terça-feira, 23 de junho de 2026

O 2º tempo da Lava Jato 2: o caso Jaques Wagner

É alto o preço da ingenuidade política das chamadas forças progressistas ou democráticas. Até hoje não entenderam que a escandalização é uma arma usada historicamente pela direita e pelo Departamento de Estado norte-americano.

Os mais velhos hão de lembrar da Cruzada contra a Corrupção de um tal padre Peyton, que percorria o Brasil financiado pela Grace — empresa de dois irmãos irlandeses, católicos, radicados nos Estados Unidos e representantes da Caterpillar no país. Ou, mais recentemente, da Lava Jato.

Independentemente do que é fato, do que é narrativa, não se pode perder de vista o objetivo político final das campanhas moralistas. Sem identificar esses interesses, seremos apenas patos na Lagoa, à mercê dos tiros e vazamentos.

>>>> Peça 1 — o primeiro tempo da Lava Jato 2

Quando o caso Master explodiu, a relatoria no Supremo Tribunal Federal coube a Dias Toffoli. De imediato, ele foi bombardeado por vazamentos que apontavam ligações de fundos do Master com um empreendimento do qual participava.

Caiu todo mundo de pau sobre ele — inclusive veículos da imprensa alternativa. Afinal, não se pode compactuar com a corrupção, não é mesmo?

O detalhe que se omitia: na relatoria, Toffoli atuava corretamente. Percebeu o vazamento de informações na perícia dos celulares e tentou trazer a perícia para o STF, indicando peritos da própria PF — tecnicamente respeitados e sem vínculo com a Lava Jato. Foi esmagado pela campanha anticorrupção.

Diariamente, O Globo atacava Toffoli e insinuava interferências dele nas investigações, em matérias de uma falta de objetividade ímpar. Se demorava a agir, “a PF está incomodada com a demora”. Se acionava o inquérito em regime de urgência, “a PF está incomodada com a pressa”.

Era nítido que as denúncias funcionavam como mero instrumento para retirar a relatoria de Toffoli, enfraquecer o STF e entregar as rédeas da operação ao grupo lava-jatista da PF. Jogo pesado, cuja arma principal foi o contrato da esposa de Alexandre de Moraes com o Master. O contrato existe, de fato — mas sua origem foi falsificada: atribuiu-se o documento à perícia nos celulares de Daniel Vorcaro e, depois, jamais se confirmou essa perícia específica. Ou seja, o contrato chegou por outras fontes, e a jornalista mentiu ao atribuí-lo à perícia.

Bastou Toffoli renunciar à relatoria, e o caso caiu para o ministro André Mendonça, que incontinente ordenou a quebra do sigilo bancário de Fábio Luís Lula da Silva e proibiu o acesso do delegado-geral da PF à operação. Seguiu-se a mais explícita manipulação: a banda lava-jatista da PF divulgou a movimentação da conta ao longo de quatro anos. Era óbvio o objetivo — produzir um número altissonante para alimentar as manchetes.

Nada de ilegal se comprovou nas movimentações. Não estivesse o STF na defensiva, certamente Mendonça responderia por abuso de autoridade. O caso morreu, mas continuou vivo no imaginário popular.

Esses fatos — a insistência em repetir as denúncias diariamente, enquanto os principais envolvidos com o Master eram poupados — explicitaram o viés político da operação e obrigaram a um recuo.

>>>> Peça 2 — o intervalo para reorganizar a estratégia

Preparou-se, então, o segundo tempo: avançar sobre personagens centrais do caso Master que não pertencessem à frente bolsonarista.

Foi aí que surgiu o senador Ciro Nogueira, político que se blinda de denúncias oferecendo furos e futricas a jornalistas da cobertura política. Esqueceram Fábio Luís, passaram a citar Toffoli e Mendonça apenas de passagem e seguiram poupando Ibaneis Rocha. Nenhuma figura central do bolsonarismo apareceu — até explodir o áudio da conversa de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro.

Pessoal, um mínimo de raciocínio político! Onde o áudio foi encontrado? Obviamente, no celular de Daniel Vorcaro. Quem controlava os celulares? A perícia da PF. E por que o vazamento se deu por um veículo da imprensa alternativa, o The Intercept, e não por O Globo e demais parceiros de sempre?

