guerra no Irã desorganiza o Oriente Médio
A
guerra no Irã remodelou o cenário geopolítico do Oriente Médio e a derrota
impactante sofrida pelos Estados Unidos suscita sérias reflexões na elite
imperial. Alguns membros desse círculo aceitam o fracasso e propõem gerir a
situação, outros exigem intensificar a aposta bélica e a maioria hesita sem
definir o rumo a seguir. Todos pressentem a proximidade de um ponto de inflexão
no domínio regional da potência maior, mas essa mudança ainda depende do
resultado do armistício em curso.
Ninguém
sabe que duração e consistência terá o acordo de cessar-fogo que os Estados
Unidos e o Irã se preparam para assinar. São incontáveis os antecedentes de
compromissos que os governos norte-americanos violaram. Os termos conhecidos do
acordo indicam uma vitória categórica do Irã. Todos os analistas da imprensa
internacional coincidem em destacar que as condições exigidas por Teerã
prevaleceram.
Donald
Trump não conseguiu atingir qualquer objetivo de sua incursão bélica. Não houve
mudança de regime, nem desarmamento, nem limitação ao uso de mísseis. O magnata
apresenta como uma grande vitória que o Irã “nunca possuirá uma arma nuclear”,
mas isso é uma fanfarrice ridícula, pois o governo dos aiatolás sempre rejeitou
a fabricação dessa bomba. Atribuiu a essa restrição uma dimensão religiosa (fatwa)
e considerou que esse instrumento não era útil para a defesa do país.
O
compromisso a ser assinado contempla as mesmas limitações ao enriquecimento de
urânio que Teerã aceita há décadas. No meio de sua guerra fracassada, o
Pentágono tentou assaltar e roubar os depósitos de urânio, na operação mais
fracassada de todo o conflito.
O
acordo permitiria, de imediato, normalizar a navegação no Golfo e dissipar a
ameaça de uma crise econômica devido ao aumento do preço do petróleo, que tanto
preocupa Donald Trump. Mas, em troca desse gesto, o magnata teve que começar a
levantar as sanções comerciais e financeiras. Reconhece também, de fato, o
controle reforçado que o Irã instaurou no Estreito de Ormuz. No cenário
pré-guerra, não exercia um controle tão significativo. Nos últimos meses,
começou a cobrar pedágios importantes e está em discussão a forma que tal
cobrança assumirá no futuro.
O ponto
crítico é Israel, porque Benjamin Netanyahu está empenhado em destruir o acordo
com bombardeios ao Líbano, o que aniquila todos os compromissos. O Irã já vetou
a tentativa estadunidense de dissociar a trégua no Golfo da guerra que Israel
trava em suas fronteiras. Devido a essa exigência de Teerã, a situação do
Líbano foi explicitamente incorporada no acordo de cessar-fogo. Mas, para além
das inúmeras vicissitudes que afetarão essa negociação, a guerra criou um novo
cenário em toda a região.
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Múltiplos reveses
Donald
Trump lançou o ataque à espera de uma vitória rápida e agora enfrenta uma
derrota esmagadora. Este resultado deixou-o atordoado, desesperado e com medo
de uma humilhação gigantesca. Sua anunciada viagem de fim de semana
transformou-se num conflito prolongado que o magnata não soube conduzir.
Formulou propostas impraticáveis, contradisse-se todos os dias e não encontrou
um modo de disfarçar seu revés com proclamações de vitória.
Chegou
a proferir ameaças apocalípticas de destruição da civilização iraniana, para
negociar imediatamente com a agenda de seu inimigo. Nunca conseguiu assimilar a
adversidade fulminante que suas tropas enfrentaram diante de Teerã.
A
primeira surpresa foi a onda de mísseis iranianos que destruiu os radares
estadunidenses no Golfo. O segundo choque resultou da magnitude do arsenal
persa e da eficácia de seus disparos. Mobilizaram uma grande reserva de drones
baratos, que anularam os interceptadores extremamente caros e ineficazes das
baterias ianques.
A
Rússia e a China forneceram aos iranianos as informações de satélite
necessárias para atingir com precisão os alvos de cada saraivada. Teerã
utilizou, além disso, novas táticas navais, sistemas eficientes de defesa
costeira, veículos não tripulados e lanchas de ataque rápido, que neutralizaram
a presença monumental (e barroca) dos navios estadunidenses.
