João
dos Reis Silva Júnior: A escolha sitiada
Não
caminhamos sem escolha para o matadouro; caminhamos para uma eleição em que a
escolha existe, mas está sitiada por estruturas que diminuem o alcance
histórico da escolha.
Esta
talvez seja a frase mais precisa para definir o momento político brasileiro.
Ela recusa dois erros simétricos. De um lado, o fatalismo daqueles que já
consideram tudo decidido, como se a história tivesse sido capturada
definitivamente por forças exteriores à vontade popular. De outro, a
ingenuidade daqueles que acreditam que a eleição, por si só, bastaria para
recompor o país, restaurar a confiança coletiva e devolver ao povo brasileiro a
posse plena de seu futuro.
A
eleição existe. A disputa é real. O voto importa. A diferença entre os projetos
não é indiferente. Não é a mesma coisa impedir a volta organizada da ruptura
democrática ou permitir que ela se apresente novamente, agora sob forma
sucessória, familiar e aparentemente institucionalizada. Há escolha, e ela tem
consequências. Mas essa escolha não se realiza em campo aberto. Ela se move
dentro de um terreno previamente ocupado por estruturas econômicas, políticas,
jurídicas, midiáticas e internacionais que estreitam o horizonte do possível.
As
pesquisas recentes mostraram Lula em vantagem sobre Flávio Bolsonaro. Isso
significa que a herança bolsonarista não se transfere automaticamente. O
sobrenome ainda mobiliza, mas já não basta para organizar sem resistência a
maioria nacional. Há memória social, há medo da repetição, há defesa
democrática, há rejeição à normalização do golpe.
Mas o
mesmo quadro mostra também o limite da cena eleitoral. Flávio Bolsonaro não
aparece apenas como candidato individual. Ele aparece como portador de uma
linhagem política. Sua candidatura é menos criação própria do que tentativa de
converter o impedimento histórico do pai em continuidade familiar.
O pai
permanece como símbolo; o filho entra como mediação. A candidatura, assim, não
inaugura propriamente um novo tempo. Ela tenta preservar um passado recente,
reorganizá-lo juridicamente, purificá-lo eleitoralmente e devolvê-lo ao centro
do Estado.
Por
isso, a eleição de 2026 não pode ser lida apenas como disputa entre Lula e
Flávio Bolsonaro. Ela é uma disputa sobre o sentido de 2022. É uma disputa
sobre se o país tratará a ameaça democrática anterior como exceção derrotada ou
como força legítima em processo de recomposição. A pergunta profunda não é
somente quem vencerá a eleição. A pergunta é se a sociedade brasileira aceitará
que a ruptura volte à cena como se fosse apenas mais uma alternativa eleitoral.
Há,
nesse ponto, um aspecto decisivo. O processo eleitoral aparece como “grande
voz”. Ele fala alto. Produz manchetes, pesquisas, debates, frases fortes,
escândalos, alianças, traições e gestos calculados. A cada semana, um novo fato
reorganiza a aparência da disputa. A política se apresenta como sucessão
acelerada de acontecimentos. Tudo parece urgente. Tudo parece definitivo. Tudo
parece depender da próxima pesquisa, da próxima denúncia, da próxima fala, da
próxima reação.
Mas por
trás dessa “grande voz” opera o “grande silêncio”. É nele que se encontram as
estruturas mais permanentes do poder brasileiro: o mercado financeiro, o
Congresso fragmentado e conservador, as elites regionais, os bancos, os fundos,
as plataformas digitais, os grandes grupos de comunicação, as igrejas
políticas, os aparelhos de segurança, os comandos informais do orçamento e as
formas internacionais de pressão. Esse mundo não pede voto diretamente. Muitas
vezes, nem precisa aparecer. Ele condiciona o governo antes mesmo da posse.
É por
isso que a escolha está sitiada. Não porque não haja diferença entre os
candidatos. Há diferença, e ela é enorme. Mas porque a vitória eleitoral não
dissolve automaticamente as forças que governam a duração histórica do país. O
povo escolhe o presidente; mas o presidente eleito recebe um Estado já
atravessado por compromissos, chantagens, dívidas, coalizões, travas
orçamentárias, pactos silenciosos e limites impostos pela correlação real de
forças.
