terça-feira, 23 de junho de 2026

Vanessa Martina-Silva: Um guia político-afetivo para torcer na Copa contra os imperialistas

Desde que a Copa do Mundo começou, tenho assistido a praticamente todos os jogos. É curioso, porque esta é a primeira Copa em que consigo acompanhar tantas partidas. Na edição anterior, os horários não eram muito favoráveis; em outras, eu não trabalhava em casa, não tinha televisão disponível o tempo todo ou dependia exclusivamente dos jogos transmitidos pela Globo.

<><> A Copa fora da televisão aberta

Há aí um ponto fundamental: a democratização do acesso à Copa com as transmissões gratuitas no YouTube. Para quem nunca teve TV por assinatura em casa, isso faz diferença. Durante muitos anos, acompanhar uma Copa do Mundo significava assistir apenas ao que a televisão aberta escolhia transmitir.

Agora, com os jogos disponíveis online, a experiência muda. A Copa deixa de ser apenas um evento dos grandes horários da Globo e passa a ocupar o cotidiano: almoço, tarde, noite, computador aberto, televisão ligada, jogo de um país que eu nunca tinha parado para ver.

E foi assistindo a essa sequência quase compulsiva de partidas que percebi uma coisa: a cada jogo, eu criava mentalmente uma regra para decidir por quem torcer.

<><> Um guia para torcedores ocasionais

Não sou uma pessoa que acompanha futebol o ano inteiro. Não discuto esquemas táticos, não sei escalar seleções inteiras de cabeça, não conheço mais de três jogadores de cada equipe e não tenho repertório suficiente para decidir minha torcida com base em qualidade técnica, histórico de desempenho, desenho de meio-campo ou fase do atacante. Quem acompanha futebol regularmente tem outros critérios – e tudo bem. Este guia não é para essas pessoas.

Este é um guia para torcedores ocasionais como eu: gente que gosta da Copa, se empolga com a rua, com a festa, com o hino, com o drama, com o gol improvável. Quero apenas oferecer critérios para decidir por quem torcer quando entram em campo dois países com os quais não temos nenhuma relação afetiva imediata. Porque, cara leitora, caro leitor, cada um torce por quem quiser, com o argumento que quiser – ou mesmo sem argumento nenhum.

Como gosto de pensar nesse tipo de coisa, criei um sistema geopolítico anti-imperialista para orientar a torcida na Copa. O primeiro critério é simples: antes de decidir para quem torcer, é preciso decidir para quem não torcer de jeito nenhum.

<><> O ranking dos imperialistas malditos

Há países cuja camisa carrega uma história pesada demais para passar batida. Não estou falando dos jogadores individualmente, nem dos torcedores comuns, nem de crianças com o rosto pintado com as cores da bandeira. Estou falando da seleção como símbolo nacional. E, como símbolo nacional, algumas camisas vêm acompanhadas de séculos de colonialismo, escravização, genocídio, invasões, pilhagem, tutela econômica e arrogância imperial.

Por isso, a primeira parte do guia é o ranking dos imperialistas malditos.

O critério desse ranking não é uma contabilidade fria de vítimas nem uma régua para medir sofrimentos históricos. A ordem combina quatro fatores: a permanência da violência imperial no presente, a escala geográfica da destruição, a brutalidade específica de certos crimes coloniais ou fascistas e a capacidade de cada país de limpar sua imagem apesar do horror produzido.

Por isso, os Estados Unidos aparecem no topo: são o império ainda em atividade. A Bélgica vem logo depois pela monstruosidade concentrada do Congo. Alemanha, Inglaterra e Japão aparecem pelo peso do genocídio colonial, do fascismo, da guerra moderna e dos impérios militares do século 20. França, Portugal, Espanha, Suíça e Holanda completam o ranking entre colonialismos clássicos, neocolonialismo, pilhagem atlântica e cumplicidade financeira com o capitalismo imperial.

E se houver um cruzamento entre dois países que estão no ranking da torcida contra? Aí usamos o critério do próprio ranking: quem é o imperialista mais maldito? Torcemos contra ele. Se for Inglaterra contra Bélgica, por exemplo, a Bélgica consegue a proeza de nos fazer torcer pela Inglaterra por 90 minutos – com enjoo, mas com método.

<><> A torcida como memória de luta

Depois do “para quem não torcer”, vem a parte mais bonita: para quem torcer.

A regra geral é favorecer o Sul Global, os povos colonizados, as seleções de países que enfrentaram impérios, as revoluções interrompidas, os anti-imperialistas históricos, os povos negros, indígenas, árabes, africanos, caribenhos e latino-americanos e todos os países que, de algum modo, carregam na camisa mais do que futebol: carregam memória de luta.

