O
escândalo que a imprensa não quis nomear
Meses
antes do início formal da campanha presidencial de 2026, a família Bolsonaro
ocupa o noticiário entrelaçada no escândalo do Banco Master. O site The
Intercept Brasil divulgou áudios e conversas de Flávio Bolsonaro e
Daniel Vorcaro, banqueiro responsável pelo banco Master e atualmente preso, com
pedido de R$136 milhões para o financiamento do filme biográfico do
ex-presidente, Dark Horse. O dinheiro, como quase tudo que envolve
o Master, viria de fundos de previdência de estados governados por aliados.
No
início de maio, Lula e Flávio Bolsonaro apresentavam intenções de voto em
empate dentro da margem de erro, com pequena vantagem para o senador do PL. As
primeiras pesquisas que mediram os efeitos da revelação identificaram um
redirecionamento de eleitores: a vantagem passou para o petista, que agora
lidera com 46,5% das intenções, enquanto Flávio Bolsonaro recuou para 41,4%,
segundo dados do Meio/Ideia. O eleitorado se moveu, mesmo que discretamente.
Mas e a imprensa, como reagiu?
Contribuições
acadêmicas já consolidadas acompanham a mídia nas eleições desde a
redemocratização e atestam um posicionamento consistentemente antipetista. No
passado, o PSDB era a alternativa ao projeto político representado pelo Partido
dos Trabalhadores (PT). Com a desarticulação competitiva dos tucanos na corrida
presidencial, a imprensa foi capaz de convencer-se que Jair Bolsonaro
representaria uma alternância política saudável. No dia da votação do segundo
turno O Globo publicou editorial no qual defendia que a
direita, na figura do ex-capitão, seria capaz de representar “amplas parcelas
do eleitorado que terminaram sufocadas pelo longo ciclo de ‘progressismo’”.
Desde o
acirramento das disputas ideológicas no Brasil em direção ao ambiente
polarizado que conhecemos, o clima de período eleitoral que retornava de quatro
em quatro anos passou a se apresentar em estado de permanência. A mídia
manteve-se como participante ativo deste processo e contribuiu para uma
confusão cognitiva quando organizava ideologicamente o campo. Ao categorizar
candidatos, projetos e personagens como de esquerda, que descrevia com
antidemocrática, direita ou centro, a imprensa demonstrava suas preferências.
Por
isso, é importante monitorar os meios de comunicação para além do período
eleitoral, como propõe o Manchetômetro há mais de uma década. Se em 2018 a
escolha era muito difícil para o Estado de S. Paulo, no novo ciclo
pedia-se por uma coligação de centro que derrotasse “Bolsonaro e a esquerda”.
Em 2026, dados do Relatório “De Olho na Imprensa” demonstram um maior
alinhamento à direita declarada.
Um dos
filtros interessantes para evidenciar as distinções da cobertura periódica é o
tema do escândalo político. Casos de corrupção estão longe de ser novidade na
política brasileira, contudo a espetacularização foi um fenômeno recente
protagonizado pela mídia, especialmente a televisionada. Com destaque para o
Mensalão e a Lava Jato, os programas jornalísticos exploraram imageticamente as
notícias e contribuíram para uma deterioração da confiança nas instituições
públicas, fomentando uma espécie de crise representativa e de fuga para
candidatos identificados como outsiders.
Longe
do cumprimento das promessas de imparcialidade e defesa do interesse público, a
imprensa comporta-se como ator politicamente articulado com interesses a serem
defendidos. Para demonstrar tal assimetria recorrente, propomos uma análise dos
editoriais da primeira semana após a divulgação dos áudios de Flávio Bolsonaro
para Vorcaro e o desdobramento do caso.
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As curvas de negatividade na cobertura dos editoriais
Segundo
dados do relatório De Olho na Imprensa, o Índice de Viés (IV) agregado dos três
jornais em relação ao governo federal havia atingido, no início de março, seu
ponto mais desfavorável desde junho de 2025. O IV de março ficou em –1,92, o
mais negativo desde junho de 2025, com o Estadão na dianteira
com –3,00, seguido pelo Globo com –1,93 e a Folha com
–1,29. A cobertura de Lula especificamente seguiu trajetória semelhante: o IV
de março para o presidente foi de –2,12, também o mais desfavorável desde junho
de 2025.
