terça-feira, 23 de junho de 2026

João dos Reis Silva Júnior: A escolha sitiada

Não caminhamos sem escolha para o matadouro; caminhamos para uma eleição em que a escolha existe, mas está sitiada por estruturas que diminuem o alcance histórico da escolha.

Esta talvez seja a frase mais precisa para definir o momento político brasileiro. Ela recusa dois erros simétricos. De um lado, o fatalismo daqueles que já consideram tudo decidido, como se a história tivesse sido capturada definitivamente por forças exteriores à vontade popular. De outro, a ingenuidade daqueles que acreditam que a eleição, por si só, bastaria para recompor o país, restaurar a confiança coletiva e devolver ao povo brasileiro a posse plena de seu futuro.

A eleição existe. A disputa é real. O voto importa. A diferença entre os projetos não é indiferente. Não é a mesma coisa impedir a volta organizada da ruptura democrática ou permitir que ela se apresente novamente, agora sob forma sucessória, familiar e aparentemente institucionalizada. Há escolha, e ela tem consequências. Mas essa escolha não se realiza em campo aberto. Ela se move dentro de um terreno previamente ocupado por estruturas econômicas, políticas, jurídicas, midiáticas e internacionais que estreitam o horizonte do possível.

As pesquisas recentes mostraram Lula em vantagem sobre Flávio Bolsonaro. Isso significa que a herança bolsonarista não se transfere automaticamente. O sobrenome ainda mobiliza, mas já não basta para organizar sem resistência a maioria nacional. Há memória social, há medo da repetição, há defesa democrática, há rejeição à normalização do golpe.

Mas o mesmo quadro mostra também o limite da cena eleitoral. Flávio Bolsonaro não aparece apenas como candidato individual. Ele aparece como portador de uma linhagem política. Sua candidatura é menos criação própria do que tentativa de converter o impedimento histórico do pai em continuidade familiar.

O pai permanece como símbolo; o filho entra como mediação. A candidatura, assim, não inaugura propriamente um novo tempo. Ela tenta preservar um passado recente, reorganizá-lo juridicamente, purificá-lo eleitoralmente e devolvê-lo ao centro do Estado.

Por isso, a eleição de 2026 não pode ser lida apenas como disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. Ela é uma disputa sobre o sentido de 2022. É uma disputa sobre se o país tratará a ameaça democrática anterior como exceção derrotada ou como força legítima em processo de recomposição. A pergunta profunda não é somente quem vencerá a eleição. A pergunta é se a sociedade brasileira aceitará que a ruptura volte à cena como se fosse apenas mais uma alternativa eleitoral.

Há, nesse ponto, um aspecto decisivo. O processo eleitoral aparece como “grande voz”. Ele fala alto. Produz manchetes, pesquisas, debates, frases fortes, escândalos, alianças, traições e gestos calculados. A cada semana, um novo fato reorganiza a aparência da disputa. A política se apresenta como sucessão acelerada de acontecimentos. Tudo parece urgente. Tudo parece definitivo. Tudo parece depender da próxima pesquisa, da próxima denúncia, da próxima fala, da próxima reação.

Mas por trás dessa “grande voz” opera o “grande silêncio”. É nele que se encontram as estruturas mais permanentes do poder brasileiro: o mercado financeiro, o Congresso fragmentado e conservador, as elites regionais, os bancos, os fundos, as plataformas digitais, os grandes grupos de comunicação, as igrejas políticas, os aparelhos de segurança, os comandos informais do orçamento e as formas internacionais de pressão. Esse mundo não pede voto diretamente. Muitas vezes, nem precisa aparecer. Ele condiciona o governo antes mesmo da posse.

É por isso que a escolha está sitiada. Não porque não haja diferença entre os candidatos. Há diferença, e ela é enorme. Mas porque a vitória eleitoral não dissolve automaticamente as forças que governam a duração histórica do país. O povo escolhe o presidente; mas o presidente eleito recebe um Estado já atravessado por compromissos, chantagens, dívidas, coalizões, travas orçamentárias, pactos silenciosos e limites impostos pela correlação real de forças.

