Nadar
é a melhor escolha para o coração, destaca estudo brasileiro
Nadar
pode ser mais eficaz do que correr para fortalecer o músculo do coração.
Segundo um estudo pré-clínico de autores brasileiros publicado na revista
Scientific Reports, da Nature, embora ambas as modalidades sejam aeróbicas, os
efeitos produzidos no órgão são diferentes. O esporte aquático mostrou-se mais
eficaz na indução de alterações estruturais e funcionais consideradas benéficas
para o miocárdio.
O
estudo foi feito com ratos machos, divididos em três grupos: sedentários,
submetidos à corrida ou à natação. Os animais treinados passaram por um
protocolo de dois meses, com sessões diárias de 60 minutos, cinco vezes por
semana, em intensidade equivalente a aproximadamente 75% do consumo máximo de
oxigênio (VO2max).
Esse
desenho da pesquisa permitiu fazer uma comparação direta entre as duas
modalidades sob condições semelhantes de carga e duração. Segundo os
pesquisadores, o aspecto é relevante, pois estudos anteriores frequentemente
analisavam cada tipo de exercício de forma isolada. Passadas oito semanas, os
cientistas avaliaram diversos parâmetros, incluindo capacidade
cardiorrespiratória, estrutura do coração, desempenho mecânico do músculo
cardíaco e alterações moleculares associadas ao crescimento do órgão.
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Exaustão
Uma das
primeiras constatações foi que tanto a corrida quanto a natação melhoraram a
aptidão cardiorrespiratória dos animais. Houve aumento significativo do VO2max
nos dois grupos treinados, enquanto o de sedentários apresentou redução desse
indicador ao longo do tempo. Além disso, os animais submetidos às atividades
físicas demonstraram maior resistência física. No caso da natação, o tempo até
a exaustão aumentou de forma significativa, diz o estudo.
Outro
marcador importante — a atividade da enzima citrato sintase, relacionada à
capacidade oxidativa muscular — também aumentou de maneira semelhante nos dois
grupos. Isso indica que, do ponto de vista metabólico e de condicionamento
geral, corrida e natação produziram efeitos comparáveis.
As
diferenças mais marcantes surgiram na análise do coração. Apenas os animais que
praticaram natação desenvolveram aumento significativo da massa cardíaca e do
ventrículo esquerdo — principal câmara responsável por bombear sangue para o
corpo. Esse crescimento foi acompanhado por alterações celulares, como
maior diâmetro das fibras musculares
cardíacas e do volume nuclear dos cardiomiócitos.
Já no
grupo da corrida, os parâmetros permaneceram semelhantes aos dos animais
sedentários. Isso sugere que, nas condições testadas, a modalidade não foi
suficiente para remodelar o coração de forma significativa.
Os
autores destacam que o aumento da massa cardíaca observado na natação não
representa um processo patológico. Ao contrário, trata-se de uma hipertrofia
fisiológica — uma adaptação normal do organismo ao exercício — que ocorre com
manutenção ou melhora da função cardíaca.
Esse
tipo de crescimento é distinto daquele associado a doenças, no qual há prejuízo
da função do coração. No estudo, as análises por ecocardiografia e parâmetros
hemodinâmicos indicaram que as funções sistólica e diastólica foram preservadas
em todos os grupos.
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Desempenho
Além do
crescimento estrutural, a natação também promoveu melhora mais expressiva no
desempenho do músculo cardíaco. Testes realizados com músculos papilares —
estruturas que participam da contração do coração — mostraram que os animais
desse grupo desenvolveram maior força contrátil.
Na
natação, houve aumento significativo tanto na velocidade de contração quanto na
de relaxamento do miocárdio, o que está relacionado diretamente à eficiência do
bombeamento sanguíneo. No caso da corrida, o efeito foi mais discreto, com
melhora apenas em um dos indicadores de contração, sem impacto relevante nos
demais.
Para
entender as razões dessas diferenças, os pesquisadores analisaram moléculas
envolvidas no crescimento e na adaptação cardíaca. Os resultados mostraram que
ambas as modalidades aumentaram a expressão de genes ligados à via PI3K/AKT,
conhecida por participar da hipertrofia fisiológica.