Esse
recrudescimento em março foi alimentado por uma agenda que combinava pressão
econômica e crise política. As pesquisas que indicavam queda na aprovação de
Lula e ascensão de Flávio Bolsonaro, combinadas com os desdobramentos da crise
no INSS envolvendo Lulinha e a divulgação do PIB de 2025 com o pior resultado
desde 2020, dominaram o noticiário. O cenário produzia uma narrativa coerente
para os jornais: um governo em xeque, econômica e politicamente vulnerável,
diante de um adversário em ascensão.
O
escândalo deflagrado pelo The Intercept, com a revelação das
mensagens entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, chegou justamente nesse
momento de pico da negatividade anti-Lula. Os editoriais ao longo dos primeiros
sete dias publicados pelos três jornais representam, portanto, uma inflexão conjuntural
relevante: pela primeira vez em muitos meses, o alvo central da crítica
editorial não é o governo federal, mas o principal candidato de oposição.
Isso
não significa, necessariamente, uma reorientação estrutural do posicionamento
da imprensa, mas é um dado analítico que precisa ser observado. Principalmente
porque tanto Lula quanto o PT não saíram ilesos dessa cobertura. Em abril, o IV
agregado caiu para –1,41, o mais negativo desde dezembro de 2025, uma alta
significativa em relação ao pico de março, mas ainda em território fortemente
negativo. Isso sugere que o escândalo Flávio-Vorcaro funcionou como um
moderador temporário da hostilidade em relação ao governo, sem revertê-la.
O
padrão é perfeitamente consistente com a nossa hipótese: a mídia não abandonou
o antipetismo, mas foi obrigada a redistribuir a negatividade de forma
conjuntural, diante de um fato de grande impacto que envolvia diretamente o
candidato que vinha tentado se construir como alternativa.
A
análise comparada dos três editoriais de 15 de maio é bastante reveladora.
O Estadão foi o mais contundente na condenação moral de Flávio
Bolsonaro, mas rapidamente converteu o episódio em munição para um apelo à
construção de uma alternativa conservadora “séria”, o que revela que o alvo
implícito do editorial era menos Flávio Bolsonaro do que Lula, fato que dialoga
também diretamente com as escolhas das publicações para a repercussão do caso,
com o espaço concedido a candidaturas do campo da direita como Ronaldo Caiado
(PSD) e Romeu Zema (Novo).
É
verdade que os editoriais reconhecem elementos comprometedores da conduta de
Flávio Bolsonaro. O Globo destaca a proximidade incomum entre
o senador e Daniel Vorcaro, relação que Flávio Bolsonaro não apenas omitiu dos
eleitores, mas negou publicamente. Ou seja, mentiu. A formulação é relevante
porque não se trata de uma simples ausência de informação, e sim de uma
declaração incompatível com os fatos revelados. O jornal também identifica um
conflito de interesses decorrente do mandato parlamentar do senador.
Entretanto, a análise permanece restrita à dimensão individual do problema.
Pouco se explora o fato de que a relação entre o Master e a política não se
limita a Flávio Bolsonaro, mas envolve atores importantes de todo o campo
político que o sustenta.
Essa
delimitação do escopo da investigação é significativa. O caso não se resume à
intimidade entre um banqueiro e um pré-candidato presidencial. Governadores
ligados ao bolsonarismo, como Cláudio Castro, direcionaram bilhões de reais da
previdência estadual para aplicações no Master. No Congresso, lideranças de
partidos aliados, como Ciro Nogueira (PP-PI), defenderam mudanças regulatórias
que poderiam beneficiar o banco em detrimento do Fundo Garantidor de Crédito
(FGC), com potenciais impactos sistêmicos para a economia.
Ainda
assim, esses elementos permanecem periféricos ou ausentes na maior parte da
cobertura editorial. O contraste com a Operação Lava Jato é inevitável. Naquele
momento, a imprensa não se limitou a investigar indivíduos específicos, mas
procurou construir uma narrativa abrangente sobre um suposto sistema de
corrupção associado a determinado campo político. No caso Master, observa-se
uma disposição muito menor para mapear redes de apoio, relações institucionais
e responsabilidades coletivas.
