terça-feira, 23 de junho de 2026

Fim da ordem mundial: "mundo de lobos" ou oportunidade?

A guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia no flanco oriental da União Europeia, o desrespeito e o desprezo dos Estados Unidos sob Donald Trump pela ordem internacional e as acusações de que Israel vem cometendo genocídio em Gaza chocaram muitos europeus.

A ordem mundial que se formou após a Segunda Guerra Mundial parece ter chegado ao fim. O chanceler federal alemão Friedrich Merz afirmou na Conferência de Segurança de Munique, em fevereiro de 2026: "Essa ordem, por mais imperfeita que fosse mesmo em seus melhores dias, não existe mais dessa forma".

No entanto, na Ásia, observadores políticos costumam se surpreender com a consternação dos líderes europeus. Durante o Diálogo de Shangri-La, uma conferência anual sobre segurança asiática realizada em Singapura, o ex-diplomata singapurense Bilahari Kausikan disse à DW que "a Europa achava que a selva havia sido domada para sempre, e então levou um choque".

"A competição e o conflito são características fundamentais das relações internacionais. Essas verdades duradouras e duras ficaram obscurecidas por um breve período — talvez cerca de 20 anos, desde a queda do Muro de Berlim até o início da crise financeira global. Essa foi uma fase extraordinária na história mundial", acrescentou.

<><> Os EUA como os conhecíamos não vão voltar

O alemão Marc Saxer, diretor da Fundação Friedrich Ebert para a Ásia-Pacífico, disse à DW que as visões de mundo europeias e asiáticas são moldadas por experiências históricas diferentes. Sob a proteção dos Estados Unidos, a Europa pôde sonhar com uma ordem mundial liberal. Para a Ásia, isso era impensável.

Saxer considera que os esforços para manter uma ordem mundial liberal fracassaram e acredita que "um retorno dos EUA ao papel que desempenharam até a década de 2010 é impossível por razões estruturais".

O analista político afirmou que a era unipolar chegou definitivamente ao fim, já que os EUA se sobrecarregaram estrategicamente em zonas de conflito na Europa, no Oriente Médio e na Ásia-Pacífico.

Thomas Kleine-Brockhoff, diretor do Conselho Alemão de Relações Exteriores (DGAP), disse à DW que os EUA, sob o governo de Trump, estão agora tentando "estabelecer um mundo hegemônico de grandes potências, uma espécie de diretório global junto com a Rússia e a China", o que equivale a esferas de influência controladas pelas grandes potências.

Como resultado, o direito internacional e as instituições multilaterais, como as Nações Unidas, estão sendo minados pelos Estados Unidos, pela China e pela Rússia (cada um por suas próprias razões e com suas próprias intenções).

Segundo Saxer, o resultado é um "mundo de lobos", ou seja, um mundo "em que a lei do mais forte triunfa sobre a força da lei".

<><> As potências médias reagem

Naturalmente, a maioria dos outros países não tem interesse em um mundo assim. Mas quais tendências contrárias estão surgindo?

Kleine-Brockhoff identifica três reações específicas, com cada uma delas dependendo da localização geográfica e do ambiente estratégico de cada país.

O Japão, que fica próximo à potência emergente que é a China e tem poucos parceiros com visões semelhantes na região da Ásia-Pacífico, não tem outra escolha a não ser tentar aprofundar sua cooperação com os EUA.

A Europa, que constitui uma unidade geográfica e está politicamente interligada, está se concentrando em "fortalecer-se econômica e militarmente", segundo Kleine-Brockhoff. Ao fazer isso, ela tenta manter os EUA a bordo pelo maior tempo possível durante a fase de transição, a fim de, no final das contas, se sustentar com suas próprias forças.

O terceiro modelo — uma espécie de contra-aliança das potências médias — foi apresentado pelo primeiro-ministro canadense Mark Carney em seu discurso altamente aclamado no Fórum Econômico Mundial em Davos, em janeiro.

