Celso
Pinto de Melo: A guerra antes da guerra
Guerras
começam raramente com tiros. Antes dos mísseis, vêm os bloqueios. Antes dos
combates, vêm os embargos, as sanções financeiras, a disputa pelo controle das
rotas comerciais e a negação do acesso a matérias-primas estratégicas. Muito
antes dos exércitos entrarem em movimento, a geopolítica já está operando sobre
os fluxos de energia, alimentos, minerais e tecnologia que sustentam a vida
econômica das sociedades modernas.
A
história dos últimos dois séculos mostra que os grandes conflitos
internacionais não foram apenas disputas territoriais ou ideológicas. Foram
também disputas pelo controle dos recursos necessários para sustentar sistemas
produtivos cada vez mais complexos. Em muitos casos, a guerra aberta
representou apenas a etapa final de um processo iniciado muito antes, quando
uma potência passou a restringir o acesso de outra às bases materiais de sua
sobrevivência econômica e militar.
Essa
lógica voltou ao centro da política internacional. A crescente rivalidade entre
os Estados Unidos e a China não pode ser compreendida apenas como uma disputa
comercial ou tecnológica. Trata-se de uma competição sistêmica pelo controle
dos recursos, das cadeias produtivas e das capacidades industriais que
sustentam a economia digital, a transição energética e o poder militar do
século XXI.
Nesse
contexto, a escassez deixa de ser um fenômeno natural para se tornar uma
construção política.
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Quando a escassez produz a guerra
A
industrialização transformou profundamente a relação entre a economia e o
conflito. A partir do final do século XIX, a capacidade de sustentar fluxos
contínuos de energia, fertilizantes, metais e produtos químicos tornou-se tão
importante quanto a própria capacidade militar. Foi nesse ambiente que ciência,
tecnologia e indústria passaram a integrar o núcleo da estratégia dos Estados.
O
exemplo clássico é a síntese da amônia desenvolvida por Fritz Haber e levada à
escala industrial por Carl Bosch. Ao permitir a produção artificial de
fertilizantes e explosivos, o processo reduziu drasticamente a dependência
alemã dos nitratos naturais importados. Mais do que uma inovação química, o
processo Haber-Bosch representou uma resposta geopolítica a uma vulnerabilidade
estratégica.
A lição
permanece atual. Bloqueios econômicos só produzem seus efeitos máximos quando o
país-alvo não consegue desenvolver alternativas tecnológicas capazes de
contorná-los.
Na
Segunda Guerra Mundial, a Alemanha tentou compensar sua escassez de petróleo
por meio da produção de combustíveis sintéticos derivados do carvão. O esforço
foi gigantesco, mas insuficiente. A ofensiva em direção ao Cáucaso e a batalha
de Stalingrado foram tentativas de capturar uma base material que a tecnologia
não conseguiu substituir.
A
guerra industrial dependia cada vez mais da capacidade de manter funcionando os
sistemas produtivos complexos sob condições extremas de pressão econômica e
militar.
O caso
japonês talvez seja o exemplo mais claro de como a guerra pode começar antes da
guerra. Dependente de importações de petróleo, minério de ferro, cobre e
borracha, o Japão havia construído uma potência industrial sobre uma base
material extremamente vulnerável. Em 1940, entre 80% e 90% do petróleo
consumido pelo país era importado. Essa fragilidade era agravada por uma pauta
exportadora concentrada. A seda respondia por parcela expressiva das
exportações japonesas e fornecia as divisas necessárias para financiar a
importação de energia e os insumos industriais.
Quando
os Estados Unidos congelaram os ativos japoneses e impuseram restrições ao
acesso ao petróleo em 1941, o objetivo era pressionar Tóquio a rever sua
política expansionista na Ásia. Para os dirigentes japoneses, entretanto, o
gesto foi percebido como ameaça existencial.
Ao
mesmo tempo, Washington procurava reduzir sua própria vulnerabilidade. O
governo estimulou a indústria química a acelerar o desenvolvimento de fibras
sintéticas capazes de substituir a seda japonesa, enquanto o uso da seda passou
a ser progressivamente direcionado para aplicações consideradas estratégicas.
Pearl Harbor foi uma surpresa militar. A guerra, porém, já havia começado
quando o petróleo passou a ser utilizado como instrumento de coerção econômica.
O
aspecto frequentemente esquecido dessa história é que os Estados Unidos só
puderam sustentar o bloqueio porque reduziram previamente sua própria
dependência da seda japonesa. O desenvolvimento do náilon pela DuPont e sua
rápida incorporação ao esforço de guerra demonstram que ciência, tecnologia e
empresas já desempenhavam um papel central nas disputas geopolíticas do século
XX.