Após
vários meses de confrontos, inúmeras premissas do predomínio imperial na região
foram invalidados. A primazia do Pentágono, a invencibilidade do militarismo
israelense e a imunidade das ditaduras do Golfo perderam credibilidade.
O Irã
venceu a guerra com uma estratégia de desgaste mais eficaz do que a política de
simples destruição tentada pelos Estados Unidos. Donald Trump apostou num
bloqueio naval para estrangular a economia iraniana, na esperança de forçar a
capitulação de seus governantes. Mas essa liderança não se rendeu e enfrentou
com sucesso a aventura de seu inimigo, recorrendo a uma paciência estratégica
que subjugou o agressor. Teerã assimilou de Moscou e Pequim a atitude
necessária para confrontar a torpeza e a improvisação que caracterizam o
ocupante da Casa Branca.
A
cegueira política do magnata levou-o a imaginar um colapso vertiginoso do
regime iraniano, após o assassinato do presidente do país. Com a mesma miopia,
apostou numa revolução colorida, o que resultou num processo oposto de
consolidação da resistência à agressão imperial.
Com
essas respostas, Teerã chegou às negociações numa posição de força e com o
controle da escalada. Continua enfrentando o risco de ataques aéreos
sangrentos, mas já anunciou que responderia aniquilando toda a infraestrutura
dos Estados do Golfo.
Essa
destruição provocaria, por sua vez, uma crise mundial extrema no abastecimento
de gás liquefeito, fertilizantes e combustíveis. A capacidade de exportação do
Catar encontra-se gravemente afetada, os Emirados perderam fortunas, o Kuwait
renunciou a vendas volumosas e a Arábia Saudita não cumpriu contratos.
O Irã
demonstrou ao mundo sua capacidade de bloquear o estreito de Ormuz, com
dispositivos capazes de destruir refinarias, campos petrolíferos e estações de
dessalinização da água em toda a Península Arábica. Age com proporcionalidade e
com respostas equivalentes aos golpes recebidos.
Com sua
gestão do estreito, ilustrou o alcance dessa reação no plano econômico. O Irã
definiu quais são os navios que atravessam Ormuz e arrecadou somas
significativas de dinheiro com o pedágio imposto por essa administração.
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Os efeitos de uma derrota
Donald
Trump é um criminoso que ameaçou perpetrar no Irã o mesmo genocídio que seu
parceiro Benjamin Netanyahu consumou em Gaza. Esse tipo de massacre destruiu,
em tempo recorde, a autoridade, o prestígio e o poder simbólico internacional
dos Estados Unidos.
O
magnata agiu com a exasperação típica dos imperadores decadentes. Por isso,
adotou o método israelense de assassinar os líderes do campo adversário, sem
perceber as consequências adversas de uma prática terrorista que obstrui
qualquer negociação ou estratégia a médio prazo.
Em seu
desespero, Donald Trump sugeriu que poderia provocar uma catástrofe no Irã,
semelhante à perpetrada por seu antecessor Bush no Iraque. Mas evitou esse rumo
devastador e optou por negociar uma retirada que já tem efeitos geopolíticos de
enorme importância. O magnata tentará lidar com essa adversidade com mais
bravatas e despautérios. Em vez de assumir uma derrota maior do que a sofrida
por Joe Biden no Afeganistão, disfarçará o revés com alguma de suas conhecidas
incoerências. Mas nenhuma farsa anulará os efeitos da vitória iraniana.
Esse
sucesso terá impacto, acima de tudo, nas dinastias do Golfo, que já não dirigem
simples empresas petrolíferas. Têm uma grande participação no refinamento ou na
produção de produtos petroquímicos e plásticos e são proprietárias de empresas
marítimas, oleodutos e postos de abastecimento. Todas mantêm uma relação
estreita e privilegiada com os Estados Unidos, mas consolidaram seu intercâmbio
comercial com a China. Além disso, sua influência política é maior do que no
passado, tanto no Oriente Médio como na África, e rivalizam entre si em
múltiplos negócios.