"A velha ordem não voltará. Não devemos lamentá-la. A nostalgia não é uma estratégia. Mas, a partir dessa ruptura, podemos construir algo melhor, mais forte e mais justo. Essa é a tarefa das potências médias", afirmou ele à época.

Saxer disse que é importante observar como os países não ocidentais estão agora desempenhando um papel em como vai ser moldado o futuro da ordem global.

"O que torna esse momento histórico tão especial é que, pela primeira vez em séculos, potências não ocidentais estão desempenhando um papel decisivo na formação da próxima ordem mundial." Ao contrário do passado, a "ordem não significará mais ocidentalização", acrescentou ele.

<><> Como seria uma nova ordem global?

Para prosperar neste mundo, Saxer destaca vários aspectos que complementam as "tarefas" definidas pelo líder canadense Carney para as potências médias. Isso inclui a cooperação, não na forma de "alianças", mas como "parcerias entre potências médias", a fim de impedir a formação de quaisquer blocos.

"Dadas as capacidades limitadas, não podemos contar exclusivamente com coalizões de democracias com visões semelhantes para enfrentar os desafios globais. As parcerias entre as potências médias devem reunir todos os Estados orientados para soluções, independentemente de seus sistemas políticos internos", afirmou Saxer.

<><> Trump contra a ordem mundial

Essa abordagem pragmática vai além da política baseada em valores e da busca por parceiros com visões semelhantes. Em vez disso, há cooperação em áreas onde os interesses se alinham, podendo ser suspensa quando os interesses divergem.

É claro que isso sempre é feito respeitando certos princípios inegociáveis, como os direitos humanos.

Para concretizar essa visão de uma nova ordem global, Saxer propõe uma nova versão da "Declaração de Helsinque” da época da Guerra Fria, que abordava principalmente questões de segurança na Europa e poderia ser resumida como "universalismo sem interferência".

No início da década de 1970, durante a Guerra Fria, os EUA e a União Soviética — com a participação dos países europeus membros da Otan  e dos países do Pacto de Varsóvia — concordaram, na Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa (CSCE), com um compromisso voluntário que não tinha o status de tratado internacional.

Segundo Saxer, essa abordagem volta a ser relevante hoje.

Kleine-Brockhoff se mostra cético quanto à estabilidade de tal arranjo, especialmente porque, ao contrário do passado, há forças da ordem global que atualmente estão enfraquecidas.

"Todo sistema precisa de órgãos de fiscalização e de um nível mínimo de regras e de cumprimento dessas regras", afirmou ele. A noção fluida de partes interessadas que cooperam em áreas como a política climática, mas atuam uma contra a outra na política de segurança, acaba por permanecer volátil, acrescentou ele.

Sobre a visão de mundo de Carney, Kleine-Brockhoff argumenta que as potências médias são muito diferentes e têm interesses muito divergentes.

"Vejo as forças opostas, mas não a conexão entre elas", disse ele.

<><> Tempos difíceis para soluções comuns

Como resultado, os acontecimentos atuais estão tornando mais difícil preservar o bem-estar público global. Mitigar as mudanças climáticas, gerenciar riscos globais à saúde, como pandemias, e garantir a paz estão se tornando cada vez mais difíceis.

Kleine-Brockhoff teme o início de uma era de "aproveitamento indevido sem fim". Em vez de trabalharem juntos para enfrentar os desafios globais, os atores individuais buscarão cada vez mais seu próprio benefício.

Para evitar exatamente isso, Saxer não vê alternativa a não ser a colaboração entre as partes interessadas que estejam dispostas a cooperar de forma pragmática.

Em sua opinião, o "realismo transformador" que ele delineia oferece a melhor oportunidade para integrar diversas visões de ordem após o fim da ordem liberal, a fim de enfrentar desafios globais específicos sem recorrer à formação de blocos.

¨      Starmer com dias contados como premiê, diz imprensa inglesa

O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, deverá apresentar esta semana um calendário para deixar o cargo, segundo a imprensa do Reino Unido, após acumular desgaste na liderança do país e enfrentar uma rebelião em seu próprio partido.

