sábado, 13 de junho de 2026

Florestan Fernandes Jr.: O mercado tem medo de Lula ou da democracia?

A pesquisa Genial/Quaest que mostra a ampliação da vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro mal havia sido divulgada nesta quarta-feira (10/06) e a GloboNews já repercutia o avanço do presidente nas intenções de voto junto ao mercado financeiro. A repercussão foi feita pelo economista-chefe da Ativa Investimentos que, como era previsível, vaticinou: uma eventual reeleição de Lula representaria uma ameaça à responsabilidade fiscal e à condução da política econômica.

Na prática, porém, o entrevistado defendia a manutenção de uma política econômica alinhada aos interesses do mercado financeiro, que privilegia o pagamento dos juros da dívida pública e a remuneração dos rentistas em detrimento da ampliação dos investimentos sociais em áreas como saúde, educação e previdência. 

O entrevistado destacou que para o mercado, o resultado da pesquisa poderia provocar reações negativas, com impactos sobre a Bolsa de Valores e a cotação do dólar. Mas tranquilizou os mais preocupados ao afirmar que o cenário eleitoral ainda está aberto e que muita coisa pode mudar até a votação.

A pergunta que muitos devem se fazer é: por que o jornalismo da Globo está mais preocupado com a repercussão do mercado financeiro do que com a opinião do setor produtivo, da indústria, do comércio e dos trabalhadores?

Quando as exigências do mercado são apresentadas como parâmetros incontornáveis para a formulação de políticas públicas, reformas estruturais passam a ser tratadas como necessidades técnicas e não como escolhas políticas sujeitas ao debate democrático. Esse enquadramento fortalece a influência do capital financeiro sobre a discussão pública e reduz o espaço para temas como justiça social, investimento estatal e distribuição dos recursos públicos.

A narrativa de que Lula representa uma ameaça aos mercados tampouco encontra respaldo no comportamento dos ativos financeiros. O Ibovespa alcançou patamares superiores aos observados no final do governo Bolsonaro enquanto o dólar, apesar das turbulências internacionais, não registrou a explosão frequentemente anunciada pelos críticos do governo.

Nos quatro anos da gestão Bolsonaro, a economia brasileira cresceu, em média, cerca de 1,5% ao ano, resultado influenciado pela pandemia, mas ainda assim modesto para os padrões de um país emergente. Já nos primeiros anos do governo Lula, o PIB voltou a crescer acima de 3% ao ano, superando inclusive as projeções do próprio mercado financeiro.

Os defensores da austeridade costumam atribuir aos governos do PT uma suposta irresponsabilidade fiscal, mas silenciam sobre a forte expansão dos gastos ocorrida durante a administração Bolsonaro, especialmente na pandemia e no ano eleitoral de 2022. A diferença central parece estar menos no volume dos gastos e mais em sua destinação. Enquanto parte significativa do debate econômico se concentra na preservação dos interesses do mercado financeiro e na remuneração dos detentores da dívida pública, governos de esquerda defendem ampliar investimentos em políticas sociais, infraestrutura e combate à desigualdade.

Talvez essa reação reflita também o receio de que operações como a Carbono Oculto continuem lançando luz sobre relações pouco transparentes entre setores do mercado financeiro e esquemas de lavagem de dinheiro ligados ao crime organizado. O mesmo pode ser dito do caso Banco Master, que trouxe à tona o papel desempenhado por conhecidas corretoras na distribuição de títulos de elevado risco emitidos pela instituição de Daniel Vorcaro.

Mais do que uma disputa sobre indicadores econômicos, o debate exposto pela cobertura da GloboNews revela uma questão política central: quem tem legitimidade para definir os rumos do país? Quando a opinião do mercado financeiro é tratada como sinônimo de interesse nacional, outras vozes da economia como trabalhadores, pequenos empresários e beneficiários das políticas públicas acabam relegadas a um segundo plano.

A eleição de 2026 não será apenas uma disputa eleitoral. Estará em jogo a definição dos rumos estratégicos do Brasil nas próximas décadas. A escolha será entre um projeto de desenvolvimento baseado na soberania nacional, na inovação tecnológica, no fortalecimento da indústria e na inclusão social, e um modelo em que as prioridades do país sejam definidas principalmente pelos interesses do mercado financeiro, e não pelo debate democrático da sociedade brasileira. Uma democracia que, aliás, continua sob pressão diante das investidas da extrema direita e de iniciativas alinhadas ao projeto de Donald Trump de reafirmar a influência dos Estados Unidos sobre a América Latina.

¨      O fim do antilulismo automático. Por Luís Nassif

Os movimentos da mídia são curiosos. De um lado, as preferências políticas. De outro, os movimentos conduzidos por vazamentos direcionados. E, no meio, a necessidade de equilibrar posições — de disfarçar as preferências políticas por trás de uma suposta isenção jornalística.

A manipulação das narrativas começa na seleção dos fatos que merecem manchete de primeira página ou título de matéria. Com frequência, a cobertura se torna prisioneira de fontes privilegiadas, que entregam informações exclusivas — ou vazamentos de inquéritos — de modo a direcionar a pauta. O efeito-manada e o jornalismo-sela — a imprensa encilhada pela fonte, montada e conduzida por ela — são personagens recorrentes.

