terça-feira, 23 de junho de 2026

Celso Pinto de Melo: A guerra antes da guerra

Guerras começam raramente com tiros. Antes dos mísseis, vêm os bloqueios. Antes dos combates, vêm os embargos, as sanções financeiras, a disputa pelo controle das rotas comerciais e a negação do acesso a matérias-primas estratégicas. Muito antes dos exércitos entrarem em movimento, a geopolítica já está operando sobre os fluxos de energia, alimentos, minerais e tecnologia que sustentam a vida econômica das sociedades modernas.

A história dos últimos dois séculos mostra que os grandes conflitos internacionais não foram apenas disputas territoriais ou ideológicas. Foram também disputas pelo controle dos recursos necessários para sustentar sistemas produtivos cada vez mais complexos. Em muitos casos, a guerra aberta representou apenas a etapa final de um processo iniciado muito antes, quando uma potência passou a restringir o acesso de outra às bases materiais de sua sobrevivência econômica e militar.

Essa lógica voltou ao centro da política internacional. A crescente rivalidade entre os Estados Unidos e a China não pode ser compreendida apenas como uma disputa comercial ou tecnológica. Trata-se de uma competição sistêmica pelo controle dos recursos, das cadeias produtivas e das capacidades industriais que sustentam a economia digital, a transição energética e o poder militar do século XXI.

Nesse contexto, a escassez deixa de ser um fenômeno natural para se tornar uma construção política.

<><> Quando a escassez produz a guerra

A industrialização transformou profundamente a relação entre a economia e o conflito. A partir do final do século XIX, a capacidade de sustentar fluxos contínuos de energia, fertilizantes, metais e produtos químicos tornou-se tão importante quanto a própria capacidade militar. Foi nesse ambiente que ciência, tecnologia e indústria passaram a integrar o núcleo da estratégia dos Estados.

O exemplo clássico é a síntese da amônia desenvolvida por Fritz Haber e levada à escala industrial por Carl Bosch. Ao permitir a produção artificial de fertilizantes e explosivos, o processo reduziu drasticamente a dependência alemã dos nitratos naturais importados. Mais do que uma inovação química, o processo Haber-Bosch representou uma resposta geopolítica a uma vulnerabilidade estratégica.

A lição permanece atual. Bloqueios econômicos só produzem seus efeitos máximos quando o país-alvo não consegue desenvolver alternativas tecnológicas capazes de contorná-los.

Na Segunda Guerra Mundial, a Alemanha tentou compensar sua escassez de petróleo por meio da produção de combustíveis sintéticos derivados do carvão. O esforço foi gigantesco, mas insuficiente. A ofensiva em direção ao Cáucaso e a batalha de Stalingrado foram tentativas de capturar uma base material que a tecnologia não conseguiu substituir.

A guerra industrial dependia cada vez mais da capacidade de manter funcionando os sistemas produtivos complexos sob condições extremas de pressão econômica e militar.

O caso japonês talvez seja o exemplo mais claro de como a guerra pode começar antes da guerra. Dependente de importações de petróleo, minério de ferro, cobre e borracha, o Japão havia construído uma potência industrial sobre uma base material extremamente vulnerável. Em 1940, entre 80% e 90% do petróleo consumido pelo país era importado. Essa fragilidade era agravada por uma pauta exportadora concentrada. A seda respondia por parcela expressiva das exportações japonesas e fornecia as divisas necessárias para financiar a importação de energia e os insumos industriais.

Quando os Estados Unidos congelaram os ativos japoneses e impuseram restrições ao acesso ao petróleo em 1941, o objetivo era pressionar Tóquio a rever sua política expansionista na Ásia. Para os dirigentes japoneses, entretanto, o gesto foi percebido como ameaça existencial.

Ao mesmo tempo, Washington procurava reduzir sua própria vulnerabilidade. O governo estimulou a indústria química a acelerar o desenvolvimento de fibras sintéticas capazes de substituir a seda japonesa, enquanto o uso da seda passou a ser progressivamente direcionado para aplicações consideradas estratégicas. Pearl Harbor foi uma surpresa militar. A guerra, porém, já havia começado quando o petróleo passou a ser utilizado como instrumento de coerção econômica.