Segundo a rede de televisão britânica Sky News, cerca de 100 parlamentares do Partido Trabalhista, atualmente liderado por Starmer, exigiram publicamente a renúncia do primeiro-ministro do Reino Unido.

O jornal britânico The Observer, por sua vez, apontou mesmo que Starmer "prepara-se para apresentar esta semana um calendário para a sua saída de Downing Street". O artigo aponta a possibilidade do anúncio ocorrer já na segunda-feira (22/06).

A decisão, segundo o jornal, foi tomada depois de Starmer ter concluído que "a sua posição já não é sustentável, após conversas mantidas nos últimos dias com ministros do governo, conselheiros de Downing Street, líderes sindicais e doadores do Partido Trabalhista".

"Embora o primeiro-ministro esteja psssando o fim de semana em Chequers, residência oficial de campo dos chefes de governo britânicos, discutindo o seu futuro com a mulher, Victoria, antes de tomar uma decisão final, figuras seniores do Partido Trabalhista acreditam que uma 'declaração clara' poderá surgir já na segunda-feira",apontou o jornal.

<><> Rival interno de Starmer pode ser novo premiê

A possibilidade vem sendo turbinada após a posição de Starmer ter se enfraquecido ainda mais na sequência das recentes declarações do trival interno Andy Burnham, que anunciou a sua intenção de "desafiar o líder pela liderança" do Partido Trabalhista.

Burnham, prefeito da Grande Manchester e com uma trajetória de destaque no Partido Trabalhista, derrotou nesta semana de maneira contundente o candidato do movimento de extrema direita Reform UK no distrito de Makerfield, noroeste da Inglaterra. O triunfo lhe garantiu um lugar no parlamento e a força política para enfrentar o primeiro-ministro na disputa pela liderança do partido.

O popular político de 56 anos, que já foi ministro da Saúde, afirmou que planeja enfrentar Starmer pelo comando do partido e precisava vencer a votação de alto risco para ter condições de iniciar a disputa.

Segundo as informações divulgadas pela imprensa britânica, Burnham contaria com o apoio dos 81 deputados trabalhistas necessários para forçar a realização de primárias. Se conquistar o posto de liderança do partido, Burnham pode ser alçado ao cargo de premiê sem a necessidade de uma eleição geral, já que os trabalhistas contam com maioria no Parlamento.

Se Starmer deixar o cargo de chefe de Governo em 2025, o Reino Unido terá seu sétimo primeiro-ministro em 10 anos.

Trata-se do segundo desafio interno que Starmer enfrenta em poucos dias, depois de ter rejeitado na passada quarta-feira uma suposta tentativa semelhante liderada pelo ex-ministro da Saúde, Wes Streeting.

Perante este novo cenário, o primeiro-ministro temn dito que não acha uma "boa ideia mergulhar o país no caos".   "Mas já o disse antes: se houver eleições primárias, vou concorrer. Não vou fugir às minhas responsabilidades como primeiro-ministro", advertiu.

No cargo desde 2024, Starmer enfrentou diversas guinadas de 180 graus em suas políticas e um escândalo relacionado à nomeação de Peter Mandelson, ex-sócio do falecido criminoso sexual Jeffrey Epstein, como embaixador em Washington. 

Apenas 18% dos britânicos avaliam Starmer positivamente, segundo pesquisa YouGov. E 74% reprovam o premiê.

<><> Trump reage aos relatos de renúncia

O presidente dos EUA, Donald Trump, que repetidamente entrou em choque com Starmer no último ano, comentou neste domingo os relatos sobre a possível renúncia de Starmer, numa mensagem ambígua na rede Thruth Social.

Por um lado, Trump disse: "Desejo-lhe tudo de bom". Mas também escreveu: "Ele fracassou miseravelmente em dois assuntos muito importantes: IMIGRAÇÃO e ENERGIA (ABRAM O PETRÓLEO DO MAR DO NORTE!)", escreveu Trump., em referência ao banimento de novas perfurações por petróleo em águas britânicas que foi mantido pelo governo Starmer.

