Denise
Assis: Plano de Bolsonaro para fuga lembra a queda de Luiz XVI
Com todos os bilhões investidos, o avanço sobre o
teto de gastos, a compra de votos pelo interior do país, via Ministério do
Desenvolvimento Social – conforme denunciou o jornalista Caco Barcellos -, e o
jorro de “auxílios” a caminhoneiros, taxistas e benefícios a outras camadas da
população, Bolsonaro tinha a sua reeleição como favas contadas. Ainda assim, na
encolha, providenciava um golpe que envolvia, como último recurso, um plano de
fuga. O enredo fica cada vez mais claro, na medida em que avançam as
investigações sobre seus últimos passos no governo, e as “providências” tomadas
pelo grupo que o cercava.
Eles tentaram no dia 12, não deu certo. Se
arriscaram no dia 24, malograram. Cogitaram o dia da posse, em 1º de janeiro: a
realidade se impôs, quando a multidão fez um cinturão de segurança em torno de
Lula. E, por fim, numa última cartada, apostaram as fichas no dia 8. Mas o que
importa aqui é a correria para a fuga, até Miami. “Recolham o máximo de
dinheiro e bens que conseguirem”, parece ter sido a última ordem do ainda
presidente, para os “súditos”. (Devia ser assim que ele os tratava). Em tempos
de espetáculos de monarquia em manchetes, é lícito o paralelo. E foi assim que
o “atrapalhante” de ordens, o tenente-coronel da ativa, Mauro Cid, não teve
tempo de se desvencilhar de R$ 190 mil amealhados em casa, talvez para serem
repassados ao seu verdadeiro dono.
“E os comprovantes de vacina?” Pareceu bradar o
chefe, numa espécie de checklist, dias antes do embarque. Queria o golpe (nos
faz crer), mas é covarde o suficiente para não desejar estar na cena do crime,
no momento do seu desenrolar. Melhor não. Sairia para Miami e voltaria como um
Jânio Quadros bem-sucedido, nos braços do povo. Faltou combinar com: parte do
Exército, com uma parcela significativa do empresariado e a mídia tradicional,
sempre disposta a “comprar” o discurso golpista, mas dessa vez, - gato
escaldado -, não topou o flerte com o fascismo, por demais perigoso. Havia
experimentado em 2016 e o preço foi alto.
Sem esses atores, não há golpe que se sustente, mas
Bolsonaro é megalômano e tosco o suficiente para considerar que, iniciado o
“movimento”, o restante das fileiras militares e da sociedade o seguiria. Basta
ver a troca de mensagens tresloucadas, que misturam desde morto-vivo, até
desníveis geográficos e temporais que deixaram à mostra as incongruências de
datas, lotes de vacinas e inserção e retiradas atabalhoadas de atestados no
sistema de Saúde do SUS, - o que é mais grave - no Palácio do Planalto, nos
computadores da presidência.
Qualquer semelhança com a fuga de Luiz XVI, de Paris,
não é mera coincidência. É a história em ondas de repetição, desta vez como
farsa. Na verdade, uma comédia burlesca, repleta de erros, em ambos os casos.
A chamada “Fuga de Varennes”, tentativa frustrada de
evasão de Luiz XVI de França e sua família, entre 20 e 21 de junho de 1791, é
cheia de significados e se encaixa – ainda que jocosamente, em nossos últimos
dias de Bolsonaro.
Um, temia o destino que acabou tendo: a guilhotina -
a cabeça antes coroada -, rolando para dentro de um cesto vulgar. O outro,
temendo as batidas na porta, bem cedinho, e os motores dos carros pretos,
rumando para a sede da Polícia Federal, e dali para a Papuda, não
necessariamente nesse intervalo de tempo, mas futuramente.
O episódio da
Revolução Francesa é cheio de significado e foi determinante para o fim dos
reis de França. A fuga da família real, cujos planos já eram arquitetados por
certos conselheiros desde os acontecimentos de 6 de outubro de 1789, e
retomados diversas vezes depois disso, desta vez foi minuciosamente preparado
por Hans Axel von Fersen, uma espécie de “Mauro Cid” de Luiz XVI e, diga-se, o
favorito da rainha.
