terça-feira, 23 de junho de 2026

Como a economia dos EUA continua superando seus rivais apesar de toda turbulência do governo Trump

Em Dresden, no leste de Alemanha, um último automóvel fechou no ano passado a linha de montagem da "Fábrica Transparente" da Volkswagen, que foi uma espécie de símbolo do poderio industrial da Europa.

A milhares de quilômetros de distância, em Spartanburg, no Estado americano da Carolina do Sul, outra gigante alemã, a BMW, opera sua maior fábrica em todo o mundo.

O contraste entre ambas ajuda a explicar um enigma debatido há tempos pelos economistas: por que a economia americana continua superando muitos outros países, enfrentando os mesmos impactos globais?

Nos últimos anos, uma sucessão de choques econômicos abalou grande parte do mundo desenvolvido.

As tarifas de importação de Donald Trump afetaram o comércio global. As deportações de imigrantes em massa estão mudando o mercado de trabalho. O conflito no Oriente Médio fez disparar os preços do petróleo.

Muitos economistas esperavam que os Estados Unidos fossem sofrer fortes abalos com o peso dessas pressões. Mas a economia do país continuou crescendo de forma estável.

A inflação persistiu em alguns momentos, mas a combinação entre o fraco crescimento e o contínuo aumento de preços, temida por muitos, acabou não acontecendo.

Joe Brusuelas, economista-chefe da consultoria britânica RSM, defende que a guerra comercial foi a prova mais forte da resiliência americana.

"As metas próprias impostas pelo governo Trump aos Estados Unidos, em relação ao comércio e à imigração, provavelmente são o exemplo mais claro do dinamismo que sustenta a economia americana", destaca ele.

Ao enfrentar a súbita taxação de componentes estrangeiros, as empresas americanas não se contentaram com a redução das margens e passaram a investir com mais força.

"O investimento de capital, neste momento, é de 13,9% do PIB americano", segundo Brusuelas. "Deveria estar diminuindo, considerando os diversos impactos sobre a oferta e a procura absorvidos pela economia, mas não é o que está acontecendo."

Por outro lado, grande parte das pressões foi compensada pelo notável aumento da produtividade. A economia americana como um todo continua se expandindo a um ritmo anual de cerca de 2%.

Os mercados de energia oferecem outra explicação. A guerra no Oriente Médio aumentou os preços do petróleo, o que, historicamente, teria representado uma ameaça considerável ao crescimento americano.

Mas a revolução do petróleo de xisto alterou fundamentalmente a vulnerabilidade dos Estados Unidos frente aos choques do setor energético.

Ao longo das últimas duas décadas, o país se tornou um dos maiores produtores de petróleo e gás do planeta, enquanto suas empresas reduziram progressivamente sua dependência do petróleo.

"O desenvolvimento do fracking (fraturamento hidráulico, técnica de mineração usada para extrair gás natural e petróleo de rochas de xisto localizadas a grandes profundidades) nos Estados Unidos, desde o início dos anos 2000, e a evolução dos combustíveis alternativos criaram condições para que a contribuição do petróleo para o PIB por unidade de energia caísse pela metade nos últimos 50 anos", explica Brusuelas.

O contraste com a Europa é evidente.

Enquanto os Estados Unidos se concentraram na flexibilidade, aproveitando o fracking e permitindo que os preços reajam livremente ao mercado, a Europa depende de contratos de longo prazo e redes de abastecimento interconectadas para garantir sua segurança energética.

Esta estratégia deixou muitos países expostos a riscos com a interrupção do fornecimento de gás russo, após a invasão da Ucrânia. E, com as tensões atuais no Oriente Médio, a vulnerabilidade permanece.

Para Rebecca Christie, pesquisadora do centro de análises Bruegel em Bruxelas, na Bélgica, esta discrepância não se observa apenas nas decisões políticas, mas nas atitudes culturais em relação ao risco.

"Os americanos são muito voltados às soluções e muito mais cômodos ao assumir riscos imediatos, de olho em vantagens de longo prazo", explica ela. "Já a Europa é culturalmente mais relutante ao risco."

Christie conta que participou de um evento onde o próprio responsável de serviços financeiros da União Europeia declarou que os europeus não falam o suficiente sobre o risco de não assumir riscos.

As diferenças de estruturação das empresas e dos sistemas de aposentadoria nos dois lados do oceano Atlântico também refletem esta diferença de visão.

Em grande parte da Europa, as empresas dependem muito dos empréstimos bancários para seu financiamento e as pensões dos trabalhadores são frequentemente relacionadas a contratos de seguro garantidos, que estabelecem limites tanto para os prejuízos quanto para os lucros.

"Se você financiar a sua empresa com um empréstimo bancário, não terá a mesma flexibilidade oferecida pela venda de ações ou atraindo capital de risco", explica Christie.

Nos Estados Unidos, as empresas podem recorrer a investidores e ao mercado de ações para obter financiamento. Esta flexibilidade, mesmo com seus altos e baixos, oferece às companhias americanas uma vantagem sobre os modelos europeus, respaldados pelo Estado.