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Da era do petróleo à pax silica
A
rivalidade contemporânea entre os Estados Unidos e a China reproduz essa lógica
em uma escala inédita. Se o petróleo foi o recurso estratégico por excelência
do século XX, o século XXI está sendo organizado em torno dos semicondutores,
dos minerais críticos, das infraestruturas digitais, da inteligência artificial
e dos sistemas avançados de processamento de dados.
Não por
acaso, o Departamento de Estado norte-americano lançou, em dezembro de 2025, a
iniciativa Pax Silica.
Mais do
que um programa específico, a Pax Silica representa o reconhecimento explícito
de que a competição econômica voltou a ser organizada em torno do controle de
cadeias produtivas consideradas essenciais para a segurança nacional.
A Pax
Silica articula semicondutores, inteligência artificial, infraestrutura
energética, minerais críticos e segurança econômica em um mesmo projeto
geopolítico. Ela dialoga diretamente com o CHIPS and Science Act e com as
estratégias de friend-shoring que procuram deslocar etapas produtivas para
países considerados politicamente confiáveis.
Produzir
deixou de ser suficiente. O centro da disputa passou a ser o controle das
etapas críticas das cadeias globais.
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O Brasil diante da nova geopolítica dos recursos
É nesse
cenário que o Brasil ocupa uma posição singular.
Poucos
países combinam tamanha diversidade de recursos minerais, capacidade energética
e escala territorial. O país reúne reservas relevantes de nióbio, grafite,
manganês, cobre, terras-raras e lítio, além do potencial representado pelo
pré-sal e pelas energias renováveis. Paradoxalmente, essa abundância convive
com uma inserção internacional marcada pela exportação de produtos de baixo
valor agregado.
O caso
do nióbio mostra que alternativas são possíveis. A experiência da CBMM
(Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração), empresa sediada em Araxá (MG)
e principal produtora mundial de nióbio, demonstra que é viável controlar
cadeias produtivas, investir em pesquisa, desenvolver aplicações industriais e
exercer influência sobre mercados globais.
Mas a
exceção não se transformou em regra.
Da
mesma forma, a trajetória do pré-sal revelou a capacidade de articular
universidades, centros de pesquisa, empresas e políticas públicas em torno de
uma missão tecnológica de longo prazo. O que ainda não foi construído é uma
estratégia semelhante para os minerais críticos que estruturam a disputa
tecnológica contemporânea.
A nova
geopolítica dos recursos não se resume à posse de minerais. O verdadeiro
diferencial está na capacidade de transformar recursos naturais em cadeias
produtivas, competências tecnológicas e capacidade industrial. É precisamente
nesse ponto que se encontra o principal desafio brasileiro.
O
nióbio constitui um caso particularmente instrutivo. O Brasil concentra a maior
parte das reservas conhecidas do mineral e abriga a CBMM, empresa que conseguiu
construir uma posição singular no mercado mundial. Mais do que exportar
minério, a empresa desenvolveu tecnologias de processamento, aplicações
industriais e redes globais de clientes. O resultado foi a construção de uma
posição de mercado baseada não apenas na disponibilidade do recurso, mas no
domínio do conhecimento associado a ele.
A lição
do nióbio é simples: recursos naturais geram poder apenas quando acompanhados
de capacidades tecnológicas e industriais. A mera exportação de commodities
dificilmente produz soberania econômica duradoura.
O mesmo
raciocínio vale para as terras-raras. O Brasil possui reservas significativas
desses elementos, especialmente em Minas Gerais, Goiás e Amazonas. No entanto,
a maior parte do valor econômico se encontra nas etapas posteriores da cadeia.
A separação química, o refino e a fabricação de ímãs permanentes de alto
desempenho são processos tecnologicamente complexos e dominados por poucos
países. A China construiu sua liderança mundial não apenas porque possui
reservas, mas especialmente porque investiu durante décadas no domínio dessas
etapas críticas.
O lítio
oferece uma oportunidade semelhante. O Vale do Jequitinhonha tornou-se uma das
regiões mais promissoras para a produção desse mineral, essencial para baterias
recarregáveis, veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia.
Entretanto, a experiência internacional mais uma vez mostra que o maior valor
econômico não está na extração do lítio bruto, mas na fabricação de materiais
catódicos, baterias e sistemas integrados de armazenamento de energia.
