O
primeiro passo para controlar seu tempo de tela (e se manter no controle),
segundo especialistas
É uma
situação familiar para muitos de nós: você pega o celular para verificar algo
e, em um piscar de olhos, já se passou uma hora rolando a tela.
Segundo
um novo relatório, as pessoas estimam que mais de um terço do tempo gasto em
seus celulares ocorre sem um objetivo claro.
Para a
pesquisadora sênior Eleanor Drage, da Universidade de Cambridge, no Reino
Unido, "não se trata apenas de pessoas fazendo escolhas imprudentes",
mas de que somos "prejudicados pela natureza imersiva da tecnologia".
E,
embora pedir que as pessoas relatem por conta própria o uso do celular possa
ser pouco confiável, reconhecer os próprios hábitos é um "importante
primeiro passo" para administrá-los, afirmou Pete Etchells, professor de
psicologia e comunicação científica da Universidade Bath Spa, no Reino Unido.
Pesquisas
encomendadas pela operadora Virgin Media O2 mostraram que adultos no Reino
Unido passam, em média, quatro horas por dia no celular. Desse total, 36% do
tempo é gasto de forma não intencional.
No
Brasil, o uso médio de dispositivos conectados à internet chega a 53 horas e 30
minutos por semana, segundo relatório da consultoria DataReportal publicado em
2026 com dados da GWI.
O
relatório das pesquisas da Virgin Media O2 também revelou que muitas pessoas
conhecem ferramentas para controlar o tempo de tela, mas têm dificuldade para
encontrar motivação para usá-las.
"Apesar
da crescente conscientização sobre os efeitos negativos do uso habitual e
excessivo de dispositivos, as pessoas têm dificuldade para gerenciar com
sucesso o tempo que passam online", afirmou Drage, da Universidade de
Cambridge.
Os
entrevistados relataram que a maior parte do uso do smartphone é intencional,
incluindo ações como enviar mensagens, usar mapas ou consultar a previsão do
tempo.
Mas os
participantes das pesquisas também admitiram passar parte do tempo rolando a
tela sem propósito ou alternando entre aplicativos de forma automática.
Ainda
segundo a pesquisa, aqueles que afirmaram passar mais tempo no celular sem um
motivo claro também tinham maior probabilidade de relatar experiências
negativas, como se sentir pior depois do uso ou se deparar com conteúdos
prejudiciais ou desagradáveis.
O
relatório intitulado Age of Autopilot (A Era do Piloto Automático, em tradução
livre), reuniu dados de três pesquisas realizadas entre 2024 e 2026. A mais
recente ouviu cerca de 6 mil pessoas com 16 anos ou mais sobre sua relação com
o tempo de tela.
Mas
alguns especialistas alertam que depender de estatísticas autodeclaradas sobre
uso de celular pode não capturar o quadro completo dos hábitos, do bem-estar ou
das nuances do tempo de tela de cada pessoa.
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Erro humano
"Nós
somos muito ruins em estimar o tempo que passamos fazendo coisas, especialmente
quando se trata do uso de tecnologia", afirmou Etchells, da Universidade
Bath Spa.
Etchells
disse à BBC que estudos mostram que estimativas autodeclaradas sobre uso de
celular e tempo de tela costumam ser exageradas quando comparadas a medições
objetivas, pois isso poderia criar uma "correlação inflada" caso
fossem relacionadas à saúde das pessoas.
Ainda
assim, apesar dessa ressalva, Etchells afirmou que o relatório Age of Autopilot
é útil por sugerir que as pessoas podem estar cada vez mais conscientes de seus
hábitos com o celular.
"Ser
capaz de perceber quando você está usando o celular sem querer ou sem
necessidade é um primeiro passo muito importante", disse Etchells.
Segundo
o pesquisador, para compreender os efeitos do tempo de tela, é preciso
reconhecer que ele nem sempre é prejudicial. O mais importante é identificar
situações em que o uso do celular pode levar a comportamentos indesejados ou
perigosos, como checar o aparelho enquanto se dirige.
Netta
Weinstein, da Universidade de Reading, no Reino Unido, afirmou que as pessoas
devem evitar julgar excessivamente o uso do celular sem um objetivo definido.
Para algumas delas, rolar a tela pode proporcionar relaxamento, distração,
humor ou conexão social.
"Mas
vale a pena perguntar se isso realmente nos deixa renovados ou se simplesmente
saímos dessa experiência sem nos sentirmos melhor e, às vezes, até pior",
afirmou Weinstein.
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Rumo a um uso 'gerenciável'
'Eles
[celulares] são muito úteis, podem ser muito agradáveis de usar e queremos continuar conectados. Mas questão é: como
fazer isso de forma positiva?', questionou a pesquisadora Eleanor Drage, da
Universidade de Cambridge
Os
especialistas afirmam que os resultados do estudo também abrem espaço para
discutir como o design dos smartphones influencia nossos hábitos.
Etchells,
da Universidade Bath Spa, observou que gostaria de ver mais pressão sobre as
empresas de tecnologia em relação às notificações. Segundo o pesquisador, o
fato de elas geralmente virem ativadas por padrão "não é uma escolha de
design feita pensando em nós".
Rafe
Clayton, professor sênior de mídia e comunicação da Universidade de Leeds, no
Reino Unido, disse à BBC que desativar notificações de todos os aplicativos,
exceto os essenciais, pode ser uma forma de recuperar o controle sobre o uso do
celular.
As
recomendações para conter a rolagem de tela também poderiam incluir
"passar mais tempo envolvido em atividades que não estejam conectadas ao
mundo digital", disse Clayton.
Drage,
da Universidade de Cambridge, disse que o seu objetivo é tornar o uso de
dispositivos "gerenciável" e ajudar as pessoas a ter mais influência
sobre a forma como a tecnologia é projetada.
"O
fato é que continuaremos usando nossos mini supercomputadores que carregamos
conosco", disse Drage.
"Eles
são muito úteis, podem ser muito agradáveis de usar e queremos continuar
conectados. Mas questão é: como fazer isso de forma positiva?"
Em
entrevista à BBC, Drage afirmou que "não estamos dizendo às pessoas como
elas devem usar seus aparelhos. O que queremos é ajudar quem gostaria de se
sentir mais no controle".
Ela e
outros pesquisadores do Centro Leverhulme para o Futuro da Inteligência, da
Universidade de Cambridge, irão investigar o uso da inteligência artificial
generativa e seus impactos em uma iniciativa de pesquisa de cinco anos
financiada pela Virgin Media O2.
Fonte:
BBC News

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