terça-feira, 23 de junho de 2026

Uma epidemia silenciosa: número de jovens fumantes cresce no Brasil

Nas festas e calçadas universitárias, um velho conhecido da saúde pública retorna, dessa vez com uma nova roupagem e uma pitada de nostalgia. Mas, ainda assim, com a mesma preocupação de anos atrás. Após décadas de queda no consumo devido a campanhas de conscientização, o Brasil vê o tabagismo crescer entre os jovens, especialmente por contextos sociais e pela inserção das alternativas de cigarro nesse mundo moderno, como o cigarro de palha e os dispositivos eletrônicos.

O hábito de fumar voltou a fazer parte da rotina de uma geração que cresceu sabendo dos riscos, mas que, agora, parece não se importar em enfrentar armadilhas neurobiológicas e físicas silenciosas. Para o pneumologista William Schwartz, coordenador de pneumologia do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, o corpo de quem fuma já está sofrendo, mesmo sem que o paciente comece a sentir. De acordo com o especialista, o monóxido de carbono resultante da queima do papel e do tabaco rouba o lugar do oxigênio no sangue, provocando disfunções imediatas nos vasos sanguíneos.

"O cigarro reduz de forma substancial a capacidade do sangue de nos proteger da formação de coágulos, tornando o organismo mais propenso a trombos. O jovem tem uma grande reserva pulmonar, então acaba pensando que não tem problema nenhum e que no futuro não vai ter dificuldade. Mas os sistemas respiratório e o cardiovascular já estão sendo comprometidos no presente", afirma o médico.

Para quem frequenta academias e busca uma vida ativa, a ilusão de que o exercício físico é capaz de "compensar" os danos do tabaco cai por terra diante dos dados clínicos. “O cigarro atua como um verdadeiro sabotador do rendimento esportivo, diminuindo drasticamente a capacidade de transporte e uso do oxigênio pelo corpo”, ressalta o pneumologista.

<><> Contexto

Na avaliação do pneumologista William Schwartz, o cenário atual do tabagismo é marcado por uma rotatividade perigosa de dispositivos. Segundo ele, muitos jovens utilizam o cigarro tradicional na tentativa de largar o vape ou migram para o cigarro de palha sob o pretexto de consumirem um produto supostamente "natural".

<><> Dados nacionais

Números da pesquisa preliminar anual da Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), feita em 2024, apontam que 11,6% da população adulta se declara fumante de cigarro convencional.

<><> Tratamento

De acordo com Sistema Único de Saúde (SUS), em 2025, 2,5 milhões de brasileiros buscaram, de forma voluntária, atendimentos relacionados ao tabagismo na atenção primária à saúde, nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). O número representa um aumento de 95% em relação a 2022, quando foram registrados 1,2 milhão de atendimentos.

<><> Nova geração

Uma pesquisa feita pelo Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), de 2023, mostra que, entre os adolescentes fumantes, 37,6% começaram antes dos 14 anos e 45,2% têm pais que fumam ou fumaram.

<><> Prejuízos cognitivos

A psicóloga clínica e neuropsicóloga Juliana Gebrim afirma que o uso frequente de cigarro na adolescência pode estar associado a prejuízos em funções importantes, como atenção, memória de trabalho e velocidade de processamento das informações. “Também podem surgir dificuldades em habilidades fundamentais para os estudos e para a vida diária, como organização, planejamento e tomada de decisões”, destaca.

<><> Suporte e ajuda

Em cartilha disponível no site do Ministério da Saúde, há recomendações de quais passos seguir para aqueles que desejam travar uma luta contra o tabagismo. Apoio familiar, boa alimentação, apoio médico e mudanças de grupos sociais estão entre os alertas principais na hora de parar de fumar.

>>>> Palavra do especialista - Juliana Gebrim é psicóloga clínica e neuropsicóloga pelo Instituto de Psicologia Aplicada e Formação de Portugal (IPAF)

•        Por que os jovens e adolescentes são neurobiologicamente mais vulneráveis a desenvolver uma dependência mais rápida e intensa da nicotina?

O cérebro dos adolescentes responde de forma mais intensa aos estímulos de recompensa. A liberação de dopamina, neurotransmissor relacionado ao prazer e à motivação, costuma ser mais marcante nessa fase da vida. Ao mesmo tempo, os mecanismos responsáveis por avaliar riscos e controlar impulsos ainda estão em amadurecimento. Isso significa que o jovem tende a sentir mais fortemente os efeitos prazerosos da nicotina, enquanto ainda está desenvolvendo a capacidade de frear comportamentos prejudiciais. Por isso, a dependência pode surgir mais rapidamente, mesmo com um consumo aparentemente pequeno. Quando falamos dos dispositivos eletrônicos para fumar, esse risco pode ser ainda maior. A forma como a nicotina é administrada favorece uma instalação mais rápida do hábito e do reforço no cérebro, o que tem contribuído para quadros de dependência cada vez mais precoces entre adolescentes.

•        Muitos jovens relatam que fumam para “aliviar o estresse ou a ansiedade da rotina”. Como a neuropsicologia explica esse pensamento?