No topo do ranking estão Haiti e Argélia.

O Haiti é a revolução que o Ocidente nunca perdoou. O povo que venceu senhores de escravos, o império francês e o medo colonial do mundo atlântico. Torcer pelo Haiti não é torcer pelo azarão. É torcer pela primeira revolução negra vitoriosa da história moderna. É torcer contra séculos de punição imperial.

A Argélia vem logo depois. Não apenas porque seu Estado se posiciona de forma firme em temas como a Palestina, mas porque a memória popular argelina é profundamente anticolonial. É o povo que enfrentou colonização de povoamento, massacre, tortura, humilhação racial e uma guerra até expulsar a França. A Argélia é a camisa da guerra anticolonial.

Logo em seguida aparece o Irã, por tudo o que representa no enfrentamento direto ao imperialismo estadunidense e ao sionismo israelense. Em uma região organizada há décadas por bases militares, sanções, assassinatos seletivos, ocupações e guerras patrocinadas por Washington, o Irã se consolidou como uma das principais forças de contenção ao eixo EUA-Israel e como ator decisivo na disputa por uma ordem multipolar.

Os latino-americanos vêm na sequência das prioridades porque são nuestros hermanos. Nesse caso, a regra geral é torcer por eles – ainda que com gradações, porque nem toda camisa latino-americana carrega o mesmo grau de diversidade, combatividade popular ou simpatia regional.

<><> Os queridos e quase queridos

O esquema seria frágil se tivéssemos apenas os países amados, por quem devemos torcer, e aqueles por quem devemos torcer contra. Por isso, há uma terceira tabela. São os “queridos e quase queridos”: seleções que carregam alguma razão política, histórica ou popular para merecer torcida.

Alguns entram pela memória revolucionária e anticolonial, como República Democrática do Congo (RDC), Gana e Cabo Verde. Outros, pela tradição antifascista, como Bósnia, Tchéquia e Uzbequistão. Há também os que aparecem como feridas abertas do imperialismo contemporâneo, caso do Iraque, ou como expressões de futebol popular, torcida de rua e identidade periférica, como Senegal, Jordânia, Costa do Marfim e Escócia.

No fim da lista estão os controversos: Uruguai, Argentina, África do Sul e Croácia, países com elementos admiráveis, mas atravessados por racismo, revisionismo, xenofobia ou contradições nacionais que impedem uma torcida sem ressalvas.

Este guia é apenas um lembrete de que a Copa do Mundo também é geopolítica, memória, colonialismo, raça, classe, império, periferia e desejo de revanche simbólica.

<><> Como cruzar as tabelas

Para usar o guia, basta cruzar as listas. Se um país da tabela dos queridinhos enfrenta um país da tabela dos imperialistas malditos, a escolha é automática: Bélgica x Irã é Irã; França x Iraque é Iraque; Inglaterra x Gana é Gana; Portugal x Colômbia é Colômbia; Alemanha x Costa do Marfim é Costa do Marfim; Espanha x Uruguai é Uruguai, com ressalvas.

Quando dois queridinhos se enfrentam, o desempate segue a régua política: anti-imperialismo raiz, Sul Global, América Latina, memória revolucionária, antifascismo e torcida popular. Por isso, Jordânia x Argélia é Argélia; Senegal x Iraque é difícil, mas pende para Iraque pela ferida imperial aberta; Colômbia x RDC é quase impossível, mas dá RDC se o critério for soberania africana assassinada.

Quando dois países problemáticos se enfrentam, vale torcer contra o pior. Noruega x França é Noruega; Nova Zelândia x Bélgica é Nova Zelândia; Japão x Suécia é Suécia, só porque o Japão pesa mais no ranking imperial.

Obviamente, não há manual definitivo de nada nesta vida. Este guia pode ser útil para decidir a torcida em algumas partidas. Em outros jogos, porém, a política vai perder para a licença afetiva. Pode ser o ranço falando mais alto, a arquibancada, a história de um jogador, uma camisa ou um gol improvável. Mas, acima de tudo, vale secar qualquer adversário se isso ajudar a trazer o hexa para casa.

¨      A dupla moral da FIFA diante da geopolítica mundial. Por Sayid Marcos Tenório

A Copa do Mundo de 2026 começou cercada por uma contradição que ultrapassa as quatro linhas do campo. 

Enquanto a FIFA insiste em apresentar o futebol como território neutro, capaz de unir povos e nações acima das disputas políticas, o torneio organizado por Estados Unidos, Canadá e México revela a realidade de que a geopolítica continua decidindo quem pode circular, competir e ser representado no maior evento esportivo do planeta.