A
diferença entre exportar concentrados minerais e produzir baterias avançadas
corresponde, em muitos casos, à diferença entre participar marginalmente de uma
cadeia produtiva e vir a ocupar seus segmentos mais rentáveis.
Essa
discussão não se restringe aos minerais. O pré-sal demonstrou que o Brasil pode
desenvolver tecnologias de fronteira quando existe coordenação entre
universidades, centros de pesquisa, empresas e políticas públicas. Ao longo de
décadas, foram construídas competências em geologia, engenharia submarina,
materiais avançados, robótica e processamento de dados que permitiram ao país
explorar reservatórios localizados a milhares de metros de profundidade. Mais
do que petróleo, o pré-sal produziu conhecimento, engenharia, formação de
recursos humanos e uma complexa rede de fornecedores tecnológicos.
O
desafio é reproduzir essa experiência em outros setores estratégicos. Um caso
particularmente relevante é o dos fertilizantes. A guerra na Ucrânia revelou a
vulnerabilidade brasileira diante das importações de potássio, ureia e outros
insumos fundamentais para o agronegócio.
O
paradoxo é evidente: uma das maiores potências agrícolas do planeta depende
fortemente de cadeias externas para sustentar sua produção de alimentos [citar
aterraeredonda.com.br/conhecer-o-territorio/]. A história do processo
Haber-Bosch mostra que fertilizantes não são apenas uma questão agrícola. São
também um componente da segurança econômica e da soberania nacional.
Nesse
contexto, o hidrogênio verde e a amônia verde assumem importância crescente.
Não deixa de ser simbólico que a amônia volte a ocupar posição estratégica mais
de um século após Haber e Bosch. Se no início do século XX ela esteve associada
aos fertilizantes e aos explosivos, no século XXI passa a ser vista também como
vetor de armazenamento e transporte de energia renovável.
Graças
à abundância de recursos solares, eólicos e hídricos, o Brasil reúne condições
excepcionais para se tornar um dos principais produtores mundiais desses
insumos. Mais do que uma oportunidade de exportação, trata-se de uma
possibilidade de reconstruir cadeias industriais associadas à química, aos
fertilizantes, aos combustíveis de baixo carbono e ao armazenamento de energia.
O
risco, entretanto, é repetir um padrão histórico já conhecido. Assim como
ocorreu em diversos ciclos de commodities, o país pode limitar-se a fornecer
insumos básicos enquanto outros países capturam as etapas mais sofisticadas da
cadeia. A transição energética não elimina a questão do desenvolvimento
industrial; ao contrário, ela a recoloca em novos termos.
A
discussão sobre minerais críticos, fertilizantes, hidrogênio verde e energia
conduz inevitavelmente ao tema da reindustrialização. Em um mundo cada vez mais
organizado em torno da competição tecnológica, a indústria volta a ocupar
posição central nas estratégias nacionais de desenvolvimento. Os Estados Unidos
fazem isso por meio do CHIPS Act e da
Pax Silica. A China o faz por meio de políticas industriais de longo prazo
articuladas a objetivos geopolíticos explícitos. A União Europeia procura
reduzir dependências externas em setores considerados críticos.
O
Brasil, por sua vez, ainda oscila entre reconhecer a importância estratégica de
seus recursos e tratá-los apenas como fontes de exportação.
A
questão central não é a simples posse dos recursos, mas a capacidade de
transformá-los em conhecimento, indústria, inovação e poder estratégico. No
século XXI, recursos naturais e capacidade industrial tornaram-se partes
inseparáveis de uma mesma equação. Os países que controlam simultaneamente seus
recursos, suas tecnologias e suas cadeias produtivas são também aqueles que
detêm maior autonomia para definir o próprio destino.
A
história mostra que países ricos em recursos naturais nem sempre se tornam
países poderosos. Em muitos casos, tornam-se apenas fornecedores de insumos
para projetos de poder concebidos em outros lugares. A disputa entre Estados
Unidos e China indica que a geopolítica do século XXI será definida menos pela
posse dos recursos e mais pelo controle das capacidades tecnológicas que lhes
agregam valor.
A
escassez, quando politicamente produzida, continua sendo um dos caminhos mais
curtos entre a paz precária e o conflito aberto. Para o Brasil, a questão
decisiva não é apenas possuir matérias-primas estratégicas, mas decidir
politicamente o que fazer com elas. Em um mundo marcado pela competição
sistêmica entre grandes potências, abundância sem estratégia pode
transformar-se em uma sofisticada forma de dependência.
Fonte:
A Terra é Redonda

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