Delegados
da PF, STF e Planalto: a história cresceu mais do que os fatos
Apuração
encontrou negativas tanto no gabinete de André Mendonça quanto no Ministério da
Justiça para a principal versão que circulou nos bastidores de Brasília...
Brasília
tem um talento especial para transformar um despacho administrativo em thriller
político. Às vezes, basta uma decisão burocrática, algumas fontes contrariadas
e uma boa dose de imaginação coletiva para que uma história ganhe vida própria.
Foi
mais ou menos isso que aconteceu nos últimos dias.
Tudo
começou com uma medida anunciada pelo governo Lula em abril: o retorno à
Polícia Federal de delegados e agentes que estavam cedidos a outros órgãos
públicos. Trata-se de uma decisão administrativa, discutível ou não, mas
relativamente simples em sua essência.
Só que,
em Brasília, histórias raramente permanecem simples.
Primeiro
surgiu a informação de que o Supremo Tribunal Federal teria ficado fora da
convocação. Depois apareceram versões segundo as quais a medida teria como alvo
um delegado lotado no gabinete do ministro André Mendonça, que auxilia o
magistrado em processos sensíveis, incluindo casos relacionados ao Banco Master
e às fraudes no INSS.
A
partir daí, a narrativa começou a crescer.
Em
poucas horas, o que era uma discussão sobre cessões de servidores passou a ser
tratado como um possível embate entre o Palácio do Planalto e um ministro do
Supremo. Vieram relatos de bastidores, supostos recados enviados ao governo,
reações reservadas, pressões políticas e até a tese de que o governo teria
recuado diante da resistência de André Mendonça.
Diante
da repercussão, decidi apurar o que havia de concreto nessa história.
A
primeira informação que obtive veio do próprio Supremo Tribunal Federal.
Procurei a Corte para entender se havia, de fato, alguma movimentação
envolvendo a devolução de policiais federais cedidos ao tribunal. A resposta
foi que o STF não recebeu qualquer ofício do Ministério da Justiça solicitando
o retorno desses servidores.
A
partir daí, fui atrás do ponto central da narrativa que circulava em Brasília:
a suposta reação de André Mendonça.
Conversei
com uma fonte ligada ao gabinete do ministro. Perguntei se havia chegado algum
pedido para a devolução do delegado citado nas reportagens e se o ministro
havia reagido à medida.
A
resposta foi direta:
“A
única parte que eu consigo garantir é que não chegou nada no gabinete pedindo
de volta. E que o ministro não mandou recado nenhum.”
Insisti
especificamente sobre a versão segundo a qual Mendonça teria enviado emissários
ao Planalto ou demonstrado insatisfação ao governo.
A
resposta foi ainda mais objetiva:
“Não.”
Como
toda boa apuração exige ouvir os dois lados, procurei também o Ministério da
Justiça.
Questionei
uma fonte da pasta sobre a narrativa que vinha sendo construída nos bastidores
e reproduzida em parte da imprensa: a existência de um conflito entre o governo
e o ministro do STF em razão da convocação dos policiais federais.
A
resposta foi categórica:
“Não
procede.”
Perguntei
então se havia qualquer elemento que indicasse uma crise institucional, uma
disputa entre o governo e André Mendonça ou alguma tentativa de interferência
em investigações conduzidas ou acompanhadas pelo gabinete do ministro.
A
resposta foi igualmente clara:
“Não há
interferência alguma.”
Ao
longo das conversas, o que encontrei foi algo que contrasta com a intensidade
das versões que circularam nos últimos dias. Nem as fontes ligadas ao gabinete
de André Mendonça nem as fontes consultadas no Ministério da Justiça
confirmaram a existência de embates, pressões, reações políticas ou qualquer
tipo de crise envolvendo o episódio.
Isso
não significa que todas as dúvidas tenham sido esclarecidas.
