A
Copa do Silêncio
A Copa
do Mundo de 2026 é apresentada como uma celebração global do esporte. Mas, fora
dos gramados, multiplicam-se alertas sobre deportações, vigilância, restrições
migratórias, discriminação e violações de direitos humanos. De trabalhadores
que temem o ICE a delegações submetidas à geopolítica das fronteiras, este
artigo investiga a realidade que permanece fora do enquadramento dominante e
que o espetáculo da Copa ajuda a tornar invisível.
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A Copa que eu estou vendo
Não sou
especialista em futebol. Minha área de pesquisa está mais próxima da
comunicação, da geopolítica, das plataformas digitais e das disputas
contemporâneas pelo poder. Mas gosto de futebol desde criança. E, como milhões
de pessoas ao redor do mundo, tenho acompanhado esta Copa do Mundo praticamente
todos os dias.
Tenho
gostado do que vejo.
A
competição produziu bons jogos, grandes atuações individuais e algumas das
histórias que fazem do futebol um fenômeno cultural único. Há algo de raro na
capacidade que uma Copa possui de suspender temporariamente a rotina do planeta
e concentrar atenções em um mesmo acontecimento. Durante algumas semanas,
idiomas, bandeiras, crenças e rivalidades parecem ceder espaço a uma linguagem
comum construída pela bola.
É essa
imagem que chega diariamente às telas.
Estádios
lotados. Torcidas misturadas. Cidades mobilizadas. Crianças vestindo camisas de
seleções estrangeiras. Pessoas de países que muitas vezes se enfrentam
diplomaticamente dividindo as mesmas arquibancadas. A narrativa dominante é a
de uma celebração global do esporte, da convivência e do encontro entre povos.
Nada
disso é falso.
Mas,
nas últimas semanas, algo começou a me chamar atenção.
Enquanto
acompanhava os jogos, passei a encontrar uma sequência de informações que
raramente apareciam no centro da cobertura esportiva. Relatórios de
organizações internacionais alertavam para riscos relacionados a deportações e
violações de direitos humanos. Trabalhadores ligados à Copa negociavam proteção
contra operações migratórias. Árbitros enfrentavam barreiras para entrar no
país anfitrião. Delegações estrangeiras relatavam restrições que pouco tinham a
ver com futebol. Autoridades ampliavam estruturas de vigilância e monitoramento
em nome da segurança do torneio.
Separadamente,
cada episódio poderia ser tratado como um detalhe administrativo. Um problema
burocrático. Um incidente isolado.
Observados
em conjunto, porém, eles pareciam apontar para algo diferente.
Foi
essa discrepância que despertou meu interesse. De um lado, a Copa transmitida
para bilhões de pessoas como uma grande festa global. De outro, uma realidade
paralela que surgia em documentos, reportagens e relatos espalhados, quase
sempre distante dos holofotes.
Não se
tratava de negar a beleza do espetáculo.
Tratava-se
de compreender aquilo que permanecia fora do enquadramento.
Quanto
mais eu assistia aos jogos, mais me perguntava: o que está ficando invisível?
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A Copa fora do enquadramento
A
primeira coisa que me chamou atenção foi que os alertas começaram antes mesmo
da bola rolar. Em março, a Anistia Internacional advertiu que a Copa seria
realizada em meio a um ambiente de crescente preocupação com direitos humanos
nos Estados Unidos. Poucas semanas depois, mais de 120 organizações lideradas
pela ACLU divulgaram um alerta de viagem para torcedores estrangeiros, citando
riscos relacionados a detenções, discriminação e políticas migratórias. Não
eram comentários em redes sociais nem manifestações partidárias. Eram
documentos produzidos por algumas das principais organizações de direitos civis
do mundo.
Naquele
momento, parecia um debate periférico. A Copa ainda nem havia começado e a
narrativa dominante continuava sendo a mesma: estádios modernos, organização
eficiente, cidades preparadas para receber milhões de visitantes e um país
disposto a transformar o torneio em uma grande demonstração de hospitalidade.
Mas, à medida que os jogos se aproximavam, os episódios começaram a se
acumular.
Em Los
Angeles, cerca de dois mil trabalhadores do SoFi Stadium, um dos principais
palcos da competição, autorizaram uma greve com apoio de 96% da categoria.
Entre as reivindicações estavam salários e condições de trabalho, mas também
algo incomum para um evento esportivo: proteção contra operações do ICE e da
Patrulha de Fronteira. Em entrevistas à imprensa local, funcionários relataram
medo de abordagens migratórias e preocupação com colegas que poderiam ser alvo
de ações das autoridades. Em pleno Mundial, trabalhadores responsáveis por
receber o público negociavam proteção contra operações migratórias.
Poucos
dias depois, a contradição apareceu de forma quase literal. Um árbitro
escolhido pela FIFA para trabalhar na Copa do Mundo não conseguiu entrar no
país que sediava a própria Copa. Omar Artan, que se tornaria o primeiro somali
da história do torneio, foi barrado pelas autoridades migratórias americanas e
acabou excluído da competição. A notícia passou rapidamente pelo noticiário,
mas dizia muito sobre o ambiente em que aquele Mundial estava sendo realizado.
A
situação da seleção iraniana reforçou a percepção de que aqueles episódios
formavam um padrão. Antes e durante a Copa, integrantes da delegação
enfrentaram dificuldades relacionadas a vistos e deslocamentos. A equipe
transferiu parte de sua preparação para o México, enquanto autoridades
iranianas denunciavam restrições incompatíveis com as impostas a outras
seleções. Em um dos casos mais emblemáticos, o jogador Mehdi Torabi teve
problemas com a validade de seu visto após uma única entrada nos Estados Unidos.