O séquito do
Rei e de Maria Antonieta, sua esposa, tendo à frente Axel de Fersen, planejou
Montmédy como destino, onde encontrariam o Marquês de Bouillé, general em chefe
das tropas do Meuse, Sarre e Moselle e encarregado do plano de fuga.
Esse plano incluía disfarçar o rei de intendente,
acompanhado por três cavalheiros (antigos guardas do corpo licenciado de 1789:
Senhores de Moustier, de Valory et de Malden). Porém, a cor escolhida para as
librés era a dos príncipes de Condé, que partiram para o estrangeiro no início
da Revolução. O que só gerou suspeitas. Juntando a isso o fato de que a partida
na noite de 20 para 21 de Junho não fora feita dentro do mais completo segredo,
vazando para todos que a fuga da família real se daria numa a “berlinda” – uma
espécie de carruagem, camuflada, pintada de verde escuro.
Só esqueceram um detalhe: um veículo puxado por seis
cavalos era privilégio apenas do rei. Assim, por onde passavam atraíam a
atenção do populacho e a notícia corria. Há detalhes que tornariam o texto
longo por demais, como trocas de “veículos” até todos se encontrarem e se
dividirem na tal “berlinda” e num cabriolé com a criadagem.
Ao pararem em um posto em Varennes, para uma troca
dos cavalos, os dois veículos da família real foram imobilizados, sob pressão
dos patriotas, reunidos na taverna do "Bras d'or" ("Braço de
Ouro"). Os populares obrigaram os viajantes a descer dos carros e os
fizeram entrar na casa, a alguns passos. Os sinos soaram, despertando a atenção
da Guarda Nacional, que retornou com os fugitivos para Paris. Depois de
julgado, o rei foi guilhotinado, em 21 de janeiro de 1793, aos 36 anos.
Quanto a nós, estamos aguardando o reconhecimento da
“berlinda” de Bolsonaro, até que ele seja conduzido à Papuda, depois de ter
passado por um processo legal, dentro dos trâmites jurídicos corretos.
Marco
Antonio Villa: Bolsonaro e aliados deixaram democracia em risco
O comentarista da CNN Marco Antonio Villa analisou
as instruções dadas pelo ex-major Ailton Barros ao tenente-coronel Mauro Cid
sobre a instauração de um golpe de Estado.
A CNN teve acesso à transcrição de três áudios, que
estão em posse da PF. Nos arquivos, Ailton descreve o “conceito da operação”.
No plano, deveria haver participação do então comandante do Exército, Freire
Gomes, ou de Jair Bolsonaro (PL), então presidente da República.
Villa afirmou que o ex-presidente Jair Bolsonaro e
seus aliados “deixaram democracia em risco”.
“Bolsonaro e seus asseclas conspiraram durante
quatro anos contra a Constituição, contra o Estado Democrático de Direito e a
todo momento colocando em risco a democracia e apontando para a ditadura”.
UFRJ
previa golpismo nas redes desde 2013
Com 30 pesquisadores de olhos grudados nas telas e
ferramentas de inteligência artificial que operam incessantemente, o NetLab,
laboratório vinculado à Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio
(UFRJ), se tornou uma referência na investigação sobre a desinformação na
internet. Criado em 2013, no calor das discussões sobre o uso de redes sociais
nas manifestações de junho, o núcleo de pesquisa completa agora dez anos no
centro de outro turbilhão: o debate sobre o PL das Fake News.
Fundado e liderado pela doutora em Ciência da
Informação pela UFRJ Rose Marie Santini, o grupo tem se dedicado a investigar
as implicações de propagandas, fake news e automação de conteúdos presentes,
principalmente, nas gigantes da internet, como Google, Facebook e Twitter.