A comparação com alguns grandes movimentos da história política brasileira ajuda a compreender o presente. A Independência, a República Velha e a crise que culminou na morte de Getúlio Vargas não foram acontecimentos iguais. Cada um pertenceu a uma correlação específica de forças. Mas todos revelam uma permanência: no Brasil, as grandes passagens históricas costumam ocorrer quando a transformação se torna inevitável, mas as classes dirigentes conseguem controlar sua forma e limitar seu alcance.

A Independência não nasceu como revolução social. Foi uma solução conduzida pelo alto, dentro da própria casa dinástica portuguesa, sob pressão da crise colonial, da presença da Corte no Rio de Janeiro, da abertura dos portos, da resistência das elites locais ao retorno subordinado a Portugal e do medo de que a ruptura assumisse feição popular. O Brasil separou-se da metrópole preservando a monarquia, a escravidão, a grande propriedade e o pacto com os proprietários. Rompeu-se com Portugal, mas não se democratizou a sociedade.

A soberania nacional nasceu limitada pela ordem social que a sustentou. O país tornou-se independente, mas a maioria da população permaneceu fora da cidadania. Os escravizados não entraram na Independência como sujeitos da nova nação; entraram como condição silenciada de sua economia. A nação foi proclamada, mas sua totalidade social permaneceu interditada.

A República repetiu, em outra forma, esse movimento. A monarquia caiu, mas não por uma revolução republicana de massas. Foi derrubada por uma articulação militar e oligárquica, num contexto de desgaste do Império, crise do escravismo, insatisfação de setores do Exército e rearranjo das classes proprietárias depois da Abolição. O regime mudou, mas a cidadania continuou estreita. A República Velha consolidou eleições controladas, coronelismo, fraude, violência privada e exclusão social. Havia voto, parlamento, imprensa e disputa política; mas a participação popular era administrada pelas oligarquias.

A Abolição, ocorrida pouco antes da República, poderia ter aberto uma refundação democrática do país. Mas não abriu. Libertou juridicamente os escravizados sem lhes entregar terra, escola, reparação, trabalho protegido ou cidadania substantiva. A República nasceu sobre essa omissão monumental. Falava em progresso, ordem e civismo, mas mantinha no centro da vida social o abandono dos libertos e a concentração fundiária.

A crise da República Velha abriu caminho para 1930. A urbanização, a industrialização inicial, o movimento operário, o tenentismo, a crise de 1929 e o esgotamento do pacto oligárquico mostraram que o velho Brasil já não cabia em si mesmo. Getúlio Vargas expressou essa transição. Com ele, o Estado se fortaleceu, a legislação trabalhista ganhou centralidade, a industrialização tornou-se projeto e o trabalhador urbano passou a ser reconhecido como personagem político. Mas esse reconhecimento veio sob tutela.

O varguismo foi um dos grandes laboratórios da modernização conservadora brasileira. Deslocou o eixo do poder, enfrentou parte da velha oligarquia, construiu instituições e produziu uma nova linguagem de Estado. Mas não transferiu ao povo o comando do processo histórico. A inclusão foi real, embora disciplinada. O trabalhador deixou de ser apenas caso de polícia e passou a ser reconhecido como sujeito regulado de direitos. O preço da incorporação foi a tutela: sindicatos controlados, participação mediada, conflito social administrado de cima.

A crise de 1954 condensou essa contradição. De um lado, havia o nacional-desenvolvimentismo, a defesa da Petrobras, a incorporação das massas urbanas e a tentativa de afirmar um projeto de soberania econômica. De outro, havia a oposição liberal-conservadora, setores militares, grupos empresariais, imprensa mobilizada, interesses externos e frações internas que viam no varguismo uma ameaça à sua capacidade de comando. A morte de Vargas produziu enorme comoção popular e transformou a derrota política em acusação histórica. Ele saiu da cena como indivíduo e permaneceu como mito de soberania ferida.