A Folha
de S. Paulo oferece um exemplo particularmente ilustrativo dessa
ambivalência. O jornal afirma que Flávio Bolsonaro chega à disputa presidencial
com poucas credenciais. Ainda assim, o problema é tratado como uma crise de
imagem ou transparência, e não como mais um capítulo de uma trajetória marcada
por controvérsias públicas. Diferentemente do tratamento frequentemente
dispensado a lideranças petistas, os escândalos anteriores envolvendo o senador
não aparecem como elementos constitutivos de sua identidade política.
Mais
reveladora ainda é a tentativa recorrente de aproximar o episódio de Lula. A
referência à audiência entre o presidente e Daniel Vorcaro surge como esforço
de equilibrar responsabilidades e preservar a lógica da equivalência entre os
dois principais polos da disputa política nacional. O procedimento reproduz uma
tendência consolidada do jornalismo político brasileiro: a busca permanente por
simetria entre atores que ocupam posições muito distintas nos acontecimentos
narrados. Nesse caso, porém, a equivalência parece especialmente artificial,
uma vez que as evidências divulgadas dizem respeito diretamente às relações
entre o banqueiro e o universo político bolsonarista.
A Folha adotou
postura dura mas introduziu uma válvula de escape ao mencionar a audiência de
Daniel Vorcaro com Lula, sustentando o enquadramento da falsa equivalência
mesmo quando os fatos não a autorizavam. O Globo foi o mais
técnico-jurídico, apostando na pressão pela investigação policial, um
posicionamento que evita o julgamento político explícito, mas mantém o
candidato sob pressão.
O Estadão é
o mais severo na avaliação moral de Flávio Bolsonaro, chegando a considerá-lo
indigno da Presidência. Entretanto, mesmo nesse caso, a crítica não se converte
em investigação aprofundada das estruturas políticas que tornaram possível sua
ascensão. O jornal parece mais preocupado com a busca de uma alternativa
conservadora eleitoralmente viável do que com a compreensão das conexões entre
o escândalo e a direita brasileira contemporânea. A questão central não é a
natureza do fenômeno político representado por Flávio Bolsonaro, mas a
possibilidade de substituí-lo por um candidato capaz de derrotar Lula nas
urnas.
Esse
padrão ajuda a compreender por que parte da cobertura do caso Master insiste em
inserir Lula e o STF em narrativas cuja conexão com os fatos revelados é
secundária ou inexistente. Trata-se de uma atualização do antigo enquadramento
da polarização como confronto entre dois extremos equivalentes. O problema é
que a literatura recente sobre comportamento político tem apontado justamente
para a existência de uma polarização assimétrica, marcada por uma radicalização
mais intensa da direita do que da esquerda. Sob essa perspectiva, a insistência
em distribuir responsabilidades de forma equilibrada entre os dois pólos deixa
de ser um exercício de neutralidade e passa a funcionar como mecanismo de
obscurecimento das diferenças efetivamente existentes.
Embora
os três grandes jornais tenham adotado tom crítico em relação a Flávio
Bolsonaro, a cobertura editorial do escândalo Master revela menos uma
disposição de investigar as conexões políticas do caso do que uma preocupação
com seus efeitos eleitorais. O foco predominante não recai sobre a extensão das
relações entre o banco e o campo bolsonarista, mas sobre os danos potenciais à
candidatura presidencial do senador.
Há um
elemento adicional que merece atenção e que está presente de forma singular no
editorial de O Globo de 15 de maio: a comparação entre o
orçamento destinado ao filme Dark Horse e produções como Ainda
estou aqui. Trata-se do único jornal a fazer essa referência, o que é
significativo. O filme de Walter Salles tornou-se um símbolo cultural da
resistência democrática ao bolsonarismo. Ao mencioná-lo, O Globo inscreve
o escândalo em um registro cultural e não apenas político-criminal, uma escolha
editorial que, consciente ou não, aprofunda o contraste moral entre os dois
campos.
Por
fim, o dado mais importante para a nossa pergunta está no editorial do Estadão de
16 de maio: “a direita democrática tem diante de si uma oportunidade preciosa,
que é permitir ao Brasil se libertar de Lula e suas ideias envelhecidas sem se
submeter a Jair Bolsonaro Ali está articulada com transparência a lógica que
organiza toda a cobertura: a imprensa não quer Lula, não quer Jair Bolsonaro, e
está à espera de uma “direita democrática” que nunca se materializa, em parte
porque os próprios jornais ajudaram a construir as condições que inviabilizaram
esse projeto ao longo de anos de cobertura antipolítica e de criminalização
seletiva.