Segundo ela, ao longo da última década, o mercado das redes sociais no Brasil
cresceu em ritmo vertiginoso. Com os brasileiros liderando rankings de tempo
gasto on-line, o país se tornou um dos principais focos para essas plataformas.
Essa realidade digital trouxe implicações, na
avaliação de Santini, que reforçam a necessidade de criar um novo marco
regulatório capaz de garantir uma internet mais segura:
— Hoje está claro como as plataformas passaram a ser
uma nova esfera pública, usadas em 80% do conteúdo de campanhas políticas, por
exemplo. A gente percebeu que esse uso poderia até comprometer eleições e de
fato passou a ser urgente fazer essa regulamentação e adequá-las como um meio
de comunicação que deve responder, como todos os outros, com responsabilidade e
transparência.
Através de relatórios, levantamentos e publicações
acadêmicas, o NetLab vem apontando falhas nas estruturas das big techs. Os
pesquisadores vêm relatando que essas redes possuem ecossistemas que favorecem
a disseminação de discursos de ódio, desinformação, negacionismo climático e
contra vacinas, além de extremismo de direita. Em um dos levantamentos, o
laboratório apontou que houve uma onda de desinformação durante o lançamento
das novas vacinas bivalentes contra a Covid-19.
Engajados em torno da discussão do PL 2630, projeto
em tramitação na Câmara que prevê uma regulação das redes sociais, o grupo
divulgou recentemente um relatório que mostra como o Google lançou ofensiva
contra a proposta, apelidada de PL das Fake News. Apesar de a plataforma alegar
que não promove qualquer enviesamento em suas buscas, na última semana a
empresa publicou um link em sua página, com o título “O PL das fake news pode
piorar sua internet”.
Pesquisa do NetLab apontou que o termo “PL 2630” na
plataforma mostrava preferencialmente entre os primeiros resultados links com o
título “PL da Censura” — forma como bolsonaristas contrários ao projeto vêm
chamando a proposta. Além disso, estavam entre os mais bem ranqueados sites
propagadores de desinformação.
Para explorar o oceano de fake news e conteúdos
maliciosos, os pesquisadores desenvolveram dispositivos como robôs e algoritmos
que fazem varreduras constantes nas mídias sociais.
Apenas nos últimos dois anos no Twitter, por
exemplo, o grupo coletou dados de 1,07 bilhão de tuítes entre 2,6 milhões de
perfis analisados. No WhatsApp, são 802 grupos monitorados, com mais de 153
milhões de mensagens.
Em publicidade na Meta (dona do Facebook) já foram
mais de um milhão de anúncios analisados. No total, o NetLab armazena mais de
50 terabytes de dados — o que equivale a baixar mais de dez milhões de arquivos
de música, por exemplo.
Em um reconhecimento do trabalho do NetLab, Santini
será a única pesquisadora da América Latina convidada pelo Nobel para avaliar
pesquisas sobre desinformação que receberão prêmios e financiamentos.
No ano passado a expertise do núcleo despertou o
interesse do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com quem foi feita parceria
para combater a desinformação no período eleitoral e buscar mecanismos para dar
transparência na publicidade on-line dos candidatos. Porém, diz Santini, como
as plataformas ainda não são reguladas, em muitos casos a lei eleitoral foi
desrespeitada com anúncios irregulares e falta de transparência.
Para ilustrar a falta de regulação do setor, a
pesquisadora faz uma analogia hipotética com farmácias. Segundo ela, o atual
cenário seria como se só existissem cinco redes de drogarias, que vendessem
remédios verdadeiros de laboratórios confiáveis e outros falsos.
— Se alguém reclamar, a farmácia diz que não tem
nada a ver com isso, porque quem produziu o remédio falso foi outro — compara
Santini, apontando uma solução. — Mas se posso regulamentar o intermediário, eu
vou desestimular o produtor de remédio falso a produzir, porque ele não vai
mais ter onde vender.
Fonte: Brasil 247/CNN Brasil/O Globo

Nenhum comentário:
Postar um comentário