terça-feira, 23 de junho de 2026

Ciro Nogueira vendeu fazenda para offshore em paraíso fiscal representada por seu advogado

Uma empresa do senador Ciro Nogueira (PP-PI) vendeu uma fazenda de R$ 18,7 milhões no município de Pedro 2º (PI) para uma offshore sediada nos Emirados Árabes Unidos administrada por um advogado que trabalha para o parlamentar.

A propriedade foi comprada pela Arraf International em março de 2025. Quem assina os papéis em nome da offshore é Gustavo Frazão, que advoga em mais de 20 processos para outra empresa de Ciro Nogueira. Não é possível saber quem é o dono da Arraf.

De acordo com a escritura da transação, assinada em 27 de março de 2025, a Arraf International foi representada por Gustavo Frazão. O advogado atua em mais de 20 processos judiciais relacionados à Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis, outra empresa vinculada ao senador. Além disso, ele ocupa cargo comissionado na Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência Social e Políticas Integradas da Prefeitura de Teresina, administrada por Eliane Nogueira Lima, mãe do parlamentar.

A offshore foi criada dois meses antes da operação de compra e venda da fazenda. Seu endereço é uma caixa postal na zona franca do aeroporto de Sharjah, cidade próxima a Dubai conhecida como um paraíso fiscal.

Os Emirados Árabes são uma federação, e a transparência de informações de empresas varia de local para local. A zona franca de Sharjah é a mais opaca do país, sem registro público de sócios das empresas. Pelo tipo da companhia, é possível saber apenas que a Arraf International tem um dono único.

Além disso, as leis locais permitem que companhias pertençam integralmente a estrangeiros, sem a exigência de um sócio local.

Na escritura que detalha a operação entre a offshore e a Fazendas Reunidas Nogueira Lima, datada de 27 de março de 2025, a Arraf é representada por Frazão. Além de advogar para a Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis, que pertence ao senador, ele também é funcionário comissionado da Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência Social e Políticas Integradas da Prefeitura de Teresina, comandada pela mãe do parlamentar, Eliane Nogueira Lima.

A transação imobiliária ocorreu no mesmo período no qual Ciro Nogueira teria recebido dinheiro e outras vantagens do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, o dono do Banco Master, de acordo com a Polícia Federal. Em 2024 e 2025, Vorcaro transferiu ao menos R$ 6 milhões ao senador por meio de empresas ligadas a ele, segundo as investigações.

<><> Offshore criada antes da operação

A documentação analisada pela reportagem mostra que a Arraf International foi constituída apenas dois meses antes da compra da fazenda. Seu endereço oficial corresponde a uma caixa postal localizada na zona franca de Sharjah, considerada uma das áreas com menor transparência empresarial dos Emirados Árabes Unidos.

Nesse modelo societário, a legislação local não exige a divulgação dos sócios nem a participação de parceiros locais, permitindo que empresas sejam integralmente controladas por estrangeiros. Com isso, não é possível identificar quem está por trás da offshore que adquiriu a propriedade rural.

A fazenda negociada possui 2.410 hectares, sendo classificada como uma propriedade de médio porte para os padrões do estado do Piauí. O valor registrado na operação foi de R$ 18,7 milhões.

Procurado, o senador disse por meio de sua assessoria que “nem ele nem ninguém da família dele é proprietário de nenhuma empresa fora do Brasil”.

Segundo Nogueira, sua mãe, para quem Gustavo Frazão trabalha como funcionário comissionado, é dona da Fazendas Reunidas. Mas dados da Polícia Federal que constam das investigações contra o senador mostram que ele detém 99% do capital da empresa. Quem representa a empresa na escritura é Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, irmão do senador.

Raimundo também é investigado pela Polícia Federal. Ele administra a empresa de Ciro Nogueira que recebeu o dinheiro do Banco Master, a CNLF, atuando como uma espécie de laranja do senador.

A Folha não conseguiu contato com Frazão. Ele foi procurado no dia 2 de junho e no dia 19 de junho no telefone celular registrado em seu escritório de advocacia e por meio da assessoria de imprensa da Prefeitura de Teresina.

Empresas que pertencem ao senador costumam fazer operações entre elas, de acordo com documentos levantados pela Folha. A Fazendas Reunidas Nogueira Lima comprou um apartamento de 134 m² no Itaim Bibi por R$ 1,4 milhão em 9 de outubro de 2025 da CNLF.

A CNLF havia adquirido o apartamento cerca de um ano antes, em 12 de agosto de 2024, por menos da metade do preço: R$ 650 mil. A mudança nos valores se deve a uma reforma, justificou Nogueira. Segundo ele, o imóvel é utilizado por sua mãe e sua irmã.