Nas semanas iniciais da competição, árbitros foram impedidos de ingressar nos Estados Unidos, profissionais credenciados foram deportados, dirigentes enfrentaram obstáculos para obter vistos, delegações sofreram constrangimentos migratórios e torcedores tiveram viagens canceladas por decisões administrativas das autoridades norte-americanas.

O caso mais simbólico envolveu a seleção do Haiti, obrigada pela FIFA a retirar de seu uniforme referências à Batalha de Vertières, marco da revolução que derrotou o colonialismo francês e abriu caminho para a primeira república negra das Américas. 

A FIFA alegou a necessidade de evitar manifestações políticas. Mas desde quando a memória da luta contra a escravidão e o colonialismo constitui ameaça ao esporte?

Ao mesmo tempo em que censurava um símbolo anticolonial haitiano, a FIFA permaneceu praticamente silenciosa diante das restrições impostas pelo principal país-sede do torneio. 

O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, considerado um dos principais nomes da arbitragem africana, foi impedido de entrar nos Estados Unidos e deportado sem explicações públicas convincentes. O episódio tornou-se ainda mais grave porque a própria FIFA havia informado que as questões relacionadas ao visto estavam resolvidas.

Não foi um caso isolado. Delegações africanas relataram revistas excessivas, atrasos e tratamento discriminatório. O fotógrafo oficial da seleção do Iraque teve a entrada negada. Jogadores, torcedores e profissionais credenciados também enfrentaram obstáculos migratórios incompatíveis com o caráter universal que a Copa deveria representar.

O Irã talvez tenha sido uma das seleções mais atingidas. Quinze integrantes de sua delegação tiveram vistos recusados, obrigando a equipe a transferir sua preparação do Arizona para Tijuana, no México. A Federação Iraniana anunciou que apresentará queixa formal à FIFA, alegando que as restrições prejudicaram a preparação da equipe e violaram o princípio da igualdade entre as seleções participantes.

A Palestina também foi afetada. O presidente da Federação Palestina de Futebol, Jibril Rajoub, denunciou a demora na concessão de seu visto para participar de atividades oficiais da FIFA. Segundo ele, a medida desrespeita obrigações assumidas pelos países-sede e compromete o caráter universal do principal torneio do futebol mundial.

Diante desses episódios, a posição da FIFA tem sido previsível, ao alegar que questões migratórias pertencem às autoridades nacionais. A justificativa, porém, não convence. 

Quando considera conveniente, a entidade intervém, pune federações, censura manifestações, controla uniformes e impõe rígidos critérios de conduta. Quando as restrições partem de uma grande potência ocidental, a neutralidade institucional transforma-se em passividade.

A seletividade não é nova. Há anos organizações de direitos humanos denunciam a presença de clubes israelenses sediados em assentamentos construídos em territórios palestinos ocupados, considerados ilegais por resoluções das Nações Unidas. Ainda assim, esses clubes seguem vinculados à federação israelense, sem que a FIFA adote medidas efetivas.

O mesmo silêncio cerca outras situações coloniais. O Marrocos disputa normalmente a Copa enquanto mantém a ocupação de grande parte do Saara Ocidental desde 1975. O referendo de autodeterminação prometido pela ONU há mais de três décadas jamais foi realizado, e o povo saaraui segue privado de um direito reconhecido pelo próprio sistema internacional.

Esses casos demonstram que a chamada neutralidade esportiva frequentemente funciona como instrumento político. Ela é aplicada com rigor quando se trata de controlar símbolos, memórias e vozes dos povos periféricos, mas torna-se flexível quando entram em cena os interesses das grandes potências ou de seus aliados estratégicos.

O futebol nunca esteve separado da política. As Copas do Mundo sempre refletiram disputas de poder, identidades nacionais, conflitos internacionais e transformações históricas. O problema não está em reconhecer essa realidade, mas em usar o discurso da neutralidade para silenciar os povos que desafiam a ordem dominante, enquanto se protege quem viola direitos em nome da força.

Do Haiti ao Irã, da Palestina à Somália, do Iraque ao Saara Ocidental, a Copa de 2026 revela um padrão difícil de ignorar. Povos marcados pelo colonialismo, pela ocupação, pelas sanções e pela marginalização internacional enfrentam obstáculos que não atingem todos de forma igual.

Se pretende continuar afirmando que o futebol une o mundo, a FIFA precisará demonstrar que seus princípios valem para todos. 

Caso contrário, este Mundial será lembrado não apenas pelos gols e troféus, mas como a Copa em que a universalidade do esporte foi subordinada às fronteiras, aos vetos seletivos e à geopolítica das potências dominantes.

 

Fonte: Opera Mundi

 

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