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Copa hostil: um Mundial à medida do trumpismo
A Copa
do Mundo de 2026 entrará para a história por ser a primeira a reunir 48
seleções; por ter um calendário que se estenderá por 39 dias; e por ser
realizada em três países diferentes: Estados Unidos, México e Canadá. Mas
também ficará na história por questões mais controversas, como o fato de um dos
anfitriões, os Estados Unidos, estar em guerra com um dos participantes, o Irã.
E também será lembrada como a mais hostil para muitos torcedores, tanto aqueles
que estiverem em território americano quanto aqueles que queiram entrar no país
para assistir aos jogos. Não são poucos os motivos que justificam essa
afirmação.
Imagine
por um momento que você é um haitiano ou um iraniano que gostaria de ir aos
Estados Unidos para torcer pela sua seleção nacional. Esqueça. Será impossível.
Por quê? Porque seu país está entre um grupo de 19 nações cujos cidadãos têm a
entrada proibida pelo governo Trump. A consequência disso é algo sem
precedentes em uma Copa do Mundo: torcedores de seleções classificadas estão
proibidos de entrar no país anfitrião para assistir aos jogos. A própria
seleção iraniana teve que mudar o local de concentração durante o campeonato,
inicialmente previsto no Arizona, para Tijuana, no México. E só poderá pisar em
solo americano pelo tempo estritamente necessário para disputar suas partidas
da primeira fase em Los Angeles e Seattle.
Mas
agora imagine que você seja da Costa do Marfim ou do Senegal. Sua situação
melhora, mas muito sutilmente. Pois será muito difícil conseguir um visto para
entrar nos Estados Unidos, já que esses são dois dos 20 países aos quais as
autoridades americanas impuseram restrições severas na concessão desses
documentos. De fato, a ministra do Esporte do Senegal já anunciou que seu
governo não organizará nenhuma viagem de torcedores diante da recusa aos
pedidos feitos.
”Bem,
mas eu não sou de nenhum desses países”, você poderia responder. ”Então não
teria dificuldades para entrar nos Estados Unidos”. De fato, você teria mais
opções, o que não impede que possa enfrentar algum problema mais ou menos grave
na hora de passar pelos rigorosos controles de fronteira. Terá de obter a
aprovação dos agentes do Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP),
que têm autoridade para interrogar os passageiros, realizar inspeções
adicionais e verificar seu celular e suas redes sociais antes de permitir ou
não sua entrada no país. Um procedimento ao qual estão sujeitos não apenas os
torcedores, mas também os membros das delegações oficiais, algumas das quais,
especialmente as de países vistos com desconfiança pelas autoridades americanas,
estão sendo submetidas a controles excessivamente rigorosos nos aeroportos. Um
dos países afetados foi o Uzbequistão, cujo técnico, o ex-jogador Fabio
Cannavaro, declarou que lhe disseram que “as regras são assim”. “Mas, no fim
das contas, o controle de segurança afetou apenas a nós. É muito estranho, mas
sobre os motivos desse comportamento é preciso perguntar a eles”.
Aymen
Hussein, um dos jogadores mais famosos da seleção iraquiana, ficou retido por
sete horas no aeroporto de Chicago antes de ser admitido. O fotógrafo oficial
da delegação iraquiana não teve a mesma sorte, tendo-lhe sido negada a entrada.
O mesmo aconteceu com o árbitro senegalês Omar Abdulkadir Artan, eleito o
melhor da Confederação Africana em 2025, cujo caso gerou muita polêmica nos
últimos dias. Ele deveria ser o primeiro árbitro de seu país a atuar em uma
Copa do Mundo, mas, após aterrissar em Miami, foi submetido no próprio
aeroporto a um interrogatório de 11 horas e, depois de passar por uma cela de
detenção, teve sua entrada nos Estados Unidos recusada por “problemas no
processo de verificação de antecedentes”. Ele teve que pegar um avião para Istambul.
Imaginemos
que você tenha conseguido passar por essa triagem e que tenha conseguido entrar
nos Estados Unidos. Outra possibilidade é que você já more no país e esteja
interessado em assistir a algum jogo. A menos que tenha uma situação financeira
sólida, será impossível comprar um ingresso devido ao seu alto preço, uma das
questões que mais protestos gerou nos últimos meses. Esta edição vai superar
qualquer tabela de preços conhecida até agora neste evento.
Se
compararmos com as últimas edições das Copas do Mundo, vemos que o ingresso
mais caro na Rússia em 2018 custou 1.100 dólares e 1.600 dólares no Catar em
2022. Para este campeonato de 2026, a FIFA estabeleceu um preço inicial na
mesma categoria de 8.680 dólares, um valor que, devido ao sistema de preços
dinâmicos estabelecido pela entidade, semelhante ao utilizado pelas companhias
aéreas e que flutua de acordo com a demanda, tem vindo a ficar cada vez mais
caro. Estima-se que, com esse método, a FIFA tenha aumentado em média 34% o
preço dos ingressos em 90 das 104 partidas do torneio. A previsão da entidade é
obter nesta Copa do Mundo uma receita de 3 bilhões de dólares apenas com a
venda de ingressos e pacotes VIP, o que seria quatro vezes mais do que o
arrecadado no Catar.
O
ingresso mais barato inicialmente custava 140 dólares, mas após as reclamações
recebidas, a FIFA decidiu disponibilizar um número muito reduzido de ingressos
a 60 dólares, limitados a certas partidas da primeira fase. Há partidas da fase
de grupos cujos ingressos custam mais de mil dólares, mas se um dos
participantes for um dos países anfitriões, o valor sobe para 2.735 dólares.
