terça-feira, 23 de junho de 2026

Delegados da PF, STF e Planalto: a história cresceu mais do que os fatos

Apuração encontrou negativas tanto no gabinete de André Mendonça quanto no Ministério da Justiça para a principal versão que circulou nos bastidores de Brasília...

Brasília tem um talento especial para transformar um despacho administrativo em thriller político. Às vezes, basta uma decisão burocrática, algumas fontes contrariadas e uma boa dose de imaginação coletiva para que uma história ganhe vida própria.

Foi mais ou menos isso que aconteceu nos últimos dias.

Tudo começou com uma medida anunciada pelo governo Lula em abril: o retorno à Polícia Federal de delegados e agentes que estavam cedidos a outros órgãos públicos. Trata-se de uma decisão administrativa, discutível ou não, mas relativamente simples em sua essência.

Só que, em Brasília, histórias raramente permanecem simples.

Primeiro surgiu a informação de que o Supremo Tribunal Federal teria ficado fora da convocação. Depois apareceram versões segundo as quais a medida teria como alvo um delegado lotado no gabinete do ministro André Mendonça, que auxilia o magistrado em processos sensíveis, incluindo casos relacionados ao Banco Master e às fraudes no INSS.

A partir daí, a narrativa começou a crescer.

Em poucas horas, o que era uma discussão sobre cessões de servidores passou a ser tratado como um possível embate entre o Palácio do Planalto e um ministro do Supremo. Vieram relatos de bastidores, supostos recados enviados ao governo, reações reservadas, pressões políticas e até a tese de que o governo teria recuado diante da resistência de André Mendonça.

Diante da repercussão, decidi apurar o que havia de concreto nessa história.

A primeira informação que obtive veio do próprio Supremo Tribunal Federal. Procurei a Corte para entender se havia, de fato, alguma movimentação envolvendo a devolução de policiais federais cedidos ao tribunal. A resposta foi que o STF não recebeu qualquer ofício do Ministério da Justiça solicitando o retorno desses servidores.

A partir daí, fui atrás do ponto central da narrativa que circulava em Brasília: a suposta reação de André Mendonça.

Conversei com uma fonte ligada ao gabinete do ministro. Perguntei se havia chegado algum pedido para a devolução do delegado citado nas reportagens e se o ministro havia reagido à medida.

A resposta foi direta:

“A única parte que eu consigo garantir é que não chegou nada no gabinete pedindo de volta. E que o ministro não mandou recado nenhum.”

Insisti especificamente sobre a versão segundo a qual Mendonça teria enviado emissários ao Planalto ou demonstrado insatisfação ao governo.

A resposta foi ainda mais objetiva:

“Não.”

Como toda boa apuração exige ouvir os dois lados, procurei também o Ministério da Justiça.

Questionei uma fonte da pasta sobre a narrativa que vinha sendo construída nos bastidores e reproduzida em parte da imprensa: a existência de um conflito entre o governo e o ministro do STF em razão da convocação dos policiais federais.

A resposta foi categórica:

“Não procede.”

Perguntei então se havia qualquer elemento que indicasse uma crise institucional, uma disputa entre o governo e André Mendonça ou alguma tentativa de interferência em investigações conduzidas ou acompanhadas pelo gabinete do ministro.

A resposta foi igualmente clara:

“Não há interferência alguma.”

Ao longo das conversas, o que encontrei foi algo que contrasta com a intensidade das versões que circularam nos últimos dias. Nem as fontes ligadas ao gabinete de André Mendonça nem as fontes consultadas no Ministério da Justiça confirmaram a existência de embates, pressões, reações políticas ou qualquer tipo de crise envolvendo o episódio.

Isso não significa que todas as dúvidas tenham sido esclarecidas.

Continua legítimo questionar os critérios adotados pelo governo para a convocação dos policiais federais. Também é razoável perguntar por que determinados órgãos foram alcançados pela medida e outros não. O próprio fato de o STF não ter recebido comunicação semelhante à enviada a outros órgãos permanece como uma questão relevante.

Mas essas são perguntas administrativas.

O que minha apuração não encontrou foi evidência para sustentar a principal narrativa que ganhou força nos bastidores: a de um confronto entre André Mendonça e o governo Lula motivado por investigações sensíveis.

Ao contrário. As fontes que ouvi dos dois lados negaram a existência de crise, negaram a existência de embate e negaram qualquer tentativa de interferência em apurações.

Isso não impede que haja insatisfação entre policiais federais afetados pela medida. Parte das versões que circularam tem origem justamente nesse ambiente de desconforto. Afinal, ninguém gosta de deixar uma função consolidada para retornar ao órgão de origem.

Mas há uma diferença importante entre insatisfação administrativa e crise institucional.

Em Brasília, essa fronteira nem sempre é respeitada.

Versões costumam viajar mais rápido do que documentos. E quando encontram fontes interessadas, vazamentos seletivos e veículos dispostos a publicar cada novo capítulo da novela, elas ganham musculatura própria.

