Da
baixeza dos mandatos terceirizados à altivez do Brasil no G7
Na
semana que passou, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro foi condenado por
unanimidade pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), pelo crime
de coação no curso do processo. A Corte concluiu que ele buscou emparedar o
Judiciário por meio de pressões econômicas e internacionais, durante o
julgamento que condenou seu pai, Jair Bolsonaro, por tentativa de golpe de
Estado. Dos cinco Bolsonaro, já temos dois condenados pelos crimes cometidos e,
portanto, inelegíveis para o bem do país. A sentença reforça o desmonte
progressivo da influência política do clã, que agora vê também Flávio Bolsonaro
(PL-RJ) enfrentar forte desgaste eleitoral após o avanço das investigações
sobre os repasses milionários de Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse
e outras suspeitas que derretem sua pré-candidatura. Menos um Bolsonaro para
tornar o povo brasileiro refém de investidas autoritárias, conspirações
golpistas e atos de traição à pátria.
No
Congresso, o tapete de alguns parlamentares já não consegue esconder tanta
sujeira. Aos poucos, os detritos varridos para baixo dele começam a aparecer à
luz do dia. Em 16 de junho, vieram à tona novos fatos que ratificam a união
umbilical entre o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o ex-banqueiro preso Daniel
Vorcaro.
Para
quem, em 2025, posou de paladino no Estúdio i, da GloboNews, ao afirmar que o
principal entrave do governo federal era a figura do Lula, que acabou se
isolando e exercendo um papel meramente protocolar de chefe de Estado. A
pergunta inevitável para Ciro Nogueira é: o que restou de tanta empáfia
política?
O que
sobrou desse senador vil? Justo ele, que àquela altura já desfrutava
sorrateiramente de um generoso cardápio de benesses financiadas por Vorcaro,
entre viagens nababescas e hotéis de luxo, além de embolsar do ex banqueiro uma
mesada sistemática pela terceirização do próprio mandato. O que restou, afinal,
da soberba desse parlamentar que se julgava poderoso o suficiente para usar a
mídia como auto promoção e para alvejar o governo federal, enquanto operava na
sombra de um 'toma lá, dá cá' lucrativo com o protagonista do maior escândalo
financeiro do país. Um esquema que, pelas revelações semanais, transforma
Vorcaro e seu grupo familiar em uma caricatura perfeita e perigosa de uma
organização mafiosa.
Enquanto
o senador piauiense desferia seus ataques na mídia, o governo federal focava na
agenda econômica e social. De um lado, articulava o Novo PAC para alavancar
investimentos em saúde, educação e saneamento básico por meio de parcerias
público-privadas, de outro, lançava o primeiro programa Desenrola para
renegociar dívidas e reaquecer o mercado de trabalho e renda. Esse período
também se notabilizou pelo avanço de pautas históricas, com destaque para a
aprovação de medidas de longo prazo, como a sanção da Reforma Tributária.
Fica
cada vez mais evidente o fosso que separa a pauta de reconstrução das forças
progressistas, focadas no desenvolvimento social e econômico, de um Congresso
Nacional sequestrado por políticos deletérios e individualistas, dominado por
uma maioria que une a direita oportunista e a extrema-direita. Parte do
parlamento transformou-se em um espaço de negócios para parlamentares obcecados
em proteger seus feudos e privilégios pessoais, aliando-se a corporações que
usam o Poder Legislativo para costurar leis sob medida. O projeto de Ciro
Nogueira, por exemplo, para elevar o teto do FGC de R$ 250 mil para R$ 2
milhões é um escárnio. Longe de defender o cidadão, a medida cria uma rede de
segurança para blindar as fraudes financeiras do banqueiro Daniel Vorcaro.
Trata-se do clássico esquema de privatização dos lucros e socialização dos
prejuízos, articulado no topo do poder em absoluto prejuízo ao povo que confiou
seu voto nesses políticos mercadores de mandatos.
As
suspeitas de aliciamento de parlamentares, ou de figuras de instituições
públicas por Daniel Vorcaro, sensíveis aos seus interesses avolumam-se, na
medida em que avançam as investigações da Policia Federal. Na manhã da
quinta-feira (18/06), a PF deflagrou a nona etapa da Operação Compliance Zero.