No
entanto, a natação promoveu alterações mais robustas em proteínas e genes
relacionados a essa via, especialmente no eixo que regula processos de
crescimento celular e síntese proteica. No grupo do esporte aquático, também
Além
disso, nos animais treinados com natação, houve maior modulação de microRNAs —
processo biológico no qual pequenas moléculas "ligam" ou
"desligam" genes, controlando a produção de proteínas, sem alterar a
sequência do DNA. Entre elas, destacaram-se cinco que estão associadas a
processos como crescimento celular, remodelamento cardíaco, inflamação e
resposta ao estresse oxidativo.
Os
autores sugerem que a superioridade da natação pode estar relacionada às
características específicas dessa atividade. Diferentemente da corrida, a
modalidade envolve um padrão de esforço contínuo com maior participação de
diferentes grupos musculares e influência de fatores como a pressão
hidrostática da água. Esses elementos podem alterar a carga hemodinâmica sobre
o coração, favorecendo adaptações distintas.
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Humanos
Outro
ponto levantado é que, em ratos — que são animais quadrúpedes — tanto corrida
quanto natação envolvem membros anteriores e posteriores, o que pode reduzir
diferenças observadas em humanos. Ainda assim, as adaptações cardíacas foram
claramente mais pronunciadas na natação.
"Natação
e corrida são duas excelentes maneiras de melhorar a saúde cardiorrespiratória
e de proteger o músculo cardíaco, mas queríamos saber se uma delas poderia ser
ainda mais benéfica que a outra", esclarece Andrey Jorge Serra, professor
da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenador do estudo, que
recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
"Embora ambas aumentem a capacidade respiratória, a natação vai além,
combinando adaptações funcionais e moleculares que tornam o coração mais forte
e eficiente", diz.
Breno
Daniel, profissional de educação física e supervisor técnico da rede de
academias Corpo e Saúde, em Brasília, reconhece que existem algumas barreiras
de acesso à natação. Nem todos têm piscina disponível com facilidade, e a
logística pode dificultar a adesão à prática, pois envolve deslocamento, troca
de roupa e horários específicos", lembra. Mas quem consegue superá-las
obtém grandes benefícios. "Quando praticada de forma regular, a natação é
uma atividade completa, que envolve um maior grupo muscular e promove um
intenso trabalho cardiovascular."
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Três perguntas para Fabrício da Silva, médico cardiologista da clínica
Amplexus, em Brasília
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Como os resultados do estudo podem influenciar a orientação da prática de
exercícios físicos para a população?
O
estudo indica que a natação pode gerar adaptações mais intensas no coração,
especialmente em termos de aumento da massa cardíaca e melhora da
contratilidade. No entanto, isso não muda, na prática clínica, a principal
orientação médica: o mais importante continua sendo a prática regular de
atividade física. A escolha entre natação, corrida ou outra modalidade deve
considerar preferências pessoais, limitações físicas e condições de saúde. O
que o estudo acrescenta é um entendimento mais aprofundado sobre como
diferentes exercícios impactam o coração, mas não invalida a eficácia da
corrida ou de outras atividades aeróbicas.
• Para quem quer prevenir doenças
cardiovasculares, o mais importante é escolher o tipo de atividade ou manter
uma rotina regular?
O mais
importante é manter uma rotina regular de atividade física. O estudo mostra que
tanto a corrida quanto a natação melhoram a capacidade cardiorrespiratória, o
que já é um fator protetor importante para o coração. A regularidade, a
frequência e a intensidade adequada do exercício têm mais impacto na prevenção
de doenças cardiovasculares do que a escolha de uma modalidade específica. O
melhor exercício é aquele que a pessoa consegue manter ao longo do tempo.
• O estudo também identificou mudanças em
mecanismos internos das células cardíacas. Isso pode abrir caminho para novos
tratamentos?
As
descobertas são muito relevantes do ponto de vista científico, porque ajudam a
entender os mecanismos moleculares por trás dos benefícios do exercício no
coração. No entanto, ainda estão em uma fase experimental. O estudo foi
realizado em animais, e a aplicação direta desses resultados em tratamentos
clínicos exige mais pesquisas, especialmente em humanos. No futuro, esse tipo
de conhecimento pode contribuir para o desenvolvimento de terapias que imitem
os efeitos benéficos do exercício, mas, por enquanto, a principal “intervenção”
continua sendo o próprio exercício físico.
Fonte:
Correio Braziliense

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