O
2º tempo da Lava Jato 2: o caso Jaques Wagner
É alto
o preço da ingenuidade política das chamadas forças progressistas ou
democráticas. Até hoje não entenderam que a escandalização é uma arma usada
historicamente pela direita e pelo Departamento de Estado norte-americano.
Os mais
velhos hão de lembrar da Cruzada contra a Corrupção de um tal padre Peyton, que
percorria o Brasil financiado pela Grace — empresa de dois irmãos irlandeses,
católicos, radicados nos Estados Unidos e representantes da Caterpillar no
país. Ou, mais recentemente, da Lava Jato.
Independentemente
do que é fato, do que é narrativa, não se pode perder de vista o objetivo
político final das campanhas moralistas. Sem identificar esses interesses,
seremos apenas patos na Lagoa, à mercê dos tiros e vazamentos.
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Peça 1 — o primeiro tempo da Lava Jato 2
Quando
o caso Master explodiu, a relatoria no Supremo Tribunal Federal coube a Dias
Toffoli. De imediato, ele foi bombardeado por vazamentos que apontavam ligações
de fundos do Master com um empreendimento do qual participava.
Caiu
todo mundo de pau sobre ele — inclusive veículos da imprensa alternativa.
Afinal, não se pode compactuar com a corrupção, não é mesmo?
O
detalhe que se omitia: na relatoria, Toffoli atuava corretamente. Percebeu o
vazamento de informações na perícia dos celulares e tentou trazer a perícia
para o STF, indicando peritos da própria PF — tecnicamente respeitados e sem
vínculo com a Lava Jato. Foi esmagado pela campanha anticorrupção.
Diariamente,
O Globo atacava Toffoli e insinuava interferências dele nas investigações, em
matérias de uma falta de objetividade ímpar. Se demorava a agir, “a PF está
incomodada com a demora”. Se acionava o inquérito em regime de urgência, “a PF
está incomodada com a pressa”.
Era
nítido que as denúncias funcionavam como mero instrumento para retirar a
relatoria de Toffoli, enfraquecer o STF e entregar as rédeas da operação ao
grupo lava-jatista da PF. Jogo pesado, cuja arma principal foi o contrato da
esposa de Alexandre de Moraes com o Master. O contrato existe, de fato — mas
sua origem foi falsificada: atribuiu-se o documento à perícia nos celulares de
Daniel Vorcaro e, depois, jamais se confirmou essa perícia específica. Ou seja,
o contrato chegou por outras fontes, e a jornalista mentiu ao atribuí-lo à
perícia.
Bastou
Toffoli renunciar à relatoria, e o caso caiu para o ministro André Mendonça,
que incontinente ordenou a quebra do sigilo bancário de Fábio Luís Lula da
Silva e proibiu o acesso do delegado-geral da PF à operação. Seguiu-se a mais
explícita manipulação: a banda lava-jatista da PF divulgou a movimentação da
conta ao longo de quatro anos. Era óbvio o objetivo — produzir um número
altissonante para alimentar as manchetes.
Nada de
ilegal se comprovou nas movimentações. Não estivesse o STF na defensiva,
certamente Mendonça responderia por abuso de autoridade. O caso morreu, mas
continuou vivo no imaginário popular.
Esses
fatos — a insistência em repetir as denúncias diariamente, enquanto os
principais envolvidos com o Master eram poupados — explicitaram o viés político
da operação e obrigaram a um recuo.
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Peça 2 — o intervalo para reorganizar a estratégia
Preparou-se,
então, o segundo tempo: avançar sobre personagens centrais do caso Master que
não pertencessem à frente bolsonarista.
Foi aí
que surgiu o senador Ciro Nogueira, político que se blinda de denúncias
oferecendo furos e futricas a jornalistas da cobertura política. Esqueceram
Fábio Luís, passaram a citar Toffoli e Mendonça apenas de passagem e seguiram
poupando Ibaneis Rocha. Nenhuma figura central do bolsonarismo apareceu — até
explodir o áudio da conversa de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro.
Pessoal,
um mínimo de raciocínio político! Onde o áudio foi encontrado? Obviamente, no
celular de Daniel Vorcaro. Quem controlava os celulares? A perícia da PF. E por
que o vazamento se deu por um veículo da imprensa alternativa, o The Intercept,
e não por O Globo e demais parceiros de sempre?
O
episódio dispersou energias e obrigou a concentrar fogo no filme de Bolsonaro
enquanto se preparava o segundo tempo.