Faço essa introdução para uma análise do jornalismo da Globo, em especial do jornal O Globo e da GloboNews (confesso que não tenho assistido ao Jornal Nacional e ao Fantástico).

Quando começou a operação Master, uma parceria entre peritos lavajatistas e jornalistas lavajatistas de O Globo e da GloboNews enviesou totalmente a cobertura. O que era um escândalo do Centrão e do governo do Distrito Federal transformou-se em escândalo do Supremo Tribunal Federal e em tentativa de jogar Lula e o PT para o centro do caso. Caminhou-se para um ensaio de Lava Jato 2, cujo ápice foi o PowerPoint de Andréia Sadi. Via-se, com clareza, uma perda de rumo da direção — tanto do jornal quanto da GloboNews.

O desgaste foi imediato. As críticas explodiram em todos os canais digitais. E a marcha foi interrompida pelo vazamento da conversa entre Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro, divulgada por um jornal alternativo, o The Intercept.

Esse foi o ponto de virada que alertou os jornais: manter o antilulismo irracional significaria fortalecer as organizações que se escondem por trás do bolsonarismo.

Pode ter sido um clarão ocasional ou uma tomada de posição racional. Mas quem acompanha O Globo percebeu uma mudança radical no tratamento das matérias políticas. Um exemplo: a Quaest solta uma pesquisa. A nota relevante é o aumento da distância entre Lula e Flávio Bolsonaro. O eixo Estadão-Veja preferiu destacar a visão negativa em relação a Lula, empatada com a positiva. Já O Globo foi pródigo em praticar jornalismo e conferir à pesquisa os destaques efetivamente relevantes: o aumento da diferença entre Lula e Bolsonarinho e a diminuição da rejeição a Lula entre os evangélicos. Na própria GloboNews, a ala da direita não poupa críticas a Flávio Bolsonaro.

Aparentemente, caiu a ficha do que significaria para o país — e para a mídia hegemônica — uma eventual vitória do bolsonarismo. De um lado, o desmonte de qualquer veleidade de transformar o país em uma Nação. De outro, o tiroteio direto contra a mídia convencional, em favor das redes mais ligadas aos evangélicos.

Muita água ainda vai rolar, há muita narrativa no ar e muito amadorismo na edição dos jornais. Mas, ao menos nestes últimos dias, ficou a impressão de uma retomada da racionalidade.

¨      O Partido Digital Bolsonarista: síntese analítica

O relatório O Partido Digital Bolsonarista (CCI/CEBRAP/DX, 2025), coordenado por Marcos Nobre, sustenta que o bolsonarismo deve ser compreendido não apenas como uma corrente ideológica ou movimento de opinião, mas como uma organização política voltada à conquista e manutenção do poder. Os autores denominam essa estrutura de Partido Digital Bolsonarista (PDB).

A principal tese é que o PDB funciona como um partido de fato, embora opere parcialmente fora das instituições tradicionais da democracia representativa. Em vez de depender de estatutos, programas e estruturas burocráticas, ele se organiza por meio de redes digitais de influência, lealdade pessoal e mobilização permanente em torno da liderança de Jair Bolsonaro.

Nessa interpretação, o PL não constitui o partido bolsonarista propriamente dito. Funciona antes como uma plataforma institucional que fornece recursos financeiros, tempo de televisão, estrutura eleitoral e acesso ao sistema político, enquanto a coordenação política efetiva ocorre nas redes sociais e nos ecossistemas digitais de apoiadores e influenciadores.

O estudo combina análise de redes sociais, dados eleitorais e financiamento de campanhas para demonstrar que existe um núcleo parlamentar altamente coordenado, concentrado principalmente no PL, caracterizado por elevada capacidade de mobilização digital, baixa adesão às pautas do governo e forte alinhamento discursivo. A coordenação aparece em campanhas simultâneas, identidade visual padronizada e sincronização de mensagens.

A figura de Bolsonaro surge como o principal nó articulador da rede, enquanto parlamentares e influenciadores funcionam como multiplicadores. O ataque ao Supremo Tribunal Federal — especialmente ao ministro Alexandre de Moraes — aparece como o tema de maior convergência e coesão interna, reforçando o caráter antissistêmico atribuído ao grupo pelos autores.

O relatório também identifica fragilidades estruturais. Como a organização depende mais da lealdade pessoal do que de mecanismos institucionais, ela está sujeita a disputas por liderança e deserções. O crescimento de figuras como Pablo Marçal é apresentado como exemplo da vulnerabilidade inerente a uma estrutura política baseada em influência digital e carisma.

Entre os achados empíricos, destaca-se o desempenho singular de Nikolas Ferreira, cujo engajamento nas redes supera amplamente o dos demais parlamentares analisados, indicando a existência de hierarquias internas de influência que nem sempre coincidem com os cargos formais da política.

Em síntese, o relatório conclui que o bolsonarismo opera como um partido político digitalizado, organizado em torno de lideranças de influência, capaz de utilizar partidos tradicionais sem se confundir com eles e de mobilizar apoiadores por meio de redes digitais que funcionam paralelamente às estruturas convencionais da democracia representativa.

 

Fonte: Brasil 247/Jornal GGN

 

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