Entre os alvos das medidas de busca e apreensão, autorizadas pelo ministro do
STF, André Mendonça, está o senador e líder do governo no Senado, Jaques Wagner
(PT-BA). A PF investiga se o senador usou sua influência para favorecer o Banco
Master, em troca de vantagens indevidas intermediadas pelo empresário Augusto
Lima. Entre as suspeitas estão a defesa de emendas para ampliar empréstimos
consignados e articulações envolvendo o BRB. Em contrapartida, o grupo financeiro
teria custeado jatinhos privados, ingressos caros para show em Los Angeles e
repasses milionários a empresas de sua família. A operação também encontrou
indícios de ocultação de patrimônio na compra de apartamento de luxo de R$ 2,45
milhões em Salvador e apreendeu R$ 471 mil em espécie.
O
senador nega as acusações, afirma ter relação “praticamente zero” com Daniel
Vorcaro e diz que o dinheiro é fruto de economias legítimas (sobras de diárias
do Senado e compra legal de moedas desde 2019), guardadas em cofre oficial.
Todavia, as suspeitas são desastrosas e podem comprometer a imagem do governo,
embora as revelações resultem de uma ação estritamente individual do senador,
sem relação com suas atividades no cargo.
Convém
ressaltar que a deflagração dessa operação contra um aliado importante do
governo, evidencia um divisor de águas institucional, a total autonomia com que
a Polícia Federal atua no governo Lula. A realidade atual contrasta
frontalmente com o período de Jair Bolsonaro, cuja interferência direta na
corporação para blindar seus filhos restou comprovada. Em uma legítima postura
republicana doa a quem doer, Lula deixa claro que qualquer um, seja membro de
partido ou até mesmo um familiar, terá que pagar por seus erros caso a culpa
seja provada.
Desse
modo, torna-se um erro crasso e puramente oportunista tentar carimbar todo o
Partido dos Trabalhadores a partir do caso isolado de Jaques Wagner. Afinal, a
realidade dos fatos mostra que a esmagadora maioria dos políticos denunciados
nesse emaranhado financeiro pertence aos quadros do Centrão e da
extrema-direita bolsonarista, o que antecipa que muitos outros nomes da
oposição, com históricos conhecidos de corrupção, ainda devem emergir conforme
avancem as investigações sobre o envolvimento com Daniel Vorcaro.
Às
vésperas das eleições, é recorrente que a direita tente deitar e rolar sobre o
episódio para desgastar o Palácio do Planalto como um todo, mas a narrativa
esbarra na própria independência das instituições, que hoje investigam sem
amarras políticas.
Contudo,
na atual conjuntura é indispensável manter o olhar atento à própria dinâmica de
pesos e contrapesos do Judiciário. Afinal, a integridade institucional também
se mede pela isonomia de suas ações. Na dinâmica da Operação Compliance Zero,
chama a atenção o contraste entre a velocidade aplicada a certos alvos e o
ritmo curiosamente lento que protege outros personagens, inclusive lideranças
do Centrão, da extrema direita, de figuras do plano estadual/distrital e das
cúpulas partidárias do Congresso, cujas menções em transações espúrias
permanecem em um confortável compasso de espera, a exemplo do ex governador do
Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB-DF) e o esquema de títulos podres do Banco
Regional de Brasília (BRB) no Banco Master, dos valores exorbitantes entregues
por Vorcaro a Flávio Bolsonaro e a seu irmão Eduardo no Texas/EUA que
hipoteticamente custearam a produção de um filme. Para que o processo se
consolide como um instrumento imune a arranjos ideológicos às vésperas do
pleito, a Justiça precisará demonstrar que a balança não pende para
conveniências de ocasião e que o rigor aplicado hoje não se transformará em
blindagem seletiva amanhã.
Enquanto
o cenário político doméstico se perde em depoimentos, apreensões de dinheiro
vivo e justificativas sobre diárias guardadas em envelopes, a verdadeira
distância entre a diplomacia da construção e o espetáculo da provocação se
arvorou de forma ríspida no plano internacional. É nesse contraste que a
geopolítica migra do abstrato e se torna um ambiente de posturas
inconciliáveis.