O aspecto frequentemente esquecido dessa história é que os Estados Unidos só puderam sustentar o bloqueio porque reduziram previamente sua própria dependência da seda japonesa. O desenvolvimento do náilon pela DuPont e sua rápida incorporação ao esforço de guerra demonstram que ciência, tecnologia e empresas já desempenhavam um papel central nas disputas geopolíticas do século XX.

<><> Da era do petróleo à pax silica

A rivalidade contemporânea entre os Estados Unidos e a China reproduz essa lógica em uma escala inédita. Se o petróleo foi o recurso estratégico por excelência do século XX, o século XXI está sendo organizado em torno dos semicondutores, dos minerais críticos, das infraestruturas digitais, da inteligência artificial e dos sistemas avançados de processamento de dados.

Não por acaso, o Departamento de Estado norte-americano lançou, em dezembro de 2025, a iniciativa Pax Silica.

Mais do que um programa específico, a Pax Silica representa o reconhecimento explícito de que a competição econômica voltou a ser organizada em torno do controle de cadeias produtivas consideradas essenciais para a segurança nacional.

A Pax Silica articula semicondutores, inteligência artificial, infraestrutura energética, minerais críticos e segurança econômica em um mesmo projeto geopolítico. Ela dialoga diretamente com o CHIPS and Science Act e com as estratégias de friend-shoring que procuram deslocar etapas produtivas para países considerados politicamente confiáveis.

Produzir deixou de ser suficiente. O centro da disputa passou a ser o controle das etapas críticas das cadeias globais.

<><> O Brasil diante da nova geopolítica dos recursos

É nesse cenário que o Brasil ocupa uma posição singular.

Poucos países combinam tamanha diversidade de recursos minerais, capacidade energética e escala territorial. O país reúne reservas relevantes de nióbio, grafite, manganês, cobre, terras-raras e lítio, além do potencial representado pelo pré-sal e pelas energias renováveis. Paradoxalmente, essa abundância convive com uma inserção internacional marcada pela exportação de produtos de baixo valor agregado.

O caso do nióbio mostra que alternativas são possíveis. A experiência da CBMM (Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração), empresa sediada em Araxá (MG) e principal produtora mundial de nióbio, demonstra que é viável controlar cadeias produtivas, investir em pesquisa, desenvolver aplicações industriais e exercer influência sobre mercados globais.

Mas a exceção não se transformou em regra.

Da mesma forma, a trajetória do pré-sal revelou a capacidade de articular universidades, centros de pesquisa, empresas e políticas públicas em torno de uma missão tecnológica de longo prazo. O que ainda não foi construído é uma estratégia semelhante para os minerais críticos que estruturam a disputa tecnológica contemporânea.

A nova geopolítica dos recursos não se resume à posse de minerais. O verdadeiro diferencial está na capacidade de transformar recursos naturais em cadeias produtivas, competências tecnológicas e capacidade industrial. É precisamente nesse ponto que se encontra o principal desafio brasileiro.

O nióbio constitui um caso particularmente instrutivo. O Brasil concentra a maior parte das reservas conhecidas do mineral e abriga a CBMM, empresa que conseguiu construir uma posição singular no mercado mundial. Mais do que exportar minério, a empresa desenvolveu tecnologias de processamento, aplicações industriais e redes globais de clientes. O resultado foi a construção de uma posição de mercado baseada não apenas na disponibilidade do recurso, mas no domínio do conhecimento associado a ele.

A lição do nióbio é simples: recursos naturais geram poder apenas quando acompanhados de capacidades tecnológicas e industriais. A mera exportação de commodities dificilmente produz soberania econômica duradoura.

O mesmo raciocínio vale para as terras-raras. O Brasil possui reservas significativas desses elementos, especialmente em Minas Gerais, Goiás e Amazonas. No entanto, a maior parte do valor econômico se encontra nas etapas posteriores da cadeia. A separação química, o refino e a fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho são processos tecnologicamente complexos e dominados por poucos países. A China construiu sua liderança mundial não apenas porque possui reservas, mas especialmente porque investiu durante décadas no domínio dessas etapas críticas.

O lítio oferece uma oportunidade semelhante. O Vale do Jequitinhonha tornou-se uma das regiões mais promissoras para a produção desse mineral, essencial para baterias recarregáveis, veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia. Entretanto, a experiência internacional mais uma vez mostra que o maior valor econômico não está na extração do lítio bruto, mas na fabricação de materiais catódicos, baterias e sistemas integrados de armazenamento de energia.