Getúlio Vargas havia voltado ao poder pelo voto em 1950, mas seu governo encontrou um cerco crescente. A democracia formal existia; a imprensa, o Congresso, os partidos e as mobilizações também. Mas o projeto nacional-popular esbarrou em forças que não aceitavam sua ampliação. O voto o reconduziu ao poder, mas não bastou para neutralizar os poderes que pretendiam interromper seu projeto.

A comparação se torna precisa. A Independência foi cercada pelo escravismo e pelo medo da revolução social. A República foi capturada pelas oligarquias e pelo temor da cidadania popular. O varguismo foi bloqueado pelas forças que recusavam a soberania econômica e a incorporação política das massas. Em todos os momentos, o país mudou. Mas mudou sob vigilância, com freios e mecanismos de contenção.

O presente não é cópia desses momentos. A eleição de 2026 pertence a outro tempo: plataformas digitais, extrema direita transnacional, financeirização, capital fictício, guerra cultural, judicialização da política, precarização do trabalho e compressão da vida cotidiana. Mas a lógica profunda tem parentesco histórico. Mais uma vez, há escolha. Mais uma vez, a escolha importa. Mas ela se realiza dentro de um campo cercado.

Hoje, esse cerco passa pelo orçamento capturado, pelo poder do Congresso, pela chantagem do mercado, pelas plataformas digitais, pelas igrejas políticas, pela circulação internacional da extrema direita, pela dívida e pela impossibilidade de planejar o futuro. A urna pode impedir o pior, mas não desmonta sozinha os poderes que condicionam o governo eleito.

Essa é a diferença entre eleição e transformação histórica. A eleição escolhe governos. A transformação desloca estruturas. Quando uma eleição não consegue tocar essas estruturas, ela permanece necessária, mas limitada. Impede retrocessos, preserva liberdades, bloqueia aventuras autoritárias, mas não recompõe por si só a duração coletiva.

Por isso, a escolha sitiada não é apenas o nome do momento eleitoral. É uma forma recorrente da história brasileira. Sitiada foi a Independência, conduzida por elites que temiam a revolução social. Sitiada foi a República, sequestrada por oligarquias que temiam a cidadania. Sitiado foi o projeto nacional-popular, bloqueado por forças que temiam a soberania. Sitiada é a escolha contemporânea, comprimida por estruturas que aceitam a democracia enquanto ela não altera o comando real da riqueza, do Estado, da comunicação, do tempo e da esperança.

Reconhecer o cerco não significa aceitar a derrota. Significa nomear o inimigo histórico da democracia brasileira: a capacidade das estruturas dominantes de permitir mudanças sem permitir que elas se completem. A eleição de 2026 será indispensável, mas não suficiente. Poderá impedir a normalização da ruptura autoritária. Mas só terá alcance histórico se abrir caminho para uma disputa mais profunda sobre quem governa o tempo brasileiro: o voto popular ou o grande silêncio das estruturas que sempre souberam mandar sem aparecer.

A história não se repete como destino fechado. Ela retorna como advertência. O passado não obriga o presente a fracassar, mas mostra o preço de não enfrentar o cerco. Toda vez que o Brasil aceitou a mudança sem democratizar sua substância, a promessa voltou como frustração.

A pergunta de 2026, portanto, não é apenas quem vencerá a eleição. É se a escolha eleitoral conseguirá iniciar uma travessia ou se será novamente absorvida pelas estruturas que transformam mudança em acomodação.

O Brasil não caminha sem escolha para o matadouro. Caminha para uma eleição em que a escolha existe, pesa e pode ser decisiva. Mas essa escolha está cercada por uma longa história de bloqueios. O desafio é fazer com que ela não seja apenas defesa contra o pior, mas abertura de um novo conflito democrático: o conflito pelo direito de o povo brasileiro governar não apenas o resultado da urna, mas o próprio tempo histórico de sua vida comum.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

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