Mas Christie destaca com cautela que a resiliência em nível macro pode ocultar um problema real.

"Os Estados Unidos são uma terra com enorme desigualdade", afirma ela.

"Se você estiver em dificuldades, irá realmente enfrentar tempos conturbados, pois o mercado de trabalho não está aumentando muito, tudo está ficando mais caro e muitas cidades sofrem crises de moradia."

Sua maior preocupação é que a desigualdade chegue a um momento crítico.

"Ter o dólar e os bancos bastante estáveis não irá ajudar se, na economia real, houver uma crise de empregos", explica a pesquisadora.

<><> Os EUA não são imunes a pressões

Até o momento, não há grandes evidências de que isso possa acontecer.

Na verdade, os empregadores americanos criaram 172 mil postos de trabalho em maio, contra todas as expectativas.

Mas os novos dados da inflação mostram o maior aumento dos preços ao consumidor dos últimos três anos.

A inflação anual ficou em 4,2% em maio, contra 3,8% em abril. Estes índices indicam que os Estados Unidos podem estar se aproximando do limite da sua resiliência.

A economia americana pode estar superando grande parte dos seus rivais, mas isso não significa que ela seja imune a pressões. Os altos preços dos combustíveis, a inflação persistente e a desigualdade cada vez maior trazem riscos que poderão reduzir a atual vantagem do país.

Ainda assim, em comparação com muitos outros países desenvolvidos, a economia dos Estados Unidos se mantém robusta.

Sua combinação de mercados flexíveis, investimentos rápidos, energia em abundância e tolerância ao risco ajudaram a nação a superar os impactos que atingiram outros países.

"É a camisa mais limpa em um cesto de roupas muito sujo", conclui Joe Brusuelas.

•        Rachaduras estão aparecendo na base eleitoral de Trump, composta por eleitores brancos e trabalhadores. Por Steven Greenhouse

Se algum grupo demográfico foi fundamental para as vitórias eleitorais de Donald Trump em 2016 e 2024, foram os eleitores brancos da classe trabalhadora. Mas, em uma notícia talvez perigosa para os republicanos, o apoio a Trump por parte desse grupo despencou — à medida que muitos eleitores brancos da classe trabalhadora se mostram descontentes com tudo, desde o aumento da inflação e dos preços da gasolina até a guerra de Trump contra o Irã. Essas rachaduras gritantes na base de apoio de Trump entre os operários apontam para grandes problemas para os republicanos nas eleições de meio de mandato de novembro.

Em 2024, Trump conquistou 66% dos eleitores brancos sem diploma universitário, mas uma nova pesquisa da CBS News revelou que 54% desse grupo demográfico desaprovam seu desempenho. Esse número representa um aumento em relação aos 45% de desaprovação em fevereiro (antes de Trump iniciar os bombardeios ao Irã) e um aumento acentuado em relação aos 32% de fevereiro de 2025.

Isso revela profundas fissuras na base eleitoral de Trump, composta por eleitores brancos da classe trabalhadora, um grupo que o então candidato Trump cortejou prometendo endurecer as leis de imigração, reduzir os preços desde o primeiro dia de mandato , trazer de volta empregos na indústria e não iniciar novas guerras no exterior. Muitos eleitores da classe trabalhadora percebem que Trump não cumpriu nenhuma dessas promessas, com exceção de sua repressão massiva contra imigrantes – repressão que, no entanto, se tornou impopular após agentes mascarados de Trump terem assassinado Renee Good e Alex Pretti em Minneapolis.

A base eleitoral de Trump , composta por trabalhadores da classe operária, não obteve os preços mais baixos que ele prometeu; em vez disso, enfrenta uma inflação dolorosa de 4,2% , a maior taxa em três anos. Trump falhou completamente em outra promessa importante para os americanos da classe trabalhadora: aumentar os empregos na indústria. Desde que Trump retornou ao cargo, o número de empregos em fábricas diminuiu em 68.000 . Quanto à promessa de Trump de não iniciar nenhuma guerra no exterior, muitos americanos da classe trabalhadora estão furiosos com o fato de ele ter lançado sua guerra fracassada contra o Irã, que, para seu enorme desgosto, elevou os preços da gasolina e dos alimentos.

Peggy Liff, uma soldadora de 57 anos de Ohio que votou três vezes em Trump, disse que ficou entusiasmada com a baixa inflação durante o primeiro mandato de Trump, mas agora está chateada com ele. "Ele está se concentrando em outras coisas, como no exterior, o Irã", disse ela ao Washington Post . "Ele diz que está fazendo isso por nós, mas não vejo onde isso está acontecendo."