Essas
monarquias perceberam, pela primeira vez, a impotência de seu protetor
norte-americano e sentiram na própria pele sua indefesa diante dos mísseis do
Irã. Se negociarem com esse adversário – assumindo atitudes de maior autonomia
em relação ao tutor ianque –, poderão alterar seriamente a dinâmica do sistema
financeiro internacional.
A
continuidade ou o ressurgimento do conflito ameaça desestabilizar novamente o
preço do petróleo. É nessa cotação que estão concentrados os desequilíbrios que
tanto desesperam Donald Trump. Inicialmente, não conseguiu conter o aumento do
preço do combustível com a libertação das reservas de petróleo bruto, nem com o
abrandamento das sanções contra a Rússia. A trégua que conseguiu impor com cada
suspensão das hostilidades foi abruptamente rompida com o reinício dos
disparos.
Donald
Trump navega por um desfiladeiro, sabendo que, se for ultrapassado um
determinado limite do preço do petróleo, sobrevirá uma recessão com grande
impacto no circuito da economia digital. A grande bolha financeira que se forma
nesse âmbito sentiria imediatamente esse efeito.
O Irã
tornou-se, portanto, o epicentro das batalhas geopolíticas atuais. Define quem
terá supremacia nos corredores da globalização, que atravessam seu país para
reduzir os custos de transporte. As rotas que ligam a Rússia à Índia e a China
à Turquia já estão muito avançadas, mas como os Estados Unidos e seu parceiro
israelense chegaram tarde, propiciaram a guerra para impor outra variante da
conexão entre a Europa, a Índia e a Ásia. O resultado adverso dessa incursão
potencia agora a perda de influência dessa rede relegada que o Ocidente
patrocina.
Donald
Trump precisa consolidar o acordo provisório que está tentando alcançar com o
Irã, mas depara-se com a ala belicista de seu próprio governo e com a elite
militar que domina a política externa de seu país. As provocações que Benjamin
Netanyahu perpetra cotidianamente – por delegação de seus padrinhos
estadunidenses – expressam esse militarismo descarado.
Se,
finalmente, se impuser algum tipo de armistício duradouro – que reflita o que
aconteceu no campo de batalha –, o Irã ampliará sua influência na região,
afetando ou neutralizando a presença militar estadunidense no Golfo.
Esse
retrocesso marcaria um salto qualitativo no declínio imperial dos Estados
Unidos. As derrotas acumuladas que o Pentágono enfrenta ao longo de várias
décadas começam a amadurecer, mas esse desfecho depende também do resultado da
guerra que Israel está travando em várias frentes.
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A desorientação do sionismo
Donald
Trump e Benjamin Netanyahu lançaram conjuntamente a guerra contra o Irã, mas se
distanciaram diante do resultado dessa operação. Enquanto o magnata procura
sair do atoleiro, seu colega israelense – apoiado pelos belicistas dos Estados
Unidos – exige que a agressão seja intensificada.
O líder
sionista faz valer essa exigência através de uma sucessão interminável de
matanças. Recebe repreensões diárias de Washington, mas multiplica igualmente
os bombardeios no Líbano, para sabotar as negociações com Teerã. Enquanto
Donald Trump tenta chegar a algum acordo que lhe permita evitar a derrota
eleitoral em novembro (e a consequente perspectiva de sua destituição),
Netanyahu procura prolongar as guerras, para contornar o julgamento por
corrupção que o levaria à prisão.
Essa
sobrevivência político-pessoal converge com o projeto expansionista do Grande
Israel, que a direita sionista apoia com total descaramento. De imediato,
tentam repetir no Líbano os crimes de Gaza. Fomentam massacres nas fronteiras
para despovoar seu vizinho e abrir caminho para a ocupação do sul desse país.
Encorajados
pelos crimes que cometem nas fronteiras norte e leste, os sionistas lançaram-se
também numa grande ofensiva militar para anexar definitivamente a Cisjordânia,
através da expansão dos assentamentos e da expulsão dos palestinos que
sobrevivem no local. O governo aprovou uma nova lei de registro de terras para
legitimar essa espoliação, forçando a transferência para o Estado israelense
dos terrenos, que este imediatamente transfere aos colonos. Concretiza esse
confisco à força, ao mesmo tempo que agrava o sofrimento dos 9.000 presos
políticos palestinos que maltrata em suas prisões de terror.