A venda da fazenda para a offshore não é a única venda de Nogueira para uma empresa sediada no exterior. A CNLF vendeu um apartamento no Jardim Paulista, em São Paulo, por R$ 6,5 milhões em abril de 2025 para a Aliqum Participações, que pertence a uma offshore sediada nas Ilhas Virgens Britânicas, outro paraíso fiscal.

A offshore se chama Tedax Partners e não é possível saber seu beneficiário final. O representante legal da Aliqum é o empresário Carlos Santana, amigo do senador.

<><> Transações entre empresas ligadas ao senador

Documentos obtidos pela Folha também apontam movimentações patrimoniais entre companhias relacionadas ao senador. Um dos exemplos envolve um apartamento de 134 metros quadrados no bairro Itaim Bibi, em São Paulo.

A Fazendas Reunidas Nogueira Lima adquiriu o imóvel da CNLF por R$ 1,4 milhão em outubro de 2025. Cerca de um ano antes, a própria CNLF havia comprado o apartamento por R$ 650 mil.

Questionado sobre a diferença de valores, Ciro Nogueira atribuiu a valorização do imóvel a uma reforma realizada no período. Segundo ele, o apartamento é utilizado por sua mãe e por sua irmã.

Investigação da Polícia Federal

A negociação da fazenda ocorreu no mesmo período em que a Polícia Federal investiga supostos repasses financeiros do empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, ao senador. De acordo com as apurações, empresas ligadas a Vorcaro teriam transferido ao menos R$ 6 milhões para Ciro Nogueira entre 2024 e 2025.

A investigação levou a uma operação da Polícia Federal realizada em 7 de maio deste ano. Os documentos da apuração descrevem uma relação marcada por "elevado grau de intimidade, confiança e proximidade" entre o senador e o empresário.

Os investigadores apontam indícios de pagamentos periódicos realizados por Felipe Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro. Segundo a Polícia Federal, haveria uma parceria "ligada aos pagamentos mensais em favor do senador, correspondentes, inicialmente, ao valor de R$ 300 mil, com indícios de que teriam sido posteriormente aumentados para a importância de R$ 500 mil".

<><> Suspeitas de atuação em favor do Banco Master

A Polícia Federal também apura se os pagamentos teriam ocorrido em troca da defesa de interesses do Banco Master no Congresso Nacional. Entre os pontos investigados está a apresentação de uma proposta que ampliaria a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante.

A iniciativa ficou conhecida no mercado financeiro como "emenda Master". Segundo os investigadores, a medida poderia beneficiar diretamente o banco em um momento de dificuldades relacionadas ao modelo financeiro adotado pela instituição.

O senador foi alvo de operação da Polícia Federal realizada em 7 de maio, um desdobramento da apuração sobre as fraudes cometidas por Daniel Vorcaro. Os documentos da operação descrevem uma relação entre Nogueira e Vorcaro marcada por “elevado grau de intimidade, confiança e proximidade”, com registros que vão desde a hospedagem em hotéis de luxo na Europa até repasses milionários.

Entre as principais suspeitas da PF estão a de que o senador, que foi ministro da Casa Civil na gestão Jair Bolsonaro (PL), recebia quantias repassadas por Felipe Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro.

Além disso, de acordo com as investigações, haveria o pagamento de outras despesas pessoais do parlamentar, como viagens de jatinho.

Felipe teria feito uma parceria “ligada aos pagamentos mensais em favor do senador, correspondentes, inicialmente, ao valor de R$ 300 mil, com indícios de que teriam sido posteriormente aumentados para a importância de R$ 500 mil”. O primo de Vorcaro foi preso temporariamente.

Em contrapartida, suspeita a PF, Ciro teria defendido os interesses de Vorcaro no Congresso, como a apresentação de uma emenda que ampliaria a cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Crédito) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante.

Essa proposta foi apelidada no mercado, à época, de “emenda Master”. A intenção era dar uma saída ao dono do banco, que àquela altura já não conseguia sustentar a arquitetura financeira montada, apontada pelos investigadores como fraudulenta.

No período em que Ciro teria atuado a favor do Master, a empresa CNLF comprou duas mansões e dois apartamentos de luxo em São Paulo. Era através dessa empresa que o senador teria, segundo a PF, recebido os pagamentos do Master.

Desde que os detalhes das investigações da PF vieram à tona, na última terça-feira (16), Nogueira não se manifestou. Quando o assunto veio à tona, em maio, quando o senador foi alvo da PF, ele disse que era mentira que ele havia reproduzido na íntegra a emenda Master, a pedido de Vorcaro e negou ter recebido dinheiro ilícito.

•        Com faturamento de R$ 832 mil, empresa de Ciro Nogueira movimentou R$ 20 milhões em um ano

Uma empresa da qual o senador Ciro Nogueira (PP-PI) é sócio movimentou R$ 20,079 milhões em aproximadamente um ano, montante considerado pela Polícia Federal incompatível com o faturamento anual declarado, de R$ 832 mil. O relatório também aponta repasses ligados a Felipe Vorcaro e foi enviado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), segundo o Valor Econômico.

