futebol em vitrine de exclusão e vigilância

A Copa do Mundo de Futebol é apresentada como uma das poucas experiências verdadeiramente universais da contemporaneidade, um momento em que nações inteiras suspenderiam suas diferenças para compartilhar a mesma emoção diante do futebol.

A FIFA constrói essa narrativa com disciplina quase monástica — apoiada por campanhas publicitárias, cerimônias de abertura e discursos oficiais que insistem na ideia de que o esporte seria um território capaz de produzir união onde antes haveria apenas conflito.

Entretanto, quando observamos o que se acumula ao redor desse espetáculo ao longo das décadas, torna-se difícil sustentar essa imagem sem ignorar o que acontece fora do enquadramento das câmeras. E agora, em 2026, não é diferente.

Mas algumas perguntas precisam ser feitas. Que tipo de união é possível quando as fronteiras permanecem abertas para investidores e patrocinadores enquanto trabalhadores, migrantes e cidadãos de determinados países são tratados como suspeitos?

Que universalidade existe em um evento que depende de um sistema internacional profundamente desigual? Que fraternidade pode ser construída sobre estruturas que reproduzem discriminações históricas?

<><> Vetor de desigualdades e aprofundamento de hierarquias

Desde que a Copa se transformou em um megaevento global plenamente integrado à lógica corporativa e estatal contemporânea, ela passou a funcionar como uma poderosa engrenagem de reorganização dos espaços urbanos e das relações sociais nos países-sede. O que se anuncia como festa frequentemente se materializa como um processo de reestruturação acelerada de cidades inteiras, no qual interesses econômicos, políticos e imobiliários se sobrepõem às necessidades concretas das populações que ali vivem.

A promessa de desenvolvimento — repetida em cada edição — costuma vir acompanhada de endividamento público, flexibilização de leis urbanísticas e expansão de dispositivos de vigilância. E também de intensificação do controle policial sobre territórios considerados estratégicos para o espetáculo.

As perguntas que fiz acima ajudam a explicar por que os movimentos contra a Copa se expandiram para além das críticas tradicionais aos gastos públicos e às obras urbanas. É nesse contexto que se evidenciam, de forma recorrente e em diferentes continentes, movimentos de resistência à Copa do Mundo e à própria FIFA enquanto instituição. E esses movimentos não podem ser reduzidos a uma única identidade política, pois reúnem desde organizações de moradores ameaçados por remoções até coletivos feministas, sindicatos, grupos antirracistas, organizações indígenas e iniciativas ecologistas.

O que os conecta não diz respeito a uma oposição abstrata ao futebol, mas à percepção concreta de que o megaevento funciona como vetor de desigualdades e aprofundamento de hierarquias sociais já existentes. Suas denúncias conectam o futebol-espetáculo a questões mais amplas — como colonialismo, racismo estrutural, destruição ambiental, violência de gênero, militarização dos territórios e concentração de riqueza. Essa crítica se fortalece quando observamos a repetição de padrões ao longo das edições da Copa do Mundo.

Agora, em 2026, no México, por exemplo, organizações feministas e coletivos de familiares de desaparecidos lembram que a chegada da Copa ocorre em um país marcado por uma crise humanitária permanente.

Em diversas regiões, mães continuam procurando filhos desaparecidos enquanto autoridades investem recursos na construção da imagem internacional do país. Em comunidades indígenas, persistem conflitos ligados à exploração econômica dos territórios. Em áreas urbanas, moradores denunciam processos de gentrificação associados à preparação para o megaevento.

Esses movimentos demonstram que a Copa não funciona como um evento isolado. Ela deve ser lida como um dispositivo de reorganização de relações de poder em escala transnacional, pois mobiliza recursos públicos e privados, redefine prioridades estatais e constrói uma imagem cuidadosamente administrada dos países-sede para consumo global.

Nesse processo, a FIFA atua como um centro de poder capaz de negociar diretamente com governos, influenciar políticas públicas e impor exigências estruturais. Isso tudo evidencia o distanciamento entre a narrativa de neutralidade esportiva e as condições materiais que tornam o espetáculo possível.

A preparação para a Copa de 2026 — organizada conjuntamente por Estados Unidos, México e Canadá — tornou visível o papel das fronteiras e dos regimes migratórios na definição de quem pode participar efetivamente daquilo que é anunciado como um evento que une povos.