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Peça 3 — o segundo tempo da Lava Jato 2
Jaques
Wagner estava no foco da operação desde o primeiro momento, já que o Credcesta
— empresa que o Master usou para explodir seu crédito consignado — resultou de
uma privatização do governo baiano.
Mas,
depois de deixar os rastros da politização na investida sobre Fábio Luís, os
vazamentos estavam desmoralizados. A operação concentrou-se, então, nos personagens do Centrão e esperou esvaziar
a repercussão do caso Flávio Bolsonaro. O caso Wagner ficou na prateleira, à
espera do segundo tempo.
A essa
altura, a Operação Master já era um chuveiro de vazamentos — a ponto de
procuradores ligados à Procuradoria-Geral da República alertarem para a
imprudência de Mendonça ao autorizar a divulgação de investigações em
andamento, com risco de prejudicar a própria apuração.
Com a
legitimidade supostamente restaurada pelas incursões contra o Centrão — embora
sem nenhum movimento em relação a Eduardo e Flávio Bolsonaro ou outras figuras
centrais do bolsonarismo —, a Lava Jato 2 inaugura o segundo tempo tirando a
prateleira as denúncias contra Jaques
Wagner, personagem relevante no universo petista e no governo Lula.
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Peça 4 — as denúncias contra Jaques Wagner
Não
cometerei a leviandade de afirmar que Wagner é culpado ou inocente. Jornalismo
sério publicaria os vazamentos com todas as ressalvas necessárias, daria a
palavra ao acusado e aguardaria o julgamento antes de formular juízo de valor.
O padrão Lava Jato, ao contrário, consiste em inundar o noticiário com
denúncias, insinuações e suposições, até consolidar a convicção.
Vale,
então, separar o que é fato do que é tese.
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O que há de objetivo (fato processual, apreensão ou prova material)
O que
está materialmente estabelecido é, em boa parte, processual e probatório — não
conclusivo quanto ao crime:
• A 9ª fase foi deflagrada em 18 de junho,
com 18 mandados de busca e apreensão na Bahia, em São Paulo e no Distrito
Federal, autorizados pelo STF.
• Houve apreensão física: US$ 49 mil e 13
relógios em endereços ligados a Wagner.
• Existe uma mensagem interceptada no
aparelho de Augusto Ferreira Lima em que o parlamentar envia o contato do
gerente da construtora e informa a unidade e o preço do imóvel: “a unidade é a
1702 e o preço é 2,45 mi”.
• A base probatória citada por Mendonça é
objetivamente listada: mensagens eletrônicas, áudios, registros de chamadas,
documentos contratuais, comprovantes de transferência, registros societários e
planilhas de pagamentos obtidos em aparelhos apreendidos nas fases anteriores.
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A versão de Wagner
Como
manda o ofício, a palavra ao acusado: Wagner sustenta que a intervenção de
Augusto Lima serviu apenas para reservar o apartamento à sua filha, enquanto
ele providenciava a venda de um imóvel para assumir o contrato. É a sua
explicação — não prova material, mas tampouco pode ser suprimida do noticiário.
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O que é suposição, imputação “em tese” ou inferência
Aqui
está o grosso da narrativa acusatória — ainda não comprovada:
• A qualificação central é explicitamente
hipotética: Wagner é “apontado pela Polícia Federal como suposto beneficiário
central das vantagens econômicas investigadas”. “Suposto beneficiário” é tese,
não fato provado.
• O valor de R$ 8,35 milhões em suposto
recebimento é estimativa da PF, não montante comprovadamente recebido por ele.
• O nexo de contrapartida — a ideia de que
a atuação parlamentar (consignado/Lei 14.431, PEC 65 sobre o FGC, operação
Master/BRB) foi troca por vantagem — permanece hipótese: os investigadores
“tentam esclarecer” se o senador atuou em favor das pautas de interesse do
Master. O próprio verbo denuncia que o vínculo causal não está fechado.
• A tipificação penal é condicional:
apura-se, “em tese”, corrupção passiva, corrupção ativa e lavagem de dinheiro.
• A “relação antiga e de confiança” é
inferência interpretativa: Mendonça diz que os autos apontam relação próxima e
de elevado grau de confiança, “circunstância que poderia ter facilitado
tratativas”. “Poderia ter facilitado” é construção probabilística.