A
comparação com alguns grandes movimentos da história política brasileira ajuda
a compreender o presente. A Independência, a República Velha e a crise que
culminou na morte de Getúlio Vargas não foram acontecimentos iguais. Cada um
pertenceu a uma correlação específica de forças. Mas todos revelam uma
permanência: no Brasil, as grandes passagens históricas costumam ocorrer quando
a transformação se torna inevitável, mas as classes dirigentes conseguem
controlar sua forma e limitar seu alcance.
A
Independência não nasceu como revolução social. Foi uma solução conduzida pelo
alto, dentro da própria casa dinástica portuguesa, sob pressão da crise
colonial, da presença da Corte no Rio de Janeiro, da abertura dos portos, da
resistência das elites locais ao retorno subordinado a Portugal e do medo de
que a ruptura assumisse feição popular. O Brasil separou-se da metrópole
preservando a monarquia, a escravidão, a grande propriedade e o pacto com os
proprietários. Rompeu-se com Portugal, mas não se democratizou a sociedade.
A
soberania nacional nasceu limitada pela ordem social que a sustentou. O país
tornou-se independente, mas a maioria da população permaneceu fora da
cidadania. Os escravizados não entraram na Independência como sujeitos da nova
nação; entraram como condição silenciada de sua economia. A nação foi
proclamada, mas sua totalidade social permaneceu interditada.
A
República repetiu, em outra forma, esse movimento. A monarquia caiu, mas não
por uma revolução republicana de massas. Foi derrubada por uma articulação
militar e oligárquica, num contexto de desgaste do Império, crise do
escravismo, insatisfação de setores do Exército e rearranjo das classes
proprietárias depois da Abolição. O regime mudou, mas a cidadania continuou
estreita. A República Velha consolidou eleições controladas, coronelismo,
fraude, violência privada e exclusão social. Havia voto, parlamento, imprensa e
disputa política; mas a participação popular era administrada pelas
oligarquias.
A
Abolição, ocorrida pouco antes da República, poderia ter aberto uma refundação
democrática do país. Mas não abriu. Libertou juridicamente os escravizados sem
lhes entregar terra, escola, reparação, trabalho protegido ou cidadania
substantiva. A República nasceu sobre essa omissão monumental. Falava em
progresso, ordem e civismo, mas mantinha no centro da vida social o abandono
dos libertos e a concentração fundiária.
A crise
da República Velha abriu caminho para 1930. A urbanização, a industrialização
inicial, o movimento operário, o tenentismo, a crise de 1929 e o esgotamento do
pacto oligárquico mostraram que o velho Brasil já não cabia em si mesmo.
Getúlio Vargas expressou essa transição. Com ele, o Estado se fortaleceu, a
legislação trabalhista ganhou centralidade, a industrialização tornou-se
projeto e o trabalhador urbano passou a ser reconhecido como personagem
político. Mas esse reconhecimento veio sob tutela.
O
varguismo foi um dos grandes laboratórios da modernização conservadora
brasileira. Deslocou o eixo do poder, enfrentou parte da velha oligarquia,
construiu instituições e produziu uma nova linguagem de Estado. Mas não
transferiu ao povo o comando do processo histórico. A inclusão foi real, embora
disciplinada. O trabalhador deixou de ser apenas caso de polícia e passou a ser
reconhecido como sujeito regulado de direitos. O preço da incorporação foi a
tutela: sindicatos controlados, participação mediada, conflito social
administrado de cima.
A crise
de 1954 condensou essa contradição. De um lado, havia o
nacional-desenvolvimentismo, a defesa da Petrobras, a incorporação das massas
urbanas e a tentativa de afirmar um projeto de soberania econômica. De outro,
havia a oposição liberal-conservadora, setores militares, grupos empresariais,
imprensa mobilizada, interesses externos e frações internas que viam no
varguismo uma ameaça à sua capacidade de comando. A morte de Vargas produziu
enorme comoção popular e transformou a derrota política em acusação histórica.