O caso do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan — reconhecido internacionalmente e selecionado para atuar no torneio, mas impedido de entrar nos Estados Unidos e posteriormente deportado, apesar de sua credencial oficial — tornou-se emblemático por escancarar que nem mesmo a condição de agente diretamente integrado à estrutura da Copa garante mobilidade plena dentro do sistema que a sustenta.

A justificativa baseada em procedimentos migratórios internos do país anfitrião foi aceita pela FIFA sem contestação significativa, evidenciando os limites de sua autoridade quando confrontada com regimes estatais de controle fronteiriço.

<><> Legitimador de concentração de poder e [re]produtor de desigualdades

Mas esse episódio não é o único. Ele está contido em um contexto de revistas excessivas, constrangimentos administrativos e tratamento diferenciado enfrentado por delegações, jornalistas e profissionais oriundos de países africanos e do Sul Global durante o processo de preparação do torneio. Ainda que essas práticas sejam frequentemente apresentadas como “questões burocráticas” ou “de segurança”, elas reforçam uma assimetria estrutural que contrasta diretamente com o discurso de inclusão global promovido pela organização.

A ideia de uma Copa do Mundo aberta a todos os povos torna-se, nesse contexto, uma abstração que convive com sistemas concretos de filtragem, hierarquização e controle de circulação baseados em nacionalidade, origem e posição geopolítica.

Sendo mais enfática, parece-me uma piada de mau gosto. Essa coexistência entre discurso universalista e prática seletiva legitima a crítica à FIFA e ao modelo de megaevento esportivo que ela representa. Para os movimentos que se opõem à Copa, não se trata tão somente de questionar custos financeiros ou impactos urbanos.

A intenção é evidenciar o futebol — ao ser incorporado plenamente à lógica corporativa global — como legitimador de processos mais amplos de concentração de poder e de [re]produção de desigualdades.

A celebração do espetáculo não elimina esses problemas, como querem pensar muitas pessoas; ao contrário, frequentemente os encobre sob a estética da festa, da emoção compartilhada e da identidade nacional temporariamente reativada.

Mas é preciso ressaltar que a crítica à Copa não se confunde com uma rejeição ao futebol enquanto prática social. Em diversos contextos surgem iniciativas que buscam recuperar o esporte como experiência comunitária, desvinculada da mediação corporativa e das estruturas de mercado que caracterizam o futebol de elite.

Campeonatos populares, ligas autogeridas e projetos esportivos de base expressam a tentativa de reinscrever o jogo em circuitos locais de sociabilidade, nos quais o futebol não é mercadoria, e sim prática coletiva.

Essa dimensão é central para que possamos compreender que o conflito não se dá entre o futebol e seus opositores, mas entre diferentes formas de organização e apropriação de uma prática enraizada nas classes populares.

Precisamos não perder de vista que a Copa do Mundo concentra fluxos financeiros globais, reorganiza territórios, intensifica regimes de controle e, ao mesmo tempo, mobiliza afetos e identificações profundas em escala planetária. E que essa combinação entre emoção coletiva e estrutura de poder torna possível a sua permanência como espetáculo global, mesmo diante das denúncias reiteradas que a acompanham há décadas.

E devemos ressaltar que os movimentos contra a Copa querem lembrar que essa festa não é igualmente vivida por todas as pessoas que dela participam — seja como espectadoras, trabalhadoras ou habitantes das cidades que a tornam possível; que, em vez de uma suspensão temporária das desigualdades, o evento frequentemente funciona como um mecanismo que as reorganiza e, em muitos casos, as intensifica sob novas formas.

¨      Da volta do Haiti ao fracasso da Itália: o que muda no mapa do futebol em 2026

Quarenta e oito seleções — 50% a mais do que na era moderna — desenharão um mapa em que as fronteiras do futebol já não coincidem com as de ontem.

A Copa do Mundo cresce, mas, ao crescer, se desorganiza, porque, se há algo que este novo formato deixa, não é apenas uma lista mais longa de classificados, mas uma evidência incômoda: o poder no futebol já não é estável.

Os retornos: a memória que insiste

Cada Copa do Mundo é também um arquivo que se abre, e a de 2026 traz de volta nomes que pareciam condenados à nota de rodapé.