Pela segunda vez em poucos dias, uma questão migratória transformava-se em
assunto esportivo internacional.
Nem
mesmo familiares dos atletas ficaram imunes a esse ambiente. A mãe do goleiro
Vozinha, destaque de Cabo Verde, não conseguiu viajar para acompanhar a estreia
do filho por problemas relacionados à emissão de visto. O impasse só foi
resolvido depois de mobilização diplomática. Em qualquer outra Copa,
provavelmente seria lembrado como um contratempo burocrático. Observado ao lado
dos demais episódios, parecia fazer parte de algo maior.
Ao
mesmo tempo, o governo norte-americano montava uma das maiores estruturas de
segurança já associadas a um evento esportivo. Centenas de agências federais,
estaduais e locais foram mobilizadas. Sistemas de monitoramento foram
ampliados. Drones passaram a ser rastreados em larga escala. Oficialmente,
tratava-se de garantir a segurança do torneio. Para organizações de direitos
civis, porém, a Copa também estava funcionando como vitrine de uma arquitetura
de vigilância que se expandia muito além dos estádios.
Talvez
o episódio mais revelador tenha vindo do próprio presidente Donald Trump.
Questionado sobre a entrada de estrangeiros para a Copa, respondeu que seu
governo estava trabalhando para garantir a chegada das "pessoas
certas". A frase passou rapidamente pelo noticiário. Mas ela condensava,
em poucas palavras, a contradição que atravessa toda esta história. A FIFA
promovia um evento construído sobre a ideia de encontro entre povos. O Estado
continuava operando segundo a lógica da seleção, da filtragem e da fronteira.
Separadamente,
cada um desses episódios poderia ser tratado como exceção. Juntos, eles contam
uma história diferente. A história de uma Copa que existe para além dos
gramados e que raramente aparece no centro da narrativa pública.
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A Copa do Silêncio
Se
existe uma característica que define esta Copa, ela não está nos gramados.
Ela
está na forma como determinados acontecimentos desaparecem da percepção
coletiva mesmo quando são amplamente documentados.
Nada do
que foi descrito aqui aconteceu em segredo. A Anistia Internacional publicou
alertas. A Human Rights Watch divulgou relatórios. A ACLU emitiu advertências
formais. A exclusão do árbitro somali foi noticiada. As dificuldades
enfrentadas pela seleção iraniana foram registradas pela imprensa
internacional. Os trabalhadores do SoFi Stadium deram entrevistas e negociaram
proteção contra operações migratórias. Os fatos estavam disponíveis para quem
quisesse vê-los.
Ainda
assim, quase nada disso se tornou parte da narrativa dominante da Copa.
A
explicação não está na falta de informação. Está na forma como a informação é
organizada.
O
espectador pode ler sobre um árbitro barrado em Miami pela manhã, acompanhar
uma reportagem sobre trabalhadores preocupados com o ICE à tarde e, algumas
horas depois, assistir a uma partida emocionante sem jamais perceber que todos
esses acontecimentos fazem parte da mesma história. Os fatos aparecem. O padrão
desaparece.
Talvez
esteja aí a característica mais reveladora desta Copa. Não naquilo que foi
escondido, mas naquilo que foi fragmentado. Os episódios eram visíveis. O que
se tornou invisível foi a relação entre eles.
É assim
que funciona o espetáculo contemporâneo.
Não
pela ocultação, mas pela fragmentação.
Não
pela censura, mas pela dispersão.
Os
acontecimentos permanecem visíveis. O que se torna invisível é a relação entre
eles.
Ao
longo desta Copa, a cobertura dominante concentrou sua atenção na hospitalidade
americana, na atmosfera dos estádios, na diversidade das torcidas, na qualidade
da organização e no sucesso do evento. Nada disso é falso. Os estádios estão
cheios. Os jogos são bons. A festa existe. Mas a concentração quase exclusiva
nesse enquadramento produz um efeito inevitável: tudo aquilo que não reforça
essa narrativa é empurrado para as margens da atenção pública.
Talvez
seja essa a principal lição desta Copa.
O
problema não é que os conflitos tenham desaparecido.
O
problema é que eles passaram a coexistir com um espetáculo suficientemente
poderoso para deixá-los em segundo plano.
Enquanto
bilhões de pessoas assistiam aos jogos, outra história continuava acontecendo.
Uma história feita de fronteiras, filtros migratórios, sistemas de vigilância,
disputas geopolíticas e mecanismos de exclusão que atravessavam o torneio sem
jamais ocupar o centro da cena. Não porque fossem irrelevantes, mas porque a
lógica do espetáculo raramente permite que dividam espaço com a narrativa
principal.
Por
isso, o verdadeiro objeto deste texto nunca foi o futebol.
Foi a
invisibilidade.
Foi a
capacidade de uma sociedade hiperconectada, saturada de informações e imagens,
continuar produzindo zonas de silêncio em plena luz do dia.
A Copa
do Mundo de 2026 será lembrada pelos gols, pelos craques e pelos jogos que
marcaram uma geração. Mas talvez mereça ser lembrada também por outra razão:
ter mostrado que, mesmo em uma época de informação abundante, continua sendo
possível transformar acontecimentos visíveis em realidades politicamente
invisíveis.
No fim,
o problema não é o que a Copa mostra ao mundo.
O
problema é aquilo que ela impede que seja visto como parte da mesma história.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247

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