Nas oitavas de final, a faixa inicial variava entre 105 e 980 dólares; nas
quartas, entre 275 e 1.775; nas semifinais, entre 420 e 3.295; e na final, o
ingresso mais barato custava a partir de 2.030 dólares. Todos esses preços são
meramente indicativos, pois podem sofrer alterações dependendo da demanda. Além
disso, a FIFA estabeleceu um sistema próprio de revenda, uma possibilidade
permitida pela legislação norte-americana, no qual cobra 15% adicionais tanto
do vendedor quanto do comprador. A isso deve-se acrescentar que houve
reclamações de torcedores que viram que, após comprarem ingressos de um
determinado setor, foram realocados em áreas de categoria inferior àquela pela
qual haviam pago.
Essa
política de venda de ingressos gerou inúmeros protestos de consumidores,
provocando a intervenção dos procuradores-gerais de Nova York e Nova Jersey,
que anunciaram a abertura de uma investigação contra a FIFA sob a acusação de
inflar artificialmente os preços, enganar os torcedores quanto à localização de
seus assentos e alterar as categorias dos ingressos dentro dos estádios. A
procuradora-geral de Nova Jersey, Jennifer Davenport, definiu o processo como
um “calvário”, caracterizado por “confusão, escassez artificial e preços
exorbitantes”. Por sua vez, a procuradora de Nova York, Letitia James, destacou
que “ninguém deveria ser manipulado a pagar preços exorbitantes pelos
ingressos, e os torcedores deveriam poder confiar de que os ingressos que comprarem
serão aqueles que receberão”. As autoridades judiciais enviaram uma intimação à
FIFA para que ela entregue documentos internos e informações específicas sobre
a venda de ingressos. Na Europa, a associação de torcedores Football Supporters
Europe (FSE) uniu-se ao grupo de consumidores Euroconsumers na denúncia formal
apresentada à Comissão Europeia “por abuso de posição dominante para impor
preços excessivos”.
Diante
desse panorama, é preciso destacar ações pontuais das autoridades públicas para
facilitar o acesso aos torcedores menos abastados. É o caso do prefeito de Nova
York, Zohran Mamdani, que decidiu destinar aos moradores da cidade mil
ingressos das cotas atribuídas ao comitê anfitrião conjunto de Nova York e Nova
Jersey a um preço de 50 dólares. Serão distribuídos 150 ingressos por partida
para sete dos oito jogos que serão disputados no MetLife Stadium, ficando de
fora apenas a final, que será disputada no mesmo local. Por outro lado, a
presidente de México, Claudia Sheinbaum, promoveu um concurso para mulheres de
16 a 25 anos, no qual quatro das participantes conseguiram ingressos para jogos
da Copa do Mundo. Um desses ingressos era o que cabia à própria Sheinbaum para
a partida de abertura do torneio, ao qual ela renunciou, para que seu lugar
fosse ocupado por uma jovem indígena de 21 anos, Yolett Cervantes, natural de
Tlaquilpa, no estado de Veracruz.
Se você
conseguiu entrar no país e gastou uma grande quantia de dinheiro em um
ingresso, saiba que ainda terá que arcar com o deslocamento até os estádios, o
que também não será barato em algumas sedes. Se, por exemplo, você estiver em
Nova York e quiser ir ao estádio de trem ou ônibus, a viagem de ida e volta
custará 98 dólares. E agradeça, porque a ideia original da empresa responsável
pelo transporte era estabelecer um preço de 150 dólares. Os protestos que
surgiram fizeram com que o valor fosse reduzido, embora continue sendo muito
mais alto do que, por exemplo, os 12,90 dólares que custa quando se quer
assistir a um jogo da NFL em qualquer outra época do ano. Talvez você prefira
ir de carro. Nesse caso, saiba que precisará reservar 200 dólares para pagar o
estacionamento. Boston é outra das cidades que quadruplicou o preço habitual do
transporte. Por outro lado, em cidades como Miami haverá transporte gratuito,
enquanto em outras, como Atlanta, Seattle ou Houston, o preço habitual será
mantido.
Até
pouco tempo atrás, também se temia que os agentes do Serviço de Imigração e
Alfândega dos Estados Unidos (ICE) pudessem aproveitar a realização dos jogos
para realizar batidas nas imediações dos estádios a fim de localizar migrantes
sem documentos e proceder à sua expulsão do país. Embora funcionários do
Departamento de Segurança Interna tenham garantido que os agentes estarão
presentes nas proximidades dos recintos “para apoiar a proteção do evento”, não
está prevista a verificação do status migratório dos espectadores. No entanto,
associações de defensores de imigrantes mostram-se céticas a esse respeito.
Referindo-se
a esses problemas relacionados à Copa do Mundo, uma lenda do futebol como
Thierry Henry afirmou que “a FIFA deveria garantir que o futebol continue sendo
a história principal. A política já tem palcos suficientes; o campo de futebol
não deveria ser um deles”. Mas a entidade e seu principal dirigente já
demonstraram amplamente nos últimos tempos que a única coisa que lhes importa é
obter o máximo lucro, sem se importarem com outras considerações. “A edição
mais inclusiva, na qual todos seriam bem-vindos”, proclamada por Infantino há
alguns meses, tornou-se uma das mais hostis e excludentes para os torcedores.
Fonte:
CTXT

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