Continua
legítimo questionar os critérios adotados pelo governo para a convocação dos
policiais federais. Também é razoável perguntar por que determinados órgãos
foram alcançados pela medida e outros não. O próprio fato de o STF não ter
recebido comunicação semelhante à enviada a outros órgãos permanece como uma
questão relevante.
Mas
essas são perguntas administrativas.
O que
minha apuração não encontrou foi evidência para sustentar a principal narrativa
que ganhou força nos bastidores: a de um confronto entre André Mendonça e o
governo Lula motivado por investigações sensíveis.
Ao
contrário. As fontes que ouvi dos dois lados negaram a existência de crise,
negaram a existência de embate e negaram qualquer tentativa de interferência em
apurações.
Isso
não impede que haja insatisfação entre policiais federais afetados pela medida.
Parte das versões que circularam tem origem justamente nesse ambiente de
desconforto. Afinal, ninguém gosta de deixar uma função consolidada para
retornar ao órgão de origem.
Mas há
uma diferença importante entre insatisfação administrativa e crise
institucional.
Em
Brasília, essa fronteira nem sempre é respeitada.
Versões
costumam viajar mais rápido do que documentos. E quando encontram fontes
interessadas, vazamentos seletivos e veículos dispostos a publicar cada novo
capítulo da novela, elas ganham musculatura própria.
Ao
final da apuração, o que encontrei foi um contraste curioso.
A
convocação dos policiais federais existe. A discussão sobre seus efeitos
administrativos também. A insatisfação de parte dos atingidos pela medida é
real.
Já a
grande história que dominou manchetes e bastidores — a de um confronto entre
André Mendonça e o governo Lula por causa de investigações sensíveis — não foi
confirmada pelas fontes que consultei nem no gabinete do ministro nem no
Ministério da Justiça.
Talvez
porque, neste caso, a narrativa tenha crescido muito mais do que os fatos.
• PF apura rede de policiais acionada por
ex-policial ligado a Daniel Vorcaro
A sexta
fase da Operação Compliance Zero colocou sob os holofotes a delegada da Polícia
Federal Valéria Vieira Pereira da Silva, alvo de medidas cautelares após
auditorias apontarem acessos a procedimentos sigilosos sem vínculo funcional
aparente. Os documentos da investigação, porém, indicam que ela não era o único
contato acionado pelo escrivão da Polícia Federal aposentado Marilson Roseno da
Silva para obtenção de informações.
A
análise de celulares, auditorias em sistemas e interceptações realizada pela
Polícia Federal sugere a existência de uma rede de relacionamentos construída
por Marilson ao longo de décadas na corporação e utilizada para atender
demandas de interesse do grupo investigado.
Segundo
a PF, Marilson atuava como principal operador do núcleo conhecido como “A
Turma”, apontado pelos investigadores como responsável por levantamentos de
informações, monitoramento de alvos e obtenção de dados sensíveis solicitados
por Daniel Vorcaro, Henrique Vorcaro e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão,
conhecido como “Sicário”.
Os
investigadores afirmam que as mensagens encontradas nos aparelhos apreendidos
mostram Marilson acionando diferentes contatos dentro da Polícia Federal para
obter consultas em bancos de dados e informações protegidas por sigilo
funcional.
Em um
dos trechos reproduzidos na representação enviada ao Supremo Tribunal Federal,
a PF afirma que as conversas revelam uma dinâmica recorrente de solicitação e
obtenção de dados. Segundo os investigadores, Marilson aparecia encaminhando
informações de identificação de pessoas, veículos e armas para contatos com
acesso institucional, recebendo posteriormente os resultados das consultas.
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Consulta sobre arma
Um dos
episódios registrados pela investigação envolve o policial federal Marcos
Antônio Lauria.
Em 31
de janeiro de 2025, segundo os documentos analisados pela PF, Marilson
encaminhou a Lauria o número de série de um revólver e pediu que ele
verificasse a situação da arma.
