Bolsonaro: Uma
tragédia alimentada por muitos erros
As
redes bolsonaristas, que estavam se preparando para voltar à ativa depois do
grande revés pós 8 de janeiro, com o ex-presidente à frente, a partir da sua
reaparição na abertura da Agrishow, a maior feira do agronegócio brasileiro em
Ribeirão Preto (SP), em 1º de maio, mal tiveram tempo de comemorar essa
“reentrée”. A comemoração se estendeu ao dia seguinte quando a oposição na
Câmara derrubou as mudanças propostas pelo presidente Lula no Marco do
Saneamento Básico. A desarticulação da base política do governo na Câmara ainda
levou à suspensão da votação do PL 2.630/2020. Inicialmente proposto no Senado
pelo senador Alessandro Vieira (PSDB-SE), deveria ser votado na Câmara em
junho. Mas o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), antecipou a votação em
um mês. Aparentemente a manobra visava provar que o governo Lula estava
desarticulado na Câmara. Aí, teria de liberar verbas a deputados e devolver
parte do poder que o presidente da Câmara tinha com Bolsonaro.
O
relator da matéria na Câmara, com o nome oficial de Lei Brasileira de
Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet, foi o deputado Orlando
Silva (PCdoB-SP). Mas os bolsonaristas, que seriam os mais atingidos, ao lado
das empresas que abusam da aplicação de algoritmo para faturarem anúncios na
leitura de “fake news” alardeadas pelos radicais, trataram a proposta como o
“PL da Censura”. E dispararam versões, amplamente apoiadas pelas empresas que
controlam o Twitter, o Instagram, o Facebook e o Whatsapp, e ainda o Tik Tok.
Após a derrota no Marco do Saneamento, o governo resolveu esperar a votação do
“PL das fake News. O risco era comprometer votações mais importantes como o
arcabouço fiscal e a futura tramitação da reforma tributária que vai mexer com
os mais ricos.
Mas,
como ia dizendo, não houve muito tempo para comemorações. Na manhã de 4ª feira,
3 de maio, a Polícia Federal, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do
Supremo Tribunal Federal, deflagrou a “Operação Venire” que levou à prisão
várias pessoas em Brasília e no Rio de Janeiro. O que era uma operação para confirmar
toscas fraudes na emissão de certificados de vacinação para a Covid-19
envolvendo o então presidente Jair Bolsonaro e sua filha menor, Laura, além de
seu ajudante de ordens, tenente-coronel Mauro Cid, e família, acabou capturando
trunfos valiosos, como o celular do ex-presidente. As primeiras investigações,
além de fornecer elementos capazes de fazer tanto corar de vergonha como chorar
de raiva milhares de brasileiros que perderam parentes e amigos na pandemia,
pelo insistente negacionismo de Bolsonaro, vai permitir à PF e ao ministro
Alexandre de Moraes unir as pontas que faltam ou as peças para montar os
quebra-cabeças das diversas articulações golpistas urdidas no governo passado.
• O troco em Chico Buarque
Chega
a ser risível que os bolsonaristas mais empedernidos, quando foram
surpreendidos com o escândalo da tentativa de emissões de certificados falsos
de vacinação na secretaria de Saúde de Duque de Caxias (RJ), mas impressos no
computador da Ajudância de Ordens do Palácio do Planalto, comandada por Mauro
Cid, tenham reagido nas redes sociais tentando ferir nada menos que Chico
Buarque de Holanda. Não, leitor, não estou delirando: como se sabe, Chico
Buarque recebeu, uma semana antes, em 24 de abril de 2023, mas com atraso de
quatro anos, o prêmio da 31ª edição do Prêmio Luiz Vaz de Camões de Literatura,
o mais importante da língua portuguesa, outorgado por júri com representantes
do Brasil, Portugal, Angola e Moçambique. Mas o diploma não foi assinado pelo
ex-presidente. Na entrega, em Lisboa, a celebração foi tripla: além do
presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, o diploma teve a assinatura do
presidente Lula e coincidiu com o 49º aniversário da “Revolução dos Cravos”,
que sacramentou a redemocratização de Portugal após décadas de salazarismo.
