Vanessa
Martina-Silva: Um guia político-afetivo para torcer na Copa contra os
imperialistas
Desde
que a Copa do Mundo começou, tenho assistido a praticamente todos os jogos. É
curioso, porque esta é a primeira Copa em que consigo acompanhar tantas
partidas. Na edição anterior, os horários não eram muito favoráveis; em outras,
eu não trabalhava em casa, não tinha televisão disponível o tempo todo ou
dependia exclusivamente dos jogos transmitidos pela Globo.
<><>
A Copa fora da televisão aberta
Há aí
um ponto fundamental: a democratização do acesso à Copa com as transmissões
gratuitas no YouTube. Para quem nunca teve TV por assinatura em casa, isso faz
diferença. Durante muitos anos, acompanhar uma Copa do Mundo significava
assistir apenas ao que a televisão aberta escolhia transmitir.
Agora,
com os jogos disponíveis online, a experiência muda. A Copa deixa de ser apenas
um evento dos grandes horários da Globo e passa a ocupar o
cotidiano: almoço, tarde, noite, computador aberto, televisão ligada, jogo de
um país que eu nunca tinha parado para ver.
E foi
assistindo a essa sequência quase compulsiva de partidas que percebi uma coisa:
a cada jogo, eu criava mentalmente uma regra para decidir por quem torcer.
<><>
Um guia para torcedores ocasionais
Não sou
uma pessoa que acompanha futebol o ano inteiro. Não discuto esquemas táticos,
não sei escalar seleções inteiras de cabeça, não conheço mais de três jogadores
de cada equipe e não tenho repertório suficiente para decidir minha torcida com
base em qualidade técnica, histórico de desempenho, desenho de meio-campo ou
fase do atacante. Quem acompanha futebol regularmente tem outros critérios – e
tudo bem. Este guia não é para essas pessoas.
Este é
um guia para torcedores ocasionais como eu: gente que gosta da Copa, se empolga
com a rua, com a festa, com o hino, com o drama, com o gol improvável. Quero
apenas oferecer critérios para decidir por quem torcer quando entram em campo
dois países com os quais não temos nenhuma relação afetiva imediata. Porque,
cara leitora, caro leitor, cada um torce por quem quiser, com o argumento que
quiser – ou mesmo sem argumento nenhum.
Como
gosto de pensar nesse tipo de coisa, criei um sistema geopolítico
anti-imperialista para orientar a torcida na Copa. O primeiro critério é
simples: antes de decidir para quem torcer, é preciso decidir para quem não
torcer de jeito nenhum.
<><>
O ranking dos imperialistas malditos
Há
países cuja camisa carrega uma história pesada demais para passar batida. Não
estou falando dos jogadores individualmente, nem dos torcedores comuns, nem de
crianças com o rosto pintado com as cores da bandeira. Estou falando da seleção
como símbolo nacional. E, como símbolo nacional, algumas camisas vêm
acompanhadas de séculos de colonialismo, escravização, genocídio, invasões,
pilhagem, tutela econômica e arrogância imperial.
Por
isso, a primeira parte do guia é o ranking dos imperialistas malditos.
O
critério desse ranking não é uma contabilidade fria de vítimas nem uma régua
para medir sofrimentos históricos. A ordem combina quatro fatores: a
permanência da violência imperial no presente, a escala geográfica da
destruição, a brutalidade específica de certos crimes coloniais ou fascistas e
a capacidade de cada país de limpar sua imagem apesar do horror produzido.
Por
isso, os Estados Unidos aparecem no topo: são o império ainda em atividade. A
Bélgica vem logo depois pela monstruosidade concentrada do Congo. Alemanha,
Inglaterra e Japão aparecem pelo peso do genocídio colonial, do fascismo, da
guerra moderna e dos impérios militares do século 20. França, Portugal,
Espanha, Suíça e Holanda completam o ranking entre colonialismos clássicos,
neocolonialismo, pilhagem atlântica e cumplicidade financeira com o capitalismo
imperial.
E se
houver um cruzamento entre dois países que estão no ranking da torcida contra?
Aí usamos o critério do próprio ranking: quem é o imperialista mais maldito?
Torcemos contra ele. Se for Inglaterra contra Bélgica, por exemplo, a Bélgica
consegue a proeza de nos fazer torcer pela Inglaterra por 90 minutos – com
enjoo, mas com método.
<><>
A torcida como memória de luta
Depois
do “para quem não torcer”, vem a parte mais bonita: para quem torcer.
A regra
geral é favorecer o Sul Global, os povos colonizados, as seleções de países que
enfrentaram impérios, as revoluções interrompidas, os anti-imperialistas
históricos, os povos negros, indígenas, árabes, africanos, caribenhos e
latino-americanos e todos os países que, de algum modo, carregam na camisa mais
do que futebol: carregam memória de luta.