O fato de uma parcela considerável da base operária de Trump ter se desiludido com ele deveria ser uma vantagem para os candidatos democratas em Iowa, Carolina do Norte, Ohio, Texas e outros estados com uma grande classe trabalhadora branca. Para aumentar suas chances de retomar a Câmara e o Senado, os democratas precisam explorar o crescente descontentamento da classe trabalhadora com Trump e os republicanos. E não podemos esquecer que não são apenas os eleitores brancos da classe trabalhadora que se voltaram contra Trump – muitos afro-americanos, hispânicos e asiático-americanos da classe trabalhadora também estão descontentes com o fato de Trump ter mergulhado os EUA na guerra, com a disparada dos preços da gasolina, com o aumento de 32% no preço do tomate , 17% no preço do café e 13% no preço da carne bovina no último ano .

Enquanto Trump se concentrava em guerrear contra o Irã e construir seu luxuoso salão de baile e o arco de 76 metros de altura que servirá principalmente como monumento ao seu ego, os americanos da classe trabalhadora estavam descontentes com muitas das políticas de Trump. Eles não gostam das tarifas, que aumentaram os preços de muitos itens, de móveis a café e frutas frescas. Muitos americanos estão irritados porque, embora Trump tenha apoiado mais de US$ 1 trilhão em cortes de impostos para os ultrarricos em seu "grande e belo projeto de lei", ele prejudicou os americanos da classe trabalhadora ao defender um projeto que cortou o Medicaid e a assistência alimentar em mais de US$ 1 trilhão .

Os americanos da classe trabalhadora conseguem perceber o rápido aumento da desigualdade de renda e riqueza no país. Uma manchete do New York Times capturou o sentimento de muitos americanos menos abastados: "Salários estão caindo. Riqueza está aumentando. Não é de se admirar que os americanos estejam infelizes." A reportagem do Times observou que, na mesma semana em que Elon Musk se tornou o primeiro trilionário do mundo, um relatório do Departamento de Estatísticas do Trabalho constatou que a alta dos preços da energia havia anulado 18 meses de ganhos salariais para o trabalhador americano médio. Muitos americanos da classe trabalhadora, sem dúvida, não gostam do fato de Trump gostar de ter bilionários ao seu lado, de Trump ter pressionado repetidamente para enfraquecer os sindicatos e de ter deixado Musk agir impunemente, cortando verbas de agências federais e demitindo funcionários federais dedicados.

Por conta de todos esses fatores, a popularidade de Trump está em baixa entre os americanos da classe trabalhadora, mesmo enquanto ele tenta conquistá-los com debates acalorados na Casa Branca. De acordo com uma pesquisa recente da Fox News, apenas 33% dos eleitores brancos da classe trabalhadora aprovam a forma como Trump lidou com a economia e apenas 25% aprovam sua gestão da inflação. Em uma boa notícia para os democratas, uma pesquisa recente da NPR/PBS News/Marist revelou que 44% dos eleitores brancos sem diploma universitário disseram que eram mais propensos a votar em um candidato democrata ao Congresso este ano do que em um republicano, um aumento em relação aos 30% registrados pouco antes das eleições de meio de mandato de 2018.

John McLaughlin, um pesquisador de opinião republicano que trabalha há muito tempo para Trump , afirma que esse desencanto é perigoso para os republicanos. "São os eleitores da classe trabalhadora que não estão satisfeitos com o Partido Republicano e podem não comparecer às urnas", disse McLaughlin ao New York Times.

Trump piorou a situação para os republicanos com algumas declarações insensíveis que demonstraram uma enorme indiferença em relação às dezenas de milhões de americanos que enfrentam dificuldades econômicas. Na semana passada, com a inflação em alta, Trump disse a repórteres: " Eu adoro a inflação ". Isso aconteceu um mês depois de Trump ter dito: " Eu não penso na situação financeira dos americanos ", supostamente porque estava muito preocupado em vencer a guerra contra o Irã.

Esses comentários renderiam ótimos anúncios de campanha para os democratas. Mas os democratas precisam fazer mais do que apenas atacar Trump. Precisam apresentar ideias que empolguem os americanos da classe trabalhadora, como a criação de novos impostos sobre bilionários para liberar bilhões de dólares e, por exemplo, tornar o cuidado infantil muito mais acessível. Os democratas também deveriam impulsionar algumas das ideias defendidas pelo grupo progressista do Congresso , entre elas tornar a gasolina mais acessível por meio da imposição de um imposto sobre lucros extraordinários das grandes petrolíferas e usar esse dinheiro para subsidiar a compra de gasolina. (Os lucros das grandes petrolíferas dispararam recentemente devido à guerra com o Irã.) Com os preços dos imóveis em alta, os democratas deveriam oferecer uma forma de tornar a moradia mais acessível, propondo um auxílio de US$ 20.000 para a entrada de compradores de primeira viagem.

Um número crescente de democratas entende a importância de uma mensagem pró-trabalhador, mas ainda não o suficiente. Está cada vez mais claro que Trump e os republicanos praticamente não estão fazendo nada para melhorar a situação dos trabalhadores americanos, e isso significa que os democratas precisam se mobilizar. À medida que a base de apoio de Trump se desilude com ele, as chances dos democratas nas eleições de meio de mandato aumentam consideravelmente.

 

Fonte: BBC News Mundo/The Guardian

 

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