O retorno do Haiti e da República Democrática do Congo encerra um jejum de 52 anos, e meio século fora do maior palco do futebol não é apenas uma ausência esportiva; é um silêncio prolongado que agora encontra voz. Em suas camisas não está apenas uma classificação: está uma história interrompida que volta a ser escrita.

Na Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe (Concacaf), o crescimento haitiano não passou despercebido. O estadunidense Herculez Gomez destacou que “o Haiti tem sido uma das equipes mais incômodas de enfrentar na região nos últimos anos e agora está colhendo os frutos desse crescimento”, uma leitura que desmonta a ideia de surpresa e a substitui pela de evolução sustentada.

Na mesma linha, o ex-treinador argentino Ricardo La Volpe insiste que “o futebol do Caribe evoluiu muito; o Haiti é um exemplo claro de como competir com organização e disciplina”, enquanto o estadunidense Alexis Lalas introduz a nuance do novo formato: “com 48 equipes veremos mais histórias como a do Haiti, mas isso não tira seu mérito: é preciso vencer em campo”.

Na África, o retorno da República Democrática do Congo se insere em uma transformação mais ampla. O francês Hervé Renard adverte que “as seleções africanas reduziram muito a distância em relação ao resto do mundo”, situando o Congo dentro de uma tendência continental.

Essa tese é reforçada pelo camaronês Samuel Eto’o: “A África já não vai às Copas do Mundo apenas para participar; vamos para competir”, enquanto o ganês Abedi Pelé recorda que o talento sempre esteve ali, mas agora é acompanhado de organização e experiência internacional.

Em um degrau mais próximo no tempo, mas igualmente simbólico, aparece o Iraque, que retorna após quatro décadas. Entre 1986 e 2026 não passaram apenas gerações de jogadores; passou um país inteiro por conflitos, reconstruções e rupturas, e sua classificação é, por si só, uma história.

Do ponto de vista da análise técnica, o espanhol Xavi Hernández destacou que “o futebol na Ásia cresceu enormemente”, enquanto o greco-australiano Ange Postecoglou aponta a disciplina tática e a identidade como chaves de sua competitividade.

Mais abaixo, em outra camada do calendário, ressurgem equipes como Paraguai, África do Sul e Nova Zelândia, ausentes por 16 anos, ou seleções como Suécia, Colômbia e Egito, que retornam após um ciclo de Copa do Mundo.

Três tempos convivem em um mesmo torneio: o da longa história, o da reconstrução e o da simples renovação geracional. Nunca antes eles haviam coincidido com tanta clareza.

<><> As surpresas: novos territórios do jogo

Mas a Copa do Mundo de 2026 não olha apenas para trás; ela também abre portas. A ampliação para 48 equipes modifica a aritmética do poder: a África quase dobra sua presença, a Ásia cresce com força e a Concacaf mais do que multiplica suas vagas. Onde antes se classificava uma minoria, agora o faz quase um quarto do planeta futebolístico.

Nesse novo espaço emergem nomes como Curaçao, Uzbequistão, Jordânia e Cabo Verde. E estas não são anomalias: são consequências.

Durante anos, o talento cresceu em silêncio, muitas vezes longe dos centros tradicionais. Academias, migrações, dupla nacionalidade e ligas periféricas cada vez mais conectadas ajudaram o futebol a se globalizar antes que a Copa do Mundo reconhecesse isso.

O caso de Curaçao sintetiza esse fenômeno. Um país pequeno, com forte dependência de sua diáspora nos Países Baixos, conseguiu alcançar o cenário principal.

Para o neerlandês Patrick Kluivert, “com o talento da diáspora e um projeto sério é possível competir com nações muito maiores”, enquanto o estadunidense Bruce Arena o define como “a essência do azarão: uma equipe pequena, organizada e bem dirigida que pode surpreender”.

Em torneios anteriores, o número de seleções realmente “surpresa” raramente ultrapassava quatro. Agora, porém, esse número pode dobrar. A margem para novas aparições aumenta e, com ela, a possibilidade de que a história mude, porque, quando o acesso aumenta, a incerteza também cresce.

<><> As ausências: o peso do que falta

Mas cada porta que se abre deixa outra fechada. A Copa do Mundo de 2026 também se define por suas ausências, e nenhuma pesa tanto quanto a da Itália. Quatro vezes campeã do mundo, ela acumula três edições consecutivas sem se classificar. Isso não é uma sequência ruim, é uma ruptura histórica.