No topo
do ranking estão Haiti e Argélia.
O Haiti
é a revolução que o Ocidente nunca perdoou. O povo que venceu senhores de
escravos, o império francês e o medo colonial do mundo atlântico. Torcer pelo
Haiti não é torcer pelo azarão. É torcer pela primeira revolução negra
vitoriosa da história moderna. É torcer contra séculos de punição imperial.
A
Argélia vem logo depois. Não apenas porque seu Estado se posiciona de forma
firme em temas como a Palestina, mas porque a memória popular argelina é
profundamente anticolonial. É o povo que enfrentou colonização de povoamento,
massacre, tortura, humilhação racial e uma guerra até expulsar a França. A
Argélia é a camisa da guerra anticolonial.
Logo em
seguida aparece o Irã, por tudo o que representa no enfrentamento direto ao
imperialismo estadunidense e ao sionismo israelense. Em uma região organizada
há décadas por bases militares, sanções, assassinatos seletivos, ocupações e
guerras patrocinadas por Washington, o Irã se consolidou como uma das
principais forças de contenção ao eixo EUA-Israel e como ator decisivo na
disputa por uma ordem multipolar.
Os
latino-americanos vêm na sequência das prioridades porque são nuestros
hermanos. Nesse caso, a regra geral é torcer por eles – ainda que com
gradações, porque nem toda camisa latino-americana carrega o mesmo grau de
diversidade, combatividade popular ou simpatia regional.
<><>
Os queridos e quase queridos
O
esquema seria frágil se tivéssemos apenas os países amados, por quem devemos
torcer, e aqueles por quem devemos torcer contra. Por isso, há uma terceira
tabela. São os “queridos e quase queridos”: seleções que carregam alguma razão
política, histórica ou popular para merecer torcida.
Alguns
entram pela memória revolucionária e anticolonial, como República Democrática
do Congo (RDC), Gana e Cabo Verde. Outros, pela tradição antifascista, como
Bósnia, Tchéquia e Uzbequistão. Há também os que aparecem como feridas abertas
do imperialismo contemporâneo, caso do Iraque, ou como expressões de futebol
popular, torcida de rua e identidade periférica, como Senegal, Jordânia, Costa
do Marfim e Escócia.
No fim
da lista estão os controversos: Uruguai, Argentina, África do Sul e Croácia,
países com elementos admiráveis, mas atravessados por racismo, revisionismo,
xenofobia ou contradições nacionais que impedem uma torcida sem ressalvas.
Este
guia é apenas um lembrete de que a Copa do Mundo também é geopolítica, memória,
colonialismo, raça, classe, império, periferia e desejo de revanche simbólica.
<><>
Como cruzar as tabelas
Para
usar o guia, basta cruzar as listas. Se um país da tabela dos queridinhos
enfrenta um país da tabela dos imperialistas malditos, a escolha é automática:
Bélgica x Irã é Irã; França x Iraque é Iraque; Inglaterra x Gana é Gana;
Portugal x Colômbia é Colômbia; Alemanha x Costa do Marfim é Costa do Marfim;
Espanha x Uruguai é Uruguai, com ressalvas.
Quando
dois queridinhos se enfrentam, o desempate segue a régua política:
anti-imperialismo raiz, Sul Global, América Latina, memória revolucionária,
antifascismo e torcida popular. Por isso, Jordânia x Argélia é Argélia; Senegal
x Iraque é difícil, mas pende para Iraque pela ferida imperial aberta; Colômbia
x RDC é quase impossível, mas dá RDC se o critério for soberania africana
assassinada.
Quando
dois países problemáticos se enfrentam, vale torcer contra o pior. Noruega x
França é Noruega; Nova Zelândia x Bélgica é Nova Zelândia; Japão x Suécia é
Suécia, só porque o Japão pesa mais no ranking imperial.
Obviamente,
não há manual definitivo de nada nesta vida. Este guia pode ser útil para
decidir a torcida em algumas partidas. Em outros jogos, porém, a política vai
perder para a licença afetiva. Pode ser o ranço falando mais alto, a
arquibancada, a história de um jogador, uma camisa ou um gol improvável. Mas,
acima de tudo, vale secar qualquer adversário se isso ajudar a trazer o hexa
para casa.
¨ A dupla moral da FIFA
diante da geopolítica mundial. Por Sayid Marcos Tenório
A Copa
do Mundo de 2026 começou cercada por uma contradição que ultrapassa as quatro
linhas do campo.
Enquanto
a FIFA insiste em apresentar o futebol como território neutro, capaz de unir
povos e nações acima das disputas políticas, o torneio organizado por Estados
Unidos, Canadá e México revela a realidade de que a geopolítica continua
decidindo quem pode circular, competir e ser representado no maior evento
esportivo do planeta.