A
representação da Polícia Federal reproduz a conversa. Em uma das mensagens,
Marilson envia apenas o número de série do armamento. Na sequência, Lauria
responde encaminhando uma imagem extraída de sistema interno da corporação
contendo informações sobre a arma e seu proprietário.
Ao
descrever o episódio, a PF registra que “Marilson encaminha o número de série
da arma para consulta e recebe, em seguida, imagem contendo os dados obtidos em
sistema institucional”. Para os investigadores, a sequência demonstra que a
pesquisa foi realizada a pedido do ex-escrivão.
Segundo
a PF, a troca de mensagens demonstra que a consulta foi realizada sem relação
aparente com atividade policial formal.
Os
investigadores destacam que o episódio reforça a suspeita de utilização de
acessos institucionais para atender interesses particulares de integrantes do
grupo investigado.
Para a
PF, o caso evidencia que a rede de contatos de Marilson era acionada para
diferentes tipos de demandas, incluindo consultas sobre pessoas, veículos,
armas e procedimentos em andamento.
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Acesso a procedimentos sigilosos
Outra
frente investigada envolve consultas realizadas em sistemas oficiais da própria
Polícia Federal.
A
auditoria conduzida pela corporação identificou acessos realizados pela
delegada Valéria Vieira Pereira da Silva a procedimento sigiloso conduzido pela
Superintendência da Polícia Federal em São Paulo.
Segundo
a investigação, não havia justificativa funcional aparente para o acesso.
Os
documentos apontam que, após as consultas, informações relacionadas ao
procedimento passaram a circular em conversas envolvendo Marilson Roseno, Luiz
Phillipi Mourão e Daniel Vorcaro.
A
representação da PF afirma que houve “correspondência temporal entre os acessos
realizados e a circulação de informações relacionadas ao procedimento sigiloso
em conversas mantidas pelos investigados”. Em outro trecho, os investigadores
sustentam que os dados discutidos pelo grupo apresentavam compatibilidade com
informações constantes do procedimento acessado.
Em uma
das mensagens destacadas pela investigação, integrantes do grupo discutem
detalhes sobre diligências e movimentações relacionadas ao caso. Para a PF, o
conteúdo sugere conhecimento prévio de informações que não eram públicas.
A
Polícia Federal sustenta que a sequência temporal entre os acessos e a
circulação das informações reforça a suspeita de compartilhamento indevido de
dados protegidos por sigilo.
O caso
levou os investigadores a pedir o afastamento cautelar da delegada e também do
policial federal Francisco José Pereira da Silva.
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Policial da ativa no núcleo investigado
A
investigação também identificou a presença de Anderson Wander da Silva Lima,
policial federal da ativa lotado no Rio de Janeiro, entre os integrantes do
grupo.
Na
representação enviada ao Supremo Tribunal Federal, a PF cita Anderson ao lado
de Marilson Roseno e Sebastião Monteiro Júnior como integrantes já
identificados do núcleo denominado “A Turma”.
Ao
descrever a estrutura do grupo, os investigadores afirmam que o núcleo era
responsável por “levantamentos de informações, monitoramento de alvos e
obtenção de dados sensíveis”. Anderson aparece entre os integrantes cuja
atuação ainda está sendo aprofundada pela investigação.
Mensagens
analisadas pelos investigadores mostram integrantes do grupo tratando de
levantamentos de informações e compartilhamento de dados obtidos por meio de
consultas em sistemas oficiais.
Segundo
a PF, a participação de um policial em atividade é um dos aspectos mais
sensíveis da investigação, pois poderia ampliar a capacidade operacional do
grupo dentro da estrutura estatal.
A
corporação busca esclarecer qual era exatamente o papel desempenhado por
Anderson e se ele realizou consultas ou intermediou o acesso a informações de
interesse dos investigados.