De um
lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se apresentou em Évian-les-Bains
como um orientador do desenvolvimento global, transformando a Cúpula do G7 em
uma sala de aula para as economias mais ricas do planeta. Com a autoridade de
quem não aceita o velho papel de colônia extrativista, Lula apresentou uma
lógica onde o crescimento não pode ser privilégio de uma cúpula em si no
hemisfério norte. O recado ao G7 foi cirúrgico ao expressar as seguintes
posições: se querem mercados para seus produtos de alto valor agregado, os
países ricos precisam entender que é "sagrado" gerar emprego e renda
na periferia do mundo, transformando a Índia, a China, a África e a América
Latina em novos polos de consumo. Ao aplaudir a sagacidade da China, que ocupou
os espaços de investimento abandonados pelo Ocidente, Lula dá um banho de
realismo econômico nos líderes presentes, avisando que o Brasil quer parcerias
tecnológicas para industrializar suas terras raras e minerais críticos dentro
de suas próprias fronteiras, sepultando de vez a era em que o ouro ia embora e
o país ficava com as migalhas.
Na
outra extremidade, Donald Trump personificou a soberba de um imperador global
que confunde liderança com intimidação. A disparidade de estatura política
ficou visível de forma constrangedora quando Trump, em vez de debater
inteligência artificial ou equilíbrio social, desandou a palpitar sobre a
política brasileira com uma desinformação abissal. Demonstrando ignorar
completamente a realidade do país ao chamar o Brasil de um "país
politicamente difícil" e de mencionar que um suposto "Bolsonaro
Jr." teria sido preso quando liderava as pesquisas, confundindo Eduardo
com Flávio Bolsonaro.
Trump
revelou total desconhecimento sobre o derretimento eleitoral de Flávio, cuja
pré-candidatura desidrata a cada dia após o escândalo dos repasses milionários
e inexplicáveis de Daniel Vorcaro para os Bolsonaro, além da humilhante
peregrinação do senador para mendigar ao país imperialista a imposição de novas
tarifas contra o Brasil e a recente condenação de seu irmão, Eduardo, pelo STF.
Para arrematar a gafe, Trump soltou a velha ameaça velada de que "ninguém
joga mais duro do que os Estados Unidos".
Foi a
materialidade perfeita para que Lula consolidasse sua posição como o estadista
maduro do encontro, dando uma verdadeira aula de altivez ao enquadrar
publicamente o ridículo americano. Sem meias palavras, o presidente brasileiro
expressou que Trump “fala muito e ouve pouco” e cobrou categoricamente: “não se
meta nas eleições do Brasil”. Ao defender a soberania nacional e pontuar com
fina ironia que “se Trump conhece o Brasil pela relação com a família
Bolsonaro, ele desconhece o Brasil”, com esse argumento, Lula desarmou a
arrogância do presidente estadunidense.
Vale
lembrar que em 1º de abril de 2026, a necessidade fascista da extrema-direita
global de rebaixar as instituições se estendeu até a vida pessoal do presidente
francês Emmanuel Macron, cuja esposa foi alvo das grosserias de Trump. O ataque
misógino ao casamento alheio, que ecoa perfeitamente o histórico de insultos de
Jair Bolsonaro à primeira-dama francesa no passado, mostra que, enquanto o clã
Bolsonaro colhe os frutos de suas práticas e derrete politicamente, Lula avança
nas intenções de voto e consolida sua liderança na cena internacional. O
confronto dessas duas realidades deixa claro que a distância atual não é apenas
ideológica, mas de estatura política. Do lado do ex metalúrgico, o respeito
mútuo e a economia compartilhada, do lado de Trump que se acha dono do mundo, a
soberba isolacionista que enxerga o resto do mundo apenas como quintal e as
demais potencias do G7 como subordinadas aos seus caprichos. Afinal, Donald
Trump ao se atrasar por uma hora para a reunião matinal do G7, enquanto todos
os presidentes o aguardavam, ele disse "I'm the boss" ("O chefe
sou eu") em tom de brincadeira. Essa postura é reveladora de um perdedor
arrogante.
Os
fatos recentes expõem o confronto entre concepções de poder diferentes. Uma
fundada no uso indevido das instituições, na política dos favores, na
terceirização de mandatos e na submissão do interesse público a projetos
privados; outra baseada no fortalecimento institucional, na soberania nacional
e na responsabilidade republicana a exemplo da liderança propositiva do Brasil
no G7, em contraste com o isolacionismo arrogante do imperialismo americano.
Enquanto as investigações avançam e os fatos emergem, o desafio das
instituições será garantir que a responsabilização alcance todos os envolvidos,
sem seletividade nem privilégios.
Fonte:
Por Elisabeth Lopes, em Brasil 247

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