Chico, que fez duas músicas invejando o fato em plena ditadura militar (“Fado
Tropical” e “Tanto Mar”), agradeceu, com fina ironia, o fato de “o
ex-presidente não ter sujado o diploma, deixando espaço em branco para a
assinatura do nosso presidente Lula”.
Pois
não é que o troco tosco dos bolsonaristas nas redes foi divulgar novamente uma
antiga montagem de uma entrevista de Chico Buarque na qual ele “confessa” que
plagiava músicas?!... Seria cômico se eles não levassem a sério a “fake news”.
É sabido que no governo Geisel, depois de sucessivos vetos da censura ao
conteúdo de suas músicas, para terminar um disco, Francisco Buarque de Holanda
se valeu de um artifício. Assumiu a persona de “Julinho da Adelaide”, com
músicas de pegada de samba. Uma das músicas de seu “alter ego” foi “Jorge
Maravilha”, na qual fustiga o general Geisel, cuja filha, Amália Lucy, uma
discreta estudante da PUC, era sua fã declarada. Numa das estrofes, cantadas
por Chico, a música diz: “Você não gosta de mim; mas sua filha gosta...”. Em
vez de defender o presidente apanhado nas fraudes engendradas por seu ajudante
de ordens, resolvem atacar falsamente Chico.
Mas
ri melhor quem ri por último. Com a desmoralização de Jair Bolsonaro, pelas
fraudes em seus cartões de vacinação, a direita portuguesa aninhada no Chega,
partido de ultra-direita que puxou a vaia a Lula e Chico na cerimônia do Prêmio
Camões, resolveu adiar as cimeira internacional que realizaria dias 13 e 14 de
maio em Lisboa. Afinal, faria “forfait” uma das estrelas do encontro: Jair
Bolsonaro. Por falta de vacina para viajar e/ou arranhão na credibilidade.
• Moraes e PF estão nas pistas
Se
o famoso detetive Sherlock Holmes (que “esteve” no Brasil, segundo a pena do
saudoso Jô Soares em “O Xangô de Baker Street”) voltasse a “ajudar” a PF e ao
ministro Moraes, diante de tantas provas e indícios diria: “é elementar, meu
caro Moraes!”. O ministro concentra em suas mãos os inquéritos sobre as “fake
news”, a participação de arruaceiros e bolsonaristas nas manifestações
terroristas de 12 de dezembro, ainda no governo de Jair Bolsonaro (dia da
diplomação do presidente Lula e do vice, Geraldo Alkmin no Tribunal Superior
Eleitoral, presidido por Moraes), quando manifestantes contra a eleição de Lula
incendiaram carros e ônibus, depredaram uma delegacia civil do Distrito Federal
e a portaria da sede da Polícia Federal, mas ninguém foi preso pela PM do DF –
numa amostragem do que viria a ser a omissão oficial, na tentativa de golpe de
Estado em 8 de janeiro, da polícia do DF e da estrutura do Gabinete de
Segurança Institucional, que controla a Guarda Presidencial).
Vale
dizer que dois personagens importantes estavam sempre próximos ou ligados aos
fatos apurados, mas agora estão presos. O 1º, Anderson Torres. Até abril de
2020 era Secretário de Segurança do Distrito Federal, com responsabilidade
sobre a segurança da capital federal. Nomeado ministro da Justiça e Segurança
Pública por Jair Bolsonaro, após a renúncia de Sérgio Moro, Torres estava no
governo como responsável principal pela PF e a Polícia Rodoviária Federal,
muito diligentes na revista dos ônibus que levariam eleitores às urnas no 2º
turno, sobretudo no Nordeste e, especialmente, na Bahia, onde Lula teve a maior
vantagem no 1º turno. Quando Bolsonaro perdeu a eleição e não reconheceu a
vitória de Lula, insistindo nas acusações de fraudes das urnas eletrônicas, o
presidente deu a senha para seus apoiadores ficarem acampados diante dos
quarteis e do QG do Exército em Brasília. E a volta de Torres ao comando da
Secretaria de Segurança Pública do DF, a convite do governador reeleito Ibaneis
Rocha, acendeu a luz amarela no governo Lula. O esquema especial, montando pelo
ministro Flávio Dino, sucessor de Torres, garantiu um cinturão de segurança no
entorno de Brasília e na Praça dos Três Poderes e na Esplanada dos Ministérios.