Nesse
sentido, os editoriais de maio de 2026 são documentos preciosos por revelar a
teleologia política que habitualmente organiza a cobertura de forma mais difusa
e naturalizada. O antipetismo demonstrado pelo O Estado de S. Paulo recorrentemente
há tantos anos aparece sintetizado no editorial de 21 de maio de maneira
grosseira quando o jornal, diante a ficha suja dos Bolsonaro, afirma que ter
permitido que Lula voltasse ao poder era motivo suficiente para que o país
desprezasse Flávio. Os paladinos da moralidade e da boa gestão ficam cegos
diante de um partido identificado à esquerda e as pautas progressistas.
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A gramática do escândalo
Um dos
achados mais relevantes desta análise comparada é precisamente o que está
ausente na maior parte dos editoriais: a palavra “escândalo”, que surge de
maneira discreta após sete dias. Quando os protagonistas de episódios de
corrupção ou comportamento ético questionável eram Lula, o PT ou figuras
associadas ao campo petista, a imprensa mobilizou rapidamente esse
enquadramento, com toda a carga semântica que ele carrega de ruptura moral, de
crise sistêmica, de exigência de consequências imediatas.
No caso
Flávio-Vorcaro, os três jornais optaram por uma gramática distinta:
“suspeitas”, “indícios”, “proximidade incomum”, “intimidade de estarrecer”. O
tom é de perplexidade e de demanda por investigação, não de condenação do fato
como escândalo político em si.
Isso
não é apenas uma escolha lexical, mas demonstra um enquadramento com
consequências políticas. A literatura de comunicação política, especialmente a
partir dos trabalhos de Entman (1993) sobre framing, mostra que
nomear um evento como “escândalo” ativa esquemas cognitivos específicos no
leitor, como urgência, responsabilização, exigência de punição.[1] Chamar
o mesmo evento de “episódio” ou “caso a investigar” produz um efeito oposto de
suspensão do julgamento, contenção da demanda pública por consequências.
O
Globo é
o exemplo mais nítido dessa operação. Ao reconhecer a presunção de inocência e
logo relativizá-la, o jornal cria uma arquitetura retórica que parece
equilibrada mas funciona como freio ao enquadramento de escândalo. A frase que
demanda investigação policial ocupa o lugar que, em outros contextos, seria
ocupado pela exigência de responsabilização política imediata.
Quando
o Manchetômetro monitorou a cobertura de episódios como o mensalão ou os
desdobramentos da Lava Jato envolvendo Lula, os editoriais dos mesmos jornais
não hesitaram em usar o repertório do escândalo, inclusive antecipando
julgamentos que a própria justiça ainda não havia feito. Os editoriais
demoraram dias para chamar todo esse enredo de escândalo político, mesmo com o
histórico amplamente conhecido dos personagens envolvidos.
Há
ainda um segundo nível de assimetria que está na origem da informação. O fato
de que a revelação partiu do The Intercept, e não de uma reportagem
investigativa da própria grande imprensa. Os três jornais cobriram o caso, mas
nenhum o produziu. Isso contrasta com o protagonismo que a imprensa tradicional
assumiu em outros momentos de exposição do PT, muitas vezes em cumplicidade
ativa com a estratégia da Lava Jato. A mídia que antes vazava e amplificava
agora aguarda, pondera e pede investigação.
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Inflexão na curva de negatividade
A
periodização da curva de negatividade ganha contornos ainda mais precisos
quando se considera o que ocorreu entre o pico de negatividade de março-abril e
a revelação do The Intercept. No dia 7 de maio, Lula visitou a Casa
Branca para um encontro com Donald Trump que durou cerca de três horas, com
participação de ministros de ambos os países.
O
evento produziu um noticiário incomum para os padrões da cobertura recente:
imagens de um presidente brasileiro recebido pelo líder americano mais poderoso
do momento, conduzindo negociações comerciais e geopolíticas de amplo espectro.