Trump já havia anteriormente criticado duramente Starmer por não apoiar a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã.

¨      Da rebeldia à aceitação: cinco citações que traçam a queda de Starmer

Mudanças rápidas não são incomuns na política britânica nos últimos anos, mas a mudança de tom de Keir Starmer e seus apoiadores em apenas 48 horas foi impressionante – e parece traçar a mudança em sua posição sobre seu próprio futuro, de uma postura de desafio para uma aceitação melancólica.

>>>> 1. Sexta-feira de manhã: 'Se houver uma disputa, então sim, eu me candidatarei'

Em uma visita relacionada à habitação no norte de Londres na manhã de sexta-feira, Starmer foi enfático ao afirmar que, mesmo após a expressiva vitória de Andy Burnham na eleição suplementar de Makerfield e seu retorno ao parlamento, ele não sairia de cena sem lutar .

“Já disse repetidamente que não vou abandonar essa posição”, disse o primeiro-ministro, acrescentando, com um toque de esperança: “Vamos nos unir como partido e como movimento”.

>>>> 2. Sexta-feira, na hora do almoço: "O primeiro-ministro está empenhado em cumprir a agenda do seu governo."

Tradicionalmente, as coletivas de imprensa diárias do número 10 de Downing Street são conduzidas por um funcionário público, encarregado de refletir a posição oficial do governo. Sendo assim, não foi nenhuma surpresa ver perguntas sobre uma possível saída serem respondidas com uma enxurrada de jargões governamentais.

A impressão, no entanto, foi um pouco pouco convincente e não totalmente real, visto que todos os jornalistas na sala sabiam que Starmer estava, naquele momento, discutindo o que poderia fazer em seguida.

>>>> 3. Sexta-feira à tarde: "Quem não perceber para onde isso está caminhando inevitavelmente acabará parecendo que foi o último a sair do bunker."

Uma citação anônima, porém evocativa, de um ministro do gabinete ao jornal The Guardian na sexta-feira, enquanto os ministros avaliavam suas opções – e percebiam para onde o clima estava caminhando.

Como disse outra pessoa: "Todos pensam que acabou e todos querem que seja uma saída digna e ordeira."

>>>> 4. Sábado de manhã: "Tenho que dizer que não é só que a manada está se movendo, eles estão em debandada."

No sábado, Harriet Harman, uma figura importante do Partido Trabalhista e membro da Câmara dos Lordes, que possui grande conhecimento do partido e talvez um interesse pessoal menor no que acontecerá a seguir, já tinha uma opinião muito clara sobre o rumo das coisas.

Em entrevista à Sky News, Harman parafraseou a analogia de Boris Johnson com a vida selvagem para descrever sua própria queda e pediu uma ação rápida, afirmando que o governo não poderia ficar "paralisado durante todo o verão".

Ela acrescentou: "Não queremos uma situação em que ministros do gabinete estejam renunciando para tentar forçar a saída de Keir Starmer."

>>>> 5. Domingo de manhã: 'Não quero entrar aqui e ficar delirando'

Peter Kyle, o secretário de negócios, recebeu a ingrata tarefa de participar da série de entrevistas de domingo, sendo repetidamente questionado se Starmer havia decidido divulgar um cronograma para sua saída na segunda-feira.

Embora afirmasse não ter informações privilegiadas, Kyle disse ter conversado longamente com o primeiro-ministro na sexta-feira, que, segundo ele, se mostrou "muito atento aos interesses do país" e pediu conselhos a Kyle. E sua observação de que Starmer estava ciente das "realidades políticas" deixou poucas dúvidas sobre o que ele espera que aconteça.

Foi um delicado exercício de equilíbrio – ser leal e, ao mesmo tempo, não se parecer com um porta-voz do governo iraquiano insistindo que tudo está bem enquanto os tanques americanos invadem Bagdá – e Kyle conseguiu. O subtexto, como tinha que ser, era claro: sim, um novo primeiro-ministro está a caminho.

 

Fonte: DW Brasil/The Guardian

 

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