Da
CBD à CBF: a ascensão com Havelange e a decadência com Ricardo Teixeira
A Copa
do Mundo de 2026 pode expor, para o mundo, a decadência do futebol brasileiro.
A crise técnica, que se arrasta há anos dentro de campo, se soma à decadência
moral e política construída ao longo de décadas. O que hoje se manifesta como
improvisação, falta de projeto esportivo e constantes disputas internas não
surgiu do nada. É fruto de um modelo de gestão que transformou a principal
entidade do futebol nacional em um espaço marcado pela concentração de poder,
interesses corporativos e sucessivos escândalos.
A
trajetória da antiga Confederação Brasileira de Desportos (CBD) até a atual
Confederação Brasileira de Futebol (CBF) ajuda a entender esse processo.
Até o
final da década de 1970, o futebol brasileiro era administrado pela CBD,
entidade criada em 1914 e responsável também por diversas modalidades
olímpicas. Seus dirigentes mantinham laços estreitos com as elites políticas e,
principalmente após 1964, com o regime militar. O futebol era visto como
instrumento de projeção nacional, prestígio internacional e construção
simbólica da unidade do país.
O longo
mandato de João Havelange à frente da CBD, de 1958 a 1975, marcou um ponto de
virada no futebol brasileiro. Aproveitando o sucesso da Seleção Brasileira,
campeã mundial em 1958, 1962 e 1970, Havelange construiu uma vasta rede de
alianças internacionais. A força simbólica do futebol brasileiro serviu como
trampolim para sua ambição política, culminando em sua eleição para a
presidência da FIFA em 1974.
Havelange
modernizou a política do futebol global. Ampliou o número de participantes da
Copa do Mundo, aproximou a FIFA das grandes empresas e transformou o futebol em
um negócio de escala mundial. No entanto, também consolidou práticas de
centralização decisória, clientelismo e falta de transparência, que marcariam
profundamente a cultura política do futebol brasileiro.
A
fundação da CBF em 1979 foi uma consequência das exigências da FIFA para que as
federações nacionais se dedicassem exclusivamente ao futebol. A separação da
CBD representou uma mudança estrutural importante, mas não trouxe
democratização. Pelo contrário, a nova entidade reproduziu as práticas do
período anterior.
A CBF
estruturou-se como uma espécie de agência privada responsável pela gestão de um
patrimônio cultural coletivo. Embora administrasse a seleção mais popular do
planeta e exercesse enorme influência sobre o futebol nacional, desenvolveu
mecanismos internos pouco transparentes, concentrando poder nas mãos de
dirigentes sustentados por alianças com federações estaduais.
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A transição
Após a
passagem de Giulite Coutinho pela presidência, a entidade entrou em uma nova
fase sob o comando de Ricardo Teixeira, genro de João Havelange. Presidente da
CBF entre 1989 e 2012, Teixeira personificou a transformação definitiva do
futebol brasileiro em um ambiente dominado por interesses econômicos e disputas
políticas.
Seu
período à frente da entidade coincidiu com conquistas importantes dentro de
campo, como os títulos mundiais de 1994 e 2002, mas também foi marcado por
denúncias de corrupção, contratos suspeitos e investigações parlamentares. A
parceria com a empresa ISL, International Sport and Leisure (ISL), foi, no
período Havelange, uma das maiores e mais importantes agências de marketing
esportivo do mundo. Fundada na Suíça em 1982 por Horst Dassler (filho do
fundador da Adidas) e a japonesa Dentsu, a empresa impulsionou os negócios do
futebol, mas faliu em 2001, deixando um enorme rastro de escândalos financeiros
internacionais de pagamento de propinas a dirigentes da FIFA, e tornou-se
símbolo desse modelo de gestão.
A CPI
da Nike, no final dos anos 1990, e posteriormente as investigações conduzidas
pelo Ministério Público suíço e pela Justiça norte-americana lançaram luz sobre
práticas que pareciam naturalizadas no comando do futebol. Ricardo Teixeira
deixou a presidência em 2012, cercado por denúncias e sob crescente pressão
pública, mas a estrutura política que o sustentava permaneceu praticamente
intacta.
Desde
então, a CBF atravessou novas crises, afastamentos judiciais, disputas internas
e mudanças de presidentes sem que houvesse uma reforma profunda de seu modelo
institucional. José Maria Marin foi preso nos Estados Unidos em decorrência do
escândalo conhecido como Fifagate. Marco Polo Del Nero foi banido do futebol
pela FIFA por acusações de corrupção. Rogério Caboclo deixou o cargo após
denúncias de assédio moral e sexual. Ednaldo Rodrigues, por sua vez, tornou-se
alvo de sucessivas batalhas judiciais que evidenciam a instabilidade política
da entidade.
Enquanto
outras potências do futebol investiram na formação de treinadores, em centros
de desenvolvimento, em planejamento esportivo e em processos mais profissionais
de gestão, o Brasil passou a conviver com decisões improvisadas,
descontinuidade administrativa e crescente dependência de interesses imediatos.
A Argentina, por exemplo, reorganizou sua estrutura técnica, valorizou seus
profissionais e consolidou uma identidade de jogo que hoje produz resultados
consistentes. A Associação de Futebol da Argentina (AFA) exporta treinadores
para todas as ligas e seleções.
A
possível frustração brasileira na Copa de 2026, portanto, não poderá ser
explicada apenas por escolhas equivocadas de convocação, pelo desempenho de um
treinador ou pela má fase de determinados jogadores. Ela deve ser compreendida
como expressão de um problema mais profundo: a falência de um projeto de gestão
que substituiu o interesse público do futebol brasileiro pela lógica da
autopreservação de suas elites dirigentes.
O
futebol brasileiro continua produzindo talentos, mobilizando paixões e ocupando
um lugar central na identidade nacional. O que está em crise não é a capacidade
do povo brasileiro de jogar futebol. O que está em crise é o modelo de
governança que capturou a principal instituição do esporte mais popular do
país.
Se a
Copa de 2026 confirmar dentro de campo a decadência que há muito tempo se
observa fora dele, talvez ela cumpra uma função histórica inesperada: obrigar o
Brasil a encarar a urgência de democratizar a CBF, ampliar a transparência,
reformar seus mecanismos de representação e recolocar o futebol a serviço do
interesse público.
A
história mostra que nenhuma hegemonia é eterna. O Brasil que encantou o mundo
com sua criatividade e excelência futebolística só voltará a ocupar posição de
destaque quando compreender que vitórias esportivas duradouras exigem
instituições legítimas, planejamento e compromisso com valores republicanos.
Sem isso, continuaremos tratando como acidente aquilo que, na verdade, é
consequência de décadas de escolhas políticas equivocadas.
Fonte:
Por Alexandre Machado Rosa, em Brasil 247

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