A
deriva fascista de Benjamin Netanyahu é tão explícita quanto os disparos de
seus gendarmes contra crianças, os assassinatos de jornalistas, as agressões a
cristãos e os maus-tratos a muçulmanos. Israel inaugurou um novo modelo de
guerra, que elimina a distinção entre civis e militares e legitima os
massacres, anulando qualquer vestígio de proteção humanitária às vítimas de um
conflito armado.
Começou
também a estender essa criminalidade à jurisdição marítima internacional,
através do assalto às flotilhas que transportam ajuda à população sitiada de
Gaza. Recorre à pirataria e normaliza o sequestro de ativistas fora de suas
fronteiras, aproveitando-se da cumplicidade de todos os governos do
Mediterrâneo. Seus porta-vozes divulgam vídeos que exibem os maus-tratos
infligidos a esses ativistas, para testar o terreno para ações mais violentas
contra quem denuncia o apartheid israelense.
Como já
aconteceu com a África do Sul no passado, o status internacional de Israel está
deteriorando-se num ritmo vertiginoso, com artistas, desportistas e
intelectuais que repudiam sua conduta criminosa. Em todo o mundo, os filhos de
Gaza estão ganhando a batalha política e moral contra seu opressor, hasteando
as bandeiras palestinas que irrompem em inúmeros eventos de relevância global.
Essa indignação coletiva tem impacto na própria sociedade israelense, que
percebe essa rejeição sem poder assumi-la.
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O expansionismo em apuros
A
violência extrema que Israel exerce segue o modelo colonial, que desenvolve
para expulsar os palestinos de suas terras e expandir os assentamentos com
população imigrante. O país foi forjado com esse dispositivo de extermínio e,
por essa razão, não consegue conter o ímpeto criminoso do sionismo. Tal como
ocorreu no passado com outros esquemas desse colonialismo (Estados Unidos,
Canadá, Austrália), os residentes locais não são explorados, mas aniquilados
pelos novos ocupantes.
Israel
surgiu com essa atuação aterrorizante e consolidou-se recorrendo a uma sucessão
de guerras, para consumar a limpeza étnica da população nativa. Procurou tornar
invisível a própria existência nacional desse conglomerado e montou a falácia
dos “Dois Estados”, para encobrir sua apropriação das terras palestinas.
Benjamin
Netanyahu implementa essa política de forma extrema. Carrega todos os apelidos
imagináveis. É de direita, fascista, criminoso e genocida, mas leva adiante o
mesmo projeto sionista de seus antecessores. O belicismo desenfreado que
emprega obedece a uma base colonial, que exige guerrear constantemente para
consolidar e expandir as fronteiras.
Mas
Israel sempre complementa esse interesse específico com seu papel de
instrumento do imperialismo norte-americano na região. Opera como um braço
estendido dos Estados Unidos e não apenas como expoente do lobby sionista
(AIPAC) desse país. Desempenha um papel co-imperialista na estrutura interna do
poder estadunidense e tem cumprido todos os mandatos da Casa Branca para
remodelar o Oriente Médio, com guerras destinadas a garantir o controle
estadunidense do petróleo e das rotas comerciais.
É
importante lembrar dessa hierarquia no funcionamento do imperialismo, para
evitar a frequente apresentação de Donald Trump como um instrumento de Benjamin
Netanyahu. Essa imagem contrasta com a evidente supremacia da principal
potência do planeta sobre seu pequeno subordinado. De qualquer forma, os
importantes conflitos que opõem o líder sionista a seu par estadunidense
revelam tensões internas do poder norte-americano. Como Israel foi integrado
nessa estrutura, seus porta-vozes refletem as tendências e controvérsias
predominantes em toda essa configuração.
Por sua
dependência do apoio ianque, o Estado sionista não poderia sustentar nem por um
minuto suas incursões bélicas sem o abastecimento norte-americano. Mas a
disposição de Benjamin Netanyahu a guerrear em sete frentes conduz a uma
expansão militar insustentável de Israel.
O
principal obstáculo atual do sionismo provém do Irã. Não só a vitória persa no
Golfo constitui uma derrota contundente para Telaviv, como, pela primeira vez,
Teerã demonstrou capacidade de causar danos diretos, por meio dos mísseis que
atingiram Israel. Os líderes desse país já admitem que as defesas foram
neutralizadas e que essa vulnerabilidade altera a dinâmica do conflito.