Nas
semanas iniciais da competição, árbitros foram impedidos de ingressar nos
Estados Unidos, profissionais credenciados foram deportados, dirigentes
enfrentaram obstáculos para obter vistos, delegações sofreram constrangimentos
migratórios e torcedores tiveram viagens canceladas por decisões
administrativas das autoridades norte-americanas.
O caso
mais simbólico envolveu a seleção do Haiti, obrigada pela FIFA a retirar de seu
uniforme referências à Batalha de Vertières, marco da revolução que derrotou o
colonialismo francês e abriu caminho para a primeira república negra das
Américas.
A FIFA
alegou a necessidade de evitar manifestações políticas. Mas desde quando a
memória da luta contra a escravidão e o colonialismo constitui ameaça ao
esporte?
Ao
mesmo tempo em que censurava um símbolo anticolonial haitiano, a FIFA
permaneceu praticamente silenciosa diante das restrições impostas pelo
principal país-sede do torneio.
O
árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, considerado um dos principais nomes da
arbitragem africana, foi impedido de entrar nos Estados Unidos e deportado sem
explicações públicas convincentes. O episódio tornou-se ainda mais grave porque
a própria FIFA havia informado que as questões relacionadas ao visto estavam
resolvidas.
Não foi
um caso isolado. Delegações africanas relataram revistas excessivas, atrasos e
tratamento discriminatório. O fotógrafo oficial da seleção do Iraque teve a
entrada negada. Jogadores, torcedores e profissionais credenciados também
enfrentaram obstáculos migratórios incompatíveis com o caráter universal que a
Copa deveria representar.
O Irã
talvez tenha sido uma das seleções mais atingidas. Quinze integrantes de sua
delegação tiveram vistos recusados, obrigando a equipe a transferir sua
preparação do Arizona para Tijuana, no México. A Federação Iraniana anunciou
que apresentará queixa formal à FIFA, alegando que as restrições prejudicaram a
preparação da equipe e violaram o princípio da igualdade entre as seleções
participantes.
A
Palestina também foi afetada. O presidente da Federação Palestina de Futebol,
Jibril Rajoub, denunciou a demora na concessão de seu visto para participar de
atividades oficiais da FIFA. Segundo ele, a medida desrespeita obrigações
assumidas pelos países-sede e compromete o caráter universal do principal
torneio do futebol mundial.
Diante
desses episódios, a posição da FIFA tem sido previsível, ao alegar que questões
migratórias pertencem às autoridades nacionais. A justificativa, porém, não
convence.
Quando
considera conveniente, a entidade intervém, pune federações, censura
manifestações, controla uniformes e impõe rígidos critérios de conduta. Quando
as restrições partem de uma grande potência ocidental, a neutralidade
institucional transforma-se em passividade.
A
seletividade não é nova. Há anos organizações de direitos humanos denunciam a
presença de clubes israelenses sediados em assentamentos construídos em
territórios palestinos ocupados, considerados ilegais por resoluções das Nações
Unidas. Ainda assim, esses clubes seguem vinculados à federação israelense, sem
que a FIFA adote medidas efetivas.
O mesmo
silêncio cerca outras situações coloniais. O Marrocos disputa normalmente a
Copa enquanto mantém a ocupação de grande parte do Saara Ocidental desde 1975.
O referendo de autodeterminação prometido pela ONU há mais de três décadas
jamais foi realizado, e o povo saaraui segue privado de um direito reconhecido
pelo próprio sistema internacional.
Esses
casos demonstram que a chamada neutralidade esportiva frequentemente funciona
como instrumento político. Ela é aplicada com rigor quando se trata de
controlar símbolos, memórias e vozes dos povos periféricos, mas torna-se
flexível quando entram em cena os interesses das grandes potências ou de seus
aliados estratégicos.
O
futebol nunca esteve separado da política. As Copas do Mundo sempre refletiram
disputas de poder, identidades nacionais, conflitos internacionais e
transformações históricas. O problema não está em reconhecer essa realidade,
mas em usar o discurso da neutralidade para silenciar os povos que desafiam a
ordem dominante, enquanto se protege quem viola direitos em nome da força.
Do
Haiti ao Irã, da Palestina à Somália, do Iraque ao Saara Ocidental, a Copa de
2026 revela um padrão difícil de ignorar. Povos marcados pelo colonialismo,
pela ocupação, pelas sanções e pela marginalização internacional enfrentam
obstáculos que não atingem todos de forma igual.
Se
pretende continuar afirmando que o futebol une o mundo, a FIFA precisará
demonstrar que seus princípios valem para todos.
Caso
contrário, este Mundial será lembrado não apenas pelos gols e troféus, mas como
a Copa em que a universalidade do esporte foi subordinada às fronteiras, aos
vetos seletivos e à geopolítica das potências dominantes.
Fonte:
Opera Mundi

Nenhum comentário:
Postar um comentário