Em uma
das conversas destacadas pelos investigadores, o ex-escrivão menciona a
realização de repasses de fim de ano e afirma que normalmente fazia um valor
extra para distribuição de “bônus”.
A
Polícia Federal avalia que a referência pode indicar a existência de mecanismos
internos de remuneração e recompensa para participantes da estrutura.
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Rede construída ao longo dos anos
Os
documentos analisados pela PF indicam que a atuação de Marilson não dependia de
um único contato.
Os
investigadores trabalham com a hipótese de que o ex-escrivão utilizava relações
acumuladas ao longo da carreira para obter consultas, informações e
levantamentos de interesse do grupo.
Em
diversos trechos reproduzidos na investigação, Marilson aparece encaminhando
dados de pessoas, placas de veículos, números de documentos e solicitações de
pesquisa a contatos ligados à Polícia Federal. Em seguida, recebia respostas
contendo informações obtidas em sistemas restritos.
A
representação registra que as mensagens revelam uma rotina de pedidos e
retornos. Em um dos trechos destacados pelos investigadores, Marilson encaminha
dados para consulta e recebe, pouco depois, informações detalhadas extraídas de
bases institucionais. Em outro, compartilha os resultados obtidos com
integrantes do grupo investigado.
Para os
investigadores, as mensagens revelam uma dinâmica recorrente: pedidos feitos
por Marilson, consultas realizadas por agentes com acesso institucional e
posterior compartilhamento dos resultados com integrantes do grupo.
A
auditoria realizada pela Polícia Federal busca justamente identificar quantos
acessos foram realizados, quem participou das consultas e se houve
compartilhamento indevido de informações protegidas por sigilo.
Além
dos nomes já identificados, a PF ainda tenta mapear todos os integrantes da
estrutura ligada a Marilson e verificar se outros agentes públicos atuaram no
fornecimento de dados ao grupo investigado.
Os
documentos indicam que essa frente da investigação permanece aberta e pode
revelar novos envolvidos à medida que as auditorias em sistemas oficiais forem
aprofundadas e novas conversas extraídas dos aparelhos apreendidos forem
analisadas.
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Integrantes ainda não identificados preocupam investigadores
A
investigação continua em andamento e uma das frentes abertas busca justamente
identificar todos os agentes públicos que eventualmente forneceram informações
ao núcleo investigado, além de dimensionar quantas consultas foram realizadas e
quais dados circularam entre os integrantes da organização.
No
relatório, a Polícia Federal afirma que, além dos policiais federais Marilson
Roseno da Silva, Sebastião Monteiro Júnior e Anderson Wander da Silva Lima,
foram reunidos “robustos indícios” da atuação de Manoel Mendes Rodrigues, que
se apresenta como “empresário do jogo” no estado do Rio de Janeiro, em
referência ao jogo do bicho.
Segundo
a PF, Manoel lideraria no Rio de Janeiro um braço do núcleo denominado “A
Turma”, composto por outras quatro a seis pessoas ainda não identificadas e que
permanecem em liberdade. De acordo com os investigadores, esse grupo estaria à
disposição para acompanhar Manoel em ações presenciais de ameaça realizadas,
segundo a apuração, a mando de Daniel Vorcaro.
Os
investigadores destacam que a identificação desses integrantes é uma das
prioridades da apuração. No documento, a PF registra que, diante das
características já identificadas, é possível inferir que os membros ainda
desconhecidos da “Turma” no Rio de Janeiro sejam potencialmente operadores do
jogo do bicho, milicianos e policiais.
A PF
avalia que o esclarecimento da identidade desses participantes será fundamental
para compreender a real dimensão da estrutura atribuída ao grupo de Daniel
Vorcaro e verificar se havia uma rede mais ampla envolvendo policiais,
ex-policiais e possíveis integrantes de milícias atuando em apoio às atividades
investigadas.
Fonte:
Por Cleber Lourenço, para ICL Notícias

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