Mas
as forças de segurança do DF e do GSI (ainda não “desbolsonarizado” após a
gestão golpista do general Augusto Heleno) facilitou o reagrupamento das forças
golpistas em 8 de janeiro. Apesar das mensagens que ataque ao Planalto, a PF e
a PRF, desta vez, foram na revista dos ônibus de invasores que começaram a
acampar no QG do Exército em Brasília, vindos de vários estados do Brasil.
Anderson Torres simplesmente tinha se evadido dos locais dos atentados à
Democracia, antecipando as férias (a partir de 9 de janeiro), e indo se
refugiar justamente em Orlando, onde já estava Jair Bolsonaro desde 30 de
dezembro. Com ordem de prisão decretada por Moraes, Anderson Torres voltou ao
Brasil uma semana depois do 8 de janeiro, mas, convenientemente, “esqueceu” o
celular nos EUA. Na prisão, alegou surto psicológico e "esqueceu"
todas as senhas quando a PF tentou averiguar os conteúdos na “nuvem”.
Com
a prisão do tenente-coronel Mauro Cid, o mesmo que tentou até 19 de dezembro
“liberar” as joias de R$ 16,5 milhões destinadas à primeira-dama, Michele
Bolsonaro, mas que foram apreendidas na Alfândega do aeroporto de Guarulhos em
outubro de 2021, escondidas em bagagem de mão de assessor do então ministro das
Minas e Energia, almirante Bento Albuquerque, Moraes e a PF, vão juntar pistas.
Mauro Cid fora nomeado por Bolsonaro para comandar o 1º Batalhão de Forças
Especiais, que inclui a Brigada de Paraquedistas, em Goiânia, mas Lula revogou
o decreto. Não sem antes demitir, dia 21 de janeiro, o comandante do Exército,
general Júlio Cesar de Arruda, substituído pelo general Tomás Miguel Ribeiro
Paiva, por ter se recusado a acatar a ordem do Comandante em Chefe das Forças
Armadas. Pois as primeiras investigações no celular de Mauro Cid indicaram que
batalhão (o de maior mobilidade no Planalto Central) estava no cerne de
conspirações golpistas contra a posse de Lula, em dezembro do ano passado,
quando Bolsonaro estava arredio às aparições públicas, mas parecia agir nos
bastidores. O cruzamento das mensagens dos celulares de Mauro Cid com as do
ex-sargento dos paraquedistas, Anderson Barros, e ainda o celular do
ex-presidente, poderá fornecer informações preciosas sobre as teias do Golpe
abordado de 8 de janeiro.
Nos
Estados Unidos, a Justiça já condenou a seis anos de prisão quatro invasores do
Capitólio em 6 de janeiro de 2021. E a Fox News foi condenada a pagar
indenização de US$ 787 milhões à Dominiun, que produz urnas eletrônicas. A Fox
ainda demitiu o âncora Tucker Carlson, que espalhava “fake News” sobre fraudes
nas urnas sustentadas por Donald Trump.
Muita
gente investe, por aqui, contra o cerco às "fake news", por serem
partes interessados (como foi a Fox, até certo ponto) em surfar e ganhar
dinheiro com os algoritimos turbinados pelas redes sociais. Pois na Europa os
principais países estão cercando as "fake news" e o mesmo também se
passa nos Estados Unidos e no Canadá. Está na hora de união entre a imprensa e
as forças democráticas para separar o joio do trigo. Este gera pão da vida, o outro,
aquele que o diabo amassou.
Fonte:
Por Gilberto Menezes Côrtes, no Jornal do Brasil

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