O Irã
poderia bombardear seriamente seu adversário e ninguém prevê respostas eficazes
face a essa investida. Teerã começou a disparar em resposta aos bombardeios que
o Líbano sofre e, dessa forma, introduz um mecanismo inesperado de dissuasão
contra a criminalidade sionista.
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O ensaio colonial em dificuldades
O
fracasso da agressão ao Irã compromete a viabilidade do plano apoiado por
Donald Trump para consolidar a ocupação israelense de Gaza, transformando esse
minúsculo território num novo experimento colonial.
O
chamado “Conselho da Paz” que o magnata promove para esse enclave consagra a
continuidade do genocídio. O futuro desse campo de concentração é debatido na
Casa Branca, no meio de bombardeios e assassinatos dos sobreviventes. Longe de
considerar qualquer tipo de reconstrução a serviço de seus habitantes, os
trumpistas propõem erguer edifícios de luxo e praias para um turismo de elite,
sobre as cinzas dos 70.000 mortos pelo exército sionista.
O
Conselho de multimilionários, predadores e genocidas que administraria esse
empreendimento concebe investimentos limitados a esse balneário, partindo do
princípio de que a maior parte da população de Gaza ficará alojada em campos de
refugiados distantes da costa.
Donald
Trump autoproclamou-se presidente vitalício do Conselho e administrará esse
enclave com seu cupincha Tony Blair. Propõe um modelo de gestão semelhante ao
da Companhia Britânica das Índias Orientais, que, nos primórdios do
capitalismo, geria os territórios conquistados pela Grã-Bretanha com exércitos
e funcionários próprios. Já fixou uma cota de entrada para todos os
participantes dessa transformação de Gaza num território inteiramente
privatizado. Pretende testar ali os enclaves ultracoloniais que a extrema-direita
promove para outras regiões do planeta.
Os
palestinos não figuram em nenhuma linha dessa iniciativa. As eleições estão tão
descartadas quanto qualquer indício de administração própria, e a velha
formalidade de sugerir algum futuro Estado palestino ficou totalmente
enterrada. O “plano de paz” visa apenas o desarmamento do Hamas e a anulação de
qualquer força policial dos próprios habitantes de Gaza. Um tecnocrata
decorativo de origem palestina – cooptado pela burocracia de Washington – seria
o único representante dessa comunidade, na gestão de um dispositivo colonial
semelhante ao que prevalece no Kosovo.
O
empreendimento colonial em Gaza enfrenta outro obstáculo de igual importância,
dado o papel da Turquia. As ambições subimperiais neo-otomanas colidem, em
várias questões, com o expansionismo co-imperial de Israel. Existe, acima de
tudo, uma séria disputa pelos recursos de gás do Mediterrâneo que as duas
subpotências aspiram a controlar.
Os
sionistas já expropriaram a porção dessas jazidas que cabia aos habitantes de
Gaza e estabeleceram uma aliança com Grécia e Chipre para controlar as
explorações energéticas nas águas em disputa. A Turquia exige sua parte e
insere essa exigência numa estratégia para criar três corredores logísticos de
abastecimento e comercialização de combustível. A extrema direita israelense
está protestando com veemência e alguns prevêem uma rivalidade tensa entre os
dois países, que já desponta nas zonas da Síria sob controle de ambos os
exércitos.
Donald
Trump encara sua tentativa de dominação de Gaza retomando os antigos mandatos
coloniais da Liga das Nações. Pretende usurpar competências à ONU e desafiar o
funcionamento do Conselho de Segurança, para instaurar um primeiro esquema de
remodelação geopolítica alinhado com seu projeto imperial.
O
problema reside no total desajuste dessa ambição em relação à realidade. Os
fracassos militares diante do Irã ilustram essa fratura. Se o magnata for
definitivamente humilhado por Teerã, terá que arquivar seu plano de se apoderar
de Gaza. E esse fracasso assumirá dimensões muito maiores se o outro conflito
de alcance global que se desenrola na Ucrânia seguir por caminhos adversos para
os Estados Unidos.
Fonte:
Por Claudio Katz - Tradução: Fernando Lima das Neves, em A
Terra é Redonda

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