A diferença entre exportar concentrados minerais e produzir baterias avançadas corresponde, em muitos casos, à diferença entre participar marginalmente de uma cadeia produtiva e vir a ocupar seus segmentos mais rentáveis.

Essa discussão não se restringe aos minerais. O pré-sal demonstrou que o Brasil pode desenvolver tecnologias de fronteira quando existe coordenação entre universidades, centros de pesquisa, empresas e políticas públicas. Ao longo de décadas, foram construídas competências em geologia, engenharia submarina, materiais avançados, robótica e processamento de dados que permitiram ao país explorar reservatórios localizados a milhares de metros de profundidade. Mais do que petróleo, o pré-sal produziu conhecimento, engenharia, formação de recursos humanos e uma complexa rede de fornecedores tecnológicos.

O desafio é reproduzir essa experiência em outros setores estratégicos. Um caso particularmente relevante é o dos fertilizantes. A guerra na Ucrânia revelou a vulnerabilidade brasileira diante das importações de potássio, ureia e outros insumos fundamentais para o agronegócio.

O paradoxo é evidente: uma das maiores potências agrícolas do planeta depende fortemente de cadeias externas para sustentar sua produção de alimentos [citar aterraeredonda.com.br/conhecer-o-territorio/]. A história do processo Haber-Bosch mostra que fertilizantes não são apenas uma questão agrícola. São também um componente da segurança econômica e da soberania nacional.

Nesse contexto, o hidrogênio verde e a amônia verde assumem importância crescente. Não deixa de ser simbólico que a amônia volte a ocupar posição estratégica mais de um século após Haber e Bosch. Se no início do século XX ela esteve associada aos fertilizantes e aos explosivos, no século XXI passa a ser vista também como vetor de armazenamento e transporte de energia renovável.

Graças à abundância de recursos solares, eólicos e hídricos, o Brasil reúne condições excepcionais para se tornar um dos principais produtores mundiais desses insumos. Mais do que uma oportunidade de exportação, trata-se de uma possibilidade de reconstruir cadeias industriais associadas à química, aos fertilizantes, aos combustíveis de baixo carbono e ao armazenamento de energia.

O risco, entretanto, é repetir um padrão histórico já conhecido. Assim como ocorreu em diversos ciclos de commodities, o país pode limitar-se a fornecer insumos básicos enquanto outros países capturam as etapas mais sofisticadas da cadeia. A transição energética não elimina a questão do desenvolvimento industrial; ao contrário, ela a recoloca em novos termos.

A discussão sobre minerais críticos, fertilizantes, hidrogênio verde e energia conduz inevitavelmente ao tema da reindustrialização. Em um mundo cada vez mais organizado em torno da competição tecnológica, a indústria volta a ocupar posição central nas estratégias nacionais de desenvolvimento. Os Estados Unidos fazem isso por meio do CHIPS Act  e da Pax Silica. A China o faz por meio de políticas industriais de longo prazo articuladas a objetivos geopolíticos explícitos. A União Europeia procura reduzir dependências externas em setores considerados críticos.

O Brasil, por sua vez, ainda oscila entre reconhecer a importância estratégica de seus recursos e tratá-los apenas como fontes de exportação.

A questão central não é a simples posse dos recursos, mas a capacidade de transformá-los em conhecimento, indústria, inovação e poder estratégico. No século XXI, recursos naturais e capacidade industrial tornaram-se partes inseparáveis de uma mesma equação. Os países que controlam simultaneamente seus recursos, suas tecnologias e suas cadeias produtivas são também aqueles que detêm maior autonomia para definir o próprio destino.

A história mostra que países ricos em recursos naturais nem sempre se tornam países poderosos. Em muitos casos, tornam-se apenas fornecedores de insumos para projetos de poder concebidos em outros lugares. A disputa entre Estados Unidos e China indica que a geopolítica do século XXI será definida menos pela posse dos recursos e mais pelo controle das capacidades tecnológicas que lhes agregam valor.

A escassez, quando politicamente produzida, continua sendo um dos caminhos mais curtos entre a paz precária e o conflito aberto. Para o Brasil, a questão decisiva não é apenas possuir matérias-primas estratégicas, mas decidir politicamente o que fazer com elas. Em um mundo marcado pela competição sistêmica entre grandes potências, abundância sem estratégia pode transformar-se em uma sofisticada forma de dependência.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

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