O episódio dispersou energias e obrigou a concentrar fogo no filme de Bolsonaro enquanto se preparava o segundo tempo.

>>>> Peça 3 — o segundo tempo da Lava Jato 2

Jaques Wagner estava no foco da operação desde o primeiro momento, já que o Credcesta — empresa que o Master usou para explodir seu crédito consignado — resultou de uma privatização do governo baiano.

Mas, depois de deixar os rastros da politização na investida sobre Fábio Luís, os vazamentos estavam desmoralizados. A operação concentrou-se, então,  nos personagens do Centrão e esperou esvaziar a repercussão do caso Flávio Bolsonaro. O caso Wagner ficou na prateleira, à espera do segundo tempo.

A essa altura, a Operação Master já era um chuveiro de vazamentos — a ponto de procuradores ligados à Procuradoria-Geral da República alertarem para a imprudência de Mendonça ao autorizar a divulgação de investigações em andamento, com risco de prejudicar a própria apuração.

Com a legitimidade supostamente restaurada pelas incursões contra o Centrão — embora sem nenhum movimento em relação a Eduardo e Flávio Bolsonaro ou outras figuras centrais do bolsonarismo —, a Lava Jato 2 inaugura o segundo tempo tirando a prateleira  as denúncias contra Jaques Wagner, personagem relevante no universo petista e no governo Lula.

>>>> Peça 4 — as denúncias contra Jaques Wagner

Não cometerei a leviandade de afirmar que Wagner é culpado ou inocente. Jornalismo sério publicaria os vazamentos com todas as ressalvas necessárias, daria a palavra ao acusado e aguardaria o julgamento antes de formular juízo de valor. O padrão Lava Jato, ao contrário, consiste em inundar o noticiário com denúncias, insinuações e suposições, até consolidar a convicção.

Vale, então, separar o que é fato do que é tese.

<><> O que há de objetivo (fato processual, apreensão ou prova material)

O que está materialmente estabelecido é, em boa parte, processual e probatório — não conclusivo quanto ao crime:

•        A 9ª fase foi deflagrada em 18 de junho, com 18 mandados de busca e apreensão na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal, autorizados pelo STF.

•        Houve apreensão física: US$ 49 mil e 13 relógios em endereços ligados a Wagner.

•        Existe uma mensagem interceptada no aparelho de Augusto Ferreira Lima em que o parlamentar envia o contato do gerente da construtora e informa a unidade e o preço do imóvel: “a unidade é a 1702 e o preço é 2,45 mi”.

•        A base probatória citada por Mendonça é objetivamente listada: mensagens eletrônicas, áudios, registros de chamadas, documentos contratuais, comprovantes de transferência, registros societários e planilhas de pagamentos obtidos em aparelhos apreendidos nas fases anteriores.

<><> A versão de Wagner

Como manda o ofício, a palavra ao acusado: Wagner sustenta que a intervenção de Augusto Lima serviu apenas para reservar o apartamento à sua filha, enquanto ele providenciava a venda de um imóvel para assumir o contrato. É a sua explicação — não prova material, mas tampouco pode ser suprimida do noticiário.

<><> O que é suposição, imputação “em tese” ou inferência

Aqui está o grosso da narrativa acusatória — ainda não comprovada:

•        A qualificação central é explicitamente hipotética: Wagner é “apontado pela Polícia Federal como suposto beneficiário central das vantagens econômicas investigadas”. “Suposto beneficiário” é tese, não fato provado.

•        O valor de R$ 8,35 milhões em suposto recebimento é estimativa da PF, não montante comprovadamente recebido por ele.

•        O nexo de contrapartida — a ideia de que a atuação parlamentar (consignado/Lei 14.431, PEC 65 sobre o FGC, operação Master/BRB) foi troca por vantagem — permanece hipótese: os investigadores “tentam esclarecer” se o senador atuou em favor das pautas de interesse do Master. O próprio verbo denuncia que o vínculo causal não está fechado.

•        A tipificação penal é condicional: apura-se, “em tese”, corrupção passiva, corrupção ativa e lavagem de dinheiro.

•        A “relação antiga e de confiança” é inferência interpretativa: Mendonça diz que os autos apontam relação próxima e de elevado grau de confiança, “circunstância que poderia ter facilitado tratativas”. “Poderia ter facilitado” é construção probabilística.