Ao final da apuração, o que encontrei foi um contraste curioso.

A convocação dos policiais federais existe. A discussão sobre seus efeitos administrativos também. A insatisfação de parte dos atingidos pela medida é real.

Já a grande história que dominou manchetes e bastidores — a de um confronto entre André Mendonça e o governo Lula por causa de investigações sensíveis — não foi confirmada pelas fontes que consultei nem no gabinete do ministro nem no Ministério da Justiça.

Talvez porque, neste caso, a narrativa tenha crescido muito mais do que os fatos.

•        PF apura rede de policiais acionada por ex-policial ligado a Daniel Vorcaro

A sexta fase da Operação Compliance Zero colocou sob os holofotes a delegada da Polícia Federal Valéria Vieira Pereira da Silva, alvo de medidas cautelares após auditorias apontarem acessos a procedimentos sigilosos sem vínculo funcional aparente. Os documentos da investigação, porém, indicam que ela não era o único contato acionado pelo escrivão da Polícia Federal aposentado Marilson Roseno da Silva para obtenção de informações.

A análise de celulares, auditorias em sistemas e interceptações realizada pela Polícia Federal sugere a existência de uma rede de relacionamentos construída por Marilson ao longo de décadas na corporação e utilizada para atender demandas de interesse do grupo investigado.

Segundo a PF, Marilson atuava como principal operador do núcleo conhecido como “A Turma”, apontado pelos investigadores como responsável por levantamentos de informações, monitoramento de alvos e obtenção de dados sensíveis solicitados por Daniel Vorcaro, Henrique Vorcaro e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”.

Os investigadores afirmam que as mensagens encontradas nos aparelhos apreendidos mostram Marilson acionando diferentes contatos dentro da Polícia Federal para obter consultas em bancos de dados e informações protegidas por sigilo funcional.

Em um dos trechos reproduzidos na representação enviada ao Supremo Tribunal Federal, a PF afirma que as conversas revelam uma dinâmica recorrente de solicitação e obtenção de dados. Segundo os investigadores, Marilson aparecia encaminhando informações de identificação de pessoas, veículos e armas para contatos com acesso institucional, recebendo posteriormente os resultados das consultas.

<><> Consulta sobre arma

Um dos episódios registrados pela investigação envolve o policial federal Marcos Antônio Lauria.

Em 31 de janeiro de 2025, segundo os documentos analisados pela PF, Marilson encaminhou a Lauria o número de série de um revólver e pediu que ele verificasse a situação da arma.

A representação da Polícia Federal reproduz a conversa. Em uma das mensagens, Marilson envia apenas o número de série do armamento. Na sequência, Lauria responde encaminhando uma imagem extraída de sistema interno da corporação contendo informações sobre a arma e seu proprietário.

Ao descrever o episódio, a PF registra que “Marilson encaminha o número de série da arma para consulta e recebe, em seguida, imagem contendo os dados obtidos em sistema institucional”. Para os investigadores, a sequência demonstra que a pesquisa foi realizada a pedido do ex-escrivão.

Segundo a PF, a troca de mensagens demonstra que a consulta foi realizada sem relação aparente com atividade policial formal.

Os investigadores destacam que o episódio reforça a suspeita de utilização de acessos institucionais para atender interesses particulares de integrantes do grupo investigado.

Para a PF, o caso evidencia que a rede de contatos de Marilson era acionada para diferentes tipos de demandas, incluindo consultas sobre pessoas, veículos, armas e procedimentos em andamento.

<><> Acesso a procedimentos sigilosos

Outra frente investigada envolve consultas realizadas em sistemas oficiais da própria Polícia Federal.

A auditoria conduzida pela corporação identificou acessos realizados pela delegada Valéria Vieira Pereira da Silva a procedimento sigiloso conduzido pela Superintendência da Polícia Federal em São Paulo.

Segundo a investigação, não havia justificativa funcional aparente para o acesso.

Os documentos apontam que, após as consultas, informações relacionadas ao procedimento passaram a circular em conversas envolvendo Marilson Roseno, Luiz Phillipi Mourão e Daniel Vorcaro.

A representação da PF afirma que houve “correspondência temporal entre os acessos realizados e a circulação de informações relacionadas ao procedimento sigiloso em conversas mantidas pelos investigados”. Em outro trecho, os investigadores sustentam que os dados discutidos pelo grupo apresentavam compatibilidade com informações constantes do procedimento acessado.

Em uma das mensagens destacadas pela investigação, integrantes do grupo discutem detalhes sobre diligências e movimentações relacionadas ao caso. Para a PF, o conteúdo sugere conhecimento prévio de informações que não eram públicas.

A Polícia Federal sustenta que a sequência temporal entre os acessos e a circulação das informações reforça a suspeita de compartilhamento indevido de dados protegidos por sigilo.

O caso levou os investigadores a pedir o afastamento cautelar da delegada e também do policial federal Francisco José Pereira da Silva.

