Bishkek,
a moderna capital onde herança soviética é destruída
A
capital do Quirguistão está no centro de um processo de apagamento de seu
passado arquitetônico.
Bishkek
já perdeu vários grandes exemplos da arquitetura soviética, e outros monumentos
também correm risco de destruição. Nos locais demolidos, avança uma intensa
construção comercial.
Há
alguns meses, o presidente do Quirguistão, Sadyr Japarov, participou da
inauguração de um projeto planejado para abrigar 60 mil moradores, com custo
estimado em US$ 3 bilhões (cerca de R$ 16,5 bilhões).
O local
escolhido para a construção foi o terreno do antigo e lendário hipódromo
soviético Ak Kula. Dizia-se que aquele era o ponto de encontro entre a cidade e
a estepe, entre a modernidade e as tradições nômades.
Para
alguns analistas, o Ak Kula simbolizava uma parte importante da identidade e da
história do Quirguistão, pequena ex-república soviética localizada na Ásia Central.
Construído
em 1947, o complexo estava abandonado até então. No início da década de 2020,
perdeu o status de patrimônio histórico e acabou demolido para dar lugar a um
novo projeto.
Na
prática, qualquer hipódromo ocupa uma vasta área urbana. Os argumentos a favor
de destinar esse espaço a usos considerados mais eficientes e rentáveis são
relativamente simples de compreender.
Mas a
particularidade do novo complexo de Bishkek é que as estruturas únicas e
reconhecíveis de Ak Kula, o conjunto de entrada, os edifícios administrativos e
as arquibancadas, poderiam ter sido preservadas e integradas ao projeto como
parte da história urbana e nacional.
E esse
não é um caso isolado.
Nos
últimos cinco anos, Bishkek perdeu ao menos nove edifícios históricos
importantes, segundo estimativas de jornalistas e urbanistas.
A maior
parte das construções demolidas seguia o estilo arquitetônico conhecido como
"classicismo soviético" ou "arquitetura stalinista", em
referência a Joseph Stalin (1878-1953), que governou a antiga União Soviética.
"Como
seria a cidade sem esses edifícios?", questiona a premiada artista
quirguiz Gulnara Musabai, de 71 anos. "Agora, vão derrubá-los e construir
aqueles prédios todos iguais. Mais uma caixa de concreto armado e pronto",
afirma Musabai.
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Cidade 'descartável'
A
gráfica Erkin-Too, construída em 1931 e responsável pela publicação do primeiro
jornal do Quirguistão, está entre os edifícios demolidos.
Em
2015, a gráfica perdeu o status de patrimônio histórico. O Ministério da
Cultura do país afirmou que o prédio havia perdido seu valor arquitetônico,
urbanístico e histórico-cultural e que não poderia ser restaurado.
Também
foi demolido o edifício da Escola de Música Kurenkeev, a mais antiga do país,
construída em 1939 e única instituição responsável pela formação de músicos
profissionais.
Três
monumentos icônicos também desapareceram, sem que houvesse uma justificativa
clara para sua remoção. Entre eles estavam o mosaico "Recepção de
Convidados", uma das fontes mais antigas de Bishkek no parque Oak, e o
baixo-relevo na fachada do Teatro Dramático Russo Aitmatov.
A
professora de arquitetura Aigul Nasirdinova afirma que esse tipo de tratamento
dado aos edifícios históricos transforma Bishkek em uma "cidade
descartável", que perde gradualmente a sua diversidade cultural.
"Cidades
que se valorizam não destroem seus marcos arquitetônicos", diz
Nasirdinova. Segundo a professora, essas construções "se acumulam como um
capital que gerará retorno no futuro".
O
arquiteto e especialista em planejamento urbano estratégico Aibek Sydykov
concorda: "Falta compreender que uma identidade preservada é um ativo de
longo prazo, capaz de trazer para a cidade, no futuro, muito mais benefícios
por meio do turismo e da qualidade de vida do que uma expansão acelerada da
construção civil".
"Precisamos
deixar de tratar edifícios antigos como 'ruínas' ou um 'obstáculo ao
progresso'. Na prática internacional, são construções emblemáticas que ajudam a
criar a identidade de um lugar", acrescenta Sydykov.
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A história perde espaço para os negócios
A Lei
de Proteção aos Monumentos do Quirguistão estabelece que um bem tombado adquire
esse status de forma permanente.
No
entanto, o artigo 36 dessa lei prevê que a demolição e a reconstrução de
patrimônios histórico-culturais podem ser autorizadas pelo governo "em
caso de destruição repentina do monumento em consequência de desastre natural e
diante do risco de perda de seu valor histórico, científico, artístico ou de
outra natureza".
É
justamente essa brecha legal que o governo e as comissões especiais do segmento
utilizam para retirar de edifícios o status de patrimônio arquitetônico ou
histórico.
Segundo
Nasirdinova, as empresas da construção civil costumam ser as principais
beneficiadas pela demolição de edifícios históricos. Muitos desses imóveis
ficam na região central de Bishkek, uma área densamente urbanizada e com alguns
dos metros quadrados mais caros da cidade.
"[Geralmente],
os monumentos arquitetônicos pertencem ao Estado e não podem ser privatizados.
Eles ficam na parte central da cidade e ocupam grandes áreas", explica
Nasirdinova.
Mas, se
um monumento desaba e é considerado irrecuperável, o terreno pode receber
qualquer tipo de empreendimento. "Os monumentos arquitetônicos acabam
perdendo para os interesses empresariais", afirma Nasirdinova.
Ativistas
e analistas concordam que a corrupção é um dos fatores centrais por trás desse
processo.
Segundo
dados da Transparência Internacional (declarada pelo governo russo como
"organização indesejável" e "agente estrangeiro"), o
Quirguistão aparece de forma recorrente entre os países com piores resultados
nesse aspecto.
"Aqui
prevalece uma lógica pragmática de lucro econômico de curto prazo.
Infelizmente, dentro dessa visão, o valor do metro quadrado continua pesando
mais do que o valor simbólico da história e da cultura", afirma Sydykov.
Nos
últimos cinco anos, os projetos de construção cresceram de forma significativa
no Quirguistão. O boom imobiliário se transformou em um dos
principais motores do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), soma de todos
os bens e serviços produzidos pelo país.
Nos
últimos três anos, o PIB praticamente dobrou, passando de 1 trilhão de soms,
moeda do Quirguistão, equivalente a cerca de US$ 11 bilhões (R$ 60,5 bilhões,
mais ou menos equivalente ao PIB do Estado de Sergipe em 2023), para quase 2
trilhões de soms, cerca de US$ 22 bilhões (R$ 121 bilhões).
Segundo
dados do governo, a economia do país cresceu 11% em 2025. No setor da
construção civil, a expansão no ano passado superou 21%.
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O DNA de Bishkek
Bishkek,
então chamada de Pishpek, recebeu o status de cidade em 1878.
Até o
início do século 20, era um assentamento formado principalmente por construções
térreas. Os poucos edifícios de dois andares abrigavam órgãos administrativos
ou residências de comerciantes ricos.
O
principal desenvolvimento urbano da cidade ocorreu durante o período soviético.
Sydykov
explica que a paisagem urbana de Bishkek é marcada pelo modernismo soviético e
pela arquitetura do chamado "classicismo socialista" ou
"classicismo soviétivo", corrente arquitetônica da União Soviética entre as
décadas de 1930 e 1950.
"O
Circo Estatal do Quirguistão, inaugurado em 1976, é um dos exemplos mais
reconhecíveis do modernismo soviético na cidade. É um edifício circular com a
característica cúpula em formato de 'disco voador'", afirma Sydykov.
Sydykov
destaca que o que torna a arquitetura de Bishkek singular não são as chamadas
"caixas soviéticas", mas o modernismo desenvolvido em Frunze — antigo
nome da cidade — entre as décadas de 1960 e 1980.
"É
uma adaptação do estilo internacional ao contexto local: brises para proteção
solar, uso do concreto e ornamentos nacionais", explica Sydykov.
Um dos
exemplos citados por ele é a Filarmônica Estatal T. Satyganov, do Quirguistão:
"É uma sala de concertos monumental, com fachada expressiva, grandes
formas geométricas típicas do modernismo pós-soviético e elementos decorativos
em relevo", afirma Sydykov.
Por
essas e outras razões, Sydykov defende: "Nossa tarefa é aprender a
valorizar a história, em vez de vendê-la ao preço dos tijolos para sua
demolição. O futuro de Bishkek está em sua singularidade, não em imitar
megacidades sem personalidade".
E
acrescenta: "A cidade está perdendo seu DNA e se transformando em um
conjunto de soluções padronizadas".
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Apagamento da herança soviética?
Tanto
Japarov quanto seus aliados costumam usar a expressão "Novo
Quirguistão", associada ao crescimento do PIB, ao desenvolvimento do
turismo e também a reformas arquitetônicas.
Ao
assumir a Presidência, em 2021, Japarov anunciou a necessidade de construir um
novo edifício para a administração presidencial.
A
inauguração oficial do novo complexo ocorreu em agosto de 2024. O prédio foi
erguido no terreno onde antes funcionava o hotel Issyk-Kul, que também possuía
status de patrimônio arquitetônico.
Na
época, o porta-voz presidencial, Erbol Sultanbaev, respondeu às críticas de
moradores e de integrantes da comunidade de arquitetos afirmando que a
construção do novo edifício era uma questão de "prestígio" para o
país.
"Quando
visitamos países estrangeiros, sempre observamos com admiração seus complexos
administrativos e sua arquitetura", disse Sultanbaev. "Esperamos que
agora os visitantes de nossa república também nos olhem com a mesma
admiração."
Nos
últimos cinco anos, as autoridades gastaram dezenas de milhões de dólares na
construção de novos edifícios administrativos.
A
atenção dada aos símbolos nacionais também se refletiu na mudança da bandeira
do país (que, embora não tenha sido radical, provocou reações divididas entre a
população) e, em 2024, foi iniciado o processo de adoção de um novo hino
nacional (atualmente, uma comissão especial continua analisando as propostas).
Em 14
de abril, durante uma viagem ao sul do país, Japarov também afirmou que, no
próximo ano, todas as cidades e localidades do Quirguistão com nomes soviéticos
ou russos terão suas denominações alteradas.
No
entanto, mais tarde, o atual porta-voz presidencial, Askat Alagozov, afirmou
que o chefe de Estado havia sido mal interpretado e que a medida dizia respeito
apenas a uma proibição temporária de dar às vilas nomes de personalidades
específicas.
Quando,
no ano passado, um monumento de 23 metros dedicado a Vladimir Lenin foi derrubado
em Osh, segunda maior cidade do Quirguistão, alguns especialistas passaram a
afirmar que o país havia iniciado um processo de "desovietização" ou
"apagamento da herança soviética".
Na
época, tratava-se da maior estátua de Lenin da Ásia Central. A rua onde o
monumento ficava também deixou de levar o nome do revolucionário que fundou
a União Soviética.
Ainda
assim, bairros da capital do Quirguistão continuam com nomes soviéticos, e o
monumento a Lenin permanece no centro da cidade.
Além
disso, em seus discursos, Japarov segue mencionando "os fundadores do
Estado, os heróis da União Soviética, os mestres da prosa e os heróis
populares", sem excluir nenhum desses grupos.
Por
isso, afirmar que o desmonte e a demolição da arquitetura soviética fazem parte
de um programa ideológico seria, no mínimo, precipitado.
"O
processo de 'desovietização' não está sendo conduzido de maneira consciente e
estruturada no plano político no Quirguistão", afirma Elmira Abylbek,
diretora do projeto de pesquisa histórica Esimde.
"Existem
diferentes debates e narrativas, mas não em nível estatal. Continuamos sendo
muito leais à antiga metrópole. Ao mesmo tempo, avançam processos de 'retorno a
si mesmo', voltados para a preservação e o fortalecimento da língua, da cultura
e da história", acrescenta.
"Não
se trata necessariamente de um movimento de oposição a algo, muito menos de
forma agressiva, mas de uma recuperação de nossa própria identidade."
Fonte:
Por Aysimbat Tokoeeva, do Serviço Russo da BBC Bishkek, Quirguistão

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