Nas redes sociais, Donald Trump descreve Lula como “presidente muito dinâmico”,
e ao ser questionado por repórteres declarou que havia tido uma “ótima reunião”
com um “homem bom, um cara inteligente”. Para a imprensa brasileira, esse tipo
de declaração apresenta um problema de enquadramento difícil de resolver:
criminalizar ou minimizar um presidente que acaba de ser publicamente elogiado
pelo líder da direita global com quem os próprios jornais têm grandes
afinidades ideológicas.
Uma
pesquisa realizada após a visita indicou que 60% dos brasileiros consideraram o
encontro “bom para o Brasil”, dado que os jornais dificilmente podiam ignorar.
O resultado foi uma janela de cobertura relativamente menos hostil ao governo
federal, que durou até a semana do escândalo Flávio-Vorcaro. A sequência
cronológica, pico de negatividade em março, breve atenuação em torno da visita
a Washington, revelação do Intercept em 13 de maio e
editoriais de 15 e 16, é ela mesma um dado analítico relevante: mostra que a
intensidade da cobertura negativa ao governo não é uma constante rígida, mas
responde a conjunturas específicas, o que torna ainda mais significativo o fato
de que o escândalo envolvendo o principal adversário de Lula não produziu uma
inversão duradoura dessa tendência estrutural.
Os
editoriais analisados reafirmam resultados de décadas de pesquisas sobre a
imprensa brasileira: o antipetismo é transversal e inquestionável. Mesmo com a
cobertura sendo matizada pelo enfoque no futuro da candidatura de Flávio
Bolsonaro, houve espaço significativo dedicado a erodir a legitimidade
lulopetista no tabuleiro democrático. Durante algumas décadas, os editoriais
esconderam-se atrás de uma retórica de defesa do centro, como símbolo de
equilíbrio e responsabilidade longe dos extremos. Com a radicalização política,
o apreço por uma alternativa “conservadora séria” e uma “direita democrática”
dominam a narrativa como a via que salvará o Brasil do bolsonarismo e da
esquerda.
Se
ainda é cedo para discernir os resultados políticos para a candidatura de
Flávio Bolsonaro e para o capital político da família, esse escândalo
contribuiu para delinear ainda mais o posicionamento da mídia. Em um passado
recente, o ex-capitão e sua trupe pareceram um remédio amargo diante dos
efeitos benéficos de vencer o PT e ter Paulo Guedes no comando de uma política
econômica fiscalista. Nesse contexto, a vitória do bolsonarismo foi legitimada
especialmente por O Globo e Estadão. Agora que o
sonho dourado acabou, os editoriais lembraram do passado corrupto e
antidemocrático desta família. E diferente dos últimos anos, que investiam em
um projeto de centro, já se moveram em direção à idealizada direita
democrática.
Enquanto
os editoriais debatiam os estragos do escândalo, a campanha de Flávio Bolsonaro
tratava de mudar de assunto. A troca do marqueteiro – gesto clássico de
refundação narrativa em momentos de crise – sinalizou que a equipe reconhecia a
gravidade do problema, mesmo que o candidato insistisse publicamente em
minimizá-lo. Na sequência, vieram as viagens aos Estados Unidos: encontros com
membros do Congresso americano, fotos estratégicas em Washington, o esforço de
projetar uma imagem de estadista em vez de réu político.
O
Brasil que aparecia nessas imagens era o de um senador com trânsito
internacional, não o do áudio embaraçoso pedindo dinheiro a um banqueiro preso.
Dois temas de forte apelo conservador entraram na pauta como combustível para
essa reorientação: a declaração do PCC e do Comando Vermelho como organizações
terroristas e o tarifaço imposto pelos Estados Unidos, que permitia ao
candidato ocupar um espaço de defesa da soberania econômica sem sair do campo
ideológico que lhe é confortável. Se a imprensa acompanhou esse movimento com o
mesmo escrutínio dedicado ao escândalo, ou se permitiu que a agenda da campanha
pautasse a cobertura, é a pergunta que os próximos capítulos desta análise se
propõem a responder.
Para
além do pleito de 2026, a dúvida que torna os estudos de mídia indispensáveis
para democracia brasileira é entender quem mais a imprensa é capaz de apoiar
sob a retórica de impedir que Lula, ou qualquer representante do Partido dos
Trabalhadores, chegue ao poder.
Fonte:
Por Lidiane Vieira, Pollyanna Brêtas e André Madruga, em A Terra é
Redonda

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