O eixo
decisivo, portanto, não é a existência dos repasses — que aparecem documentados
—, mas o nexo de imputação a Wagner pessoalmente e a causalidade entre dinheiro
e atuação parlamentar. E é exatamente nesses dois pontos que o material
divulgado segue operando no campo do “em tese”.
É
desmoralizador para toda a corporação da PF, que se utilizem vazamentos e se
façam imputações baseadas em teses, suposições.
Mas a
ofensiva do PADPF (Partido da Associação dos Delegados da Polícia Federal) foi
eficiente no trabalho de enfraquecer o Supremo. Com as facilidades, aliás,
proporcionadas pela atuação de Dias Toffoli e Alexandre Moraes.
• As dúvidas que permanecem sobre a Lava
Jato 2
No
artigo acima procurei expor, didaticamente, a estratégia da Polícia Federal
lava-jatista nessa tentativa de transformar o caso Master na Lava Jato 2.
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Passo 1 – derrubar Dias Tofolli da relatoria do caso, garantindo um pacto com o
sucessor.
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Passo 2 – o pacto com André Mendonça
ficou nítido no primeiro dia, com a autorização para a quebra do sigilo
bancário de Fábio Luiz Lula da Silva.
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Passo 3 – simultaneamente uma guerra
contra o Supremo Tribunal Federal, para cortar-lhe as asas. Durante o primeiro
mês, parecia que a Lava Jato era um caso de Fábio Luiz e dos dois Ministros do
STF – Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.
Essa
estratégia produziu excrescências, como ignorar políticos claramente
identificados com o Master e tentar livrar o Conselho de Administração do BRB –
atribuindo a compra da carteira do Master a uma suposta pressão do diretor de
fiscalização do Banco Central, que nunca ocorreu.
Estratégia
foi interrompida pelo vazamento do áudio da conversa de Flávio Bolsonaro e
Daniel Vorcaro – que não saiu pelo Globo nem por nenhum dos canais de vazamento
da PF lavajatista.
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Passo 4 – uma investida contra os caciques do Centrão envolvidos com o caso
Master, mas sem chegar perto de nenhuma pessoa diretamente ligado a Bolsonaro.
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Passo 5 – recuperada a credibilidade perante a mídia – e é mais fácil a mídia
se “render” aos apelos da fonte do que uma donzela resistir aos encantos de Tom
Cruise -, avançar sobre o núcleo do PT.
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A ofensiva da PF
A
ofensiva da PF obedeceu a um receituário manjado. Encontrou dólares no
apartamento de Jaques Wagner – segundo ele, proveniente das viagens que fez – e
espalhou pelo cenário para aumentar a sensação de quantidade.
Foi a
mesma encenação do Caso Lunus, pelo qual a PF ligada ao Ministro da Saúde José
Serra derrubou a candidatura de Roseana Sarney.
Ou do
chamado “caso dos aloprados”.
Ou
ainda o caso do sequestro de Abilio Diniz
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As dúvidas que permanecem
A
dúvida que fica é sobre a origem do vazamento do diálogo entre Flávio Bolsonaro
e Daniel Vorcaro.
As
imagens foram levantados pela perícia da PF. No entanto, o vazamento não se deu
pelos canais normais – especialmente Globo e Veja. Em vez disso foi pelo The
Intercept.
Há
algumas hipóteses e uma certeza em relação a esse episódio:
A
certeza – o Ministro André Mendonça, que autorizou todos os vazamentos da
operação, não autorizou o vazamento do áudio de Flávio Bolsonaro.
Hipótese
1 – um membro da operação, contrário ao silenciamento, tomou a iniciativa de
vazar por outro canal.
Hipótese
2 – o comando informal da operação decidiu driblar André Mendonça,
providenciando um vazamento a um veículo não-lavajatista.
As
certezas que permanecem
A única
certeza desse jogo é a enorme ingenuidade do chamado jornalismo independente em
relação a essas pautas morais da direita – mais velhas do que o suicídio de
Vargas e que a Sé de Braga.
Ainda
mais nesses tempos em que o julgamento de cada veículo é instantâneo, vamos
salvar nossas peles e engrossar o coro do punitivismo.
Espera-se
que o grosso da imprensa passe a exigir o óbvio: os mesmos procedimentos que
atingiram Jaques Wagner e outros senadores, chegue até Flávio Bolsonaro, o
único sobre o qual existem provas factuais de pedidos de dinheiro a Vorcaro.
Fonte:
Por Luís Nassif, no Jornal GGN

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