<><> Policial da ativa no núcleo investigado

A investigação também identificou a presença de Anderson Wander da Silva Lima, policial federal da ativa lotado no Rio de Janeiro, entre os integrantes do grupo.

Na representação enviada ao Supremo Tribunal Federal, a PF cita Anderson ao lado de Marilson Roseno e Sebastião Monteiro Júnior como integrantes já identificados do núcleo denominado “A Turma”.

Ao descrever a estrutura do grupo, os investigadores afirmam que o núcleo era responsável por “levantamentos de informações, monitoramento de alvos e obtenção de dados sensíveis”. Anderson aparece entre os integrantes cuja atuação ainda está sendo aprofundada pela investigação.

Mensagens analisadas pelos investigadores mostram integrantes do grupo tratando de levantamentos de informações e compartilhamento de dados obtidos por meio de consultas em sistemas oficiais.

Segundo a PF, a participação de um policial em atividade é um dos aspectos mais sensíveis da investigação, pois poderia ampliar a capacidade operacional do grupo dentro da estrutura estatal.

A corporação busca esclarecer qual era exatamente o papel desempenhado por Anderson e se ele realizou consultas ou intermediou o acesso a informações de interesse dos investigados.

Em uma das conversas destacadas pelos investigadores, o ex-escrivão menciona a realização de repasses de fim de ano e afirma que normalmente fazia um valor extra para distribuição de “bônus”.

A Polícia Federal avalia que a referência pode indicar a existência de mecanismos internos de remuneração e recompensa para participantes da estrutura.

<><> Rede construída ao longo dos anos

Os documentos analisados pela PF indicam que a atuação de Marilson não dependia de um único contato.

Os investigadores trabalham com a hipótese de que o ex-escrivão utilizava relações acumuladas ao longo da carreira para obter consultas, informações e levantamentos de interesse do grupo.

Em diversos trechos reproduzidos na investigação, Marilson aparece encaminhando dados de pessoas, placas de veículos, números de documentos e solicitações de pesquisa a contatos ligados à Polícia Federal. Em seguida, recebia respostas contendo informações obtidas em sistemas restritos.

A representação registra que as mensagens revelam uma rotina de pedidos e retornos. Em um dos trechos destacados pelos investigadores, Marilson encaminha dados para consulta e recebe, pouco depois, informações detalhadas extraídas de bases institucionais. Em outro, compartilha os resultados obtidos com integrantes do grupo investigado.

Para os investigadores, as mensagens revelam uma dinâmica recorrente: pedidos feitos por Marilson, consultas realizadas por agentes com acesso institucional e posterior compartilhamento dos resultados com integrantes do grupo.

A auditoria realizada pela Polícia Federal busca justamente identificar quantos acessos foram realizados, quem participou das consultas e se houve compartilhamento indevido de informações protegidas por sigilo.

Além dos nomes já identificados, a PF ainda tenta mapear todos os integrantes da estrutura ligada a Marilson e verificar se outros agentes públicos atuaram no fornecimento de dados ao grupo investigado.

Os documentos indicam que essa frente da investigação permanece aberta e pode revelar novos envolvidos à medida que as auditorias em sistemas oficiais forem aprofundadas e novas conversas extraídas dos aparelhos apreendidos forem analisadas.

<><> Integrantes ainda não identificados preocupam investigadores

A investigação continua em andamento e uma das frentes abertas busca justamente identificar todos os agentes públicos que eventualmente forneceram informações ao núcleo investigado, além de dimensionar quantas consultas foram realizadas e quais dados circularam entre os integrantes da organização.

No relatório, a Polícia Federal afirma que, além dos policiais federais Marilson Roseno da Silva, Sebastião Monteiro Júnior e Anderson Wander da Silva Lima, foram reunidos “robustos indícios” da atuação de Manoel Mendes Rodrigues, que se apresenta como “empresário do jogo” no estado do Rio de Janeiro, em referência ao jogo do bicho.

Segundo a PF, Manoel lideraria no Rio de Janeiro um braço do núcleo denominado “A Turma”, composto por outras quatro a seis pessoas ainda não identificadas e que permanecem em liberdade. De acordo com os investigadores, esse grupo estaria à disposição para acompanhar Manoel em ações presenciais de ameaça realizadas, segundo a apuração, a mando de Daniel Vorcaro.

Os investigadores destacam que a identificação desses integrantes é uma das prioridades da apuração. No documento, a PF registra que, diante das características já identificadas, é possível inferir que os membros ainda desconhecidos da “Turma” no Rio de Janeiro sejam potencialmente operadores do jogo do bicho, milicianos e policiais.

A PF avalia que o esclarecimento da identidade desses participantes será fundamental para compreender a real dimensão da estrutura atribuída ao grupo de Daniel Vorcaro e verificar se havia uma rede mais ampla envolvendo policiais, ex-policiais e possíveis integrantes de milícias atuando em apoio às atividades investigadas.

 

Fonte: Por Cleber Lourenço, para ICL Notícias

 

Nenhum comentário: