Reino
Unido terá 7º primeiro-ministro em 10 anos: país está se tornando ingovernável?
A
história da política britânica de hoje pode
ser contada por números. Seis primeiros-ministros em dez anos, nenhum dos quais
cumpriu um mandato completo do Parlamento. No mesmo período, o país teve oito
ministros de Relações Exteriores e sete ministros da Economia.
É uma
história de instabilidade e inconsistência, cujo capítulo mais
recente se concretizou com a renúncia de Keir Starmer, do Partido
Trabalhista,
nesta segunda-feira (22/06). Ele permanecerá no cargo até a escolha de um novo
líder pelo partido.
Antes
dele, Rishi Sunak deixou o cargo após a derrota do Partido Conservador nas
eleições gerais de 2024. Em outubro de 2022, Liz Truss renunciou após apenas 49
dias no cargo.
Já
Boris Johnson foi pressionado a renunciar em 2022 após uma série de escândalos,
Theresa May saiu em 2019 e David Cameron se demitiu após o referendo do Brexit
em 2016.
O que
está impulsionando essa narrativa? Por que o Reino Unido está
descartando seus líderes quase tão rapidamente quanto a Itália fazia? Por que
eleitores e parlamentares concedem e retiram seu apoio com tanta facilidade? Em
resumo, o Reino Unido está se tornando ingovernável?
Em uma
entrevista coletiva em maio, quando já sofria pressão para renunciar, o
primeiro-ministro disse: “Não, não acho que o Reino Unido seja ingovernável”.
Na
mesma época, sua rival, a líder conservadora Kemi Badenoch, concordou, dizendo
na Câmara dos Comuns: "O Reino Unido não é ingovernável."
Mas
Starmer e Badenoch lideram parlamentares que, nos últimos tempos, demonstraram
gosto pelo regicídio político; eles precisam governar por meio de uma estrutura
administrativa, regulatória e judicial complexa que pode dificultar a
implementação de políticas; e atraem eleitores que parecem cada vez mais
impacientes por resultados e não querem aceitar que o jogo político envolve
concessões.
Este é
um momento particularmente turbulento na história britânica que deixou os
líderes à mercê dos acontecimentos? Ou a turbulência em Londres reflete
problemas profundos e sistêmicos na política?
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Tempos desafiadores
A
primeira resposta pode ser simplesmente que esses são tempos difíceis para a
classe política.
Esse
período da história seria considerado desafiador para qualquer geração: a crise
financeira de 2008, o caos político do Brexit (saída britânica da União
Europeia), o golpe econômico da covid, a guerra na Ucrânia e o choque
energético posterior e, claro, a ruptura sistêmica do presidente dos EUA,
Donald Trump.
Esses
são desafios que não são específicos do Reino Unido; eles são enfrentados por
outros líderes mundiais que também estão tendo as mesmas dificuldades. Em toda
a Europa, os governos em exercício enfrentam obstáculos econômicos e
eleitorados
Os
líderes políticos no Reino Unido estão conseguindo enfrentar todos esses
desafios? Hannah White, CEO do centro de estudos Institute for Government
(IFG), tem suas dúvidas.
“O
Reino Unido não é 'ingovernável'”, diz ela. “Mas seus partidos políticos
entregaram ao país uma série de primeiros-ministros sem habilidades essenciais
de liderança em um momento em que as crises surgiram em rápida sucessão e
várias tendências estão tornando o ato de governar consideravelmente mais
difícil.”
O
professor Anand Menon, diretor do centro de estudos UK in a Changing Europe,
concorda.
“Nosso
sistema concede poder significativo a um governo com maioria”, diz ele. “O fato
de essa maioria não ter sido utilizada [para promover mudanças] até o momento é
uma falha de liderança, em vez de ser indicativo de uma tendência sistemática
de ingovernabilidade.”
Anthony
Seldon, historiador e biógrafo de muitos primeiros-ministros, argumenta que
alguns titulares recentes — como Boris Johnson, Liz Truss e Keir Starmer — não
tinham as habilidades políticas para dar conta do trabalho e a humildade para
procurar ajuda.
“Eles
não tinham as habilidades e não estavam dispostos a trazer outras pessoas”, diz
ele. “Outros primeiros-ministros tinham mentores. Até Margaret Thatcher tinha
Willie Whitelaw [político conservador que serviu como uma espécie de
vice-primeiro-ministro de Thatcher nos anos 80].”
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Atritos
Mas o
fato de muitos primeiros-ministros serem eleitos com menos experiência do que
no passado não é o único problema. Alguns parlamentares dizem que os servidores
públicos do Reino Unido não estão conseguindo apoiar adequadamente seus
primeiros-ministros.
Camilla
Cavendish, ex-diretora de políticas do ex-premiê David Cameron, disse à BBC:
“Todo governo parece entrar e ficar surpreso com o quão difícil é fazer as
coisas”.
Em uma
admissão franca perante um comitê dos Comuns em dezembro passado, Starmer
reclamou que até mesmo ele tinha dificuldade para fazer as coisas acontecerem:
“Minha experiência como primeiro-ministro é frustrante porque toda vez que eu
puxo uma alavanca, existem vários regulamentos, consultas e órgãos que fazem
com que o tempo entre acionar a alavanca e obter resultados seja maior do que
eu acho que deveria ser”.
Funcionários
públicos, que não podem dar entrevistas, pela lei britânica, rebatem essas
acusações em privado — alguns culpando ministros por não fornecer instruções
claras. Eles questionam se a classe política esqueceu como governar.
Uma
pessoa com muita experiência política nos corredores do poder em Londres me
disse: “O desprezo pelo funcionalismo público, agora amplamente retribuído,
deixou assustados e cautelosos os meios pelos quais os políticos implementam
suas políticas”. Ele disse que os políticos “estão cada vez mais como crianças.
Deslumbrados e impressionados ao conquistar o poder e com muito medo de fazer
qualquer coisa depois que estão lá.”
Alguns
funcionários e conselheiros dizem que a própria Downing Street, a sede do
gabinete do primeiro-ministro, está lamentavelmente mal preparada e com falta
de pessoal para administrar um governo moderno. No entanto, sucessivos governos
centralizaram ainda mais o poder no prédio. Alguns dizem que isso deixa as
decisões acumuladas sem solução — e os ministros sem poderes.
Jonathan
Hill, secretário político de John Major na década de 1990, disse: “A
centralização do poder no número 10 (onde trabalha o primeiro-ministro) e no
Gabinete — e a obsessão pelo gerenciamento da pauta de notícias — tornaram o
trabalho de um ministro muito menos relevante e poderoso. É um milagre que as
pessoas ainda estejam preparadas para entrar na política e se tornarem
ministros.”
Mas
eventos contemporâneos, liderança fraca e um funcionalismo público
sobrecarregado são suficientes para explicar a atual desordem política?
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Vício em drama
Alguns
culpam as redes sociais por acelerar o processo político a um ponto quase
incontrolável. Theo Bertram, ex-assessor de Tony Blair e Gordon Brown e atual
diretor da Social Market Foundation, disse: "Há um problema estrutural:
todas as coisas que precisamos fazer para consertar o país levarão 10 anos.
Mas, se você é primeiro-ministro, não tem 10 anos. Na era das redes sociais, o
que temos é muito curto-prazismo."
As
redes sociais, incluindo aplicativos de mensagens pessoais, facilitam rebeliões
no Parlamento e dificultam o debate de políticas. Steve Baker, ex-deputado
conservador e arquiteto do Brexit, escreveu: "Líderes de partido e
ministros chegam tarde demais a uma conversa que as redes sociais encerraram
uma hora antes. Hoje, os mesmos mecanismos estão sendo usados dentro do Partido
Trabalhista: minicentros de poder construídos em torno de listas de WhatsApp,
organizando-se contra seu próprio líder em dias, não meses."
Outros
dizem que a mídia é responsável. Nick Bryant, comentarista político e
ex-jornalista da BBC, acredita que a “excitação dos jornalistas” é “parte do
problema”, argumentando que o “vício em drama entre os políticos e os
repórteres políticos alimenta o ciclo constante de caos e incerteza que está se
tornando tão democraticamente desestabilizador”.
Por
exemplo, a politicagem em torno do Brexit foi tão polêmica que alguns acreditam
que isso envenenou o ambiente político, criando uma cultura de constante
turbulência e rebelião. Os parlamentares conservadores se acostumaram a
substituir seus líderes.
Será
que a atual geração de deputados trabalhistas assistiu e absorveu essa cultura,
e a normalizou? Estudos sugerem que os parlamentares sem cargos no governo
estão se tornando menos obedientes. A rebelião era rara nos parlamentos do
pós-guerra, mas se tornou mais comum nos governos de John Major, Tony Blair e
David Cameron, à medida que esses parlamentares ganharam confiança e o controle
partidário enfraqueceu.
Mas
será que essa é a explicação completa?
Alguns
dizem que a natureza da política do Reino Unido está mudando.
Eles
apontam para a ascensão de partidos menores que estão desafiando o duopólio do
Partido Trabalhista e dos Conservadores. Isso deixou o atual governo com uma
maioria parlamentar significativa, mas sem muitos votos populares, já que o
voto no Reino Unido não é obrigatório — e, portanto, um mandato mais fraco
junto aos eleitores. Essa tendência pode seguir com o aumento do apoio popular
a partidos novos, como o Reform UK, de direita, e aos Verdes, da esquerda.
Stewart
Wood, ex-conselheiro de Gordon Brown, diz: “Ambos os principais partidos
tiveram problemas no governo devido a questões internas. As dificuldades do
Partido Conservador no governo foram em grande parte o resultado do Brexit ter
fraturado o partido e impossibilitado a gestão partidária".
"O
Partido Trabalhista foi estranhamente afetado por sua vitória esmagadora em
2024, sem uma agenda clara de governo para unir o partido e definir o rumo após
chegar ao poder."
Alguns
argumentam que o problema é mais profundo do que isso e que a fratura das
linhas partidárias tradicionais reflete o fracasso das classes políticas em
lidar com a escala dos problemas que o Reino Unido enfrenta — fraqueza
econômica estrutural, imigração persistentemente alta, enfraquecimento das
relações com aliados tradicionais na Europa e nos EUA e dependência energética
de um tumultuado Oriente Médio.
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Gerenciando expectativas
Isso
aponta para uma questão mais ampla, a da liderança política.
Os
primeiros-ministros esqueceram como argumentar, apresentar a seus partidos e
eleitores escolhas políticas honestas ou compensações? Onde antes prometiam dor
de curto prazo para ganhos de longo prazo, agora oferecem satisfação
instantânea que quase sempre não é alcançada? Isso pode alimentar a desilusão e
a perda de confiança. Na última eleição, nenhum dos dois maiores partidos foi
sincero sobre as perspectivas de aumentos de impostos e cortes de gastos.
Hill
diz que muitos no centro do poder esqueceram que política significa definir o
que se quer, construir um argumento e persuadir o maior número possível de
pessoas a apoiá-lo em uma eleição geral.
"Em
vez disso, acreditam que seu trabalho é descobrir o que diferentes grupos
querem, conciliar todas as posições e reunir votos suficientes para
vencer", argumenta. "Passamos de um mecanismo de transmissão de
governo e parlamento para um que recebe mensagens como uma enorme máquina de
lobby."
Theo
Bertram, do centro de estudos Social Market Foundation, acrescenta: “Uma das
coisas que não vimos muito nos últimos primeiros-ministros é a capacidade de
enfrentar sua própria base parlamentar, enfrentar o público e dizer coisas
difíceis”.
Alguns
dizem que os políticos ainda não foram honestos com o eleitorado sobre a
necessidade de cortar gastos com bem-estar social, aumentar os gastos com
defesa, reformar o sistema de saúde e tornar a economia mais produtiva – tudo
isso implicaria dor no curto prazo e, segundo alguns, um reequilíbrio do apoio
estatal dos mais velhos para os mais jovens.
A
política envolve persuasão, até mesmo sedução, e os primeiros-ministros parecem
ter esquecido que este é um processo quase constante de conquistar eleitores,
parlamentares e funcionários públicos para manter sua agenda avançando.
Talvez
os eleitores também tenham se tornado impacientes demais? Em uma era de compras
online instantâneas entregues em poucas horas, exigimos resultados políticos
mais rápidos do que qualquer governo pode oferecer?
O
aumento do apoio a partidos antiestablishment como Reform e os Verdes é
resultado do descontentamento dos eleitores com os partidos tradicionais que,
segundo eles, não conseguiram enfrentar os problemas do Reino Unido.
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Keir Starmer, renuncia ao cargo
O
primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, renunciou ao seu cargo nesta
segunda-feira (22/06).
O
anúncio do premiê, do Partido Trabalhista, foi feito em pronunciamento em
Downing Street, local da residência oficial dos líderes dos governos
britânicos.
Starmer
disse que todas as decisões que tomou durante o mandato tiveram como objetivo
"colocar em primeiro lugar o país que amo".
O
próximo premiê britânico será escolhido por seu partido. O premiê solicitou ao
Comitê Executivo Nacional do Partido Trabalhista que crie um cronograma para
substituí-lo.
Novas
nomeações para candidatos a substituí-lo devem ocorrer entre 9 e 16 de julho e
espera-se que o processo seja concluído até o fim do recesso do Parlamento no
verão britânico, que termina em 1º setembro.
Até lá,
Starmer permanecerá no cargo de primeiro-ministro.
Nesta
segunda-feira, o ex-prefeito de Manchester, o trabalhista Andy Burnham, vai
tomar posse como parlamentar por Makerfield, após ter vencido uma eleição
complementar na semana passada. Ele é o mais cotado para substituir Starmer.
Após a
renúncia de Starmer, Burnham anunciou que vai se candidatar para substituí-lo.
Analistas acreditam que pode não haver nenhum candidato na disputa além dele.
Starmer
disse ter conversado com o rei Charles 3º para informá-lo de sua decisão de
renunciar.
Em um
discurso emocionado, Starmer disse que seu partido vinha questionando se ele
seria a pessoa mais indicada para liderar os Trabalhistas nas próximas eleições
gerais — e que ele "ouviu a resposta" de seu partido e aceita a
decisão "de bom grado".
Todas
as decisões que tomou, segundo ele, foram tomadas pensando em "colocar o
país que amo em primeiro lugar".
Pouco
depois da renúncia de Keir Starmer, Andy Burnham confirmou que tentará
substituí-lo como líder dos Trabalhistas e primeiro-ministro do Reino Unido.
"Keir
prestou um enorme serviço ao nosso país e quero agradecer pela sua liderança e
dedicação durante um período tão desafiador", escreveu Burnham nas redes
sociais.
"A
sua decisão marca o início de uma transição e é importante que este processo
seja conduzido de forma ordenada e responsável. Vou me colocar como candidato
como parte deste processo."
"O
país espera estabilidade, seriedade e um foco contínuo nas questões mais
importantes, e é isso que terá."
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Por que eleitores estão insatisfeitos?
O
governo Starmer enfrenta dificuldades para entregar o crescimento econômico
prometido nas últimas eleições, melhorar os serviços públicos, reformar o
sistema de assistência social e, entre outras coisas, reduzir o custo de vida
enfrentado pela população.
A
imigração se tornou central no debate político britânico. Os números aumentaram
muito após o Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia) durante governos
de políticos do Partido Conservador, e agora têm caído durante o governo
Starmer. Mas muitos eleitores consideram que o governo gasta muito dinheiro,
tempo e atenção com imigrantes, sobretudo os que buscam asilo e que dependem de
recursos públicos.
O
partido Reform UK, de direita radical e que vem rivalizando com os Trabalhistas
nas pesquisas mais recentes, adotou como uma das suas prioridades máximas a
criação de um órgão responsável por coordenar a deportação de imigrantes em
situação irregular.
Além
disso, o partido planeja, caso vença as próximas eleições, adotar medidas para
proteger a cultura britânica, incluindo novas regras para impedir que igrejas
sejam transformadas em mesquitas.
O líder
do Reform UK, Nigel Farage, fez um pedido pela realização de eleições gerais na
"data mais próxima possível".
Em um
texto compartilhado na rede social X, Farage classifica Starmer como "o
primeiro-ministro mais incompetente" que o Reino Unido já teve.
Ele
afirma que a "classe política" não pode continuar traindo os
eleitores, citando como exemplos a mudança de posição sobre o subsídio de
aquecimento para o inverno, os níveis de imigração e o acordo abandonado referente às Ilhas
Chagos —
situações em que o Partido Trabalhista teria decepcionado seus eleitores.
Segundo
Farage, caso Andy Burnham venha se tornar primeiro-ministro, ele representaria
uma continuidade das políticas de Starmer.
O líder
dos Liberais Democratas, Ed Davey, disse que os britânicos estão
"fartos" da constante troca de primeiros-ministros.
"O
povo britânico está farto de ser decepcionado por um carrossel interminável de
primeiros-ministros, enquanto nada realmente muda", escreve Davey no X.
"Desta
vez tem de ser diferente. Não pode se tratar apenas de mudar quem ocupa o
número 10 de Downing Street; trata-se de mudar nossa política falida para que
possamos consertar o país."
O líder
do Partido Verde, Zack Polanski, disse que Keir Starmer "perdeu a
confiança do país" após não ter desafiado o "poder e a riqueza"
do establishment. Polanski diz que isso deixou "a grande maioria em uma
crise de custo de vida".
Em
eleições locais no mês passado, o Partido Verde conquistou o voto de eleitores
de esquerda que tradicionalmente votavam nos Trabalhistas.
Sobre o
potencial sucessor de Starmer, Andy Burnham, Polanski afirma que ele
"precisará ser ousado ou irá à falência".
"Os
primeiros indícios não são animadores e sugerem mais do mesmo, apenas com
melhores habilidades de comunicação", diz ele.
Fonte:
BBC News Mundo

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