A partir da análise especializada, as críticas apontam para causas estruturais. O alemão Jürgen Klinsmann assinalou a falta de liderança e de aposta nos jovens talentos como um dos males de fundo, sugerindo uma cultura futebolística excessivamente conservadora.

Por sua vez, o belga Kevin De Bruyne contextualiza a queda em um ambiente mais competitivo: “o nível na Europa é cada vez mais alto… seleções pequenas podem construir equipes decentes e obter resultados”, deixando em aberto a questão sobre uma possível crise estrutural do futebol italiano.

O fenômeno transcende o aspecto tático. Até mesmo figuras alheias à análise técnica, como o tenista italiano Jannik Sinner, refletiram o impacto emocional da ausência, evidenciando que a eliminação não é apenas esportiva, mas também cultural.

Nesse sentido, o estatístico espanhol Mister Chip foi contundente em suas intervenções públicas ao classificar a terceira ausência consecutiva como “uma anomalia histórica difícil de justificar em uma Copa do Mundo ampliada”, reforçando a ideia de que não se trata de um acidente, mas de uma crise profunda.

Ao seu redor, outras fissuras se tornam visíveis. Na África, a ausência da Nigéria e de Camarões confirma uma mudança de paradigma. O próprio Renard interpreta essas eliminações como “um sinal claro de que o futebol africano está se nivelando”, e Eto’o adverte que “não se pode depender apenas da história e da reputação”.

Na Concacaf, a eliminação de Costa Rica e Honduras rompe uma inércia de anos e, por sua vez, a Europa deixa de fora seleções competitivas como Polônia e Dinamarca. O dado é contundente: mais vagas não significam mais estabilidade; significam mais competição e, portanto, mais quedas.

<><> O fator 48: uma elite em transformação

A decisão da Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA) de ampliar o torneio responde a uma lógica clara: inclusão, mercado e expansão global. A Copa do Mundo deixa de ser um clube seletivo — no qual se classificavam cerca de 16% das associações — para se tornar um espaço em que quase 25% têm lugar. Um em cada quatro países.

A elite se amplia, mas, nessa ampliação, surge a pergunta inevitável: o futebol se democratiza ou se dilui?

Essa resposta, por enquanto, não é absoluta. O que é evidente é a mudança de natureza. A Copa do Mundo deixa de ser apenas a reunião dos melhores para se tornar também o reflexo de um sistema mais amplo, mais diverso e menos previsível.

O narrador e comentarista cubano Boris Luis Leyva sustenta, em declarações à Prensa Latina, que a ampliação da Copa do Mundo “diversifica o que vamos ver”, ao incorporar seleções de diferentes confederações que antes não tinham acesso, o que amplia o universo de torcidas, estilos e realidades futebolísticas, além de reforçar sua vocação universal.

No entanto, ele adverte que esse mesmo processo impacta a qualidade: o nível médio “cai” ao incluir equipes que não fariam parte do torneio sob o formato anterior. Em sua leitura, a fase de grupos perde peso competitivo, pois o formato favorece o avanço das equipes mais fortes e permite que vários terceiros colocados sigam na disputa, de modo que a verdadeira exigência é transferida para as fases eliminatórias.

Para Leyva, o novo esquema equilibra expansão e espetáculo com uma lógica na qual prevalece o negócio — mais partidas, mais público e maior alcance — acima da preservação de uma elite estritamente esportiva.

<>< Uma nova ordem em movimento

A Copa do Mundo de 2026 — de 11 de junho a 19 de julho — será, em essência, uma transição. Os retornos demonstram que a história nunca se encerra completamente; as surpresas evidenciam que o talento deixou de se concentrar em poucos territórios; e as ausências lembram que o prestígio não é uma garantia, mas uma responsabilidade que se renova a cada quatro anos.

Tudo acontece ao mesmo tempo. O resultado é um torneio em que as hierarquias se desgastam, os mapas são redesenhados e as certezas se tornam frágeis, porque, se esta classificação deixa algo, não é apenas uma lista de equipes, mas um sinal.

Em 2026, o futebol não será maior apenas porque haverá mais seleções; será diferente porque já não pertence aos mesmos de sempre. E, nessa mudança, silenciosa, mas profunda, está em jogo algo mais do que uma Copa do Mundo: está em jogo o lugar que cada país ocupa na nova ordem do futebol.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global

 

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