O eixo decisivo, portanto, não é a existência dos repasses — que aparecem documentados —, mas o nexo de imputação a Wagner pessoalmente e a causalidade entre dinheiro e atuação parlamentar. E é exatamente nesses dois pontos que o material divulgado segue operando no campo do “em tese”.

É desmoralizador para toda a corporação da PF, que se utilizem vazamentos e se façam imputações baseadas em teses, suposições.

Mas a ofensiva do PADPF (Partido da Associação dos Delegados da Polícia Federal) foi eficiente no trabalho de enfraquecer o Supremo. Com as facilidades, aliás, proporcionadas pela atuação de Dias Toffoli e Alexandre Moraes.

•        As dúvidas que permanecem sobre a Lava Jato 2

No artigo acima procurei expor, didaticamente, a estratégia da Polícia Federal lava-jatista nessa tentativa de transformar o caso Master na Lava Jato 2.

>>>> Passo 1 – derrubar Dias Tofolli da relatoria do caso, garantindo um pacto com o sucessor.

>>>> Passo 2 –  o pacto com André Mendonça ficou nítido no primeiro dia, com a autorização para a quebra do sigilo bancário de Fábio Luiz Lula da Silva.

>>>> Passo 3 –  simultaneamente uma guerra contra o Supremo Tribunal Federal, para cortar-lhe as asas. Durante o primeiro mês, parecia que a Lava Jato era um caso de Fábio Luiz e dos dois Ministros do STF – Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.

Essa estratégia produziu excrescências, como ignorar políticos claramente identificados com o Master e tentar livrar o Conselho de Administração do BRB – atribuindo a compra da carteira do Master a uma suposta pressão do diretor de fiscalização do Banco Central, que nunca ocorreu.

Estratégia foi interrompida pelo vazamento do áudio da conversa de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro – que não saiu pelo Globo nem por nenhum dos canais de vazamento da PF lavajatista.

>>>> Passo 4 – uma investida contra os caciques do Centrão envolvidos com o caso Master, mas sem chegar perto de nenhuma pessoa diretamente ligado a Bolsonaro.

>>>> Passo 5 – recuperada a credibilidade perante a mídia – e é mais fácil a mídia se “render” aos apelos da fonte do que uma donzela resistir aos encantos de Tom Cruise -, avançar sobre o núcleo do PT.

<><> A ofensiva da PF

A ofensiva da PF obedeceu a um receituário manjado. Encontrou dólares no apartamento de Jaques Wagner – segundo ele, proveniente das viagens que fez – e espalhou pelo cenário para aumentar a sensação de quantidade.

Foi a mesma encenação do Caso Lunus, pelo qual a PF ligada ao Ministro da Saúde José Serra derrubou a candidatura de Roseana Sarney.

Ou do chamado “caso dos aloprados”.

Ou ainda o caso do sequestro de Abilio Diniz

<><> As dúvidas que permanecem

A dúvida que fica é sobre a origem do vazamento do diálogo entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.

As imagens foram levantados pela perícia da PF. No entanto, o vazamento não se deu pelos canais normais – especialmente Globo e Veja. Em vez disso foi pelo The Intercept.

Há algumas hipóteses e uma certeza em relação a esse episódio:

A certeza – o Ministro André Mendonça, que autorizou todos os vazamentos da operação, não autorizou o vazamento do áudio de Flávio Bolsonaro.

Hipótese 1 – um membro da operação, contrário ao silenciamento, tomou a iniciativa de vazar por outro canal.

Hipótese 2 – o comando informal da operação decidiu driblar André Mendonça, providenciando um vazamento a um veículo não-lavajatista.

As certezas que permanecem

A única certeza desse jogo é a enorme ingenuidade do chamado jornalismo independente em relação a essas pautas morais da direita – mais velhas do que o suicídio de Vargas e que a Sé de Braga.

Ainda mais nesses tempos em que o julgamento de cada veículo é instantâneo, vamos salvar nossas peles e engrossar o coro do punitivismo.

Espera-se que o grosso da imprensa passe a exigir o óbvio: os mesmos procedimentos que atingiram Jaques Wagner e outros senadores, chegue até Flávio Bolsonaro, o único sobre o qual existem provas factuais de pedidos de dinheiro a Vorcaro.

 

Fonte: Por Luís Nassif, no Jornal GGN

 

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