A movimentação financeira foi identificada na CNLF Empreendimentos Imobiliários entre agosto de 2023 e agosto de 2024, com base em dados do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras). A PF afirma no documento que a soma de créditos e débitos registrados no período destoa da receita anual informada pela empresa.

<><> Relatório da PF cita incompatibilidade entre movimentação e receita

No relatório, a PF afirma que a CNLF movimentou R$ 20.079.823,00 no intervalo analisado. O valor, segundo os investigadores, não corresponderia ao faturamento declarado pela empresa. “Nesse período, a empresa movimentou um total de R$ 20.079.823,00, considerando créditos e débitos, valor incompatível com o faturamento anual declarado pela empresa”, diz trecho do relatório da PF.

O documento foi produzido a partir de informações financeiras comunicadas pelo Coaf e encaminhado ao ministro André Mendonça, relator do caso no STF. A análise integra a apuração sobre possíveis relações entre movimentações financeiras, repasses empresariais e atuação política no Senado.

<><> Repasses da BRGD são mencionados na apuração

De acordo com a PF, a CNLF teria recebido R$ 902 mil da BRGD, empresa ligada a Felipe Vorcaro, primo do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master. Os pagamentos teriam ocorrido em três parcelas.

Para os investigadores, esses repasses podem ter relação com pagamentos mensais de R$ 300 mil que Daniel Vorcaro faria a Ciro Nogueira. A PF associa os créditos identificados nas contas da CNLF a diálogos entre Daniel Vorcaro e Felipe Vorcaro sobre transferências recorrentes.

“Os créditos da BRGD na CNLF, capturados pelo RIF (Relatório de Inteligência Financeira), são contemporâneos com os diálogos entre Daniel Vorcaro e Felipe Vorcaro sobre repasses mensais de R$ 300 mil”, afirma trecho da representação da PF.

•        PF aponta que deputados pagaram faturas de cartão de Ciro Nogueira

Documentos da Polícia Federal (PF) obtidos no âmbito da Operação Compliance Zero apontam que os deputados federais Julio Arcoverde (PP-PI) e Átila Lira (PP-PI) realizaram pagamentos de faturas de cartão de crédito do senador Ciro Nogueira (PP-PI). A investigação apura suspeitas de fraude financeira, corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo Nogueira e o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.

De acordo com os registros analisados pela PF, Julio Arcoverde quitou uma fatura de R$ 13.693 de um cartão do Banco BRB vinculado a Ciro Nogueira em 19 de junho de 2024. O pagamento ocorreu no mesmo mês em que o senador participou de uma viagem a Lisboa custeada por Vorcaro, segundo a investigação.

Os documentos também indicam que Átila Lira pagou um boleto de R$ 3.457 referente ao mesmo cartão de crédito do BRB, também em junho de 2024. Para os investigadores, os pagamentos realizados por terceiros integram um conjunto de elementos que podem indicar mecanismos para ocultar a origem dos recursos utilizados para custear despesas pessoais do senador.

<><> Relações políticas e familiares

A Polícia Federal também registrou outras conexões entre Julio Arcoverde e Ciro Nogueira. Os dois foram sócios da empresa Seven Bar & Charutaria, em Teresina (PI), entre 2003 e 2011. Além disso, Julio Ferraz Arcoverde Filho, filho do deputado, ocupa cargo de assessor parlamentar no gabinete do senador, com remuneração mensal de R$ 12.360, conforme os autos da investigação.

Os investigadores afirmam que as despesas registradas nos cartões de crédito de Ciro Nogueira apresentavam valores considerados elevados em comparação à remuneração oficial do senador. Conforme os documentos, a fatura do cartão do BRB chegou a R$ 120.839 em junho de 2024. No mesmo período, o cartão do Itaú registrou gastos de R$ 14.045. Já em fevereiro daquele ano, uma fatura do Bradesco alcançou R$ 46.109.

<><> Suspeita de ocultação de despesas

Segundo a PF, os pagamentos efetuados por terceiros podem indicar uma tentativa de dificultar a identificação de quem efetivamente arcava com os gastos do senador. Os investigadores também afirmam que Ciro Nogueira vinculou um de seus cartões a outra pessoa, prática apontada como possível indício de interposição de terceiros.

A investigação sustenta que o objetivo dessas operações seria dificultar o rastreamento da movimentação financeira e ocultar a origem dos recursos utilizados para manter um padrão de consumo considerado incompatível com a renda formal declarada pelo parlamentar. Para a Polícia Federal, a prática poderia impedir a identificação da origem, do destino e do beneficiário final dos valores movimentados.

 

Fonte: FolhaPress/Brasil 247

 

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