Ele saiu da cena como indivíduo e permaneceu como mito de soberania ferida.
Getúlio
Vargas havia voltado ao poder pelo voto em 1950, mas seu governo encontrou um
cerco crescente. A democracia formal existia; a imprensa, o Congresso, os
partidos e as mobilizações também. Mas o projeto nacional-popular esbarrou em
forças que não aceitavam sua ampliação. O voto o reconduziu ao poder, mas não
bastou para neutralizar os poderes que pretendiam interromper seu projeto.
A
comparação se torna precisa. A Independência foi cercada pelo escravismo e pelo
medo da revolução social. A República foi capturada pelas oligarquias e pelo
temor da cidadania popular. O varguismo foi bloqueado pelas forças que
recusavam a soberania econômica e a incorporação política das massas. Em todos
os momentos, o país mudou. Mas mudou sob vigilância, com freios e mecanismos de
contenção.
O
presente não é cópia desses momentos. A eleição de 2026 pertence a outro tempo:
plataformas digitais, extrema direita transnacional, financeirização, capital
fictício, guerra cultural, judicialização da política, precarização do trabalho
e compressão da vida cotidiana. Mas a lógica profunda tem parentesco histórico.
Mais uma vez, há escolha. Mais uma vez, a escolha importa. Mas ela se realiza
dentro de um campo cercado.
Hoje,
esse cerco passa pelo orçamento capturado, pelo poder do Congresso, pela
chantagem do mercado, pelas plataformas digitais, pelas igrejas políticas, pela
circulação internacional da extrema direita, pela dívida e pela impossibilidade
de planejar o futuro. A urna pode impedir o pior, mas não desmonta sozinha os
poderes que condicionam o governo eleito.
Essa é
a diferença entre eleição e transformação histórica. A eleição escolhe
governos. A transformação desloca estruturas. Quando uma eleição não consegue
tocar essas estruturas, ela permanece necessária, mas limitada. Impede
retrocessos, preserva liberdades, bloqueia aventuras autoritárias, mas não
recompõe por si só a duração coletiva.
Por
isso, a escolha sitiada não é apenas o nome do momento eleitoral. É uma forma
recorrente da história brasileira. Sitiada foi a Independência, conduzida por
elites que temiam a revolução social. Sitiada foi a República, sequestrada por
oligarquias que temiam a cidadania. Sitiado foi o projeto nacional-popular,
bloqueado por forças que temiam a soberania. Sitiada é a escolha contemporânea,
comprimida por estruturas que aceitam a democracia enquanto ela não altera o
comando real da riqueza, do Estado, da comunicação, do tempo e da esperança.
Reconhecer
o cerco não significa aceitar a derrota. Significa nomear o inimigo histórico
da democracia brasileira: a capacidade das estruturas dominantes de permitir
mudanças sem permitir que elas se completem. A eleição de 2026 será
indispensável, mas não suficiente. Poderá impedir a normalização da ruptura
autoritária. Mas só terá alcance histórico se abrir caminho para uma disputa
mais profunda sobre quem governa o tempo brasileiro: o voto popular ou o grande
silêncio das estruturas que sempre souberam mandar sem aparecer.
A
história não se repete como destino fechado. Ela retorna como advertência. O
passado não obriga o presente a fracassar, mas mostra o preço de não enfrentar
o cerco. Toda vez que o Brasil aceitou a mudança sem democratizar sua
substância, a promessa voltou como frustração.
A
pergunta de 2026, portanto, não é apenas quem vencerá a eleição. É se a escolha
eleitoral conseguirá iniciar uma travessia ou se será novamente absorvida pelas
estruturas que transformam mudança em acomodação.
O
Brasil não caminha sem escolha para o matadouro. Caminha para uma eleição em
que a escolha existe, pesa e pode ser decisiva. Mas essa escolha está cercada
por uma longa história de bloqueios. O desafio é fazer com que ela não seja
apenas defesa contra o pior, mas abertura de um novo conflito democrático: o
conflito pelo direito de o povo brasileiro governar não apenas o resultado da
urna, mas o próprio tempo histórico de sua vida comum.
Fonte:
A Terra é Redonda

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