Algumas pessoas relatam uma sensação de relaxamento após fumar, mas esse efeito é temporário e faz parte do próprio mecanismo da dependência. A nicotina provoca um pico nos sistemas de recompensa do cérebro, com aumento da liberação de dopamina. Depois desse pico, o organismo tende a buscar novamente o equilíbrio, produzindo uma sensação de alívio ou calmaria. O problema é que esse efeito passa rapidamente. Com a queda dos níveis de nicotina, podem surgir irritação, inquietação, dificuldade de concentração e desconforto emocional. Ao fumar novamente, esses sintomas diminuem temporariamente, reforçando a ideia de que o cigarro “acalma”. Na prática, cria-se um ciclo em que a pessoa passa a precisar de doses cada vez mais frequentes para alcançar o mesmo efeito. É justamente esse reforço repetido que sustenta a dependência.

•        Não devemos aceitar a ideia de que o vício da nicotina não causa danos

Os argumentos a favor da proibição de cigarros são irrefutáveis em termos de saúde. Como afirmou Gro Harlem Brundtland, então diretora-geral da Organização Mundial da Saúde, em 2000: “o cigarro é o único produto de consumo que, quando usado conforme as instruções, mata o seu consumidor”. O tabagismo continua sendo a principal causa de morte evitável no mundo. Muitos países, incluindo o Reino Unido, adotaram medidas rigorosas para restringir e até mesmo proibir cigarros e outros produtos de tabaco. Nas últimas duas décadas, no entanto, produtos de nicotina sem tabaco, como cigarros eletrônicos e sachês de nicotina, que utilizam uma versão sintética do ingrediente viciante, explodiram em popularidade .

A regulamentação tem sido lenta. A nação de Palau incumbiu o comitê de especialistas da OMS em dependência de drogas de revisar a nicotina , o que levará a uma votação na ONU – provavelmente em 2028 – sobre sua proibição mundial. O caso depende, em parte, de decidir se o vício e a dependência em si – na ausência de outras consequências graves para a saúde – são prejudiciais. Certamente há argumentos a favor disso, e o tabagismo nos ensinou que, muitas vezes, é melhor eliminar hábitos altamente viciantes se as consequências puderem se tornar óbvias mais tarde. Mas também há motivos para cautela.

Os produtos com nicotina têm alguns benefícios. Ainda existem 1,2 bilhão de fumantes no mundo, e pessoas que trocam o cigarro eletrônico pelo vape têm o dobro de chances de parar de fumar, segundo uma recente revisão da Cochrane . O estudo de Palau inclui alguns dados que associam a nicotina a doenças cardiovasculares e outros problemas de saúde. Mas um relatório recente do Royal College of Physicians do Reino Unido concluiu que “as evidências atuais sugerem que a nicotina em si oferece pouco risco à saúde”.

No entanto, os órgãos reguladores não podem tomar decisões com base apenas na ciência atual. Lendo nas entrelinhas da petição de Palau, fica evidente a frustração com a forma como o mercado de produtos com nicotina surgiu rapidamente em uma zona cinzenta regulatória, visando especificamente as crianças. Um relatório da OMS constatou que as crianças têm, em média, nove vezes mais probabilidade de usar cigarros eletrônicos do que os adultos. Alguns cigarros eletrônicos contêm ingredientes nocivos, como metais pesados, e a nicotina comprovadamente prejudica o desenvolvimento cerebral dos adolescentes. Essa experiência é comum em todo o mundo. O Reino Unido não tinha legislação específica para cigarros eletrônicos até 2016: a lei anterior abrangia apenas o tabaco. É compreensível que os países não queiram continuar com esse jogo regulatório de "acertar a toupeira", avaliando separadamente cada novo produto altamente viciante somente depois que ele se consolida entre o público. Proibir a nicotina eliminaria esse problema pela raiz.

Existe um meio-termo. A proibição de fumar no Reino Unido, que entra em vigor no próximo ano, também restringirá a exibição e a publicidade de cigarros eletrônicos e permitirá restringir sabores atraentes para crianças. Os ministros deveriam ir além. A província canadense de Quebec proibiu totalmente os vapes aromatizados e limita a venda de sachês de nicotina a farmácias. Esse tipo de restrição deveria se aplicar a todas as formas de nicotina para evitar o surgimento de novas formas que burlem a regulamentação existente, ao mesmo tempo que permite o acesso limitado a fumantes que sofrem com o vício e a adultos que consentem.

A nicotina sintética – livre dos carcinógenos do tabaco – é um caso fascinante, aparentemente oferecendo dependência sem outros danos óbvios. Mas não há benefício claro em permitir que a nicotina se torne amplamente disponível, a ciência sobre o uso de nicotina pura ainda é limitada e produtos derivados, como cigarros eletrônicos, não são inócuos. Substâncias viciantes são, por definição, difíceis de controlar individualmente, razão pela qual os países podem precisar regulamentá-las.

 

Fonte: Correio Braziliense/The Guardian

 

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